Filosofia

Aristóteles

Ἀριστοτέλης (Aristotélēs)

384–322 a.C. · Atenas (Liceu)

Em uma frase

Aristóteles foi um pensador da Grécia Antiga que estudou quase tudo, dos animais e das estrelas à amizade, ao governo e à poesia. Suas ideias sobre como raciocinar e viver bem ainda são ensinadas no mundo inteiro.

Aristóteles
Imagem: After Lysippos · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há cerca de 2.400 anos, um menino chamado Aristóteles nasceu em uma pequena cidade chamada Estagira, no norte da Grécia. Seu pai era médico do rei da Macedônia. Aos dezessete anos, Aristóteles foi para a grande cidade de Atenas estudar na escola do famoso professor Platão. Ele ficou lá por vinte anos!

Aristóteles tinha curiosidade por tudo. Observava polvos e peixes perto do mar, abria ovos para ver como os pintinhos cresciam e anotava o que via. Fazia perguntas como: Por que as coisas acontecem? Do que tudo é feito? O que faz uma pessoa feliz? Ele queria organizar o mundo inteiro, como você pode organizar seus brinquedos por cor e tamanho.

Durante alguns anos, ele foi professor de um príncipe macedônio chamado Alexandre. O menino cresceu e se tornou Alexandre, o Grande, um rei que conquistou um império enorme. Mais tarde, Aristóteles voltou a Atenas e abriu sua própria escola, o Liceu. Ele e seus alunos gostavam de conversar enquanto caminhavam por um corredor coberto. Por isso, as pessoas os chamavam de “caminhantes”.

Aristóteles achava que aprender a ser uma pessoa boa se parece um pouco com aprender a tocar um instrumento ou praticar um esporte: você melhora com a prática. Se fizer coisas corajosas muitas vezes, ficará mais corajoso. Se disser a verdade com frequência, ficará mais honesto. Ele também dizia que o melhor caminho geralmente fica no meio: a coragem está entre o medo excessivo e a imprudência.

Aristóteles também cometeu erros. Ele acreditava em coisas que os cientistas mais tarde mostraram estar erradas. Mas ensinou uma maneira de pensar passo a passo. Durante quase dois mil anos, pessoas na Europa, no Oriente Médio e em outros lugares o chamaram simplesmente de “o Filósofo”.

Em resumo

Viveu
384–322 a.C.
Nasceu em
Estagira, na Calcídica (norte da Grécia, então nos limites do reino da Macedônia)
Morreu em
Cálcis, na ilha de Eubeia
Língua
Grego antigo
Mestre / alunos
Estudou com Platão por cerca de 20 anos; foi tutor do jovem Alexandre da Macedônia; teve Teofrasto como colega e sucessor
Escola
O Liceu de Atenas, fundado por volta de 335 a.C. (seus membros eram chamados de peripatéticos)
Obras preservadas
Cerca de trinta tratados, em sua maioria notas de aula, sobre lógica, natureza, biologia, metafísica, ética, política, retórica e poesia
Títulos posteriores
“O Filósofo” em textos latinos medievais; “o Primeiro Mestre” na filosofia árabe

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Quem foi Aristóteles?

Aristóteles foi um filósofo e cientista grego do século IV a.C. Foi aluno de Platão, que, por sua vez, havia sido seguidor de Sócrates. Os três são frequentemente considerados fundadores da filosofia ocidental. Mas Aristóteles não foi apenas filósofo no sentido restrito que a palavra costuma ter hoje. Escreveu sobre lógica, física, astronomia, meteorologia, animais, alma, ética, política, oratória e poesia. Em seus escritos, muitos desses assuntos foram organizados pela primeira vez como campos de estudo separados.

O que distinguia Aristóteles era seu método. Ele gostava de partir daquilo em que as pessoas já acreditavam e de observações cuidadosas, listar as questões difíceis e então avançar passo a passo até uma resposta clara. Reuniu informações em grande escala: descrições de centenas de tipos de animais e, com seus alunos, as constituições de 158 cidades gregas.

Sua influência durou um tempo extraordinariamente longo. Suas obras foram estudadas em grego, siríaco, árabe, hebraico e latim. Durante muitos séculos, estudiosos de Bagdá, Córdoba, Paris e Oxford as liam como base do ensino superior. Palavras que ainda usamos, como “categoria”, “energia”, “substância” e “lógica”, vêm de seu vocabulário ou de suas traduções.

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Sua vida

Aristóteles nasceu em 384 a.C. em Estagira, uma pequena cidade grega na península da Calcídica. Seu pai, Nicômaco, era médico na corte do rei Amintas III da Macedônia, pai de Filipe II. Seus pais morreram quando ele ainda era jovem, e Aristóteles foi criado por um tutor chamado Próxeno.

Por volta de 367 a.C., aos dezessete anos, ele foi para Atenas e ingressou na Academia de Platão. Permaneceu lá por cerca de vinte anos, primeiro como aluno e depois como pesquisador e professor. Quando Platão morreu, em 347 a.C., Aristóteles deixou Atenas. Passou alguns anos em Assos, na Ásia Menor, na corte do governante Hérmias, com cuja parente Pítias se casou, e depois na ilha de Lesbos. Ali, com seu colega mais jovem Teofrasto, parece ter realizado boa parte de suas pesquisas sobre animais marinhos.

Por volta de 343 a.C., o rei Filipe II da Macedônia convidou Aristóteles para ser tutor de seu filho Alexandre, então com treze anos. Sabe-se com segurança muito pouco sobre o que ele ensinou ao príncipe. Em 335 a.C., depois que Alexandre se tornou rei, Aristóteles voltou a Atenas e fundou sua escola em um espaço público para exercícios chamado Liceu. Durante cerca de doze anos, ensinou e escreveu ali. Após a morte de Pítias, viveu com Hérpilis, mãe de seu filho Nicômaco.

Quando Alexandre morreu, em 323 a.C., a hostilidade contra a Macedônia cresceu em Atenas. Aristóteles, conhecido por seus vínculos com os macedônios, teria sido ameaçado com uma acusação de impiedade. Retirou-se para Cálcis, na ilha de Eubeia, onde a família de sua mãe tinha propriedades. Morreu ali em 322 a.C., por volta dos 62 anos. Seu testamento, preservado em uma biografia posterior, toma providências em favor de seus filhos e de sua companheira, além de prever a libertação de alguns de seus servos escravizados.

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Intermediário

Contexto histórico: entre a pólis e o império

Aristóteles viveu em um período de grandes mudanças. Em sua juventude, cidades-Estado gregas (póleis), como Atenas, Esparta e Tebas, ainda eram independentes e disputavam o poder. Durante sua vida, a Macedônia, um reino na fronteira norte do mundo grego, passou a dominá-las. Filipe II derrotou Atenas e Tebas em Queroneia, em 338 a.C. Seu filho Alexandre conquistou o Império Persa e chegou ao Egito, à Ásia Central e à região do rio Indo.

Isso cria uma tensão na posição de Aristóteles. Ele era um estrangeiro residente (meteco) em Atenas, sem direitos de cidadão, mas sua filosofia política se concentra na cidade que governa a si mesma. Sua obra Política argumenta que a pólis é a comunidade natural na qual os seres humanos podem viver plenamente, justamente quando essas cidades perdiam a independência para grandes monarquias.

No campo das ideias, Aristóteles herdou uma tradição dinâmica: os primeiros filósofos da natureza, que perguntavam do que o mundo era feito; os autores de medicina da tradição hipocrática; os sofistas, que ensinavam a arte da persuasão; os matemáticos e astrônomos próximos de Platão; e, acima de tudo, a própria teoria das Formas de Platão, que Aristóteles assimilou e criticou.

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Intermediário

As obras: notas de aula que sobreviveram

Catálogos antigos atribuem a Aristóteles um número muito grande de escritos. Alguns eram obras cuidadosamente elaboradas para o público em geral, inclusive diálogos ao estilo de Platão, elogiados por sua escrita pelo orador romano Cícero. Essas obras se perderam quase por completo. O que sobreviveu, cerca de trinta tratados, são os escritos “esotéricos”, ou escolares: textos densos e concisos que parecem notas de aula ou rascunhos de trabalho, muitas vezes revisados e por vezes repetitivos.

O conjunto das obras preservadas é tradicionalmente organizado em grupos. As obras de lógica, mais tarde chamadas de Organon (“instrumento”), incluem Categorias, Da interpretação, Primeiros e Segundos analíticos, Tópicos e Refutações sofísticas. As obras sobre a natureza incluem Física, Do céu, Da geração e da corrupção, Meteorologia e Da alma, além de importantes tratados biológicos, como História dos animais, Partes dos animais e Geração dos animais. Depois vêm Metafísica, as obras de ética (Ética a Nicômaco e Ética a Eudemo), Política, Retórica e Poética.

O próprio Aristóteles dividia o conhecimento em ciências teóricas, que buscam a verdade por si mesma (física, matemática e “filosofia primeira”, ou metafísica); ciências práticas, que tratam da ação (ética e política); e ciências produtivas, que tratam da criação de coisas (como a retórica e a poesia). A lógica era considerada um instrumento para todas elas, e não uma ciência com objeto próprio.

Uma obra preservada apenas em parte graças ao acaso é a Constituição dos atenienses, uma das 158 constituições reunidas pelo Liceu. Ela ficou perdida durante séculos, até que uma cópia em papiro foi adquirida pelo Museu Britânico e publicada em 1891. Os estudiosos debatem se Aristóteles a escreveu pessoalmente ou se foi redigida por um aluno sob sua orientação.

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Intermediário

Lógica, causas e estudo da natureza

Aristóteles é frequentemente chamado de fundador da lógica formal. Nos Primeiros analíticos, examinou o silogismo, um argumento em que uma conclusão decorre necessariamente de duas premissas. Por exemplo: todo ser humano é mortal; todo grego é ser humano; portanto, todo grego é mortal. Ele estudou quais combinações de premissas são válidas e quais não são, usando letras como variáveis, um passo notável rumo à abstração. Seu sistema permaneceu no centro do ensino da lógica até o desenvolvimento da lógica matemática moderna no século XIX.

Para explicar qualquer coisa, dizia Aristóteles, precisamos fazer quatro tipos de pergunta sobre o “porquê”, tradicionalmente chamados de quatro causas. A causa material é aquilo de que uma coisa é feita (o bronze de uma estátua); a causa formal é sua estrutura ou definição (a forma da estátua); a causa eficiente é aquilo que a produziu (o escultor); e a causa final é a finalidade que ela tem (homenagear um deus). No caso das coisas naturais, especialmente dos seres vivos, ele considerava essencial a causa final, isto é, a finalidade ou fim (télos): os olhos servem para ver, e as raízes, para obter alimento.

Sua metafísica se baseia na ideia de substância (ousía). As realidades fundamentais são as coisas individuais, como este cavalo ou esta pessoa, e não Formas abstratas existentes à parte delas, como ensinava Platão. Cada coisa desse tipo é uma combinação de matéria e forma, uma visão mais tarde chamada de hilemorfismo. A mudança é explicada como a passagem da potência ao ato: uma bolota tem a possibilidade de se tornar um carvalho. No ponto mais alto de seu cosmos está um eterno “motor imóvel”, um ser em ato puro que pensa e é o objeto último de todo movimento.

Aristóteles também explicou a alma nesses termos. A alma não é um fantasma separado dentro do corpo, mas a forma de um corpo vivo: suas capacidades de se nutrir, perceber, mover e pensar. Plantas, animais e seres humanos têm diferentes níveis de alma. A relação entre o intelecto humano e o corpo, especialmente a obscura passagem sobre o “intelecto agente” em Da alma, tornou-se uma das questões mais debatidas da filosofia posterior.

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Intermediário

Aristóteles, o biólogo

Cerca de um quarto dos escritos preservados de Aristóteles trata de animais. Ele descreveu mais de quinhentos tipos, de elefantes a ouriços-do-mar, e tentou classificá-los por características como a presença de sangue, o modo de reprodução e o modo de vida. Muitas de suas informações vieram de pescadores, agricultores e caçadores; outras, de dissecações que ele próprio fez.

Algumas de suas observações eram tão precisas que naturalistas posteriores duvidaram delas antes de confirmá-las. Ele descreveu como um tipo de cação alimenta seus filhotes por meio de uma ligação semelhante a uma placenta, fato confirmado pelo fisiologista alemão Johannes Müller no século XIX. Também descreveu o braço especial que os polvos machos usam no acasalamento. Acompanhou ainda o desenvolvimento de embriões de pintinhos em ovos abertos dia após dia.

Aristóteles também cometeu erros graves. Achava que o coração, e não o cérebro, era a sede das sensações e do pensamento; acreditava que alguns pequenos seres surgiam espontaneamente da lama ou de matéria em decomposição; e fez afirmações equivocadas sobre o corpo das mulheres que sustentavam a desigualdade social de seu tempo. Historiadores da ciência atuais ressaltam que sua biologia deve ser avaliada em seu contexto: foi a primeira tentativa sistemática de explicar os seres vivos por meio da observação e das causas. Relata-se que Charles Darwin escreveu sobre Aristóteles com admiração depois de ler sua obra em tradução.

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Intermediário

Ética e política: viver bem em comunidade

A Ética a Nicômaco começa com a observação de que toda atividade busca algum bem e pergunta qual é o maior bem humano. A resposta de Aristóteles é eudaimonia, muitas vezes traduzida como “felicidade”, mas melhor entendida como florescimento humano ou viver bem. Não é um sentimento, e sim uma atividade: a vida de uma pessoa que exerce de modo excelente suas capacidades próprias, sobretudo a razão, ao longo de uma vida completa.

A excelência de caráter (areté, “virtude”) é adquirida pelo hábito, assim como uma pessoa se torna construtora ao construir ou tocadora de lira ao tocar. Cada virtude é uma disposição estável para sentir e agir da maneira certa, geralmente situada em um meio-termo entre dois vícios: a coragem entre a covardia e a temeridade, a generosidade entre a avareza e a extravagância. Esse meio-termo não é um ponto médio matemático, mas o que é adequado para aquela pessoa naquela situação, segundo o julgamento de alguém dotado de sabedoria prática (phrónesis). Aristóteles dedica dois livros inteiros à amizade, que considerava essencial para uma vida boa.

“O ser humano é por natureza um animal político”, declara Aristóteles na Política. As pessoas só realizam sua natureza em uma comunidade voltada para a vida boa, e não apenas para a sobrevivência. Ele comparou muitos tipos de constituição, distinguindo o governo de um, de poucos ou de muitos, cada um com uma forma boa e outra corrompida. Tendia a preferir uma constituição mista, em que uma classe média numerosa equilibrasse ricos e pobres.

Seu pensamento político também contém ideias que hoje são, com razão, criticadas. Ele defendeu a “escravidão natural”, a ideia de que algumas pessoas seriam por natureza adequadas a ser governadas como propriedade, e considerava as mulheres naturalmente subordinadas aos homens no ambiente doméstico. Esses argumentos foram usados mais tarde para justificar formas reais de opressão, inclusive a escravização de povos indígenas nas Américas, debatida em Valladolid em 1550–51 com referência explícita a Aristóteles. Leitores atuais estudam essas passagens tanto para compreendê-lo quanto para observar como a filosofia pode racionalizar a injustiça.

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Intermediário

O Liceu e os peripatéticos

O Liceu era um bosque e ginásio público nos arredores de Atenas, consagrado a Apolo Lício. Aristóteles, que por ser estrangeiro não podia possuir terras em Atenas, ensinava ali. O apelido da escola, “peripatéticos”, veio do perípato, um corredor coberto onde ocorriam as aulas. A história posterior de que Aristóteles lecionava enquanto caminhava pode ser uma explicação para esse nome.

O Liceu funcionava como uma comunidade de pesquisa. Seus membros reuniam constituições, listas de vencedores de jogos, histórias da filosofia e da medicina anteriores, além de observações sobre plantas e animais. Teofrasto, que sucedeu Aristóteles na direção, escreveu obras pioneiras sobre plantas e sobre os “caracteres” humanos. A ideia de uma biblioteca como instrumento de pesquisa era importante ali, e alguns estudiosos veem uma linha de influência do Liceu até a posterior Biblioteca de Alexandria, fundada sob os Ptolomeus com a ajuda do peripatético Demétrio de Falero.

Os vestígios arqueológicos do Liceu foram descobertos no centro de Atenas durante obras em 1996, e o local foi aberto à visitação.

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Intermediário

Transmissão: de Atenas a Bagdá, Córdoba e Paris

Segundo um relato do geógrafo Estrabão e de Plutarco, os manuscritos de Aristóteles passaram para Teofrasto e depois para Neleu de Cépsis, cujos herdeiros os esconderam em um porão. Mais tarde, foram comprados por um colecionador de livros, tomados pelo general romano Sula em 86 a.C. e levados a Roma. Ali, o estudioso Andrônico de Rodes preparou, no século I a.C., uma edição que definiu em grande parte a organização do conjunto de obras que conhecemos hoje. Muitos estudiosos duvidam que os tratados tenham realmente ficado indisponíveis por dois séculos, mas a importância da edição de Andrônico é amplamente aceita.

Na Antiguidade tardia, comentadores gregos como Alexandre de Afrodísias estudaram Aristóteles em detalhe, e as escolas neoplatônicas fizeram de sua lógica a porta de entrada para a filosofia. No século VI, Boécio traduziu partes da lógica para o latim. Estudiosos cristãos traduziram obras para o siríaco e, a partir do fim do século VIII, sob os califas abássidas, muitas obras de Aristóteles foram traduzidas para o árabe em Bagdá, frequentemente a partir do siríaco, por tradutores como Hunayn ibn Ishaq e seu filho Ishaq.

Filósofos que escreviam em árabe desenvolveram ideias a partir desse conjunto de obras. Alquindi, Alfarabi (chamado de “Segundo Mestre”, depois de Aristóteles, o “Primeiro Mestre”), Avicena e Averróis criaram uma rica tradição de comentários e pensamento próprio. Averróis, de Córdoba, escreveu tantos comentários que ficou conhecido em latim simplesmente como “o Comentador”. Pensadores judeus, especialmente Maimônides, também dialogaram profundamente com Aristóteles.

Nos séculos XII e XIII, quase todo o conjunto de obras foi traduzido para o latim, a partir do grego e do árabe, e tornou-se central nos programas de estudo das novas universidades. Tomás de Aquino combinou a filosofia aristotélica com a teologia cristã. A física e a cosmologia de Aristóteles foram superadas durante a Revolução Científica, e pensadores do início da era moderna frequentemente definiram suas ideias em oposição às dele. Ainda assim, sua lógica, ética, teoria política e teoria da tragédia na Poética nunca deixaram de ser estudadas. No século XX, a “ética das virtudes” renovou o interesse por sua abordagem da filosofia moral.

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Avançado

Debates acadêmicos e questões em aberto

Desenvolvimento ou sistema? Em 1923, Werner Jaeger argumentou que o pensamento de Aristóteles se desenvolveu de uma fase inicial platonista para uma fase posterior empírica e científica, e que os tratados contêm camadas de períodos diferentes. Essa abordagem “desenvolvimentista” dominou os estudos por décadas, mas muitas das datações específicas propostas por Jaeger foram rejeitadas. Hoje, a maioria dos estudiosos aceita que os tratados foram revisados ao longo do tempo, mas duvida que seja possível reconstruir uma cronologia clara.

Qual ética? Sobreviveram dois tratados completos de ética, a Ética a Nicômaco e a Ética a Eudemo, que compartilham três livros. Tradicionalmente, a Ética a Nicômaco era considerada a versão madura. Em The Aristotelian Ethics (1978), Anthony Kenny argumentou que os livros compartilhados pertenciam originalmente à Ética a Eudemo, reabrindo a questão da relação entre as duas obras. A autenticidade da Magna Moralia continua em debate.

O que é felicidade? O Livro I da Ética a Nicômaco parece descrever a eudaimonia como uma vida de atividades virtuosas de vários tipos, mas o Livro X elogia a vida contemplativa como a mais feliz. Os intérpretes se dividem entre leituras “inclusivistas”, segundo as quais o florescimento humano inclui muitos bens, e leituras “intelectualistas” ou “dominantes”, segundo as quais a contemplação é o fim mais elevado. O ensaio “Aristotle on Eudaimonia” (1974), de J. L. Ackrill, é uma formulação clássica do problema.

Substância e forma. Os livros centrais da Metafísica (Zeta, Eta e Teta) estão entre os textos mais difíceis da filosofia. Os estudiosos ainda debatem se as formas são universais ou particulares e como se relacionam os diferentes candidatos de Aristóteles à condição de substância. Outras questões em aberto incluem o significado do intelecto agente, o papel da finalidade na natureza e até que ponto suas defesas da escravidão e da subordinação das mulheres são parte integrante de sua ética e política.

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Avançado

Evidências: biografia e texto

Fontes biográficas. Nossa principal biografia antiga está no Livro V de Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, de Diógenes Laércio, escrito cerca de cinco séculos após a morte de Aristóteles. Ela preserva material valioso, inclusive seu testamento e uma lista de obras, mas também anedotas e boatos hostis que não podem ser verificados. Várias “Vidas” posteriores vêm de escolas neoplatônicas e tendem a idealizá-lo. Detalhes como o que ele ensinou a Alexandre ou se, ao deixar Atenas, disse que não permitiria que a cidade “pecasse duas vezes contra a filosofia” (uma referência a Sócrates) devem ser tratados como parte da tradição, e não como fatos.

Transmissão dos textos. Não sobreviveram manuscritos da Antiguidade. O texto grego se baseia em manuscritos bizantinos, em sua maioria do século IX em diante, complementados por comentários antigos e traduções medievais para o árabe e o latim, que às vezes refletem versões gregas perdidas. O sistema de referência padrão vem da edição de Berlim preparada por Immanuel Bekker e publicada em 1831: uma citação como “1094a1” indica página, coluna e linha dessa edição.

Leitura dos tratados. Como as obras preservadas provavelmente eram textos de trabalho, elas contêm passagens bruscas de um assunto a outro, referências cruzadas e trechos duplicados. Os intérpretes precisam decidir se uma aparente contradição reflete o desenvolvimento das ideias, uma mudança de assunto ou a organização editorial feita posteriormente por outras pessoas. O próprio método de Aristóteles, que parte das opiniões respeitadas (éndoxa) e dos problemas (aporíai) que elas criam, também significa que nem toda afirmação em um tratado expressa sua posição final.

As evidências materiais são escassas. Bustos de mármore de Aristóteles sobreviveram como cópias romanas de um original grego perdido, frequentemente considerado uma escultura de bronze do círculo do escultor Lisipo. O Liceu escavado oferece informações sobre o ambiente de sua escola. Fora isso, o conhecimento sobre Aristóteles se baseia quase inteiramente em textos.

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Ideias principais

Silogismo
Forma de argumento em que uma conclusão decorre necessariamente de duas premissas; Aristóteles foi o primeiro a estudar essas formas sistematicamente.
Quatro causas
Quatro maneiras de responder à pergunta “por quê?”: do que uma coisa é feita, qual é sua forma, o que a produziu e qual é sua finalidade.
Substância e hilemorfismo
As realidades fundamentais são coisas individuais, cada uma composta de matéria e forma, e não Formas platônicas separadas.
Potência e ato
A mudança é a realização de uma capacidade, como quando uma bolota se torna um carvalho.
Eudaimonia
Florescimento humano: viver bem exercendo a razão e as virtudes ao longo de toda a vida.
Doutrina do meio-termo
As virtudes de caráter se situam entre o excesso e a falta, conforme a pessoa e a situação.
Animal político
Os seres humanos só realizam sua natureza em uma comunidade, a pólis, voltada para a vida boa.
Mímesis e catarse
Na Poética, a arte é imitação, e a tragédia desperta piedade e temor para produzir uma espécie de catarse, termo cujo significado ainda é debatido.

Registros

  1. 384 a.C. — Aristóteles nasce em Estagira, na Calcídica.
  2. c. 367 a.C. — Por volta dos dezessete anos, ingressa na Academia de Platão em Atenas.
  3. 347 a.C. — Platão morre; Aristóteles deixa Atenas rumo a Assos e, depois, a Lesbos.
  4. c. 343 a.C. — Filipe II o convida para ser tutor do jovem Alexandre na Macedônia.
  5. c. 335 a.C. — Volta a Atenas e funda sua escola no Liceu.
  6. 323 a.C. — Alexandre morre na Babilônia; cresce a hostilidade contra a Macedônia em Atenas, e Aristóteles se retira para Cálcis.
  7. 322 a.C. — Aristóteles morre em Cálcis; Teofrasto assume a direção do Liceu.
  8. c. 60 a.C. — Andrônico de Rodes edita os tratados de Aristóteles em Roma, definindo em grande parte o conjunto de obras que conhecemos.
  9. c. 830 d.C. — As traduções de Aristóteles para o árabe se multiplicam na Bagdá abássida.
  10. c. 1265 — Tomás de Aquino, com base em novas traduções latinas, integra Aristóteles à teologia cristã.
  11. 1831 — É publicada a edição de Berlim de Immanuel Bekker, origem dos números de referência padrão.
  12. 1891 — O papiro da Constituição dos atenienses é publicado pelo Museu Britânico.

Glossário

Academia
Escola de Platão em Atenas, onde Aristóteles estudou e ensinou por cerca de vinte anos.
Liceu
Ginásio de Atenas onde Aristóteles fundou sua escola por volta de 335 a.C.
Peripatético
Membro da escola de Aristóteles, assim chamada por causa do corredor coberto (perípato) do Liceu.
Organon
Nome tradicional, que significa “instrumento”, dado ao conjunto das obras de lógica de Aristóteles.
Télos
O fim ou a finalidade em razão da qual algo existe ou acontece.
Ousía
Palavra grega para “ser” ou “substância”: aquilo que existe de modo fundamental.
Areté
Excelência ou virtude: qualidade que faz uma coisa, ou uma pessoa, cumprir bem sua função.
Phrónesis
Sabedoria prática: capacidade de perceber qual é a ação correta em uma situação específica.
Pólis
Cidade-Estado grega, uma comunidade de cidadãos que governa a si mesma.
Número de Bekker
Referência padrão (por exemplo, 1094a1) à página, coluna e linha da edição de Aristóteles publicada em Berlim em 1831.

Perguntas e respostas

Aristóteles foi mesmo professor de Alexandre, o Grande?

Sim. Fontes antigas concordam que Filipe II o contratou por volta de 343 a.C. para ensinar o jovem Alexandre, embora quase nada se saiba com segurança sobre o conteúdo das aulas ou sobre o quanto influenciaram o futuro rei.

Aristóteles cometeu erros?

Sim, alguns. Ele pensava que os objetos pesados caíam mais depressa, que o coração era a sede do pensamento e que certos animais surgiam espontaneamente. Mas muitas de suas observações biológicas eram precisas, e seus métodos de classificação e raciocínio foram extremamente influentes.

Por que seus livros são tão difíceis de ler?

O que sobreviveu consiste principalmente em notas de aula e rascunhos de trabalho, não em livros cuidadosamente preparados para publicação. Suas obras escritas para o público, admiradas pelos leitores antigos por seu estilo, perderam-se quase todas.

O que é o “justo meio”?

É a ideia de Aristóteles de que uma virtude fica entre dois extremos, como a coragem entre a covardia e a imprudência. O ponto certo depende da pessoa e da situação, não de uma fórmula fixa.

Como as obras de Aristóteles chegaram à Europa medieval?

Por vários caminhos: as traduções latinas da lógica feitas por Boécio, as traduções e os comentários em árabe produzidos em Bagdá e em Al-Andalus, e novas traduções para o latim feitas a partir do grego e do árabe nos séculos XII e XIII.

Aristóteles defendeu a escravidão?

Sim. Na Política, ele argumentou que algumas pessoas são escravas “por natureza”. Essa ideia foi criticada já na Antiguidade, mais tarde usada para justificar a escravidão colonial e hoje é rejeitada. Os estudiosos debatem como ela se relaciona com o restante de sua ética.

Como os estudiosos citam Aristóteles?

Por meio dos números de Bekker, que indicam página, coluna e linha da edição de Immanuel Bekker de 1831. Por exemplo, a Ética a Nicômaco começa em 1094a1.

Fontes e leituras adicionais

  1. Christopher Shields, Aristotle. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  2. Aristotle’s Ethics. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  3. Aristotle’s Logic. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  4. Aristotle’s Biology. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  5. Aristotle. Internet Encyclopedia of Philosophy
  6. Aristotle. Wikipedia
  7. Corpus Aristotelicum. Wikipedia
  8. Aristotle, Nicomachean Ethics (Greek text and translation). Perseus Digital Library, Tufts University
  9. Diogenes Laertius, Lives of Eminent Philosophers. Perseus Digital Library, Tufts University
  10. Jonathan Barnes (ed.), The Complete Works of Aristotle: The Revised Oxford Translation. Princeton University Press, 1984

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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