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Para jovens leitores
Imagine um deserto tão seco que quase nunca chove. O chão é coberto de pequenas pedras avermelhadas e escuras. Se você tirar as pedras e juntá-las nas bordas, aparece uma faixa de terra clara. Assim você desenha uma linha. Como quase não há chuva nem vento forte, essa linha pode durar centenas ou até milhares de anos.
Foi isso que os povos da cultura nazca fizeram no sul do Peru. Eles desenharam linhas retas de vários quilômetros, grandes triângulos, formas compridas, espirais e ziguezagues. Também desenharam animais e plantas: um beija-flor, um macaco de cauda enrolada, uma aranha, um condor, uma orca, flores e árvores. Alguns desenhos têm o tamanho de um campo de futebol ou são ainda maiores.
Muitos desenhos são tão grandes que é difícil enxergá-los inteiros quando você está ao lado deles. Vistos dos morros próximos ou de um avião, eles ficam mais fáceis de reconhecer. Como foram feitos sem aviões? Provavelmente com estacas de madeira, cordas, medidas cuidadosas e trabalho em equipe. Pessoas de hoje já conseguiram fazer figuras grandes desse jeito em poucos dias.
Ninguém sabe ao certo por que as linhas foram feitas. Os pesquisadores acham que elas tinham relação com a água, tão preciosa no deserto, e com cerimônias. Talvez as pessoas caminhassem pelas linhas em procissões e deixassem pedaços de vasos como oferendas.
Hoje, as Linhas de Nazca são Patrimônio Mundial. Elas são frágeis: um carro ou até pegadas podem deixar marcas por séculos. Por isso, os visitantes as observam de torres, morros e pequenos aviões, sem caminhar sobre elas.
Em resumo
- Período de criação
- Aproximadamente de 500 a.C. a 500 d.C.; a cultura paracas iniciou a tradição, e a cultura nazca (cerca de 100 a.C. a 800 d.C.) fez a maioria das figuras famosas
- Localização
- Planaltos desérticos (pampas) entre as cidades de Nazca e Palpa, na região de Ica, sul do Peru, cerca de 400 km ao sul de Lima
- Tipo
- Geoglifos: desenhos feitos na superfície do solo, incluindo linhas retas, formas geométricas e figuras de animais e plantas
- Técnica
- Remoção das pedras superficiais escuras, cobertas por óxido de ferro, para expor o solo mais claro abaixo; as linhas geralmente têm apenas 10 a 15 cm de profundidade
- Dimensão
- Linhas que, juntas, ultrapassam 1.300 km em cerca de 50 km² da pampa; as maiores figuras se estendem por várias centenas de metros
- Figuras famosas
- Beija-flor (cerca de 93 m de comprimento), macaco (cerca de 93 × 58 m), condor (cerca de 134 m), aranha (cerca de 47 m)
- Reconhecimento
- Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1994 (Linhas e Geoglifos de Nazca e Palpa)
- Finalidade
- Debatida; as principais hipóteses relacionam as linhas à água, a caminhadas rituais e peregrinações e a grupos sociais ou de parentesco
Fácil
O que são as Linhas de Nazca?
As Linhas de Nazca são um vasto conjunto de geoglifos, desenhos feitos na superfície da terra, no deserto costeiro do sul do Peru. Elas ficam nos planaltos planos e pedregosos chamados pampas, entre os vales dos rios próximos às atuais cidades de Nazca e Palpa. O nome vem da cultura nazca, povo antigo que fez a maioria delas, e da cidade e do rio que hoje têm o mesmo nome.
Os geoglifos se dividem em três grandes grupos. Os mais numerosos são as linhas retas, algumas quase perfeitamente retilíneas por vários quilômetros, atravessando colinas e leitos secos de rios. Há também figuras geométricas: longos trapézios e triângulos, espirais, ziguezagues e retângulos. Por fim, há as figuras que tornaram o lugar famoso: animais, plantas e alguns seres semelhantes a humanos, chamados biomorfos. Na pampa principal existem cerca de setenta dessas grandes figuras de animais e plantas. Levantamentos mais recentes acrescentaram centenas de figuras menores em encostas e ao longo de antigos caminhos.
Juntas, as linhas somam mais de 1.300 km e ocupam uma área de cerca de 50 km². A área reconhecida como Patrimônio Mundial é muito maior, pois também inclui a paisagem ao redor e os geoglifos nas encostas próximas a Palpa.
As linhas não foram feitas de uma só vez. Os arqueólogos as situam em um período de cerca de mil anos, aproximadamente entre 500 a.C. e 500 d.C. As mais antigas, muitas delas nas encostas perto de Palpa, pertencem à cultura paracas; a maioria das figuras famosas na pampa plana pertence à cultura nazca, que veio depois.
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Como interpretar os desenhos
As figuras mais conhecidas representam animais. O beija-flor tem cerca de 93 m de comprimento, com asas longas e retas e um bico fino como uma agulha. O macaco, com cerca de 93 por 58 m, tem uma cauda enrolada em espiral. A aranha mede cerca de 47 m de comprimento. O condor, de asas abertas, mede cerca de 134 m. Há também uma orca, um lagarto, uma ave parecida com uma garça, um cachorro, flores, uma árvore e um par de mãos. Numa encosta íngreme há uma figura de cabeça redonda com cerca de 30 m de altura, frequentemente apelidada de “astronauta” ou “homem-coruja”.
Muitas dessas grandes figuras de animais têm uma característica surpreendente: são desenhadas com uma única linha contínua, que não cruza a si mesma. A linha entra por um lado, contorna todo o animal e sai novamente. Isso sugere que as figuras eram caminhos para percorrer, além de imagens para observar. Uma pessoa que seguisse o contorno do beija-flor caminharia ao redor da ave inteira e sairia perto de onde começou.
As linhas retas muitas vezes partem de colinas baixas ou montes naturais, que os arqueólogos chamam de centros de linhas ou centros radiais. De um desses centros, uma dúzia ou mais de linhas pode se espalhar em diferentes direções, como os raios de uma roda. Algumas apontam para rios, fontes de água ou montanhas; outras ligam um centro de linhas a outro.
Os trapézios estão entre os maiores geoglifos e, às vezes, têm centenas de metros de comprimento. São largos em uma extremidade e estreitos na outra. Muitos estão orientados para os vales dos rios, por onde corria água na estação chuvosa dos Andes. Suas grandes superfícies limpas poderiam ter abrigado reuniões de muitas pessoas.
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Como foram feitas?
A superfície do deserto perto de Nazca é coberta por uma camada de pequenas pedras escurecidas ao longo do tempo por um revestimento castanho-avermelhado de óxido de ferro, uma espécie de ferrugem natural. Logo abaixo há um solo mais claro, de tom cinza-amarelado. Para fazer uma linha, as pessoas retiravam as pedras escuras com as mãos ou com instrumentos e as empilhavam nas bordas. Assim surgia uma faixa clara, muitas vezes com apenas 10 a 15 cm de profundidade, emoldurada por pequenas fileiras de pedras. Muitas linhas têm cerca de 30 cm de largura, mas algumas chegam a quase 2 m, e os trapézios são muito mais largos.
Fazer as figuras exigia planejamento. Arqueólogos encontraram restos de estacas de madeira nas extremidades de algumas linhas, o que sugere o uso de estacas e cordas para traçar trechos retos. Um esboço pequeno poderia ser ampliado com uma grade ou com um sistema de cordas medidas e pontos fixos. Em 1982, o pesquisador americano Joe Nickell e uma pequena equipe reproduziram a figura do condor, de 134 m, em um campo no estado de Kentucky. Usando apenas estacas de madeira, cordas e métodos simples de medição, sem vista aérea, terminaram o trabalho em poucos dias.
O clima explica por que as linhas sobreviveram. A pampa de Nazca é um dos lugares mais secos da Terra. A chuva é extremamente rara, e a superfície pedregosa absorve calor, criando uma camada de ar quente que reduz o vento junto ao solo. O subsolo rico em calcário também endurece um pouco quando entra em contato com a neblina da manhã. Por isso, uma linha aberta há dois mil anos ainda pode ser visível hoje, desde que não seja danificada por pessoas.
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Os povos que as fizeram: paracas e nazca
Antes dos nazcas, a costa sul do Peru abrigava a cultura paracas (aproximadamente de 800 a.C. a 100 a.C.), famosa por seus tecidos elaborados e sepultamentos na península de Paracas. Na região de Palpa, arqueólogos identificaram geoglifos feitos por comunidades paracas: figuras semelhantes a humanos, muitas vezes interpretadas como guerreiros ou seres sobrenaturais, traçadas nas encostas de onde podiam ser vistas dos vales abaixo. Algumas são séculos mais antigas que as famosas figuras nazcas da pampa.
A cultura nazca surgiu da tradição paracas por volta de 100 a.C. e floresceu até cerca de 800 d.C. Os nazcas não formaram um império único com uma capital. Viviam em aldeias nos vales dos rios, cultivavam milho, feijão, abóbora, algodão e outras plantas e pescavam no litoral. Eram excelentes ceramistas: pintavam seus vasos com pelo menos uma dúzia de cores e uma grande variedade de imagens, como aves, peixes, orcas, plantas, guerreiros, cabeças-troféu e seres míticos. Várias dessas imagens, como beija-flores e orcas, também aparecem na pampa.
O principal centro religioso do início do período nazca foi Cahuachi, no vale de Nazca, um conjunto de montes de adobe e praças usado aproximadamente de 1 a 500 d.C. As pesquisas dos arqueólogos Helaine Silverman e Giuseppe Orefici mostraram que Cahuachi era um centro cerimonial, e não uma cidade: sua população aumentava muito durante as festividades, quando pessoas dos vales vizinhos se reuniam ali. Cahuachi tem vista para parte da pampa, e muitos estudiosos consideram os geoglifos e o centro partes de uma mesma paisagem sagrada.
A água era essencial para a vida dos nazcas. Os rios que descem dos Andes frequentemente ficam secos durante boa parte do ano. A região de Nazca também é conhecida pelos puquios, canais subterrâneos e poços de acesso em espiral que captam água subterrânea. Várias dezenas deles ainda fornecem água hoje. Muitos arqueólogos os datam do período nazca tardio, por volta de 500 d.C., mas outros defendem que foram construídos ou modificados depois da conquista espanhola. Sua idade continua em debate.
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Por que foram feitas? As principais teorias
Astronomia. Os primeiros estudiosos a examinar as linhas de perto pensaram que elas formavam um enorme calendário. Em 1941, o historiador americano Paul Kosok observou que o Sol se punha na direção de uma linha no dia do solstício de inverno no Hemisfério Sul. A matemática Maria Reiche, nascida na Alemanha, trabalhou com Kosok e depois dedicou o resto da vida às linhas. Ela desenvolveu a teoria de que elas marcavam os pontos de nascimento e ocaso do Sol, da Lua e das estrelas. Mais tarde, análises dos astrônomos Gerald Hawkins e Anthony Aveni mostraram que a quantidade de linhas orientadas para eventos astronômicos não era maior do que seria esperado pelo acaso. Por isso, poucos estudiosos hoje consideram a astronomia sua principal finalidade, embora alguns alinhamentos específicos possam ter sido importantes.
Água e fertilidade. Muitos pesquisadores relacionam as linhas à busca por água. Na década de 1980, o antropólogo Johan Reinhard argumentou que elas faziam parte de uma religião andina difundida, centrada nas montanhas e na água, e que percorrer as linhas e figuras era uma forma de pedir água e fertilidade. Algumas linhas apontam para fontes de água ou para as montanhas de onde descem os rios. O pesquisador David Johnson propôs que alguns geoglifos marcavam cursos de água subterrâneos que abasteciam os puquios, mas essa hipótese mais específica não recebeu ampla confirmação.
Caminhadas, rituais e peregrinação. Como muitas figuras são traçadas com uma única linha contínua e há fragmentos de cerâmica quebrada sobre as linhas, a maioria dos arqueólogos hoje considera que elas foram feitas para ser percorridas, e não para ser vistas do alto. Procissões talvez caminhassem por elas durante cerimônias, possivelmente a caminho de Cahuachi ou na volta. Anthony Aveni e outros sugeriram que certas linhas e centros de linhas eram construídos e mantidos por grupos específicos de parentesco ou comunidades. Assim, fazê-las e percorrê-las também seria uma forma de organizar a sociedade.
Não há uma resposta única. É provável que as linhas tenham tido significados diferentes ao longo de mil anos. Um trapézio usado para reuniões, uma linha reta que levava a uma fonte de água e uma figura de animal percorrida durante um ritual poderiam ter finalidades diferentes, mesmo fazendo parte do mesmo universo religioso.
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Extraterrestres, balões e outros mitos
Como as figuras são mais fáceis de reconhecer do alto, as Linhas de Nazca atraíram explicações fantasiosas. O escritor suíço Erich von Däniken sugeriu, em seu best-seller Chariots of the Gods? (1968), que as linhas eram pistas de pouso ou sinais para visitantes extraterrestres. Os arqueólogos rejeitam completamente essa ideia. As linhas são sulcos rasos em cascalho solto, impróprios para qualquer aeronave; é possível reproduzir sua criação com ferramentas simples; e elas estão claramente ligadas à arte, à cerâmica e à religião dos povos locais.
Outras teorias populares afirmam que os nazcas voavam em balões de ar quente para supervisionar o trabalho. Também não há evidências arqueológicas disso. Muitas figuras podem ser vistas dos morros ao redor, e as figuras das encostas de Palpa foram feitas para ser vistas do fundo do vale.
Esses mitos também trazem um problema: muitas vezes partem da ideia de que os antigos povos das Américas não seriam capazes de planejar obras assim por conta própria. As pesquisas atuais destacam que as linhas são uma realização impressionante dos conhecimentos, da organização e da imaginação religiosa dos povos indígenas andinos.
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Redescoberta e pesquisas no século XX
Os moradores da região sempre conheceram as linhas, e viajantes as atravessaram durante séculos. Elas se tornaram objeto de estudo científico no século XX. Em 1927, o arqueólogo peruano Toribio Mejía Xesspe as observou enquanto caminhava pelos morros próximos e, mais tarde, interpretou-as como caminhos sagrados. Os voos comerciais sobre a região, iniciados no fim da década de 1920, tornaram os desenhos mais conhecidos.
Paul Kosok estudou as linhas em 1940 e 1941. Maria Reiche (1903–1998) começou a trabalhar com ele em 1941 e continuou por mais de cinquenta anos, medindo e mapeando as figuras, limpando-as e defendendo sua proteção. Ela publicou The Mystery on the Desert em 1949 e usou a renda do livro para apoiar a conservação, convencendo as autoridades peruanas a restringir o acesso. Viveu por muitos anos perto da pampa, e sua antiga casa hoje é um museu.
A partir da década de 1980, arqueólogos e astrônomos como Anthony Aveni, Helaine Silverman e Johan Reinhard voltaram sua atenção da astronomia para as caminhadas, os rituais, a água e a organização social. Um projeto alemão-peruano liderado por Markus Reindel e Johny Isla realizou pesquisas de longa duração na região de Palpa, documentando centenas de geoglifos e escavando estruturas nas extremidades de algumas linhas.
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Novas descobertas com drones e inteligência artificial
As pesquisas continuaram depois da descoberta das figuras famosas. Desde meados da década de 2000, uma equipe da Universidade de Yamagata, no Japão, liderada por Masato Sakai, vem examinando a pampa sistematicamente. A equipe anunciou cerca de cem novos geoglifos entre 2006 e 2012 e, em 2019, apresentou mais 143, um deles encontrado com a ajuda de aprendizado de máquina. Em 2020, uma grande figura parecida com um gato foi revelada em uma encosta íngreme durante obras de melhoria de uma plataforma de observação.
Em 2024, a equipe de Yamagata publicou, em colaboração com pesquisadores da IBM, um estudo que apresentou 303 geoglifos figurativos até então desconhecidos. Eles foram encontrados em cerca de seis meses de trabalho de campo, orientado por um modelo de inteligência artificial que examinou imagens aéreas de alta resolução em busca de possíveis figuras. Isso quase dobrou o número de geoglifos figurativos conhecidos na região. As novas descobertas incluíam papagaios, gatos, macacos, orcas e cenas que parecem mostrar cabeças decapitadas e animais domesticados.
Essas descobertas confirmaram uma distinção importante. As figuras do tipo linha, grandes desenhos de contorno na pampa, geralmente mostram animais selvagens e parecem ligadas a atividades rituais. As figuras do tipo relevo são feitas retirando pedras do interior de uma forma, em vez de apenas traçar seu contorno. Elas são muito menores, frequentemente com menos de 10 m, e ficam ao lado de antigos caminhos, onde podiam ser vistas por quem passava. Os pesquisadores sugerem que as pequenas figuras em relevo transmitiam informações ou mensagens aos viajantes, enquanto as grandes figuras traçadas com linhas eram espaços rituais usados pelas comunidades.
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Ameaças e conservação
As linhas sobreviveram por dois mil anos, em grande parte, porque ninguém as perturbou. A vida moderna oferece muito mais riscos. A Rodovia Pan-Americana, construída através da pampa na década de 1930, corta a figura do lagarto. Marcas de pneus de carros e motocicletas podem durar tanto quanto as próprias linhas. Ocupações, mineração informal, extração de pedra e agricultura avançam sobre as bordas da área protegida.
Houve vários incidentes de grande repercussão. Em dezembro de 2014, ativistas do Greenpeace entraram na área ao lado do beija-flor para formar uma mensagem destinada a uma conferência sobre o clima em Lima e deixaram pegadas na superfície frágil; a organização pediu desculpas. Em 2018, um caminhoneiro saiu da rodovia e deixou marcas profundas de pneus sobre partes de três geoglifos. Veículos usados fora de estrada em competições também danificaram geoglifos fora da área central.
O Ministério da Cultura do Peru administra o local, com acesso restrito, vigilantes, uma torre de observação à beira da estrada e voos em pequenos aviões para visitantes. As mudanças climáticas são outra preocupação: chuvas excepcionalmente fortes, como as provocadas por episódios intensos de El Niño, podem cobrir as linhas com sedimentos ou causar erosão.
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Debates acadêmicos: datação, função e a questão da “vista do alto”
Datação. É difícil datar geoglifos porque são feitos pela remoção de material, e não por seu acréscimo. Os arqueólogos dependem principalmente de evidências indiretas: o estilo das figuras comparado ao de cerâmicas e tecidos paracas e nazcas já datados; fragmentos de cerâmica encontrados sobre as linhas ou ao lado delas, que podem ser associados a fases da produção de cerâmica; a escavação de estruturas de pedra, oferendas e buracos de postes nas extremidades das linhas; e, em alguns estudos, métodos científicos como a datação por luminescência de superfícies soterradas ou a datação por radiocarbono de material orgânico associado. A cronologia resultante é ampla: as figuras das encostas de Palpa são, em sua maioria, paracas; muitos biomorfos da pampa são do início do período nazca; e muitas linhas retas e trapézios parecem ser dos períodos nazca médio e tardio, embora linhas específicas tenham sido reutilizadas e modificadas ao longo do tempo.
Para ver ou percorrer? As primeiras pesquisas, influenciadas pela fotografia aérea, presumiam que as figuras haviam sido feitas para ser vistas do céu, por deuses, se não por pessoas. Desde a década de 1980, a ênfase passou para as caminhadas e o uso no solo: figuras feitas com uma única linha, caminhos gastos nas superfícies das linhas, oferendas de cerâmica e a concentração de linhas perto de locais com água e espaços de reunião. O estudo de 2024 sobre figuras do tipo relevo ao longo de trilhas acrescenta uma terceira perspectiva: alguns geoglifos foram feitos para ser vistos de perto por quem passava. Hoje, muitos estudiosos evitam um modelo único e descrevem uma paisagem usada de diferentes maneiras por diversos grupos ao longo do tempo.
Organização social. Uma questão central é quem fez e manteve as linhas. Como os nazcas não tinham uma capital única, os geoglifos podem ter sido produzidos por muitas comunidades pequenas ou grupos de parentesco — unidades semelhantes aos ayllus, na terminologia andina posterior —, cada um responsável por suas próprias linhas. Essa interpretação, associada especialmente a Silverman e Aveni, vê as linhas como um registro de relações sociais, e não como parte de um único grande plano. Críticos observam que a comparação com instituições andinas posteriores, como o sistema inca de ceques, linhas que partiam de Cusco, é sugestiva, mas não pode ser comprovada para uma sociedade de mil anos antes.
A astronomia revista. A rejeição estatística da teoria do calendário de Reiche é amplamente aceita, mas alguns pesquisadores continuam a defender alinhamentos específicos ou relações entre as figuras e as regiões escuras da Via Láctea, reconhecidas por povos andinos como “constelações de nuvens escuras”. Essas propostas continuam minoritárias porque são difíceis de testar.
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Evidências e métodos
Mapeamento. Da década de 1940 à de 1990, as linhas foram mapeadas por meio de levantamentos em campo, trenas e fotografias aéreas. Hoje, os pesquisadores usam imagens de satélite, drones, fotogrametria e varredura a laser aérea (lidar), que podem revelar geoglifos pouco visíveis ou parcialmente apagados e medir sua profundidade e seu perfil. O levantamento recente com auxílio de inteligência artificial mostra como o aprendizado de máquina pode reduzir a área de busca, embora cada possível figura ainda precise ser verificada no terreno.
Escavações. Escavações nas extremidades das linhas e dentro dos trapézios, especialmente na região de Palpa, revelaram pequenas plataformas de pedra, buracos de postes e oferendas como cerâmicas, produtos agrícolas e conchas marinhas. Essas descobertas sustentam a ideia de que os geoglifos eram locais de práticas rituais. As escavações em Cahuachi revelaram arquitetura cerimonial, oferendas e sepultamentos que ajudam a situar a pampa em seu contexto religioso.
Ambiente. Estudos do clima antigo a partir de sedimentos dos rios e pólen sugerem que os nazcas viveram em uma paisagem que se tornou mais seca com o tempo. Alguns pesquisadores relacionam o declínio da cultura nazca, por volta de 500 a 750 d.C., a uma combinação de secas, inundações causadas por episódios de El Niño e desmatamento das árvores nativas huarango (Prosopis), que deixou as terras agrícolas expostas à erosão. Essas mudanças ambientais podem ajudar a explicar a grande importância da água nos rituais.
Limites das evidências. Os nazcas não deixaram registros escritos, portanto não há um texto que explique as linhas. Toda interpretação depende da arqueologia, de comparações com culturas andinas posteriores documentadas após a conquista espanhola e do estudo cuidadoso dos próprios geoglifos. Por isso, a cautela e a disposição para considerar várias hipóteses ao mesmo tempo caracterizam as boas pesquisas sobre os nazcas.
Ideias principais
- Geoglifo
- Um grande desenho feito no solo pela retirada de material da superfície, como em Nazca, ou pela disposição de pedras; as Linhas de Nazca são os exemplos mais famosos.
- Paisagem sagrada
- A ideia de que as linhas, o centro cerimonial de Cahuachi, os rios e as montanhas formavam um único espaço religioso, em vez de monumentos separados.
- Água e fertilidade
- Em um dos lugares mais secos da Terra, muitas linhas parecem ligadas a rituais para pedir água e boas colheitas.
- Percorrer as linhas
- Figuras de linha contínua, caminhos gastos e oferendas de cerâmica sugerem que os geoglifos eram percorridos em cerimônias, além de vistos do alto.
- Trabalho comunitário
- As linhas foram feitas com ferramentas simples por muitas pessoas ao longo de séculos, possivelmente por diferentes grupos de parentesco ou comunidades, cada um responsável por suas próprias linhas.
- Figuras de linha e de relevo
- Grandes figuras de contorno na pampa parecem ligadas a rituais; pequenas figuras em relevo ao lado de caminhos parecem ter sido feitas para ser vistas pelos viajantes.
- Fragilidade
- Linhas que sobreviveram por dois mil anos podem ser destruídas por um veículo em poucos minutos; sua conservação depende de impedir a circulação de pessoas sobre a superfície.
Registros
- c. 400 a.C. — Comunidades paracas começam a fazer geoglifos, muitos deles nas encostas perto de Palpa (fase paracas, aproximadamente de 400 a 200 a.C.).
- c. 100 a.C. — A cultura nazca surge da tradição paracas na costa sul do Peru.
- c. 1 d.C. — Cahuachi se torna o principal centro cerimonial do vale de Nazca (usado até cerca de 500 d.C.).
- c. 500 d.C. — O principal período de criação de linhas na pampa chega ao fim.
- c. 750 d.C. — A cultura nazca entra em declínio em meio a secas, inundações e desmatamento; cresce a influência dos waris, povo das terras altas.
- 1927 — O arqueólogo peruano Toribio Mejía Xesspe estuda as linhas e as interpreta como caminhos sagrados.
- 1941 — Paul Kosok observa um alinhamento com o solstício; Maria Reiche inicia décadas de trabalho com as linhas.
- 1949 — Maria Reiche publica The Mystery on the Desert.
- 1968 — Chariots of the Gods?, de Erich von Däniken, populariza um mito sobre “antigos astronautas” rejeitado pelos arqueólogos.
- 1994 — As linhas e os geoglifos são inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
- 2014 — Ativistas do Greenpeace danificam o terreno ao lado da figura do beija-flor.
- 2024 — A Universidade de Yamagata e a IBM anunciam 303 novos geoglifos figurativos encontrados com o auxílio de inteligência artificial.
Glossário
- Geoglifo
- Grande desenho ou motivo feito no solo.
- Pampa
- Planície plana e aberta; em Nazca, os planaltos pedregosos do deserto entre os vales dos rios.
- Biomorfo
- Figura com a forma de um ser vivo, como um animal ou uma planta.
- Trapézio
- Figura de quatro lados com um par de lados paralelos; alguns trapézios de Nazca têm centenas de metros de comprimento.
- Centro de linhas (centro radial)
- Colina baixa ou monte de onde partem várias linhas retas, como os raios de uma roda.
- Óxido de ferro
- Composto semelhante à ferrugem que dá às pedras do deserto sua superfície escura e castanho-avermelhada.
- Cahuachi
- Centro cerimonial de adobe no vale de Nazca, usado aproximadamente de 1 a 500 d.C., onde as pessoas se reuniam para festividades.
- Puquio
- Canal subterrâneo de água com poços de acesso em espiral encontrado na região de Nazca; sua data de construção é debatida.
- Cultura paracas
- Cultura anterior à nazca na costa sul do Peru, conhecida por seus tecidos e primeiros geoglifos.
- Arqueoastronomia
- Estudo de como os povos antigos compreendiam e utilizavam o céu, incluindo possíveis alinhamentos de monumentos.
Perguntas e respostas
Quem fez as Linhas de Nazca?
Povos indígenas do sul do Peru: primeiro os da cultura paracas e, depois, principalmente os da cultura nazca, ao longo de cerca de mil anos.
Como eles conseguiram desenhar figuras tão grandes sem vê-las do céu?
Com planejamento e ferramentas simples. Estacas de madeira, cordas, grades medidas e trabalho em equipe são suficientes; experimentos atuais reproduziram grandes figuras em poucos dias.
As linhas foram feitas por extraterrestres?
Não. Não há evidências disso, e as linhas estão claramente ligadas à arte e à religião locais. A ideia dos extraterrestres também supõe, de forma equivocada, que os antigos peruanos não eram capazes de planejar essas obras.
Por que as linhas não desapareceram?
A pampa é extremamente seca, quase não recebe chuva e fica protegida de ventos fortes junto ao solo. Por isso, uma linha aberta há muito tempo pode permanecer visível por séculos se ninguém a perturbar.
Posso caminhar sobre as Linhas de Nazca?
Não. Caminhar ou dirigir sobre elas causa danos duradouros. Os visitantes as observam de uma torre à beira da estrada, dos morros próximos ou de pequenos aviões.
As linhas eram um calendário astronômico?
Maria Reiche pensava que sim, mas estudos estatísticos de Gerald Hawkins e Anthony Aveni não encontraram mais alinhamentos astronômicos do que seria esperado pelo acaso. Alguns alinhamentos específicos ainda podem ter sido importantes.
Como os arqueólogos datam algo feito pela retirada de pedras?
Principalmente de forma indireta: por fragmentos de cerâmica deixados nas linhas, pela comparação do estilo das figuras com cerâmicas datadas, por oferendas escavadas nas extremidades das linhas e, às vezes, por métodos científicos de datação de materiais associados.
Ainda estão sendo descobertas novas linhas?
Sim. Drones, lidar e análises de imagens com auxílio de inteligência artificial revelaram centenas de novas figuras desde 2019, especialmente pequenas figuras em relevo ao lado de antigos caminhos.
Fontes e leituras adicionais
- Lines and Geoglyphs of Nasca and Palpa. UNESCO World Heritage Centre
- Nazca Lines. Wikipedia
- 나스카 라인. 위키백과
- Nazca culture. Wikipedia
- Paracas culture. Wikipedia
- Cahuachi. Wikipedia
- Puquios. Wikipedia
- Maria Reiche. Wikipedia
- Anthony F. Aveni, Between the Lines: The Mystery of the Giant Ground Drawings of Ancient Nasca, Peru. University of Texas Press, 2000
- Helaine Silverman and Donald A. Proulx, The Nasca. Blackwell, 2002
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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
