Patrimônio

Biblioteca de Alexandria

Βιβλιοθήκη τῆς Ἀλεξανδρείας

c. 285–48 a.C. · Alexandria

Em uma frase

A Biblioteca de Alexandria foi uma enorme coleção real de livros no Egito antigo, onde estudiosos de muitas regiões se reuniam, há mais de 2.200 anos, para reunir, copiar e estudar tudo o que havia sido escrito.

Biblioteca de Alexandria
Imagem: O. Von Corven · Public domain · Wikimedia Commons

Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.

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Para jovens leitores

Há muito tempo, uma família de reis que falava grego, chamada Ptolomeus, governava o Egito a partir de uma nova cidade à beira-mar: Alexandria. Eles queriam que sua cidade fosse o lugar com mais conhecimento do mundo. Por isso, decidiram reunir todos os livros que conseguissem encontrar.

Naquela época, os livros eram diferentes dos nossos. Eram rolos compridos de papiro, um material feito de uma planta que cresce perto do rio Nilo. Um livro longo podia ocupar vários rolos, que a biblioteca guardava em prateleiras ou armários.

Os reis pagavam estudiosos para morar perto da biblioteca. Eles recebiam comida, dinheiro e tempo para pensar. Faziam listas de livros, corrigiam erros em poemas antigos, calculavam o tamanho da Terra e estudavam as estrelas e o corpo humano.

Uma história conta que, quando navios chegavam ao porto de Alexandria, homens do rei pegavam os livros que encontravam a bordo e faziam cópias. Às vezes, ficavam com os originais e entregavam as cópias aos donos! Essa história pode ser exagerada, mas mostra como os reis queriam ter livros.

Muita gente pensa que a biblioteca desapareceu em um único grande incêndio. A história é mais complicada. Ela sofreu danos mais de uma vez e foi desaparecendo aos poucos, ao longo de centenas de anos, quando faltaram dinheiro, paz e estudiosos. Hoje, uma nova biblioteca, a Bibliotheca Alexandrina, fica na mesma cidade para lembrar a antiga.

Em resumo

Fundação
Início do século III a.C., provavelmente sob Ptolomeu II Filadelfo (reinou de 283 a 246 a.C.); Ptolomeu I pode tê-la planejado
Localização
Bairro real (Brúquion) de Alexandria, no Egito, como parte do Museu; localização exata desconhecida
Governantes e patrocinadores
A dinastia ptolemaica, formada por reis greco-macedônios do Egito
Acervo
Rolos de papiro; números citados na Antiguidade variam de cerca de 40 mil a 700 mil e não podem ser verificados
Estudiosos famosos
Zenódoto, Calímaco, Apolônio de Rodes, Eratóstenes, Aristófanes de Bizâncio e Aristarco de Samotrácia
Biblioteca secundária
Uma segunda coleção no Serapeu, templo de Serápis, desde o reinado de Ptolomeu III
Fim
Declínio gradual; sofreu danos em 48 a.C. e provavelmente foi destruída nos conflitos da década de 270 d.C.; o Serapeu foi demolido em 391 d.C.
Legado
Modelo para bibliotecas posteriores e para a edição erudita de textos; lembrada simbolicamente pela Bibliotheca Alexandrina (2002)

Fácil

O que foi a Biblioteca de Alexandria?

A Biblioteca de Alexandria foi a biblioteca real dos Ptolomeus, dinastia greco-macedônia que governou o Egito após a morte de Alexandre, o Grande. Ficava em Alexandria, cidade portuária fundada por Alexandre na costa mediterrânea do Egito em 331 a.C. e transformada em capital pelos Ptolomeus.

A biblioteca não era um prédio isolado como uma biblioteca pública moderna. Fazia parte de uma instituição real maior chamada Museu, o “santuário das Musas”, deusas das artes e do conhecimento. A palavra museu vem desse nome. O Museu abrigava uma comunidade de estudiosos pagos pelo rei, que faziam refeições juntos e realizavam pesquisas. A biblioteca era seu instrumento mais importante.

Seu objetivo era extraordinário para a época: reunir cópias de todos os livros em grego e, segundo relatos posteriores, também de obras importantes de outros povos. Ninguém sabe quantos rolos ela realmente possuía, mas certamente era a maior coleção do mundo grego. Seus estudiosos influenciaram por séculos a maneira de estudar a literatura e a ciência gregas.

Pouco se sabe com certeza sobre a biblioteca. Não sobreviveu nenhuma descrição antiga detalhada, nenhum edifício foi identificado com segurança pelos arqueólogos, e muitas histórias famosas sobre ela foram registradas séculos depois. Estudar a Biblioteca de Alexandria, portanto, também significa aprender como os historiadores distinguem as provas das lendas.

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Fácil

Como funcionava? Rolos, prateleiras e a busca por livros

Na Antiguidade, os livros eram escritos à mão em papiro, um material de escrita feito com tiras de uma planta que crescia em abundância às margens do Nilo. As folhas eram coladas para formar rolos compridos. Uma obra longa, como a Ilíada de Homero, ocupava muitos rolos. Dividir um texto em “livros”, cada um cabendo em um rolo, fazia parte do trabalho dos bibliotecários. O controle do Egito sobre a produção de papiro dava a Alexandria uma grande vantagem.

Os Ptolomeus compravam livros de maneira intensa. Segundo relatos, agentes reais visitavam mercados de livros em cidades como Atenas e Rodes. O médico Galeno, escrevendo no século II d.C., relata que, por ordem real, livros encontrados em navios que chegavam a Alexandria eram recolhidos e copiados. A biblioteca ficava com os originais, identificados como “vindos dos navios”. Ele também conta que Ptolomeu III tomou emprestadas as cópias oficiais atenienses das peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, mediante um depósito de quinze talentos. Depois, ficou com os originais e devolveu cópias, abrindo mão do depósito.

As cópias mais antigas eram valorizadas porque os estudiosos acreditavam que estavam mais próximas do texto escrito pelo autor. Para os poemas de Homero, a biblioteca adquiriu muitas cópias de cidades diferentes e identificou a origem de cada uma para poder compará-las.

Para encontrar qualquer obra em uma coleção desse tamanho, era preciso organizar os livros. Zenódoto, o primeiro bibliotecário-chefe conhecido, parece ter ordenado as obras alfabeticamente pela primeira letra do nome do autor. Já o poeta e estudioso Calímaco compilou os Pinakes (“Tábuas”), um catálogo em 120 livros que agrupava autores por gênero e trazia breves biografias e listas de obras. Ele é frequentemente chamado de primeiro catálogo de biblioteca desse tipo.

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Fácil

Os estudiosos do Museu

Segundo o geógrafo Estrabão, que visitou Alexandria por volta de 20 a.C., os estudiosos do Museu viviam em comunidade. Tinham um refeitório compartilhado, uma passagem coberta para caminhar e conversar e, à frente da instituição, um sacerdote nomeado pelo rei. Recebiam salários e alimentação gratuita. O satirista Tímon de Fliunte zombou deles como “ratos de biblioteca” bem alimentados que discutiam na “gaiola das Musas”.

O bibliotecário-chefe era um estudioso nomeado pelo rei e, muitas vezes, também professor do herdeiro do trono. A lista tradicional inclui Zenódoto de Éfeso, que preparou uma edição de Homero; Apolônio de Rodes, autor do poema épico Argonáuticas; Eratóstenes de Cirene, que estimou a circunferência da Terra comparando o ângulo dos raios solares em dois lugares do Egito; Aristófanes de Bizâncio, que ajudou a desenvolver sinais de acentuação do grego e formas de apresentar os versos; e Aristarco de Samotrácia, o crítico antigo de Homero mais admirado.

Matemáticos, astrônomos e médicos também trabalharam em Alexandria nesse período. O médico Herófilo realizou ali estudos de anatomia humana, incluindo dissecações, e, segundo a tradição, Euclides ensinou na cidade. A ligação exata deles com a biblioteca muitas vezes é incerta, mas a coleção e o patrocínio reais fizeram de Alexandria o principal centro do saber grego nos séculos III e II a.C.

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Intermediário

A fundação: reis, filósofos e a política do conhecimento

Depois que Alexandre morreu, em 323 a.C., seus generais dividiram o império. Ptolomeu, filho de Lago, ficou com o Egito e, em 305 a.C., proclamou-se rei, com o nome de Ptolomeu I Sóter. Como os outros reis helenísticos, governava uma população majoritariamente não grega e disputava prestígio com cortes gregas rivais. O patrocínio da cultura fazia parte do poder real: uma grande biblioteca demonstrava riqueza, atraía pessoas talentosas e permitia que a dinastia se apresentasse como herdeira da civilização grega.

O relato mais antigo que chegou até nós sobre a fundação está na Carta de Aristeias, um texto judaico em grego provavelmente escrito no século II a.C. Ele descreve Demétrio de Falero, estadista ateniense e discípulo da escola de Aristóteles, aconselhando o rei a reunir todos os livros do mundo. Também conta como 72 anciãos judeus traduziram a Lei hebraica para o grego para a biblioteca, uma narrativa sobre a origem da Septuaginta. A Carta não é uma fonte histórica confiável: foi escrita muito tempo depois para exaltar a tradução e confunde os reinados.

A maioria dos historiadores atuais considera que Ptolomeu I pode ter começado a reunir livros e a planejar a instituição, talvez com conselhos de Demétrio, mas que a biblioteca e o Museu passaram a funcionar sob seu filho Ptolomeu II Filadelfo (reinou de 283 a 246 a.C.). A escola de Aristóteles em Atenas, o Liceu, provavelmente foi um modelo importante, com sua própria coleção de livros e seu interesse em organizar todo o conhecimento.

A biblioteca também teve predecessoras no Oriente Próximo, como as grandes coleções de tabuletas dos reis assírios em Nínive. Não se sabe se os Ptolomeus as imitaram conscientemente, mas a ideia de um rei reunir o conhecimento do mundo não era nova. A novidade estava na escala da coleção e na comunidade de estudiosos pagos ligada a ela.

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Intermediário

Onde ficava e qual era sua aparência?

A biblioteca ficava no Brúquion, o bairro dos palácios da antiga Alexandria, perto do porto oriental. A descrição que Estrabão fez do Museu menciona uma passagem para caminhadas (perípato), uma sala com assentos (exedra) e um grande edifício com o refeitório comum dos estudiosos, mas não descreve a biblioteca em si. Autores posteriores imaginaram salões grandiosos, porém nenhum texto antigo preservado fornece uma planta do edifício.

As bibliotecas antigas costumavam guardar rolos em armários de madeira ou nichos nas paredes de salas voltadas para áreas com colunas. Os leitores levavam os rolos para lugares iluminados. É razoável imaginar algo parecido em Alexandria, mas isso é uma dedução baseada em outros locais, como a biblioteca de Pérgamo, e não uma descrição da biblioteca alexandrina.

A arqueologia não resolveu a questão. O antigo bairro real está sob a cidade moderna e parcialmente sob o mar, pois o litoral afundou desde a Antiguidade. Escavações de uma missão polonesa em Kom el-Dikka revelaram um conjunto de salas de aula da Antiguidade Tardia, mostrando que Alexandria continuou sendo um lugar de ensino. Essas salas, porém, são de séculos posteriores à biblioteca ptolemaica. No local do Serapeu, algumas salas foram apontadas como possíveis depósitos da biblioteca secundária, mas isso continua incerto.

Por isso, é preciso ter cautela com reconstruções, pinturas e filmes. São representações baseadas em hipóteses. A resposta mais honesta à pergunta “qual era sua aparência?” é que não sabemos.

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Intermediário

O que havia no acervo e qual era seu tamanho?

O núcleo da coleção era a literatura grega: poemas épicos, teatro, poesia lírica, história, filosofia, medicina, matemática e astronomia. Os estudiosos trabalharam especialmente com Homero, os dramaturgos e os poetas líricos, estabelecendo textos que foram copiados em todo o mundo grego e, mais tarde, no mundo romano. Muitos textos clássicos gregos que sobreviveram até hoje descendem de edições e comentários feitos por estudiosos alexandrinos.

Obras não gregas também despertavam interesse. Além da tradução grega das escrituras hebraicas relatada pela Carta de Aristeias, o sacerdote egípcio Manetão escreveu uma história do Egito em grego sob os primeiros Ptolomeus, e o sacerdote babilônico Beroso fez o mesmo com a Babilônia na corte selêucida. Não se sabe quanta literatura em egípcio ou em outras línguas a biblioteca realmente possuía.

Os números são um problema conhecido. Autores antigos e bizantinos mencionam de 40 mil a 700 mil rolos: o escritor posterior Aulo Gélio afirma que 700 mil foram queimados, e o estudioso bizantino João Tzetzes, do século XII, apresenta números separados para a biblioteca do palácio e a coleção do Serapeu. Como uma única obra podia ocupar muitos rolos e esses números foram registrados muito tempo depois, não podem ser tratados como contagens. Muitos historiadores consideram plausível uma coleção de dezenas de milhares ou de pouco mais de cem mil rolos.

Alexandria tinha uma rival. Os reis atálidas de Pérgamo, na Ásia Menor, construíram sua própria grande biblioteca no século II a.C. O escritor romano Plínio, citando Varrão, relata que os Ptolomeus interromperam a exportação de papiro e que Pérgamo, por isso, desenvolveu o pergaminho, palavra derivada do nome da cidade. Na verdade, o pergaminho já era usado antes. Assim, a história é, no máximo, uma simplificação, mas reflete uma competição real entre bibliotecas reais.

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Intermediário

Declínio e destruição: muitos golpes ao longo do tempo

O primeiro golpe grave foi político. Em 145 a.C., depois de tomar o poder, Ptolomeu VIII perseguiu seus opositores, e alguns estudiosos fugiram. O bibliotecário-chefe Aristarco foi para Chipre, e alunos como Dionísio Trácio passaram a ensinar em outros lugares. A partir de então, o cargo de bibliotecário-chefe às vezes foi entregue a membros da corte em vez de estudiosos, e Alexandria perdeu parte de seu papel de destaque.

Em 48 a.C., Júlio César, cercado em Alexandria durante a guerra civil entre Cleópatra e seu irmão Ptolomeu XIII, incendiou navios no porto. O fogo se espalhou para edifícios próximos às docas. Autores posteriores divergem sobre o que queimou: Sêneca, citando Lívio, fala em 40 mil livros; Plutarco diz que o incêndio destruiu “a grande biblioteca”; Dião Cássio menciona armazéns de grãos e livros perto das docas. Muitos historiadores concluem que livros armazenados perto do porto se perderam, mas que a biblioteca sobreviveu como instituição, pois Estrabão visitou o Museu cerca de duas décadas depois e estudiosos continuaram trabalhando em Alexandria.

Sob o domínio romano, o Museu continuou a existir, mas os imperadores às vezes concediam a condição de membro, como honraria, a pessoas que não eram estudiosas. As últimas referências conhecidas a membros do Museu datam da década de 260 d.C. Em 272 d.C., o imperador Aureliano retomou Alexandria das forças da rainha Zenóbia de Palmira, e os combates devastaram o Brúquion. O cerco de Diocleciano, em 297–298, causou mais destruição. O que restava da biblioteca principal provavelmente não sobreviveu a essas guerras.

O Serapeu, grande templo de Serápis que abrigava uma biblioteca secundária desde Ptolomeu III, durou mais tempo. Em 391 d.C., após leis imperiais contra os cultos pagãos e confrontos violentos entre pagãos e cristãos na cidade, o templo foi demolido sob a autoridade do bispo Teófilo. Não está claro se ainda abrigava uma biblioteca importante nessa época. As fontes que descrevem sua destruição se concentram no templo e na estátua da divindade.

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Intermediário

Mitos sobre o fim da biblioteca

Como a biblioteca se tornou um símbolo de todo o conhecimento perdido, seu fim muitas vezes foi narrado como um único crime dramático. Em épocas diferentes, a culpa foi atribuída a César, aos cristãos ou aos muçulmanos.

A história mais famosa culpa a conquista árabe. Alexandria se rendeu ao exército de Amr ibn al-As em 641–642 d.C. Autores de cerca de 1200 e de épocas posteriores, entre eles Abd al-Latif al-Baghdadi, Ibn al-Qifti e Bar Hebraeus, contam que o califa Omar mandou destruir os livros. Segundo o relato, ele teria dito que, se concordassem com o Alcorão, seriam desnecessários e, se discordassem, seriam prejudiciais. Os livros teriam alimentado as fornalhas dos banhos públicos da cidade por seis meses. Nenhuma fonte próxima à época da conquista menciona isso. A maioria dos historiadores, desde Edward Gibbon no século XVIII, considera a história uma lenda. Alguns sugerem que ela surgiu no período aiúbida, quando a biblioteca do palácio fatímida no Cairo foi desmembrada e vendida.

Outro mito moderno liga a biblioteca a Hipátia, matemática e filósofa morta por uma multidão cristã em 415 d.C. Seu assassinato foi real e terrível, mas ela ensinava em sua própria escola. Não há indícios de que fosse bibliotecária ou de que a biblioteca ptolemaica ainda existisse em sua época. Essa associação foi popularizada em obras modernas, especialmente na série de televisão Cosmos (1980), de Carl Sagan.

Hoje, os historiadores preferem uma explicação menos dramática e mais bem fundamentada: a biblioteca entrou em declínio ao longo de séculos devido à perda do patrocínio real, à violência política, aos danos causados por guerras e à lenta deterioração do papiro, que precisa ser copiado novamente para sobreviver. O conhecimento se perdeu não apenas pelo fogo, mas também pela falta de cuidado.

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Intermediário

Legado: dos estudos alexandrinos à Bibliotheca Alexandrina

O maior legado da biblioteca é um método. Os estudiosos alexandrinos comparavam manuscritos, marcavam versos duvidosos com sinais críticos, escreviam comentários para explicar palavras e referências difíceis e produziam edições de referência. Esse trabalho está na origem da crítica textual e da filologia, que estudiosos posteriores aplicaram à Bíblia, aos clássicos latinos e, muito mais tarde, a textos em várias línguas.

Grande parte do que era estudado em Alexandria sobreviveu porque foi copiado em outros lugares: em bibliotecas romanas e bizantinas, em centros cristãos como Cesareia e por meio da tradução da ciência e da filosofia gregas para o siríaco e o árabe, sobretudo na Bagdá do século IX. A partir do século XII, muitas dessas obras chegaram à Europa latina. A perda da coleção de Alexandria foi real, mas a preservação do conhecimento antigo dependeu de muitas bibliotecas, não de uma só.

Na era moderna, a biblioteca se tornou um símbolo poderoso do conhecimento universal e de sua fragilidade diante da guerra e do descaso. O Egito, com o apoio da UNESCO e de muitos países, construiu a Bibliotheca Alexandrina perto da provável localização do antigo bairro real. Projetada pelo escritório norueguês Snøhetta, ela foi inaugurada em 2002 e funciona como biblioteca, complexo de museus e centro de pesquisa.

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Avançado

Debates acadêmicos e questões em aberto

Quem a fundou e quando? As fontes são tardias e têm pontos de vista próprios. A Carta de Aristeias e tradições posteriores atribuem a iniciativa a Ptolomeu I e Demétrio de Falero, enquanto outros registros antigos e historiadores modernos destacam Ptolomeu II. Como se diz que Demétrio perdeu o favor da corte quando Ptolomeu II chegou ao poder, seu papel como organizador é questionado, embora possa ter ajudado nas primeiras aquisições. A cronologia dos bibliotecários-chefes depende sobretudo de uma lista fragmentária em papiro (P.Oxy. 1241) e de obras de referência bizantinas, e apresenta contradições.

Qual era seu tamanho? Roger Bagnall argumentou que os números mais altos não são compatíveis com o que se sabe sobre a quantidade de autores e obras gregas existentes no século III a.C. e que os historiadores devem tratar os totais antigos como uma forma de exaltar a grandeza da biblioteca, não como dados. Outros consideram que uma grande coleção com várias cópias e edições poderia chegar a centenas de milhares de rolos. O debate diz respeito menos a um número exato do que à maneira de interpretar as estatísticas antigas.

O que o incêndio de César destruiu? Os relatos de Sêneca, que cita Lívio, Plutarco, Dião Cássio e outros diferem na redação e nos manuscritos que os preservaram. Alguns historiadores acreditam que a biblioteca principal queimou em 48 a.C. Outros, observando a continuidade do trabalho dos estudiosos e a visita de Estrabão, consideram que apenas os livros armazenados perto do porto se perderam. Há questões relacionadas ao período romano: se a biblioteca foi restaurada e como seu acervo se relacionava com outras coleções alexandrinas, como a do Serapeu e as bibliotecas ligadas a edifícios do culto imperial.

Qual era seu caráter intelectual? Alguns pesquisadores ressaltam o papel da biblioteca na propaganda e no controle exercido pela realeza, já que os estudiosos dependiam do rei e podiam ser expulsos. Outros destacam a originalidade da ciência e dos estudos alexandrinos. Pesquisas recentes também investigam como as culturas grega e egípcia interagiam na Alexandria ptolemaica e se a biblioteca “universal” era, na prática, predominantemente grega.

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Avançado

Fontes e métodos

Fontes literárias. As principais provas consistem em passagens dispersas: a Carta de Aristeias; a Geografia de Estrabão, que fala do Museu; os relatos de Galeno sobre a aquisição de livros; os textos de Sêneca, Plutarco, Aulo Gélio, Dião Cássio e Amiano Marcelino sobre a destruição; autores bizantinos como Tzetzes; e escritores árabes de uma época muito posterior. A maioria escreveu séculos depois dos acontecimentos e tinha objetivos morais ou retóricos. Por isso, cada texto deve ser lido levando em conta sua data, seu gênero e suas intenções.

Indícios indiretos dos estudos antigos. O trabalho dos estudiosos alexandrinos sobrevive de forma indireta, sobretudo nos escólios, notas à margem de manuscritos medievais de Homero e de outros poetas. Essas notas citam as interpretações de Zenódoto, Aristófanes e Aristarco. Papiros encontrados no Egito, especialmente em Oxirrinco, mostram quais textos circulavam nas cidades egípcias de língua grega e às vezes preservam sinais usados pelos editores alexandrinos.

Arqueologia. A disposição da antiga Alexandria é reconstruída com base em escavações limitadas numa cidade moderna densamente ocupada, em pesquisas subaquáticas nos portos e em descrições como a de Estrabão. Nenhuma estrutura escavada foi identificada com segurança como a biblioteca ptolemaica. Por isso, as afirmações sobre sua arquitetura continuam sendo hipóteses.

Historiografia. Desde o Renascimento, a biblioteca tem sido usada como símbolo em debates sobre religião, impérios e civilização. Assim, contar sua história também exige estudar como ela foi lembrada. Investigar quem contou cada narrativa sobre sua destruição, e por quê, faz parte da análise das fontes.

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Ideias principais

Biblioteca universal
A ambição dos Ptolomeus de reunir em um só lugar cópias de todo o conhecimento escrito, ao menos de toda a literatura grega.
Museu
A instituição real dedicada às Musas à qual a biblioteca pertencia: uma comunidade de estudiosos assalariados, sustentada pelo rei.
Patrocínio real
A produção do conhecimento dependia do dinheiro e do apoio do rei; quando esse apoio faltava ou se tornava hostil, os estudos sofriam.
Crítica textual
Comparação de manuscritos para estabelecer o texto mais confiável, método desenvolvido por estudiosos alexandrinos e usado até hoje.
Catalogação
Organização de uma grande coleção por autor, gênero e ordem alfabética, como nos Pinakes de Calímaco.
Declínio gradual
A biblioteca desapareceu aos poucos, em meio a perseguições políticas, danos de guerra, perda de recursos e deterioração do papiro, em vez de acabar em um único incêndio.
Símbolo do conhecimento perdido
Desde a Antiguidade, a biblioteca é usada como símbolo, e sua história foi recontada para culpar diferentes grupos.

Registros

  1. 331 a.C. — Alexandre, o Grande, funda Alexandria na costa do Egito (331 a.C.).
  2. 305 a.C. — Ptolomeu I assume o título de rei do Egito (305 a.C.).
  3. c. 295 a.C. — Demétrio de Falero chega a Alexandria e, segundo a tradição, aconselha Ptolomeu I a reunir livros.
  4. 283 a.C. — Ptolomeu II Filadelfo torna-se o único governante (283 a.C.); a biblioteca e o Museu provavelmente tomam forma durante seu reinado.
  5. c. 246 a.C. — Sob Ptolomeu III, uma biblioteca secundária é estabelecida no Serapeu; Eratóstenes torna-se bibliotecário-chefe por volta dessa época.
  6. 145 a.C. — Ptolomeu VIII persegue seus opositores; Aristarco e outros estudiosos deixam Alexandria (145 a.C.).
  7. 48 a.C. — Durante o cerco de Alexandria por César, um incêndio se espalha a partir do porto e destrói livros (48 a.C.).
  8. c. 20 a.C. — Estrabão visita Alexandria e descreve o Museu (por volta de 20 a.C.).
  9. 272 d.C. — A retomada de Alexandria por Aureliano devasta o bairro real, onde ficava a biblioteca.
  10. 391 d.C. — O Serapeu é demolido sob a autoridade do bispo Teófilo.
  11. 642 d.C. — Alexandria é tomada pelo exército árabe de Amr ibn al-As; fontes muito posteriores afirmam que o califa mandou queimar livros.
  12. 2002 — A Bibliotheca Alexandrina é inaugurada na Alexandria moderna.

Glossário

Papiro
Material de escrita feito com tiras da planta do papiro, coladas para formar folhas e rolos; era o principal material dos livros no Mediterrâneo antigo.
Rolo
Livro em forma de uma faixa comprida, lido à medida que era desenrolado de um lado para o outro.
Ptolomeus
Dinastia greco-macedônia que governou o Egito de 305 a 30 a.C. e terminou com Cleópatra VII.
Helenístico
Relativo ao período e à cultura dos reinos governados por gregos após as conquistas de Alexandre (323–31 a.C.).
Museu
Santuário das Musas; em Alexandria, a instituição real de pesquisa que incluía a biblioteca.
Serapeu
Templo do deus greco-egípcio Serápis em Alexandria, que abrigava uma biblioteca secundária.
Pinakes
Catálogo de autores gregos e suas obras elaborado por Calímaco em 120 livros, hoje perdido, exceto por fragmentos.
Escólios
Notas escritas nas margens de manuscritos, que muitas vezes preservam opiniões de estudiosos antigos.
Filologia
Estudo de textos e línguas, incluindo a edição de textos e a explicação de seu significado.
Septuaginta
Tradução grega da Bíblia hebraica, iniciada em Alexandria no século III a.C.

Perguntas e respostas

A Biblioteca de Alexandria foi destruída em um único grande incêndio?

Não. Um incêndio em 48 a.C. destruiu livros, mas a biblioteca provavelmente sobreviveu. Ela entrou em declínio ao longo de séculos e provavelmente foi destruída nas guerras da década de 270 d.C. Sua coleção secundária no Serapeu chegou ao fim quando o templo foi demolido em 391 d.C.

Quantos livros ela tinha?

Ninguém sabe. Autores antigos mencionam de 40 mil a 700 mil rolos, mas esses números foram registrados muito depois e não são confiáveis. Além disso, um único livro podia ocupar vários rolos.

Qualquer pessoa podia entrar e ler?

Era uma biblioteca real destinada aos estudiosos sustentados pelo rei, não uma biblioteca pública no sentido moderno. Não há registros que mostrem até que ponto pessoas de fora podiam usá-la.

Os muçulmanos destruíram a biblioteca em 642?

A maioria dos historiadores considera que não. A história aparece pela primeira vez em textos de cerca de 1200 e posteriores, mais de cinco séculos depois da conquista. A biblioteca principal provavelmente já havia desaparecido muito antes.

Hipátia foi a última bibliotecária?

Não. Hipátia foi uma respeitada filósofa e matemática assassinada em 415 d.C., mas não há provas de que tenha trabalhado na biblioteca, que provavelmente já não existia em sua época.

Os arqueólogos encontraram a biblioteca?

Não com segurança. O bairro real fica sob a Alexandria moderna e parcialmente sob o mar, e nenhum edifício escavado foi identificado com certeza como a biblioteca.

Por que os historiadores desconfiam de histórias famosas, como a dos livros retirados dos navios?

Elas foram contadas por autores de séculos posteriores, como Galeno, e servem para mostrar o interesse dos reis pelos livros. Podem refletir medidas reais, mas seus detalhes não podem ser verificados.

Fontes e leituras adicionais

  1. Library of Alexandria. Wikipedia
  2. Mouseion. Wikipedia
  3. Serapeum of Alexandria. Wikipedia
  4. Letter of Aristeas. Wikipedia
  5. Pinakes. Wikipedia
  6. Bibliotheca Alexandrina. Wikipedia
  7. Lionel Casson, Libraries in the Ancient World. Yale University Press, 2001
  8. P. M. Fraser, Ptolemaic Alexandria. Clarendon Press, Oxford, 1972
  9. Roger S. Bagnall, Alexandria: Library of Dreams. Proceedings of the American Philosophical Society, 2002
  10. Roy MacLeod (ed.), The Library of Alexandria: Centre of Learning in the Ancient World. I. B. Tauris, 2000

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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