Literatura

Ramáiana

रामायण (Rāmāyaṇa)

c. 500 a.C. – 299 d.C. · Ayodhya (tradição)

Em uma frase

O Ramáiana é um poema muito antigo da Índia sobre o príncipe Rama, que é mandado para longe de casa, tem sua esposa Sita sequestrada por um rei demônio e a resgata com a ajuda de um macaco corajoso chamado Hanuman.

Ramáiana
Imagem: Sahibdin · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há muito, muito tempo, na Índia, as pessoas contavam a história de um príncipe bondoso e corajoso chamado Rama. Seu pai era o rei de uma cidade chamada Ayodhya. Todos esperavam que Rama fosse o próximo rei. Mas uma das esposas do rei o fez cumprir uma antiga promessa, e Rama teve de viver na floresta por catorze anos.

Rama não reclamou. Ele foi para a floresta com sua esposa Sita e seu irmão Lakshmana, que sempre o ajudava. Eles levavam uma vida simples, entre árvores, rios e sábios que moravam na floresta.

Um dia, um rei demônio de dez cabeças chamado Ravana os enganou. Ele mandou um cervo dourado mágico para atrair Rama e Lakshmana para longe. Então levou Sita em sua carruagem voadora para Lanka, seu reino em uma ilha.

Rama procurou Sita por toda parte. Ele fez amizade com macacos e ursos. O macaco mais corajoso, Hanuman, deu um salto enorme sobre o mar, encontrou Sita no jardim de Ravana e disse a ela que Rama estava a caminho. Depois, os macacos construíram uma ponte de pedras sobre o mar, e o exército de Rama travou uma grande batalha. Rama venceu Ravana e salvou Sita.

A história se chama Ramáiana, que significa «a jornada de Rama». Primeiro, ela foi escrita como um longo poema em sânscrito, uma língua antiga da Índia. Desde então, as pessoas a recontaram de muitas maneiras: em outras línguas, danças, peças de bonecos, pinturas, histórias em quadrinhos e na televisão. Todos os anos, no festival de Dussehra, muitas pessoas na Índia queimam grandes figuras de Ravana para celebrar a vitória do bem sobre o mal.

Em resumo

Tipo
Poema épico em sânscrito (itihāsa, «assim aconteceu»); tradicionalmente chamado de ādikāvya, o «primeiro poema»
Autor tradicional
O sábio Valmiki (Vālmīki)
Datação
Formou-se ao longo de vários séculos; o núcleo costuma ser situado entre cerca dos séculos VII/V e IV a.C., com camadas posteriores que chegam a cerca do século III d.C. (datas debatidas)
Extensão
Cerca de 24 mil versos (ślokas) em aproximadamente 500 cantos (sargas)
Estrutura
Sete livros (kāṇḍas): Bāla, Ayodhyā, Araṇya, Kiṣkindhā, Sundara, Yuddha e Uttara
Ambientação
Ayodhya e o reino de Kosala, na planície do Ganges; as florestas do centro e do sul da Índia; e Lanka
Personagens principais
Rama, Sita, Lakshmana, Bharata, Dasharatha, Kaikeyi, Hanuman, Sugriva e Ravana
Difusão
Recontado em quase todas as línguas do sul da Ásia e por todo o sudeste asiático (Tailândia, Camboja, Laos, Mianmar, Malásia e Indonésia)

Fácil

O que é o Ramáiana?

O Ramáiana («a jornada de Rama» ou «o percurso de Rama») é um dos dois grandes épicos em sânscrito da Índia antiga; o outro é o Mahabharata. Narra a vida de Rama, príncipe de Ayodhya, que é exilado na floresta, tem sua esposa Sita sequestrada pelo rei demônio Ravana e a resgata em uma grande guerra na ilha de Lanka.

A tradição indiana o chama de ādikāvya, o «primeiro poema», e chama seu autor, o sábio Valmiki, de ādikavi, o «primeiro poeta». Isso não significa que seja o texto mais antigo em sânscrito; os Vedas são muito mais antigos. Significa que o Ramáiana foi lembrado como a primeira obra de kāvya, poesia elaborada com cuidado artístico, em contraste com hinos ou textos rituais.

A versão atribuída a Valmiki tem cerca de 24 mil versos, em sua maioria no metro śloka, de dois versos. Divide-se em sete livros chamados kāṇḍas. A maioria dos estudiosos atuais considera que o poema se desenvolveu ao longo de vários séculos, passando da narração oral ao texto escrito, e que o primeiro e o último livros foram acrescentados depois dos cinco livros centrais.

O Ramáiana é, ao mesmo tempo, uma história, um guia moral e, para muitos hindus, um texto sagrado. Rama é venerado como um avatar (manifestação terrena) do deus Vishnu, e Hanuman é uma das divindades mais queridas da Índia. A história também é compartilhada por budistas e jainistas e por muitas pessoas do sudeste asiático que a conhecem principalmente como epopeia nacional e tradição teatral.

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Fácil

A história, livro por livro

Livro 1, Bāla Kāṇḍa (Infância): o rei Dasharatha, de Ayodhya, não tem filhos homens e por isso realiza um grande sacrifício ritual. Nascem quatro filhos de suas três rainhas: Rama, filho de Kausalya; Bharata, filho de Kaikeyi; e os gêmeos Lakshmana e Shatrughna, filhos de Sumitra. Na juventude, Rama acompanha o sábio Vishvamitra para proteger seus rituais dos demônios. Na corte do rei Janaka, de Videha, Rama curva e quebra o poderoso arco do deus Shiva, que ninguém mais conseguia erguer. Assim, conquista a mão de Sita, filha de Janaka, que havia sido encontrada ainda bebê em um sulco na terra.

Livro 2, Ayodhyā Kāṇḍa (Ayodhya): Dasharatha decide coroar Rama como herdeiro. Mas a rainha Kaikeyi, incentivada por sua criada Manthara, lembra ao rei dois desejos que ele havia prometido atender. Ela exige que seu filho Bharata seja coroado e que Rama seja exilado na floresta por catorze anos. Obrigado a cumprir sua palavra, o rei concorda e logo morre de tristeza. Rama parte serenamente com Sita e Lakshmana. Bharata se recusa a ocupar o trono; põe sobre ele as sandálias de Rama e governa apenas como seu representante até a volta do irmão.

Livro 3, Araṇya Kāṇḍa (Floresta): na floresta, a demônia Shurpanakha tenta seduzir Rama e Lakshmana, e Lakshmana a mutila. Seu irmão Ravana, o rei de dez cabeças de Lanka, busca vingança. Maricha, seguidor de Ravana, transforma-se em um cervo dourado. Enquanto Rama o persegue e Lakshmana vai atrás, Ravana sequestra Sita. O velho abutre Jatayu luta contra Ravana e sofre ferimentos mortais, mas vive tempo suficiente para contar a Rama o que aconteceu.

Livro 4, Kiṣkindhā Kāṇḍa (Kishkindha): Rama se alia a Sugriva, um príncipe macaco (vānara) exilado, e o ajuda a derrotar seu irmão Vali e a recuperar o trono de Kishkindha. Em troca, Sugriva envia grupos de busca em todas as direções. O livro 5, Sundara Kāṇḍa (o livro «Belo»), concentra-se em Hanuman: ele salta sobre o oceano, encontra Sita entre as árvores ashoka do jardim de Ravana, entrega a ela o anel de Rama e incendeia Lanka com sua cauda em chamas antes de voltar.

Livro 6, Yuddha Kāṇḍa (Guerra): o exército de macacos constrói uma passagem sobre o mar até Lanka. Após muitas batalhas contra os guerreiros de Ravana, entre eles seu filho Indrajit e seu irmão gigante Kumbhakarna, Rama mata Ravana. Vibhishana, irmão de Ravana que havia se aliado a Rama, torna-se rei de Lanka. A princípio, Rama se recusa a aceitar Sita de volta; ela prova sua pureza entrando no fogo, de onde o deus do fogo a devolve ilesa. Os dois retornam a Ayodhya, e Rama é coroado. O livro 7, Uttara Kāṇḍa (o último livro), continua a história: Rama expulsa Sita, que está grávida, porque seus súditos fazem comentários sobre o período em que ela esteve na casa de Ravana. Ela dá à luz os gêmeos Lava e Kusha no eremitério de Valmiki. Anos depois, os meninos recitam o Ramáiana na corte de Rama. Sita é chamada de volta e, em vez de passar por outra prova, pede à Terra, sua mãe, que a receba novamente. O chão se abre e a acolhe.

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Fácil

Valmiki e o nascimento da poesia

Quase nada se sabe, do ponto de vista histórico, sobre Valmiki. O próprio épico faz dele um personagem: um sábio cujo eremitério acolhe Sita e seus filhos e que ensina o poema a Lava e Kusha. Lendas posteriores, ausentes do texto mais antigo, dizem que ele havia sido um ladrão, que sábios o conduziram a uma vida santa e que meditou por tanto tempo que um formigueiro (valmīka) cresceu ao seu redor, o que explicaria seu nome.

O Bāla Kāṇḍa conta uma história famosa sobre o início do poema. Valmiki viu um caçador abater uma das aves de um casal de grous (krauñca). Comovido pelo grito da ave sobrevivente, pronunciou uma maldição e, para sua surpresa, as palavras saíram em um metro regular. O deus Brahma então lhe disse que usasse esse novo metro, o śloka, para contar a história de Rama. Nessa lenda, a poesia (śloka) nasce da dor (śoka), em um jogo de palavras apreciado por críticos posteriores da literatura sânscrita.

Os estudiosos atuais tratam Valmiki como o nome associado a uma tradição, e não como um único autor cuja vida possa ser datada. O poema provavelmente tomou forma ao longo de gerações de bardos que o recitavam em voz alta, antes de ser registrado em um texto relativamente estável. Muitas versões em outras línguas mantêm Valmiki como narrador original, mesmo quando modificam bastante a história.

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Intermediário

Dharma, realeza e a família ideal

A ideia central do Ramáiana é o dharma: o dever, a retidão e a ordem que mantém unidos a sociedade e o cosmos. Rama é apresentado como o homem ideal (maryādā puruṣottama, na tradição posterior), que cumpre a promessa do pai mesmo ao custo de um reino. A recusa de Bharata em aceitar o trono, a dedicação de Lakshmana e a lealdade de Sita mostram o dharma em outras relações: entre irmãos, entre esposa e marido e entre súdito e rei.

O poema também reflete sobre a realeza. Sob Rama, Ayodhya se torna o modelo de um reino perfeito, e «Rāma-rājya» (o governo de Rama) passou a significar uma era de justiça e prosperidade. Na época moderna, Mahatma Gandhi usou Ram Rajya para nomear sua visão de uma Índia justa e autogovernada. Em contraste, os livros do exílio descrevem os perigos da política da corte: uma única promessa descumprida quase destrói a família real.

O épico não apresenta seus problemas morais como questões simples. Há dois mil anos, leitores discutem o fato de Rama ter matado Vali enquanto estava escondido, a mutilação de Shurpanakha, a prova de fogo e, sobretudo, a expulsão de Sita no Uttara Kāṇḍa. O dramaturgo sânscrito Bhavabhuti (século VIII) escreveu uma peça, Uttararāmacarita, que reelabora o final e reúne Rama e Sita, mostrando que até autores clássicos consideravam perturbador o desfecho original.

A devoção (bhakti) é outro tema importante, especialmente nas versões posteriores. Hanuman representa a devoção abnegada a Rama e, em muitos Ramáianas regionais, o principal propósito de ouvir a história é aumentar o amor por Rama como Deus. Ravana, por sua vez, não é apenas um monstro: é um rei culto e devoto de Shiva, arruinado pelo desejo e pelo orgulho. Algumas tradições posteriores chegam a vê-lo como alguém que alcança a libertação ao morrer pelas mãos de Rama.

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Intermediário

Contexto histórico e geográfico

O mundo do Ramáiana é o dos reinos da região central da planície do Ganges, como Kosala (capital Ayodhya) e Videha (capital Mithila), mencionados em textos védicos tardios e budistas antigos. As florestas ao sul, habitadas no poema por eremitas, demônios (rākṣasas), macacos e ursos, refletem como as pessoas do norte imaginavam as regiões menos conhecidas do centro e do sul da Índia.

Muitos historiadores veem na história ecos da expansão de comunidades sedentárias e da tradição bramânica para regiões de floresta durante o primeiro milênio a.C. Outros alertam contra a leitura do épico como um relato disfarçado de migrações ou conflitos reais: os macacos e demônios são figuras literárias e religiosas, e sua identificação com povos específicos às vezes foi usada para sustentar preconceitos.

Não há evidências arqueológicas dos acontecimentos narrados, e os estudiosos não concordam quanto à existência de algum rei histórico por trás da figura de Rama. A localização de Lanka também é debatida: a maioria das tradições a identifica com o Sri Lanka, mas alguns estudiosos defendem que a geografia do texto antigo aponta para um lugar no centro da Índia. A Ayodhya atual, em Uttar Pradesh, é identificada com a cidade de Rama há muitos séculos, enquanto se costuma situar a antiga cidade de Saketa no mesmo local ou perto dele.

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Intermediário

Muitos Ramáianas pela Índia

O poema de Valmiki não é o único Ramáiana. O Mahabharata contém sua própria versão curta, o Rāmopākhyāna. Os budistas preservaram o Dasharatha Jātaka, no qual Rama é uma vida anterior do Buda e não há sequestro por Ravana. Os jainistas contaram a história em obras como o Paumacariya, escrito em prácrito por Vimalasuri, no qual Rama é um herói jainista e é Lakshmana, e não Rama, quem mata Ravana.

A partir da Idade Média, grandes poetas recontaram a história em línguas regionais. O Irāmāvatāram, do poeta Kamban, em tâmil (frequentemente datado do século XII), é uma obra-prima da literatura tâmil. Krittivas escreveu uma versão em bengali, Ezhuthachan uma em malaiala, e Tulsidas compôs o Rāmcaritmānas em awadhi (iniciado em 1574, segundo a própria obra), que se tornou a versão do Ramáiana mais recitada no norte da Índia. Sua apresentação pública como Ramlila, uma encenação realizada ao longo de muitas noites, é reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial.

Essas versões diferem em aspectos importantes. Tulsidas, por exemplo, diz que a verdadeira Sita foi escondida no fogo antes do sequestro e que apenas uma Sita ilusória foi levada, de modo que Ravana nunca toca a deusa. Canções populares e canções de mulheres muitas vezes contam a história do ponto de vista de Sita. Em um conhecido ensaio intitulado «Three Hundred Rāmāyaṇas», o estudioso A. K. Ramanujan argumentou que não existe uma única história original, mas uma vasta família de narrativas. O ensaio causou controvérsia quando foi retirado do programa de estudos de uma universidade de Déli em 2011.

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Intermediário

O Ramáiana no sudeste asiático

O Ramáiana chegou ao sudeste asiático com comerciantes, sacerdotes e a cultura das cortes durante o primeiro milênio d.C. Em Java, o Kakawin Rāmāyaṇa, em javanês antigo e geralmente datado do século IX, é uma das primeiras obras da literatura javanesa. Cenas da história foram esculpidas no complexo de templos hindus de Prambanan, também do século IX. Em Angkor Wat, no Camboja, relevos do século XII mostram a batalha de Lanka.

Cada região adaptou a história à sua maneira. O Camboja tem o Reamker; o Laos, o Phra Lak Phra Lam; Mianmar, o Yama Zatdaw; e a Malásia, o Hikayat Seri Rama, recontado em uma sociedade muçulmana. Na Tailândia, o Ramakien, cuja versão mais conhecida foi composta durante o reinado de Rama I, no fim do século XVIII, tornou-se uma epopeia nacional. Seus episódios estão pintados ao redor da galeria do Templo do Buda de Esmeralda, em Bangcoc, e os reis da dinastia Chakri são conhecidos em português como Rama I, Rama II e assim por diante.

Em grande parte do sudeste asiático, o Ramáiana permanece vivo sobretudo nas apresentações artísticas: o teatro de sombras (wayang kulit na Indonésia e na Malásia, nang yai na Tailândia), a dança com máscaras (khon) e as danças das cortes e dos templos. Hanuman muitas vezes se torna um herói mais brincalhão e romântico do que na versão em sânscrito, e personagens e piadas locais são acrescentados. Essas tradições mostram que o épico é um patrimônio compartilhado por povos da Ásia, para além da Índia.

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Intermediário

O Ramáiana nos tempos modernos

O Ramáiana continua presente no cotidiano. O festival de Dussehra (Vijayadashami) celebra a vitória de Rama sobre Ravana, muitas vezes com a queima de figuras gigantes. No norte da Índia, o Diwali, festival das luzes, está associado ao retorno de Rama a Ayodhya. Histórias em quadrinhos para crianças, filmes e séries de animação recontam a história, e a expressão «Lakshman rekha» (a linha de Lakshmana, um limite que não deve ser ultrapassado) faz parte do uso cotidiano do hindi e do inglês na Índia.

Em 1987 e 1988, uma série de televisão sobre o Ramáiana dirigida por Ramanand Sagar foi exibida pela emissora estatal indiana Doordarshan e atraiu um público enorme; segundo relatos, as ruas ficavam vazias durante a transmissão. Estudiosos argumentam que a série ajudou a criar uma imagem nacional mais uniforme de Rama.

O épico também passou a fazer parte da política moderna. A alegação de que uma mesquita em Ayodhya, a Babri Masjid, ocupava o local de nascimento de Rama tornou-se o centro de uma longa disputa. A mesquita foi demolida por ativistas em 1992, o que foi seguido por confrontos com muitas mortes. Em 2019, a Suprema Corte da Índia destinou o local à construção de um templo e reservou outro terreno para uma mesquita. Um templo foi consagrado em janeiro de 2024. Muitos hindus veem o templo como a realização de uma esperança religiosa, enquanto muitos muçulmanos e críticos seculares veem esses acontecimentos como uma agressão à sociedade plural da Índia. Ambas as visões fazem parte da história moderna do Ramáiana.

Escritores também recontaram o épico de forma crítica. No século XX, movimentos dalits e dravidianos, por exemplo, questionaram a representação dos povos do sul como demônios. Escritoras feministas recontaram a história do ponto de vista de Sita, de Shurpanakha ou de Urmila, esposa de Lakshmana que ficou em Ayodhya.

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Avançado

A datação e a formação do texto

As estimativas acadêmicas para a data do Ramáiana variam muito. Robert P. Goldman, editor-geral da tradução de Princeton, defendeu a existência de um núcleo oral aproximadamente entre os séculos VIII e VI a.C. Ele observa que o épico retrata um mundo político de pequenos reinos da região do Ganges e não menciona a ascensão de Magadha nem a de Pataliputra. John Brockington, ao analisar a língua e o estilo, distingue várias etapas: a parte principal do poema teria tomado forma a partir de cerca dos séculos V e IV a.C., e acréscimos posteriores teriam continuado nos primeiros séculos d.C. Um resumo frequente situa o núcleo por volta do século IV a.C. e o texto completo por volta do século III d.C.

Desde os trabalhos de Hermann Jacobi na década de 1890, a maioria dos estudiosos sustenta que os livros 2 a 6 formam o núcleo mais antigo e que os livros 1 e 7 são posteriores. Entre os argumentos estão diferenças de língua e estilo; o fato de que Rama é apresentado como encarnação de Vishnu principalmente no primeiro e no último livros, enquanto no núcleo é sobretudo um príncipe humano e heroico; e a existência de resumos e sumários que não correspondem ao texto completo. Alguns estudiosos, porém, defendem que o épico inteiro deve ser lido como uma unidade literária coerente, independentemente de sua formação histórica.

A datação é complicada porque o texto foi transmitido oralmente e, depois, em manuscritos escritos sobre materiais perecíveis. Os manuscritos preservados são muito posteriores à composição; os mais antigos têm aproximadamente mil anos e vêm do Nepal. A relação entre o épico de Valmiki e o Rāmopākhyāna do Mahabharata, bem como a relação de ambos com o Dasharatha Jātaka budista, também é debatida: os estudiosos discordam sobre qual deles preserva o material mais antigo.

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Avançado

Manuscritos, recensões e a edição crítica

Os manuscritos do Ramáiana de Valmiki se distribuem em duas recensões principais (famílias de versões do texto), uma do norte e outra do sul. A do norte costuma ser dividida ainda em versões do noroeste e do nordeste. Elas compartilham a maior parte da história, mas apresentam diferenças em cerca de um terço dos versos, tanto nas palavras quanto na ordem e na presença de muitos episódios. Algumas passagens conhecidas das versões populares aparecem apenas em certos ramos da tradição.

Entre cerca de 1960 e 1975, o Instituto Oriental da Universidade Maharaja Sayajirao de Baroda publicou uma edição crítica. Para reconstituir a forma mais antiga do texto que ainda se pode recuperar, comparou um grande número de manuscritos de toda a Índia. Passagens encontradas em apenas parte da tradição foram transferidas para notas de rodapé e apêndices. A tradução da Princeton University Press, coordenada por Robert P. Goldman e Sally J. Sutherland Goldman e concluída na década de 2010, baseia-se nessa edição e inclui notas extensas sobre variantes textuais e comentários.

A edição crítica teve grande influência, mas também recebeu críticas. Alguns estudiosos argumentam que a ideia de um único texto ancestral não se ajusta a um épico oral que sempre existiu em múltiplas apresentações e que a edição cria a impressão enganosa de um texto «original». Outros a defendem como a melhor ferramenta disponível para entender como a tradição se desenvolveu. Comentários tradicionais em sânscrito, como os de Govindaraja e de outros autores medievais, mostram como leitores eruditos da Índia interpretavam passagens difíceis, muitas vezes à luz da teologia devocional.

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Avançado

Debates de interpretação: gênero, casta e poder

O tratamento dado a Sita é a questão mais debatida nos estudos atuais sobre o Ramáiana. Alguns a veem como modelo de devoção conjugal e força; outros interpretam a prova de fogo e a expulsão como sinais do controle patriarcal sobre o corpo das mulheres. Estudiosos também ressaltam que a recusa final de Sita em provar novamente sua inocência, seguida de seu retorno à Terra, pode ser lida como um ato de dignidade e protesto dentro do próprio texto.

O Uttara Kāṇḍa inclui o episódio de Shambuka, um shudra (integrante da mais baixa das quatro varṇas tradicionais) que Rama mata por praticar o ascetismo, reservado na história às castas mais altas. O episódio foi criticado por pensadores contrários ao sistema de castas, como B. R. Ambedkar e E. V. Ramasamy (Periyar). Defensores da tradição observam que ele pertence a uma camada posterior do texto ou o interpretam de forma alegórica. O debate mostra como a autoridade do épico dá importância política às suas passagens difíceis.

Outra linha de pesquisa, associada a Sheldon Pollock, entre outros, pergunta como o Ramáiana moldou ideias de realeza divina e como governantes de diferentes épocas usaram sua imagem de um rei justo em oposição a um «outro» demonizado. Antropólogos e estudiosos do folclore, por sua vez, enfatizam a diversidade das versões e as maneiras pelas quais artistas e narradores adaptam a história, como nos ensaios reunidos no volume Many Rāmāyaṇas (1991), organizado por Paula Richman. Juntas, essas abordagens tratam o Ramáiana como uma tradição viva que cada comunidade lê à luz de suas próprias preocupações.

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Ideias principais

Dharma
Dever e retidão; Rama cumpre a palavra dada por seu pai mesmo ao custo do trono, e cada personagem importante enfrenta uma prova relacionada ao que o dharma exige.
Ādikāvya
«Primeiro poema»: o Ramáiana é lembrado como o primeiro poema elaborado artisticamente em sânscrito, e a lenda do grou visto por Valmiki associa a poesia à compaixão e à dor.
Realeza ideal (Ram Rajya)
O reinado de Rama tornou-se um modelo de governo justo, invocado por reis posteriores e por líderes modernos, entre eles Gandhi.
Devoção (bhakti)
Especialmente nas versões posteriores, a história é uma forma de cultivar o amor por Rama como Deus; Hanuman é o devoto exemplar.
Muitos Ramáianas
Há centenas de versões do Ramáiana em diferentes línguas, religiões e formas de arte do sul e do sudeste da Ásia.
Camadas de composição
O épico se desenvolveu ao longo de séculos; a maioria dos estudiosos considera os livros 2 a 6 seu núcleo e os livros 1 e 7 acréscimos posteriores.
Questões éticas debatidas
Episódios como a prova de fogo e a expulsão de Sita, a morte de Vali e a morte de Shambuka provocam debates há séculos.

Registros

  1. c. 600 a.C. — Período aproximado dos reinos da região do Ganges, como Kosala e Videha, que servem de pano de fundo para a história; os relatos orais sobre Rama talvez já tivessem começado (datas debatidas).
  2. c. 400 a.C. — Acredita-se que o núcleo do Ramáiana de Valmiki (livros 2 a 6) já tivesse tomado forma por volta dessa época.
  3. c. 200 d.C. — Acredita-se que as camadas posteriores, incluindo grande parte dos livros 1 e 7, estivessem completas por volta dos séculos II e III d.C.
  4. c. 700 d.C. — Bhavabhuti escreve a peça em sânscrito Uttararāmacarita, reelaborando o final da história.
  5. c. 850 d.C. — Relevos do Ramáiana são esculpidos em Prambanan, em Java; o Kakawin Rāmāyaṇa, em javanês antigo, é composto aproximadamente nesse período.
  6. c. 1150 — Kamban compõe o Irāmāvatāram em tâmil (data debatida).
  7. 1574 — Tulsidas começa a compor o Rāmcaritmānas em awadhi, segundo o próprio poema.
  8. c. 1797 — O Ramakien tailandês é composto durante o reinado de Rama I.
  9. c. 1960 — Começa a publicação da edição crítica de Baroda do Ramáiana de Valmiki (concluída por volta de 1975).
  10. 1987 — A série de televisão sobre o Ramáiana, de Ramanand Sagar, começa a ser exibida pela Doordarshan.
  11. 1992 — A Babri Masjid, em Ayodhya, é demolida, dando origem a confrontos com muitas mortes e a uma longa disputa judicial.
  12. 2024 — Um templo dedicado a Rama é consagrado em Ayodhya após a decisão da Suprema Corte de 2019.

Glossário

Epopeia
Longo poema narrativo sobre heróis e grandes acontecimentos.
Sânscrito
Língua clássica da Índia antiga, usada em textos religiosos, literários e eruditos.
Śloka
Forma de estrofe com dois versos e 32 sílabas, principal metro do Ramáiana e do Mahabharata.
Kāṇḍa
Livro ou grande divisão do Ramáiana; são sete ao todo.
Avatar
Manifestação de um deus na Terra sob uma forma específica; Rama é considerado um avatar de Vishnu.
Rākṣasa
Demônio ou ogro da mitologia indiana; Ravana é o rei dos rākṣasas.
Vānara
Povo dos macacos no épico, do qual fazem parte Hanuman e Sugriva.
Recensão
Família de manuscritos que compartilham uma determinada versão de um texto.
Edição crítica
Edição que compara muitos manuscritos para reconstituir o texto mais antigo que ainda se pode recuperar.
Ramlila
Encenação tradicional da história de Rama, especialmente no norte da Índia, durante o período do festival de Dussehra.

Perguntas e respostas

O Ramáiana é uma história verdadeira?

Muitos hindus consideram Rama uma figura histórica e divina. Os historiadores não encontraram evidências arqueológicas dos acontecimentos narrados, e a maioria trata o épico como literatura e tradição sagrada que pode guardar lembranças remotas de lugares e sociedades reais.

Quem é Hanuman?

Hanuman é um herói macaco, filho do deus do vento, que encontra Sita em Lanka e ajuda Rama a vencer a guerra. Ele é venerado como símbolo de força e devoção.

Qual é a extensão do Ramáiana?

O Ramáiana de Valmiki tem cerca de 24 mil versos, um pouco mais do que a Ilíada e a Odisseia juntas. Muitas versões posteriores são mais curtas ou mais longas.

Por que Rama expulsou Sita?

No último livro, Rama expulsa Sita porque seus súditos duvidavam de sua pureza após o período em que ela esteve no palácio de Ravana. Esse episódio pertence a uma camada posterior do texto e há séculos é debatido e recontado de diferentes maneiras.

Quais são as partes mais antigas do Ramáiana?

Desde Hermann Jacobi, a maioria dos estudiosos considera os livros 2 a 6 o núcleo mais antigo, enquanto o livro 1 (a infância de Rama) e o livro 7 (os acontecimentos posteriores e a expulsão de Sita) teriam sido acrescentados mais tarde.

Existe um único Ramáiana «original»?

O texto de Valmiki é a versão completa preservada mais antiga, mas existe em várias recensões manuscritas. A história também foi contada de forma independente por budistas, jainistas e muitos poetas regionais. Estudiosos como A. K. Ramanujan ressaltaram essa diversidade.

Por que os reis da Tailândia usam o nome Rama?

A dinastia Chakri se identifica fortemente com o herói do Ramakien, a versão tailandesa do Ramáiana. No início do século XX, o rei Vajiravudh introduziu o costume de chamar os reis da dinastia de Rama I, Rama II e assim por diante, e esse uso se tornou padrão.

Fontes e leituras adicionais

  1. Ramayana. Wikipedia
  2. Valmiki. Wikipedia
  3. Ramakien. Wikipedia
  4. Ramcharitmanas. Wikipedia
  5. 라마야나. Wikipedia (Korean)
  6. Robert P. Goldman, Sally J. Sutherland Goldman et al. (trans.), The Rāmāyaṇa of Vālmīki: An Epic of Ancient India (7 vols.). Princeton University Press, 1984–2017
  7. John Brockington, The Sanskrit Epics. Brill, 1998
  8. Paula Richman (ed.), Many Rāmāyaṇas: The Diversity of a Narrative Tradition in South Asia. University of California Press, 1991

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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