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Para jovens leitores
Há cerca de 3.350 anos, o Egito tinha um rei chamado Akhenaton e uma rainha chamada Nefertiti. Seu nome significa "a bela chegou". O rei construiu uma nova capital no deserto, à beira do Nilo, e artistas se mudaram para lá para fazer estátuas e retratos da família real.
Um desses artistas tinha uma oficina cheia de cabeças de pedra e rostos de gesso. Entre eles havia um retrato da rainha, dos ombros para cima. O escultor o esculpiu em calcário, cobriu-o com uma fina camada de gesso para que a pele parecesse lisa, e o pintou com cores vivas: uma coroa azul alta, uma faixa dourada, um colar de flores e uma pele quente.
Quando a cidade foi abandonada, a oficina foi caindo em ruínas aos poucos, e o busto ficou escondido nos escombros por mais de 3.000 anos. Em dezembro de 1912, escavadores alemães o encontraram. O líder deles escreveu em seu diário que as palavras eram inúteis: era preciso ver com os próprios olhos.
O busto tem uma coisa estranha: seu olho direito tem uma incrustação brilhante, mas o olho esquerdo está vazio. Ninguém sabe ao certo por quê. Talvez nunca tenha sido terminado, talvez fosse um modelo de ensino, ou talvez o olho tenha caído e se perdido.
Hoje o busto está em um museu em Berlim, na Alemanha, e centenas de milhares de pessoas o visitam todo ano. Mas muitas pessoas no Egito dizem que ele foi levado de forma injusta e deveria voltar para casa. Por isso, o busto não é apenas um rosto bonito, mas também uma grande pergunta sobre quem deveria guardar os tesouros do passado.
Em resumo
- Feito
- Cerca de 1345–1340 a.C. (reinado de Akhenaton, 18ª dinastia, Novo Império)
- Local de fabricação
- Complexo de oficinas P 47.2 em Akhetaton (Tell el-Amarna), Médio Egito; atribuído ao escultor Tutmés
- Retratada
- Nefertiti, Grande Esposa Real de Akhenaton; identificada por sua coroa azul de topo plano (o busto não tem inscrição)
- Materiais
- Núcleo de calcário, camadas de estuque pintado (gesso de gipsita), incrustação de olho em cristal de rocha e cera de abelha
- Tamanho
- Cerca de 47–49 cm de altura; aproximadamente 20 kg
- Descoberto
- Em 6 de dezembro de 1912, pela expedição da Deutsche Orient-Gesellschaft liderada por Ludwig Borchardt
- Hoje
- Neues Museum, Berlim (Ägyptisches Museum und Papyrussammlung, inv. ÄM 23100)
- Controvérsia
- O Egito pede sua devolução desde 1924; os museus de Berlim citam a divisão de achados assinada em 1913
Fácil
O que é o Busto de Nefertiti?
O Busto de Nefertiti é um retrato em tamanho natural da cabeça, do pescoço e dos ombros de Nefertiti, a esposa principal do rei egípcio Akhenaton, que reinou no século XIV a.C. Tem cerca de meio metro de altura. Um núcleo de calcário foi coberto com camadas de gesso fino (estuque) e depois pintado com tanto cuidado que as cores ainda parecem frescas hoje.
O busto foi encontrado em 1912 em Tell el-Amarna, o nome moderno das ruínas da capital de Akhenaton, Akhetaton ("Horizonte de Aton"). Estava caído nas ruínas de uma oficina de escultor, junto com muitos rostos de gesso e cabeças inacabadas. Um objeto de marfim com inscrição, encontrado na mesma casa, cita um "escultor" chamado Tutmés, então a oficina — e o busto — costumam ser atribuídos a ele.
Desde 1913 o busto está na Alemanha. Hoje ele fica sozinho na Sala da Cúpula Norte do Neues Museum, na Ilha dos Museus de Berlim, onde é a estrela da coleção egípcia. É frequentemente comparado à máscara de ouro de Tutancâmon como a imagem mais conhecida sobrevivente do antigo Egito.
O busto também está no centro de um dos debates mais duradouros sobre museus e o passado. O Egito pede sua devolução há cerca de cem anos; as autoridades museológicas da Alemanha dizem que ele foi legalmente atribuído aos escavadores alemães. Tanto a arte quanto a controvérsia fazem parte de sua história.
Fácil
Como observar o busto
Comece pela coroa. Nefertiti usa uma coroa azul alta e de topo plano que só ela é mostrada usando na arte egípcia; os estudiosos a chamam de "coroa-touca de Nefertiti". Uma faixa dourada com incrustações coloridas passa ao redor dela como uma fita. Na frente, havia uma cobra erguida (o ureu), símbolo real, mas ela se quebrou. Como o busto não tem nome escrito, é essa coroa que nos permite saber quem ele retrata.
Em seguida, observe o rosto. Visto de frente, é quase perfeitamente simétrico: as sobrancelhas, as linhas dos olhos e a curva dos lábios se espelham. As sobrancelhas são pintadas como pequenos pelos entrecruzados. Os lábios são vermelhos, a pele é de um marrom claro e quente. Ao redor do pescoço há um colar largo de pétalas e folhas pintadas, em verde, vermelho, azul e amarelo.
Depois, observe de perfil. O pescoço longo e delgado se inclina para a frente e parece carregar o peso da coroa pesada. Um livro didático compara o efeito a uma flor pesada em um caule fino. Os ombros foram cortados retos, e suas laterais ficaram sem pintura, o que é uma pista no debate sobre para que o busto servia.
Por fim, repare nos olhos. No olho direito, a íris e a pupila são feitas de cera de abelha tingida de preto, sob um pequeno pedaço de cristal de rocha polido, que capta a luz como um olho de verdade. A órbita esquerda está vazia e lisa. Esse olho ausente intriga as pessoas desde 1912.
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Quem foi Nefertiti?
Nefertiti viveu no século XIV a.C. Seu nome significa "a bela chegou". Ela era a Grande Esposa Real — a rainha principal — de Amenófis IV, que mudou seu nome para Akhenaton. Não sabemos ao certo quem eram seus pais. Uma ideia comum liga sua família a um funcionário chamado Ai, que muito depois se tornou rei, mas as evidências são escassas.
Ela e Akhenaton tiveram seis filhas. Uma delas, Ankhesenpaton, mais tarde se casou com o rei-menino Tutancâmon e mudou seu nome para Ankhesenamon. As imagens de Amarna frequentemente mostram o casal real com os filhos sob os raios do sol, que terminam em pequenas mãos segurando o sinal da vida.
Nefertiti aparece na arte com muito mais frequência, e em poses muito mais poderosas, do que a maioria das rainhas egípcias. Ela é mostrada do mesmo tamanho que o rei, adorando o deus-sol diretamente, e até golpeando inimigos — uma cena normalmente reservada aos faraós. Por muito tempo os estudiosos pensaram que ela desaparecera por volta do décimo segundo ano de Akhenaton, mas uma inscrição encontrada em 2012 mostra que ainda era Grande Esposa Real em seu décimo sexto ano.
O que aconteceu com ela depois disso é incerto. Muitos egiptólogos hoje pensam que ela governou por um breve período após a morte de Akhenaton como faraó mulher, sob o nome de Neferneferuaton, antes de Tutancâmon subir ao trono, mas isso ainda é debatido. Sua múmia nunca foi identificada com segurança.
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A revolução de Akhenaton e a cidade de Amarna
O busto pertence a um dos momentos mais incomuns da história egípcia. No início de seu reinado (cerca de 1351–1334 a.C.), Amenófis IV voltou a religião do Estado para Aton, o disco solar, como o único deus digno de culto. Se isso era um verdadeiro monoteísmo ou uma "monolatria" — adorar um único deus sem negar a existência de outros — ainda é discutido. Ele adotou o nome de Akhenaton e fechou ou negligenciou os cultos de outros deuses, especialmente o de Amon, de Tebas.
Em seu quarto ou quinto ano, o rei escolheu um trecho vazio de deserto na margem leste do Nilo, no Médio Egito, e fundou ali uma nova capital, Akhetaton. Palácios, templos solares ao ar livre, escritórios governamentais e bairros inteiros de casas foram construídos rapidamente. Artistas, funcionários e trabalhadores se mudaram para lá vindos de Tebas e Mênfis.
A revolução não durou. Depois que Akhenaton morreu em seu décimo sétimo ano, a corte voltou aos deuses tradicionais em poucos anos. Tutancâton mudou seu nome para Tutancâmon, a capital foi abandonada, e reis posteriores tentaram apagar a memória do reinado de Akhenaton. Para os arqueólogos, isso foi uma sorte: como Amarna foi ocupada por pouco tempo e depois abandonada, suas casas e oficinas não ficaram soterradas sob séculos de construções posteriores.
A oficina de Tutmés fazia parte dessa cidade. Quando a corte se mudou, os escultores deixaram para trás modelos, estudos de gesso e obras inacabadas — inclusive o busto — em prateleiras e no chão. Com o tempo, o telhado vazou e desabou, e o busto acabou nos escombros de um depósito, onde ficou até 1912.
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A arte de Amarna e o lugar do busto
A arte egípcia tradicional mudava lentamente ao longo de milhares de anos. Sob Akhenaton, ela mudou de repente. O chamado estilo de Amarna mostra a família real em cenas íntimas e cotidianas — se beijando, brincando com os filhos, comendo — e retrata os corpos de uma nova maneira: rostos e pescoços longos, ombros estreitos, quadris e barrigas cheios, braços e pernas delgados. Os primeiros retratos de Akhenaton, em especial, parecem impressionantemente exagerados.
O busto de Nefertiti é famoso em parte porque não parece extremo. O pescoço longo e a inclinação para a frente mostram a influência de Amarna, mas o rosto é equilibrado e sereno. Alguns estudiosos o veem como um retorno a um estilo mais clássico e idealizado na parte final do reinado; outros ressaltam que a própria arte de Amarna se desenvolveu e se suavizou com o tempo. De qualquer forma, o busto mostra até que ponto um mestre escultor conseguia combinar a nova sensibilidade aos traços individuais com os ideais tradicionais de perfeição.
Os objetos da mesma oficina tornam isso mais claro. Entre cerca de duas dezenas de rostos de gesso havia retratos de membros da família real e de pessoas desconhecidas, alguns com rugas e bolsas sob os olhos — algo raro na arte egípcia, onde as mulheres costumavam ser mostradas eternamente jovens. Uma pequena estátua de uma Nefertiti mais velha, com a barriga arredondada, também foi encontrada ali. Visto ao lado dessas peças, o famoso busto parece uma escolha deliberada de uma imagem ideal.
Os bustos em si eram incomuns no Egito. Como os egípcios valorizavam imagens completas, uma figura cortada no peito podia parecer incompleta. Bustos aparecem, no entanto, principalmente em cultos domésticos aos ancestrais, e se tornam mais comuns a partir do período de Amarna em diante. Um busto correspondente de Akhenaton, encontrado no mesmo cômodo, havia sido quebrado na Antiguidade.
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Como foi feito: pedra, gesso, tinta e cristal
O escultor primeiro esculpiu a forma básica em calcário. Sobre esse núcleo, aplicou estuque — um gesso feito de gipsita — em camadas de espessuras diferentes, e fez a modelagem final e delicada nesse material mais macio. Tomografias computadorizadas em 1992 e, especialmente, em 2006 tornaram isso visível por dentro pela primeira vez.
A tomografia de 2006, realizada no Instituto de Ciências de Imagem de Berlim e publicada na revista Radiology em 2009, mostrou que o rosto de calcário esculpido por baixo difere ligeiramente da superfície pintada. O rosto interno tem rugas nos cantos da boca e nas bochechas e uma pequena protuberância no nariz; o gesso externo suaviza esses traços. Pesquisadores sugeriram que isso reflete os ideais de beleza da época — o escultor corrigiu a natureza em direção à perfeição.
A tinta usa a paleta conhecida dos pigmentos egípcios. Análises encomendadas por Borchardt e publicadas em 1923, e testes não invasivos posteriores do laboratório de pesquisa Rathgen do museu, em 2009, identificaram fritas azuis e verdes à base de cobre (incluindo o pigmento artificial "azul egípcio"), ocre vermelho e outros vermelhos à base de ferro, ouropigmento amarelo (um mineral de arsênio), negro de carbono e giz branco.
O acabamento é notavelmente desigual, de um jeito revelador. O rosto recebeu o maior cuidado, enquanto o colar foi pintado mais rapidamente e as laterais dos ombros ficaram sem pintura. Essa mistura de perfeição e incompletude está no centro do longo debate sobre se o busto era uma obra terminada ou um modelo.
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A descoberta em 1912 e a divisão dos achados
O interesse alemão por Amarna cresceu por volta de 1900, quando objetos do local começaram a aparecer no mercado de arte. Depois de uma temporada de teste em 1907, o egiptólogo e historiador da arquitetura Ludwig Borchardt iniciou escavações de longo prazo para a Deutsche Orient-Gesellschaft (Sociedade Oriental Alemã). O único patrocinador era o empresário e mecenas de arte berlinense James Simon. Como era normal na época, o Serviço de Antiguidades do Egito — dirigido por estudiosos franceses — concedeu a licença.
Em 6 de dezembro de 1912, a equipe escavava a casa P 47.2. Borchardt havia ido cumprimentar um grupo de visitantes liderado pelo príncipe Johann Georg da Saxônia quando seu colega Hermann Ranke mandou avisar que "algo bom está saindo". O busto foi retirado naquela tarde; as próprias fotografias do príncipe o mostram nos braços do capataz egípcio Mohammed es-Senussi. Naquela noite, Borchardt escreveu sua famosa frase de diário: "Descrição é inútil, precisa ser vista."
Ao final de cada temporada, os achados eram divididos entre os escavadores e o Egito em uma partage. Em 20 de janeiro de 1913, o inspetor Gustave Lefebvre dividiu os achados de Amarna em duas metades supostamente iguais. Um altar pintado mostrando Akhenaton, Nefertiti e suas filhas encabeçava a lista egípcia; o busto encabeçava a lista alemã. O registro oficial, assinado por Lefebvre e Borchardt, sobrevive em Berlim.
Como o busto foi apresentado naquele dia é o cerne da disputa. Segundo o museu, Lefebvre viu fotografias e inspecionou os objetos. Críticos apontam evidências de que Borchardt mostrou uma fotografia pouco favorável, descreveu a peça como gesso pintado em vez de calcário, e que ela já estava embalada em uma caixa em uma sala escura. Uma anotação de 1924 nos arquivos da sociedade registra que Borchardt "queria salvar o busto para nós".
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Um século na Alemanha: sigilo, guerra e o retorno à Ilha dos Museus
O busto chegou a Berlim em 1913 e se tornou propriedade de James Simon, que o exibiu em sua vila, onde o imperador Guilherme II o viu. Quando os outros achados de Amarna foram expostos no Neues Museum no fim de 1913, o busto foi mantido guardado a pedido de Borchardt. Simon doou seus achados de Amarna, incluindo o busto, ao museu em 11 de julho de 1920. Borchardt o publicou em 1923, e em 1924 ele foi exposto ao público em um recém-coberto "Pátio de Amarna" do Neues Museum. Causou sensação.
Em 1939 os museus foram fechados e seus tesouros embalados. O busto foi guardado primeiro em um cofre de banco, depois na torre antiaérea do zoológico, e em março de 1945 em uma mina de sal em Merkers, na Turíngia, onde tropas americanas o encontraram. Foi levado ao Ponto Central de Coleta americano em Wiesbaden e exibido ao público ali a partir de 1946.
A política do pós-guerra moldou seu destino. A Alemanha Oriental queria que ele voltasse à Ilha dos Museus, em Berlim Oriental, onde estivera antes da guerra, mas em 1956 ele foi para Berlim Ocidental, primeiro para o centro de museus de Dahlem e, a partir de 1967, para o Museu Egípcio em frente ao Palácio de Charlottenburg. Na década de 1970, o busto já havia se tornado um símbolo de identidade nacional para os dois estados alemães.
Após a reunificação, ele se mudou em 2005 para o Altes Museum, na Ilha dos Museus, e em outubro de 2009 retornou ao Neues Museum reconstruído, onde fica na Sala da Cúpula Norte. Os conservadores o classificaram como não transportável: as tomografias revelaram bolsões de ar entre o núcleo de pedra e o gesso, e a superfície pintada e a incrustação de cristal são frágeis.
Intermediário
De retrato a ícone
Poucos anos depois de 1924, o busto já era uma das imagens mais copiadas do mundo antigo. Seu pescoço longo, as sobrancelhas arqueadas e a boca serena, ligeiramente sorridente, passaram a representar um ideal de beleza feminina, e ele apareceu em cartões-postais, cartazes e em um selo postal alemão de 1989. Um famoso exemplo de Hollywood é o penteado criado para a atriz em A Noiva de Frankenstein (1935), que se diz ter sido inspirado nele.
O busto também ficou enredado na política nacional. Em 1930, jornais alemães falavam dele quase como uma nova rainha para um país que havia perdido sua monarquia. A liderança nazista o tratava como um tesouro: em 1933, Hermann Göring considerou devolvê-lo ao rei Fuad I do Egito como um gesto diplomático, mas Hitler recusou e falou em construir um museu ao redor dele. Alguns historiadores observaram que ele era valorizado, em parte, como um rival alemão aos tesouros de Tutancâmon encontrados por uma equipe liderada pelos britânicos em 1922.
No Egito também, Nefertiti se tornou um símbolo nacional, representando o brilhantismo da civilização egípcia antiga. Esse papel duplo — ícone de museu alemão e tesouro nacional egípcio — explica por que as disputas em torno do busto podem se tornar emocionais e políticas muito rapidamente.
A arte e a tecnologia modernas continuam essa história. Em 2003, dois artistas húngaros colocaram o busto brevemente sobre um corpo de bronze para um projeto da Bienal de Veneza, o que irritou autoridades egípcias. Em 2016, o escaneamento 3D do museu se tornou público após um pedido de acesso à informação, e o museu agora oferece o escaneamento como download gratuito.
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O debate da repatriação: lei, ética e argumentos opostos
Os pedidos egípcios começaram quase assim que o busto foi exposto ao público em 1924. Em 1925, o Egito ameaçou interromper as escavações alemãs; em 1929, ofereceu uma troca por outros objetos, que a Alemanha recusou. Depois de 1945, o Egito pediu aos Estados Unidos, então no controle do busto, que o entregassem; os EUA encaminharam o assunto às autoridades alemãs. Os pedidos foram renovados na década de 1950 e repetidamente a partir dos anos 2000, especialmente pelo egiptólogo Zahi Hawass, então chefe do serviço de antiguidades do Egito, que em 2005 pediu à UNESCO que interviesse.
O caso egípcio se apoia em dois argumentos principais. Primeiro, que a divisão de 1913 foi obtida por engano: o protocolo descreve um "busto de gesso pintado de uma princesa", enquanto o diário de Borchardt nomeia claramente a rainha, e é possível que o inspetor não tenha visto o objeto adequadamente. Quando o museu de Berlim compartilhou seus documentos em 2009, Hawass disse que eles confirmavam que Borchardt havia agido de forma antiética. Segundo, um princípio mais amplo de que os achados arqueológicos pertencem ao país onde foram encontrados.
A posição alemã, apresentada pelo museu e pela Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, é que a partage seguiu o procedimento legal da época, que o registro da divisão foi assinado pelo funcionário egípcio responsável, e que as autoridades egípcias poderiam ter examinado tudo. Estudiosos do museu ressaltam que o busto foi colocado deliberadamente no topo da lista alemã como equivalente ao objeto mais importante do lado egípcio. Além disso, os conservadores argumentam que o busto é frágil demais para viajar, o que descarta até mesmo um empréstimo temporário.
O debate hoje se insere em uma discussão internacional mais ampla sobre objetos retirados durante a era colonial, quando o Egito estava sob forte influência europeia e seu serviço de antiguidades era dirigido por estrangeiros. Alguns comentaristas separam a questão legal (a exportação foi lícita à época?) da ética (o próprio sistema era justo?). As posições variam da devolução total à propriedade compartilhada ou a empréstimos de longo prazo. Segundo as fontes consultadas aqui, o busto permanece em Berlim e o pedido egípcio continua de pé.
Avançado
Questões acadêmicas: modelo ou obra de arte, o olho vazio e alegações de falsificação
Borchardt argumentou em 1923 que o busto era um modelo de escultor — uma versão mestra a ser copiada para outros retratos. Sua evidência era o corte reto dos ombros, suas laterais sem pintura e o olho esquerdo vazio, que ele achava desnecessário completar porque espelharia o direito. Essa visão dominou por décadas. O próprio museu de Berlim hoje apresenta a questão como aberta: as duas dezenas de estudos de gesso da mesma sala dupla (salas 18/19) não têm pintura, exceto linhas-guia, e são claramente modelos, enquanto os bustos reais estão quase totalmente acabados, e esquemas de cores padronizados para coroas e colares dificilmente precisariam de um modelo pintado. O busto pode, em vez disso, ter servido à veneração do casal real.
O olho vazio tem várias explicações. Borchardt concluiu que nunca houve incrustação, porque a órbita é lisa e não mostrava vestígios de adesivo. Dietrich Wildung, um diretor posterior do museu, sugeriu que o busto era usado para ensinar alunos a modelar o olho. Zahi Hawass argumentou que houve uma incrustação e que ela foi destruída depois. Especulações anteriores de que Nefertiti teria perdido um olho por doença são contradizidas por outros retratos que mostram os dois olhos. O museu observa que, se alguma vez houve uma incrustação, ela não estava presente na descoberta.
O historiador de arte suíço Henri Stierlin e o escritor berlinense Erdogan Ercivan, em livros separados, alegaram que o busto era uma falsificação moderna feita por volta de 1912. Seus argumentos incluíam o olho ausente, o atraso na publicação e a alegação de que o núcleo de calcário nunca havia sido datado. Especialistas rejeitaram as alegações: os pigmentos correspondem aos da pintura da 18ª dinastia (testados nos anos 1920 e novamente em 1982), as tomografias revelam um processo de trabalho antigo com um rosto esculpido internamente, e o busto corresponde de perto a outras imagens identificadas de Nefertiti da mesma oficina.
Questões históricas mais amplas também cercam o busto. Sua datação depende da cronologia de Amarna e de argumentos estilísticos; as fontes o situam entre cerca de 1351 e 1334 a.C., com cerca de 1345–1340 a.C. como a estimativa usual. A atribuição a Tutmés se baseia na peça de marfim que o nomeia, encontrada no complexo, o que é forte, mas indireto. E a identidade do papel posterior de Nefertiti — rainha, corregente ou faraó Neferneferuaton — continua sendo um dos debates mais animados da egiptologia, o que influencia como o busto é interpretado como imagem do poder feminino.
Ideias principais
- Retrato idealizado
- O busto mostra um indivíduo reconhecível, mas aperfeiçoado: tomografias mostram que o escultor suavizou rugas esculpidas no núcleo de pedra com uma camada final de gesso.
- Estilo de Amarna
- A nova arte do reinado de Akhenaton, com cenas reais íntimas e corpos alongados; o busto mostra sua influência em uma forma contida e equilibrada.
- Contexto de oficina
- O busto foi encontrado entre estudos de gesso e obras inacabadas na casa de um escultor, o que oferece uma visão rara de como as imagens reais eram produzidas.
- Modelo ou obra terminada
- Se o busto era um modelo-mestre para ser copiado ou um objeto de veneração real ainda não está resolvido.
- Partage
- O sistema do início do século XX de dividir os achados escavados entre escavadores estrangeiros e o Egito; a legalidade e a justiça da divisão de 1913 são centrais na disputa.
- Repatriação
- O retorno de objetos culturais ao seu país ou comunidade de origem; o Egito busca a devolução do busto desde 1924.
- Ícone de beleza
- Depois de 1924, o busto se tornou um símbolo mundial de beleza feminina e um símbolo nacional tanto para a Alemanha quanto para o Egito.
Registros
- c. 1351 a.C. — Amenófis IV (mais tarde Akhenaton) torna-se rei, com Nefertiti como sua Grande Esposa Real.
- c. 1346 a.C. — Fundação da nova capital Akhetaton (Tell el-Amarna) em honra a Aton.
- c. 1345 a.C. — Data aproximada geralmente atribuída à fabricação do busto na oficina de Tutmés (estimativas chegam a c. 1340 a.C.).
- c. 1336 a.C. — Uma inscrição do ano 16 em Deir Abu Hinnis ainda nomeia Nefertiti como Grande Esposa Real.
- c. 1334 a.C. — Morte de Akhenaton; em poucos anos Amarna é abandonada e a oficina cai em ruínas.
- 1912 — 6 de dezembro: o busto é encontrado na casa P 47.2 pela expedição da Deutsche Orient-Gesellschaft, sob Ludwig Borchardt.
- 1913 — 20 de janeiro: divisão dos achados; o busto é destinado ao lado alemão e enviado a Berlim.
- 1920 — James Simon doa os achados de Amarna, incluindo o busto, aos museus de Berlim.
- 1924 — O busto é exposto ao público no Neues Museum; começam os pedidos do Egito por sua devolução.
- 1945 — Tropas dos EUA encontram o busto na mina de sal de Merkers; ele é mais tarde exibido em Wiesbaden.
- 2006 — Uma tomografia computadorizada detalhada revela o rosto esculpido interno sob o estuque.
- 2009 — O busto retorna ao Neues Museum reconstruído; o Egito renova seu pedido após ver os documentos de 1913.
Glossário
- Busto
- Uma escultura que mostra a cabeça, o pescoço e a parte superior do peito ou dos ombros de uma pessoa.
- Estuque
- Um gesso fino, aqui feito de gipsita, espalhado sobre um núcleo de pedra para que os detalhes possam ser modelados e pintados.
- Grande Esposa Real
- O título da rainha principal de um rei egípcio.
- Aton
- O disco do sol, adorado por Akhenaton como o deus supremo ou único.
- Akhetaton
- "Horizonte de Aton", a capital de Akhenaton, cujas ruínas são conhecidas como Tell el-Amarna.
- Ureu
- Uma cobra erguida usada na testa dos reis e rainhas egípcios como símbolo do poder real.
- Azul egípcio
- Um pigmento azul artificial feito ao aquecer areia, cobre e outros ingredientes, usado em todo o antigo Egito.
- Partage
- Francês para "divisão": a partilha oficial dos achados escavados entre os escavadores e o país anfitrião.
- Tomografia computadorizada
- Um exame de imagem por raios X que mostra seções transversais de um objeto sem danificá-lo.
- Repatriação
- Devolver um objeto ao seu país de origem.
Perguntas e respostas
Por que falta um olho?
Ninguém sabe ao certo. O escavador achava que o olho esquerdo nunca recebeu incrustação porque o busto era um modelo; outros pensam que era uma peça de ensino ou que a incrustação se perdeu. Ela não estava presente quando o busto foi encontrado.
Como sabemos que é Nefertiti se seu nome não está escrito nele?
Por causa da coroa azul de topo plano, que só Nefertiti usa em imagens identificadas, e porque foi encontrado junto com outros retratos da família real.
O busto é feito de ouro ou de pedra?
É calcário coberto de gesso e tinta. Só a faixa pintada na coroa parece dourada.
O busto pode ser uma falsificação?
Especialistas dizem que não. Os pigmentos correspondem aos antigos, as tomografias mostram um modo de trabalho antigo com um rosto esculpido sob o gesso, e ele corresponde a outras obras da mesma oficina.
O busto foi levado ilegalmente?
Isso é disputado. A Alemanha aponta para a divisão de achados assinada em 1913; o Egito argumenta que o inspetor egípcio foi enganado sobre a importância e o material do objeto. As questões legais e éticas ainda são debatidas.
Por que Berlim não o empresta ao Egito, pelo menos?
O museu o classifica como frágil demais para transportar, por causa de bolsões de ar entre a pedra e o gesso. Críticos suspeitam que um empréstimo também poderia criar pressão para uma devolução permanente.
Nefertiti governou o Egito sozinha?
Possivelmente. Muitos egiptólogos hoje a identificam com a faraó mulher Neferneferuaton, que governou brevemente depois de Akhenaton, mas outros discordam, e as evidências são fragmentárias.
Fontes e leituras adicionais
- Nefertiti Bust. Wikipedia
- Nefertiti. Wikipedia
- Thutmose (sculptor). Wikipedia
- Amarna. Wikipedia
- Amarna art. Wikipedia
- The Bust of Nefertiti. Staatliche Museen zu Berlin, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung
- Discovery and Partage. Staatliche Museen zu Berlin, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung
- The Bust. Staatliche Museen zu Berlin, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung
- The Queen. Staatliche Museen zu Berlin, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung
- The Presentation. Staatliche Museen zu Berlin, Ägyptisches Museum und Papyrussammlung
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