História

Pedra de Roseta

Memphis Decree of Ptolemy V (British Museum EA 24)

196 a.C. · Encontrada no Forte Julien, perto de Roseta/Rashid (Egito ptolomaico); hoje no Museu Britânico, Londres

Em uma frase

A Pedra de Roseta é um bloco quebrado de pedra escura, gravado em 196 a.C. com o mesmo decreto sacerdotal em hieróglifos egípcios, demótico egípcio e grego, que, após sua descoberta em 1799, se tornou a chave que permitiu aos estudiosos voltar a ler a escrita do Egito Antigo.

Pedra de Roseta
Imagem: Awikimate · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.

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Para jovens leitores

Imagine encontrar um bilhete escrito três vezes: uma num código secreto de figuras, outra numa letra estranha e cursiva, e outra numa língua que você consegue ler. Se as três dizem a mesma coisa, você pode usar a que você conhece para decifrar as outras duas. É exatamente isso que é a Pedra de Roseta.

Há mais de 2.200 anos, o Egito era governado por uma família de reis chamados Ptolomeus, cujos antepassados vinham da Grécia. Em 196 a.C., sacerdotes egípcios se reuniram na antiga capital, Mênfis, e escreveram uma longa mensagem elogiando seu jovem rei, Ptolomeu V. Eles ordenaram que ela fosse gravada em pedra em três tipos de escrita: hieróglifos (a escrita em figuras para os deuses), demótico (a escrita cursiva egípcia do dia a dia) e grego (a língua do governo).

Ao longo dos séculos, as pessoas esqueceram como ler hieróglifos. A pedra foi quebrada, movida e, por fim, usada como bloco de construção na parede de um forte perto da cidade de Roseta (Rashid), à beira do mar Mediterrâneo.

Em 1799, soldados franceses, que haviam invadido o Egito com Napoleão, a encontraram enquanto reparavam o forte. Os estudiosos logo perceberam que ela poderia ser uma chave. Mais tarde, os britânicos a levaram para Londres, onde está no Museu Britânico desde 1802.

Foram necessários mais de vinte anos de trabalho de muitas pessoas. Finalmente, em 1822, um jovem estudioso francês chamado Jean-François Champollion mostrou como os hieróglifos funcionavam: algumas figuras representam sons, como letras, e outras representam ideias. Depois disso, as pessoas puderam ler as palavras do Egito Antigo pela primeira vez em cerca de 1.400 anos.

Em resumo

Data
Decreto emitido em 27 de março de 196 a.C. (ano 9 de Ptolomeu V Epifânio)
Emitido por
Um conselho (sínodo) de sacerdotes egípcios reunidos em Mênfis
Escritas
Hieroglífica (no topo, 14 linhas sobreviventes), demótica (no meio, 32 linhas), grega (embaixo, 54 linhas)
Material e tamanho
Granodiorito, provavelmente da região de Assuã; 112,3 × 75,7 × 28,4 cm; cerca de 760 kg; um fragmento de uma estela maior
Local original
Um templo, possivelmente em Sais, no delta do Nilo (incerto)
Encontrada
Em julho de 1799, reaproveitada nas paredes do Forte Julien, perto de Roseta (Rashid), por tropas francesas sob o comando de Pierre-François Bouchard
Hoje
Museu Britânico, Londres (inv. EA 24), desde 1802
Por que importa
Forneceu os textos paralelos que permitiram a Thomas Young, Jean-François Champollion e outros decifrar as escritas egípcias (avanço anunciado em 1822)

Fácil

O que é a Pedra de Roseta?

A Pedra de Roseta é um grande fragmento de uma estela — uma laje de pedra vertical que carrega um texto oficial — feita de granodiorito cinza-escuro. Tem cerca de 1,1 metro de altura e pesa aproximadamente 760 quilogramas. Sua face frontal é polida e coberta por três blocos de escrita, um acima do outro.

Os três blocos registram o mesmo decreto, emitido em 196 a.C. por sacerdotes egípcios em homenagem ao rei Ptolomeu V. O bloco superior está escrito em hieróglifos, o do meio em demótico, uma escrita cursiva usada no egípcio do dia a dia, e o de baixo em grego antigo. As versões não são idênticas palavra por palavra, mas dizem essencialmente a mesma coisa.

Em si, o decreto é uma peça bastante rotineira de política real e religiosa. O que tornou a pedra famosa foi seu momento histórico. Quando foi encontrada em 1799, ninguém vivo conseguia ler hieróglifos ou demótico, mas muitos estudiosos sabiam ler grego. A pedra oferecia o que parecia ser uma tradução de uma língua conhecida para duas desconhecidas.

A pedra está no Museu Britânico, em Londres, desde 1802, e costuma ser descrita como o objeto individual mais visitado do museu. Seu nome também se tornou uma expressão do dia a dia: uma “pedra de Roseta” é qualquer chave que resolve um problema difícil.

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Fácil

Como observar a pedra

A primeira coisa a notar é que a pedra está quebrada. Ela já foi a parte inferior de uma estela mais alta, que provavelmente tinha um topo arredondado decorado com uma cena do rei e dos deuses. A seção hieroglífica no topo foi a que mais sofreu: só sobrevivem as últimas 14 linhas, e todas estão quebradas do lado direito. A seção demótica no meio é a mais bem preservada, com 32 linhas. A seção grega, embaixo, tem 54 linhas, com as inferiores cortadas por uma quebra diagonal.

Observe de perto as três escritas. Os hieróglifos são pequenas figuras — pássaros, cobras, mãos, folhas de junco — dispostas em fileiras. Algumas são cercadas por um anel oval chamado cartucho, que marca o nome de um rei. O demótico parece uma letra cursiva rápida e ligada, difícil para um iniciante relacionar às figuras acima. O grego é escrito em letras maiúsculas que qualquer pessoa que conheça o alfabeto grego consegue reconhecer.

A cor da pedra mudou com o tempo. Por muitos anos depois de chegar a Londres, suas letras eram preenchidas com giz branco para facilitar a leitura, e a superfície era coberta com cera, o que a fazia parecer preta; muitas vezes ela era erroneamente chamada de basalto. Uma limpeza em 1999 removeu essas camadas posteriores, revelando a pedra cinza-escura original, com uma veia rosada no canto superior esquerdo.

Nas laterais, ainda é possível ver palavras em inglês pintadas, acrescentadas em Londres: “Capturada no Egito pelo Exército Britânico em 1801” numa borda, e “Doada pelo Rei George III” na outra. Essas palavras fazem parte da história moderna do objeto.

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Fácil

O que diz o decreto?

O texto é um decreto de um sínodo — uma grande assembleia — de sacerdotes egípcios reunidos em Mênfis, a antiga capital onde os reis eram coroados. É datado do nono ano de Ptolomeu V, correspondendo a 27 de março de 196 a.C. — o dia seguinte à coroação do jovem rei como faraó, em Mênfis.

Os sacerdotes listam as boas ações do rei. Ele deu prata e grãos aos templos, perdoou uma série de impostos devidos pelos templos, e, quando o Nilo transbordou de forma incomumente alta em seu oitavo ano, ele mandou represar o excesso de água em benefício dos agricultores. Ele é elogiado em termos tradicionais, como um novo Hórus, por derrotar rebeldes na cidade do Delta de Licópolis e restaurar a ordem.

Em troca, os sacerdotes prometeram novas honrarias. O aniversário e o dia de coroação do rei seriam celebrados todo ano, e sacerdotes em todo o Egito serviriam a seu culto ao lado dos outros deuses. Em outras palavras, o rei foi transformado num deus a ser adorado em todos os templos.

As últimas linhas ordenam que uma cópia seja colocada em cada templo, inscrita na “língua dos deuses” (hieróglifos), na “língua dos documentos” (demótico) e na “língua dos gregos”. Essa ordem é a razão pela qual a Pedra de Roseta tem três escritas — e por que várias outras cópias do mesmo decreto foram encontradas desde então.

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Intermediário

Contexto histórico: um rei-menino num Egito dividido

Depois que Alexandre, o Grande, conquistou o Egito em 332 a.C., um de seus generais, Ptolomeu, fundou uma dinastia que governou o Egito por quase 300 anos a partir da nova cidade grega de Alexandria. O governo funcionava em grego, enquanto a maior parte da população falava egípcio e adorava os deuses tradicionais em templos administrados por sacerdócios poderosos.

Ptolomeu V Epifânio subiu ao trono em 204 a.C., com cerca de cinco anos de idade, depois que seus pais morreram em circunstâncias suspeitas. Facções da corte lutaram pela regência; um regente odiado foi morto por uma multidão em Alexandria. No exterior, o rei selêucida Antíoco III e Filipe V da Macedônia tomaram territórios ptolomaicos, e, na Quinta Guerra Síria, o Egito perdeu suas terras no Levante e na Ásia Menor.

Dentro do Egito, uma grande revolta havia estourado no sul, ao redor de Tebas, liderada por dois governantes egípcios, Horuenefer e Anquenefer, que se autoproclamavam faraós. Ela durou de cerca de 206 a 186 a.C. e cortou boa parte do Alto Egito do controle ptolomaico. Um segundo grupo de rebeldes tomou a cidade do Delta de Licópolis; depois de um cerco, seus líderes foram levados a Mênfis e executados durante o festival de coroação, em março de 196 a.C., um dia antes do decreto.

Nessa situação, o apoio do sacerdócio egípcio era vital. É significativo que o decreto tenha sido emitido em Mênfis, a antiga capital religiosa, em vez de Alexandria, e que Ptolomeu tenha sido coroado ali no estilo egípcio tradicional. O decreto faz parte de um acordo: a coroa concedia privilégios e presentes aos templos, e os sacerdotes usavam sua autoridade para apresentar o jovem rei de língua grega como um faraó legítimo.

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Intermediário

Três escritas, duas línguas, um decreto

Embora haja três escritas, existem apenas duas línguas. Hieróglifos e demótico são ambas formas de escrever egípcio; o grego é uma língua diferente. Os hieróglifos, àquela altura, eram usados principalmente para textos sagrados e monumentais, e a versão hieroglífica é escrita numa forma deliberadamente arcaica da língua, às vezes chamada de “neoegípcio médio”, imitando o egípcio clássico de mais de mil anos antes. O demótico refletia o egípcio realmente falado na época ptolomaica.

A escrita egípcia não era um alfabeto. As três escritas egípcias — hieroglífica, a hierática cursiva e a demótica — misturavam sinais fonéticos, que representam uma, duas ou três consoantes, com sinais ideográficos, incluindo logogramas para palavras inteiras e determinativos, sinais mudos que indicam a que categoria de significado uma palavra pertence. Essa mistura foi a principal razão pela qual a decifração foi tão difícil.

Decretos sacerdotais multilíngues desse tipo eram uma característica do período ptolomaico. Três exemplos um pouco mais antigos são conhecidos — os decretos de Alexandria (243 a.C.), Canopo (238 a.C.) e Mênfis sob Ptolomeu IV (por volta de 218 a.C.) —, e várias outras cópias do próprio decreto de Roseta foram encontradas, incluindo a Estela de Nubaira e uma inscrição no templo de Filas. A Pedra de Roseta foi a primeira a ser descoberta nos tempos modernos, não a única.

Qual versão veio primeiro ainda é debatido. Em 1841, Antoine-Jean Letronne argumentou que o texto grego, produzido pelo governo, era o original. Outros estudiosos argumentaram que as três foram compostas juntas, ou destacaram a importância especial do texto hieroglífico, destinado “para os deuses lerem”. Como as três versões não coincidem palavra por palavra, os primeiros decifradores que esperavam uma tradução exata acharam a tarefa mais difícil do que haviam esperado.

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Intermediário

Do templo ao forte: a longa jornada da pedra

É quase certo que a pedra não foi feita para Roseta. Provavelmente ficava num templo mais para o interior, possivelmente na cidade real de Sais, no delta ocidental. A história posterior da religião egípcia moldou seu destino: à medida que o Egito se tornou cristão, os sacerdócios dos templos desapareceram, e os templos foram fechados no final do século IV d.C. A última inscrição hieroglífica conhecida foi gravada em Filas em 394 d.C., e o último texto demótico conhecido ali, em 452.

Templos antigos costumavam ser usados como pedreiras. Em algum momento, a estela se quebrou, e sua maior parte acabou sendo incorporada às fundações de uma fortaleza perto de Rashid (Roseta), que protegia um braço do Nilo. O forte costuma ser atribuído ao sultão mameluco Qaitbay, no final do século XV. Ali a pedra ficou por pelo menos três séculos.

Em 1798, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito com um exército acompanhado de mais de 150 estudiosos, engenheiros e artistas. Em meados de julho de 1799, soldados que reconstruíam o forte — que os franceses haviam renomeado como Forte Julien — descobriram a laje ao demolir uma parede. O tenente Pierre-François Bouchard percebeu que ela poderia ser importante. Um relatório ao novo Institut d’Égypte, no Cairo, sugeriu corretamente que os três textos eram versões de um único decreto.

Estudiosos franceses rapidamente fizeram cópias. O impressor e linguista Jean-Joseph Marcel identificou a escrita do meio como demótica, e o artista-inventor Nicolas-Jacques Conté usou a própria pedra como um bloco de impressão para fazer impressões de tinta. Essas impressões chegaram a Paris e permitiram que estudiosos na Europa começassem a trabalhar antes mesmo de a pedra deixar o Egito.

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Intermediário

Captura, Londres e o Museu Britânico

Forças britânicas e otomanas derrotaram os franceses em 1801. Sob os termos da Capitulação de Alexandria, os franceses tiveram de entregar as antiguidades coletadas pela expedição. O general Menou tentou reivindicar a pedra como sua propriedade particular, e os relatos sobre exatamente como ela passou às mãos britânicas divergem. O oficial britânico Tomkyns Hilgrove Turner disse mais tarde que a tomou ele mesmo e a levou embora num reparo de canhão.

Turner trouxe a pedra para a Inglaterra em fevereiro de 1802. Depois de ser exibida na Society of Antiquaries of London, que fez moldes de gesso para as universidades de Oxford, Cambridge, Edimburgo e o Trinity College Dublin e distribuiu impressões, ela foi colocada no Museu Britânico ainda naquele ano. Recebeu o número EA 24.

A pedra tem estado em exposição quase sem interrupção desde 1802. Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, foi transferida por segurança para uma estação subterrânea da ferrovia dos correios por dois anos. Ela só saiu do museu uma vez em tempos de paz: em outubro de 1972, foi exibida por um mês no Louvre, em Paris, ao lado da famosa carta de Champollion, por seu 150º aniversário. Desde 2004, fica numa vitrine especial na Galeria de Escultura Egípcia, e uma réplica que pode ser tocada fica na King’s Library.

A jornada da pedra reflete uma história mais ampla: um monumento egípcio, reaproveitado por um Estado islâmico medieval, encontrado por um império europeu durante uma invasão e tomado por outro como espólio de guerra. As palavras pintadas em suas laterais — “Capturada no Egito pelo Exército Britânico em 1801” — registram abertamente essa origem.

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Intermediário

Decifrando o código: de 1799 a 1822

Antes de 1799, os hieróglifos haviam sido mal compreendidos por séculos. O escritor grego Horapolo, no século V d.C., os explicou como figuras simbólicas com significados ocultos, e essa ideia enganou leitores posteriores. Estudiosos árabes medievais, como Ibn Wahshiyya, compararam os hieróglifos com o copta, o estágio final da língua egípcia, e no século XVII o estudioso jesuíta Athanasius Kircher argumentou corretamente que o copta descendia do egípcio antigo, embora suas traduções de hieróglifos fossem fantasiosas.

O trabalho começou pelo grego. As primeiras traduções publicadas apareceram em 1803. Depois, em 1802, Antoine-Isaac Silvestre de Sacy e o diplomata sueco Johan David Åkerblad usaram os nomes gregos para encontrar seus equivalentes no texto demótico. De Sacy identificou vários nomes, incluindo Ptolomeu e Alexandre, e Åkerblad elaborou um alfabeto demótico de 29 sinais, cerca de metade deles corretos. Mas eles presumiram que o demótico era puramente alfabético, e não conseguiram ir além.

O polímata britânico Thomas Young, famoso também por seu trabalho sobre a luz, deu os passos seguintes a partir de 1814. Seguindo uma pista de que os nomes nos cartuchos eram escritos foneticamente, ele identificou os sinais que soletravam Ptolomeu no texto hieroglífico. Ele também notou dezenas de semelhanças entre sinais hieroglíficos e demóticos e concluiu, corretamente, que o demótico misturava sinais fonéticos e ideográficos derivados dos hieróglifos. Ele publicou esses resultados num artigo de enciclopédia em 1819.

Jean-François Champollion, um estudioso de Grenoble que conhecia bem o copta, fez o avanço decisivo. Usando o cartucho de Ptolomeu de Roseta e um cartucho de Cleópatra de um obelisco vindo de Filas, ele construiu uma lista de sinais fonéticos. Depois, em setembro de 1822, observando cópias de inscrições de Abu Simbel, ele leu os nomes dos faraós nativos Ramessés e Tutmés — provando que sinais fonéticos eram usados muito antes do domínio grego. Em 27 de setembro de 1822, ele apresentou seus resultados em Paris, em sua Lettre à M. Dacier. Seu Précis, de 1824, explicou que a escrita hieroglífica era “figurativa, simbólica e fonética” ao mesmo tempo.

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Intermediário

Legado: o nascimento da egiptologia e uma expressão do dia a dia

Em 1824, o curto texto hieroglífico da pedra já havia dado tudo o que podia; Champollion passou a estudar centenas de outras inscrições e papiros. Ele morreu em 1832, deixando uma gramática e um dicionário incompletos. Estudiosos posteriores corrigiram seu sistema: Karl Richard Lepsius explicou, em 1837, sinais que representam duas ou três consoantes, Heinrich Brugsch avançou os estudos do demótico, e Emmanuel de Rougé publicou as primeiras traduções da literatura egípcia na década de 1850.

A confirmação final veio em 1866, quando Lepsius encontrou uma cópia bem preservada do Decreto de Canopo, outro decreto sacerdotal trilíngue. Seus hieróglifos puderam ser comparados diretamente com o grego, e os resultados mostraram, além de qualquer dúvida razoável, que o método estava correto. A essa altura, a escrita egípcia havia se tornado uma língua legível, abrindo mais de três mil anos de história, religião e literatura.

A decifração do egípcio, junto com a decifração do cuneiforme no mesmo século, transformou o estudo da história humana mais antiga. Textos como os Textos das Pirâmides, o Livro dos Mortos e histórias e cartas egípcias agora podiam ser lidos em suas próprias palavras, em vez de por meio de relatos gregos e romanos.

A expressão “Pedra de Roseta” se tornou uma metáfora para qualquer chave crucial. Outras inscrições bilíngues, como a Inscrição de Behistun para o cuneiforme, já foram chamadas de “pedras de Roseta”. Cientistas usaram a expressão para o espectro do hidrogênio na física, uma planta usada em genética e muito mais, e a Agência Espacial Europeia batizou sua sonda para cometas de Rosetta.

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Avançado

Debates sobre mérito e método: Young, Champollion e os outros

Quem merece o crédito pela decifração é debatido desde a década de 1820. A Lettre de Champollion reconheceu o trabalho de Young sobre o demótico, mas não mencionou a análise que Young fez do cartucho de Ptolomeu nem sua identificação da terminação de nome feminino. Young, acreditando que essas contribuições haviam tornado possível o progresso de Champollion, escreveu em particular que, se Champollion havia tomado emprestada uma chave inglesa, “a fechadura estava tão terrivelmente enferrujada” que nenhum braço comum poderia tê-la girado. Resenhistas britânicos na década de 1820 acusaram Champollion de plágio; E. A. Wallis Budge, em 1904, voltou a destacar o papel de Young.

Historiadores modernos da decifração, em geral, veem a conquista como algo cumulativo, mas dão a Champollion o papel decisivo. As percepções de Young foram importantes, mas ele não conseguiu ir além dos nomes e nunca compreendeu que sinais fonéticos eram usados em toda a extensão das palavras egípcias nativas. O conhecimento de copta de Champollion lhe permitiu passar da leitura de nomes para a leitura da língua. Relatos recentes observam que a própria Lettre foi apenas um avanço modesto em relação a Young; o verdadeiro salto veio em 1823–24, quando Champollion mostrou que sinais fonéticos eram usados em toda a escrita, não apenas em nomes reais.

A história também ilustra os limites de uma única “chave”. A parte hieroglífica da pedra está muito danificada e contém relativamente poucos sinais, e as três versões não são traduções exatas. Boa parte das evidências decisivas veio de outros lugares: o obelisco de Filas, cópias de inscrições de Abu Simbel e outros templos, a lista de reis de Abidos e o vocabulário copta. Como exatamente Champollion chegou a algumas de suas conclusões não pode ser totalmente reconstruído, porque os relatos da época se contradizem, e sua famosa exclamação “Consegui!” vem de uma biografia escrita em 1906.

O próprio sistema de Champollion tinha erros sérios. Ele superestimou a semelhança entre o egípcio clássico e o copta e acreditava que cada sinal fonético representava um único som. Lepsius, Edward Hincks, de Rougé e outros corrigiram esses pontos. Os historiadores, portanto, hoje descrevem a decifração como um processo que durou de 1799 até a década de 1860, envolvendo muitos estudiosos, incluindo trabalhos anteriores árabes e europeus sobre o copta, em vez de um único momento de genialidade.

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Avançado

Propriedade, o passado colonial e pedidos de devolução

Em julho de 2003, Zahi Hawass, então chefe do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, pediu a devolução da pedra, descrevendo-a como um “ícone de nossa identidade egípcia”. Em 2005, ele a incluiu numa lista de objetos-chave que o Egito desejava recuperar, ao lado do busto de Nefertiti em Berlim e do zodíaco de Dendera no Louvre. Mais tarde, propôs um empréstimo de três meses para a abertura do Grande Museu Egípcio, chegando a oferecer abrir mão da reivindicação permanente em troca, e repetiu suas exigências em 2022.

O Museu Britânico deu ao Egito uma réplica em tamanho real em 2005, exibida pela primeira vez no Museu Nacional de Rashid, perto do local da descoberta. O museu não devolveu o original. Como outros grandes museus, ele argumentou que objetos adquiridos em épocas anteriores devem ser vistos à luz dos valores daquela era, e que os “museus universais” servem a pessoas de todas as nações — uma posição estabelecida numa declaração conjunta de 2002 assinada por mais de 30 grandes museus. Os críticos respondem que a ideia do museu universal beneficia principalmente instituições em antigas capitais imperiais.

A história da pedra levanta questões específicas. Ela não foi escavada, mas retirada de um forte militar; passou entre dois exércitos estrangeiros em guerra em solo egípcio; e o instrumento legal que a transferiu, a capitulação de 1801, foi um acordo entre potências europeias e o Império Otomano, no qual os próprios egípcios não tiveram voz. Para muitos egípcios, a questão diz menos respeito à titularidade legal e mais a quem controla os símbolos de sua história.

O egiptólogo John Ray observou que pode chegar o dia em que a pedra terá passado mais tempo no Museu Britânico do que jamais passou em Roseta. O debate continua como parte de uma reavaliação internacional mais ampla das coleções formadas durante a era colonial; as fontes consultadas aqui não registram nenhum acordo sobre empréstimo ou devolução.

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Ideias principais

Texto paralelo
A mesma mensagem escrita em mais de uma língua ou escrita; comparar uma versão conhecida com uma desconhecida é o caminho clássico para a decifração.
Sinais fonéticos e ideográficos
A escrita egípcia combinava sinais para sons com sinais para palavras e significados; perceber que os dois tipos eram usados juntos foi o cerne do avanço.
Cartucho
O anel oval ao redor de nomes reais, que permitiu aos decifradores localizar nomes como Ptolomeu e Cleópatra e descobrir os valores sonoros de seus sinais.
Copta
O último estágio da língua egípcia, escrito num alfabeto baseado no grego; o conhecimento dele permitiu que Champollion passasse de nomes para palavras.
Decreto sacerdotal
A pedra registra um acordo entre a coroa ptolomaica e os sacerdotes do Egito: presentes e privilégios em troca de legitimidade religiosa.
Decifração cumulativa
A leitura do egípcio foi obra de muitos estudiosos ao longo de décadas, com a percepção de Champollion como o ponto de virada.
Patrimônio contestado
Tomada como espólio de guerra em 1801, a pedra faz parte dos debates sobre coleções da era colonial e repatriação.

Registros

  1. 238 a.C. — É emitido o Decreto de Canopo, um decreto sacerdotal trilíngue anterior, sob Ptolomeu III.
  2. 204 a.C. — Ptolomeu V se torna rei com cerca de cinco anos de idade.
  3. c. 197 a.C. — Por volta de outubro–novembro de 197 a.C., Ptolomeu V, com cerca de 13 anos, é declarado adulto em Alexandria; o decreto mais tarde nomeia 27 de novembro de 197 a.C. como um aniversário oficial de coroação.
  4. 196 a.C. — 27 de março de 196 a.C.: no dia seguinte à coroação de Ptolomeu V em Mênfis, os sacerdotes reunidos emitem o decreto inscrito na Pedra de Roseta.
  5. 394 d.C. — A última inscrição hieroglífica conhecida é gravada em Filas; o conhecimento da escrita desaparece.
  6. 1799 — Julho: soldados franceses encontram a pedra nas paredes do Forte Julien, perto de Roseta.
  7. 1801 — Os franceses se rendem em Alexandria; a pedra passa às mãos dos britânicos.
  8. 1802 — A pedra chega à Inglaterra e é colocada no Museu Britânico; nomes demóticos são identificados por de Sacy e Åkerblad.
  9. 1814 — Thomas Young identifica os sinais fonéticos do nome de Ptolomeu no texto hieroglífico.
  10. 1822 — 27 de setembro: Champollion apresenta sua decifração na Lettre à M. Dacier.
  11. 1824 — Champollion publica o Précis du système hiéroglyphique.
  12. 1972 — A pedra é emprestada ao Louvre por um mês, sua única viagem em tempos de paz para fora do Museu Britânico.

Glossário

Estela
Uma laje de pedra vertical que carrega uma inscrição ou imagem, geralmente erguida em público ou num templo.
Hieróglifos
A antiga escrita em figuras do Egito, usada especialmente para textos sagrados e monumentais.
Demótico
Uma escrita egípcia cursiva e rápida, usada para documentos do dia a dia a partir de cerca do século VII a.C., e o nome do estágio da língua que ela registrava.
Granodiorito
Uma rocha ígnea dura e granulada, aparentada com o granito; a pedra provavelmente veio da região de Assuã.
Dinastia ptolomaica
A família real greco-macedônia que governou o Egito desde depois de Alexandre, o Grande, até Cleópatra VII (30 a.C.).
Sínodo
Uma assembleia formal de sacerdotes; os sínodos ptolomaicos emitiam decretos em homenagem ao rei.
Cartucho
Um anel oval desenhado ao redor de um nome real na escrita hieroglífica.
Determinativo
Um sinal mudo colocado depois de uma palavra para indicar a que categoria de significado ela pertence.
Copta
O estágio final da língua egípcia, escrito com letras gregas mais alguns sinais adicionais; ainda usado na liturgia da Igreja Copta.
Decifração
Descobrir como um sistema de escrita desconhecido representa uma língua.

Perguntas e respostas

A Pedra de Roseta contém um segredo ou uma história?

Não. É um decreto oficial no qual sacerdotes agradecem e homenageiam o rei Ptolomeu V. Ela é famosa por estar escrita em três escritas, não pelo que diz.

Por que se chama Pedra de Roseta?

Porque foi encontrada perto da cidade que os europeus chamavam de Roseta, conhecida em árabe como Rashid, na costa mediterrânea do Egito.

A pedra sozinha resolveu os hieróglifos?

Não. Ela deu o ponto de partida, mas a decifração também exigiu o copta, outras inscrições como o obelisco de Filas, e muitos anos de trabalho de vários estudiosos.

Quem decifrou os hieróglifos: Young ou Champollion?

Os dois contribuíram. Young fez importantes descobertas iniciais, mas Champollion mostrou como todo o sistema funcionava e conseguiu ler palavras egípcias; a maioria dos historiadores lhe atribui o papel decisivo.

Por que as três versões são um pouco diferentes?

Foram escritas para leitores e tradições diferentes, possivelmente compostas lado a lado, em vez de traduzidas de um único original. Os estudiosos ainda debatem qual, se alguma, veio primeiro.

É a única pedra desse tipo?

Não. Outras cópias do mesmo decreto e vários decretos trilíngues ptolomaicos anteriores são conhecidos, incluindo o mais bem preservado Decreto de Canopo.

A Pedra de Roseta vai voltar para o Egito?

Autoridades egípcias já pediram sua devolução ou empréstimo. O Museu Britânico, até agora, a manteve, argumentando por seu papel como museu para o mundo. O debate continua.

Fontes e leituras adicionais

  1. Rosetta Stone. Wikipedia
  2. Decipherment of ancient Egyptian scripts. Wikipedia
  3. Ptolemy V Epiphanes. Wikipedia
  4. Fort Julien. Wikipedia
  5. Thomas Young (scientist). Wikipedia
  6. Decree of Canopus. Wikipedia
  7. Ptolemaic synodal decrees. Wikipedia
  8. Richard Parkinson, Cracking Codes: The Rosetta Stone and Decipherment. British Museum Press, 1999

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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