Filosofia

Averróis (Ibn Rushd)

أبو الوليد محمد بن أحمد بن رشد (Abū al-Walīd Muḥammad ibn Aḥmad ibn Rushd)

1160–1198 · Córdoba (al-Andalus)

Em uma frase

Averróis, chamado Ibn Rushd em árabe, foi um juiz, médico e filósofo de Córdoba, na Espanha muçulmana, que viveu há cerca de 850 anos e escreveu explicações tão cuidadosas das obras de Aristóteles que os estudiosos europeus o chamavam simplesmente de “o Comentador”.

Averróis (Ibn Rushd)
Imagem: Saleemzohaib · CC BY 3.0 · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há cerca de 900 anos, na cidade de Córdoba, na Espanha, nasceu um menino chamado Ibn Rushd. Sua família tinha muitos juízes. Naquela época, boa parte da Espanha era governada por muçulmanos e se chamava Al-Andalus. Havia ali belas mesquitas, jardins e bibliotecas. Muçulmanos, cristãos e judeus viviam na região.

Ibn Rushd cresceu e se tornou juiz, como seu pai e seu avô. Também era médico e escreveu um grande livro sobre medicina. Mas gostava especialmente de filosofia, que significa “amor à sabedoria”. Fazer filosofia é perguntar coisas como “Do que o mundo é feito?” e “Como sabemos o que é verdade?”.

Um dia, um amigo o apresentou ao governante da região, o califa. O califa disse que os livros do antigo pensador grego Aristóteles eram muito difíceis de entender. Será que alguém poderia explicá-los? Ibn Rushd aceitou a tarefa e passou o resto da vida escrevendo explicações de quase tudo o que Aristóteles escreveu. Era como um professor preparando um guia para ajudar os alunos a entender um livro difícil.

Algumas pessoas achavam que a filosofia fazia mal à religião. Ibn Rushd não concordava. Ele dizia que duas verdades não podem brigar: se o livro sagrado e uma explicação bem pensada são verdadeiros, eles devem concordar. Perto do fim de sua vida, um novo governante se voltou contra ele por algum tempo. Alguns de seus livros foram queimados, e ele teve de deixar sua cidade. Depois foi perdoado, mas morreu pouco tempo mais tarde, em 1198.

Seus livros viajaram muito mais longe do que ele. Foram traduzidos para o hebraico e o latim. Durante centenas de anos, estudantes de Paris, Oxford e Pádua leram Aristóteles com as explicações de Ibn Rushd ao lado. Eles o chamavam de Averróis.

Em resumo

Nome completo
Abu al-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Rushd; conhecido em latim como Averróis
Vida
Nasceu em 14 de abril de 1126, em Córdoba; morreu em 10 ou 11 de dezembro de 1198, em Marraquexe
Lugares
Al-Andalus (Córdoba e Sevilha) e Marrocos (Marraquexe), sob o Califado Almóada
Atividades
Filósofo, jurista da escola maliquita, juiz (cádi) e médico da corte
Idioma
Árabe; muitas obras sobreviveram apenas em traduções para o hebraico ou o latim
Principais obras
Comentários sobre Aristóteles; O tratado decisivo; A incoerência da incoerência; Bidayat al-Mujtahid (direito); al-Kulliyat fi al-Tibb (medicina, chamado Colliget em latim)
Conhecido como
“O Comentador” entre estudiosos medievais de língua latina e hebraica
Influência
Influenciou a filosofia judaica e a escolástica latina; seu nome deu origem ao termo “averroísmo”

Fácil

Quem foi Ibn Rushd?

Ibn Rushd (1126–1198), conhecido na Europa como Averróis, foi um dos grandes pensadores do mundo medieval. Nasceu em Córdoba, então uma das maiores cidades da Europa e antiga capital da Espanha muçulmana (Al-Andalus). Trabalhou como juiz e médico, mas é lembrado sobretudo como filósofo e como o mais minucioso intérprete medieval de Aristóteles.

Escreveu sobre uma variedade impressionante de assuntos: filosofia, lógica, física, astronomia, psicologia, direito islâmico, teologia e medicina. A Enciclopédia de Filosofia de Stanford registra cerca de 49 obras preservadas, e relatos mais antigos lhe atribuem mais de cem escritos. Algumas de suas obras mais importantes sobreviveram apenas em traduções medievais para o hebraico ou o latim, pois os originais árabes se perderam.

Nos séculos posteriores à sua morte, suas ideias tiveram uma influência duradoura relativamente pequena no mundo islâmico, mas enorme na Europa judaica e cristã. Ali, era conhecido simplesmente como “o Comentador”, assim como Aristóteles era “o Filósofo”. Nos tempos modernos, voltou a ser valorizado no mundo árabe como símbolo da razão e da abertura.

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Fácil

Sua vida: de Córdoba a Marraquexe

Ibn Rushd vinha de uma família ilustre de juristas da escola maliquita de direito islâmico. Seu avô, também chamado Abu al-Walid ibn Rushd, foi juiz principal de Córdoba e um famoso estudioso do direito. Para distingui-los, o filósofo às vezes é chamado Ibn Rushd “o neto” (al-Hafid). Estudou o Alcorão, os hádices, o direito e a teologia, além de medicina e filosofia. Foi influenciado pelos escritos do filósofo andalusino Ibn Bajja (Avempace), que morreu quando Ibn Rushd ainda era menino.

Durante sua juventude, a dinastia almorávida, que governava Al-Andalus e o norte da África, foi derrubada pelos almóadas, um movimento reformista berbere originário das montanhas do Atlas. Os califas almóadas governavam a partir de Marraquexe e apoiavam o estudo. Por volta de 1168–1169, o filósofo e médico da corte Ibn Tufayl apresentou Ibn Rushd ao califa Abu Yaqub Yusuf. Segundo um relato baseado nas palavras do próprio Ibn Rushd, o califa primeiro lhe perguntou se os filósofos consideravam os céus eternos ou criados. Assustado, Ibn Rushd tentou evitar a pergunta, até que o califa o tranquilizou ao discutir o assunto. Mais tarde, o califa pediu explicações claras das difíceis obras de Aristóteles, e Ibn Tufayl passou a tarefa a Ibn Rushd.

Sua carreira prosperou. Foi nomeado juiz (cádi) de Sevilha em 1169, depois atuou em Córdoba e, em 1182, sucedeu Ibn Tufayl como médico do califa. Também se tornou juiz principal de Córdoba, cargo que seu avô havia ocupado. Viajou com frequência entre a Espanha e Marraquexe.

Em 1195, durante o governo do califa Abu Yusuf Yaqub al-Mansur, caiu repentinamente em desgraça. Seus ensinamentos foram condenados em uma reunião em Córdoba, alguns de seus livros foram queimados e ele foi exilado na cidade próxima de Lucena. Em geral, os historiadores consideram que as razões foram políticas: o califa precisava do apoio de estudiosos religiosos conservadores durante a guerra contra os reinos cristãos. Ibn Rushd recuperou o favor do califa cerca de dois anos depois e morreu em Marraquexe, em dezembro de 1198. Mais tarde, seu corpo foi levado de volta a Córdoba para o sepultamento. O jovem místico Ibn Arabi, que presenciou o cortejo, observou que o caixão, de um lado da mula, era equilibrado pelos livros de Ibn Rushd, do outro.

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Fácil

Explicando Aristóteles: os três tipos de comentário

Aristóteles (384–322 a.C.) foi o filósofo grego cujas obras sobre lógica, natureza, alma, ética e metafísica foram traduzidas para o árabe entre os séculos VIII e X. Filósofos muçulmanos como Al-Farabi e Ibn Sina (Avicena) desenvolveram suas ideias, mas Ibn Rushd acreditava que eles haviam misturado as ideias de Aristóteles com outras doutrinas. Ele queria recuperar o que Aristóteles realmente havia pensado.

Escreveu três tipos de comentário. Os comentários breves, ou compêndios (jawami'), resumem as ideias principais de uma obra. Os comentários médios (talkhis) apresentam o texto com outras palavras, seção por seção. Os comentários longos (tafsir ou sharh), escritos sobretudo no fim de sua vida, citam trechos de Aristóteles e os explicam linha por linha, discutindo intérpretes gregos e árabes anteriores. Escreveu comentários longos sobre apenas algumas obras centrais, como a Física, Sobre o céu, Sobre a alma, a Metafísica e os Analíticos posteriores.

Algumas obras ele não conseguiu encontrar. Como a Política de Aristóteles não estava disponível para ele, escreveu um comentário sobre A República, de Platão, aplicando suas ideias às sociedades que conhecia. Esse comentário sobrevive apenas em uma tradução para o hebraico. Estudiosos atuais observam que a divisão em três tipos simplifica um conjunto de obras mais variado, que também inclui tratados independentes sobre problemas específicos.

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Intermediário

Fé e razão: O tratado decisivo

Por volta de 1178–1180, Ibn Rushd escreveu O tratado decisivo (Fasl al-maqal), um breve parecer jurídico sobre uma questão: o direito islâmico permite, proíbe ou exige o estudo da filosofia? Sua resposta, como juiz, é que a lei de fato o exige daqueles que são capazes de estudá-la, pois o Alcorão incentiva repetidamente os fiéis a refletir sobre a criação, e a melhor maneira de fazê-lo é por meio do raciocínio demonstrativo.

Seu princípio central costuma ser resumido pela frase “a verdade não contradiz a verdade”: a demonstração e a revelação são ambas verdadeiras e, portanto, devem concordar. Se uma conclusão demonstrada parece entrar em conflito com o sentido literal de uma passagem sagrada, essa passagem deve ser interpretada figuradamente (ta'wil), segundo as regras da língua árabe. Mas essa interpretação cabe aos especialistas e não deve ser divulgada ao público em geral, pois poderia causar confusão.

Ele distinguia três tipos de pessoas e três tipos de argumento. A maioria das pessoas é convencida pela retórica; os teólogos usam argumentos dialéticos; somente os filósofos conseguem acompanhar uma demonstração rigorosa. O texto sagrado fala aos três grupos ao mesmo tempo. Essa teoria lhe permitia defender a filosofia e também a lei religiosa que rege toda a comunidade. Em uma obra relacionada, al-Kashf 'an manahij al-adilla, criticou os métodos teológicos dos asharitas e de outros grupos por confundirem os fiéis comuns.

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Intermediário

Respondendo a Al-Ghazali: A incoerência da incoerência

Cerca de oitenta anos antes, o grande teólogo Al-Ghazali (morto em 1111) havia escrito A incoerência dos filósofos, obra que atacava vinte doutrinas de Avicena e de outros filósofos. Ele considerava três delas formas de descrença: a ideia de que o mundo é eterno, a de que Deus conhece apenas o universal e não os fatos particulares, e a de que não haverá ressurreição do corpo.

Por volta de 1180, Ibn Rushd respondeu com A incoerência da incoerência (Tahafut al-tahafut). Citou o texto de Al-Ghazali seção por seção e lhe respondeu. Muitas vezes concordava que os argumentos de Avicena eram fracos, mas insistia que a posição do próprio Aristóteles era mais sólida e que Al-Ghazali a havia entendido mal. Argumentou, por exemplo, que a eternidade do mundo, entendida corretamente, é compatível com sua dependência de Deus como causa eterna, e que o conhecimento de Deus não é universal nem particular no sentido humano, mas a causa de todas as coisas.

Sobre a causalidade, Al-Ghazali havia argumentado que não existe uma ligação necessária entre o fogo e a combustão: Deus cria diretamente a combustão a cada vez. Ibn Rushd respondeu que negar a existência de causas reais nas coisas destrói a possibilidade do conhecimento, pois conhecer algo é conhecer suas causas.

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Intermediário

O juiz e o médico

A principal obra jurídica de Ibn Rushd, Bidayat al-mujtahid wa-nihayat al-muqtasid (“O começo para quem exerce o julgamento independente e o fim para quem se contenta”), é uma obra de direito comparado. Em vez de simplesmente apresentar as regras de sua própria escola maliquita, expõe as opiniões das diferentes escolas sunitas sobre cada questão e explica as razões, textuais ou lógicas, de suas divergências. Ainda hoje é estudada no campo do direito islâmico.

Na medicina, escreveu al-Kulliyat fi al-tibb (“Princípios gerais da medicina”), conhecido em latim como Colliget. A obra trata de anatomia, saúde, doenças, sintomas, medicamentos, alimentação e preservação da saúde, organizados segundo princípios gerais. Segundo relatos, ele deixou o tratamento detalhado de doenças específicas para seu amigo Abu Marwan ibn Zuhr (Avenzoar), cuja obra médica prática complementava a sua. O Colliget foi traduzido para o latim e usado no ensino de medicina na Europa.

Ibn Rushd também escreveu sobre astronomia e criticou o sistema ptolomaico por depender de epiciclos e círculos excêntricos que não se ajustavam à física de Aristóteles. Esperava uma nova astronomia coerente com a filosofia da natureza, embora não a tenha desenvolvido.

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Intermediário

A alma e o intelecto

A ideia mais controversa de sua filosofia diz respeito à mente humana. Em Sobre a alma, Aristóteles havia falado, de maneira breve e pouco clara, de um intelecto que se torna todas as coisas (o intelecto material ou possível) e de um intelecto que faz todas as coisas (o intelecto agente). Intérpretes anteriores discordavam sobre se cada pessoa possuía esses intelectos.

Em seu Comentário longo sobre Sobre a alma, preservado principalmente em latim, Ibn Rushd argumentou que tanto o intelecto agente quanto o intelecto material são únicos, eternos, separados dos corpos e compartilhados por todos os seres humanos. Cada pessoa pensa ao ligar sua própria imaginação, que depende do corpo e é individual, a esse intelecto único. A teoria explica como pessoas diferentes podem compreender as mesmas verdades universais, mas parece sugerir que nenhum intelecto individual sobrevive à morte.

Essa “unidade do intelecto” tornou-se o principal alvo dos críticos cristãos na Paris do século XIII, sobretudo de Tomás de Aquino, que argumentava que cada ser humano tem seu próprio intelecto como forma do corpo.

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Intermediário

A recepção de sua obra em hebraico e latim

Pensadores judeus foram os primeiros a estudar sua obra. Maimônides, também nascido em Córdoba, soube de seus comentários por volta de 1190. A partir de aproximadamente 1230, tradutores verteram quase todos os seus comentários para o hebraico e, por volta de 1340, quase todos já estavam disponíveis nessa língua. Para muitos filósofos judeus, ele se tornou a principal autoridade sobre Aristóteles. Gersonides escreveu comentários sobre seus comentários, e Elias Del Medigo deu continuidade à tradição na Itália.

Na Europa de língua latina, Miguel Escoto e outros começaram a traduzir seus comentários na década de 1220. Eles chegaram quando as novas universidades de Paris e Oxford passavam a fazer de Aristóteles a base do ensino. Os estudiosos usavam seus comentários longos como guia para os textos aristotélicos. Dante o colocou entre os não cristãos virtuosos no Limbo e se referiu a ele como “Averróis, que fez o grande comentário” (Inferno, canto IV).

Alguns mestres da Faculdade de Artes de Paris, como Sigério de Brabante e Boécio da Dácia, seguiram Aristóteles conforme a interpretação de Averróis mesmo em pontos que entravam em conflito com a doutrina cristã, como a eternidade do mundo e a unidade do intelecto. Em 1270, Tomás de Aquino escreveu Sobre a unidade do intelecto contra os averroístas. Em 1270 e novamente em 1277, o bispo Étienne Tempier, de Paris, condenou listas de proposições; a de 1277 continha 219. Os opositores acusavam os “averroístas” de defender uma “dupla verdade”, uma para a filosofia e outra para a fé, mas nem Ibn Rushd nem, ao que parece, qualquer pensador latino defendia de fato tal doutrina.

As interpretações averroístas de Aristóteles persistiram especialmente na Universidade de Pádua até o século XVI. Uma grande edição latina das obras de Aristóteles com os comentários de Averróis foi impressa em Veneza pela editora Giunta, entre 1550 e 1552. Em 1852, o estudioso francês Ernest Renan publicou Averroès et l'averroïsme, obra que definiu o averroísmo como categoria histórica e apresentou Ibn Rushd como um herói do livre pensamento.

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Avançado

Debates entre estudiosos

Fontes biográficas. Ao contrário de Avicena e Al-Ghazali, Ibn Rushd não deixou uma autobiografia. Por isso, sua vida precisa ser reconstituída a partir de autores posteriores. Os principais relatos vêm de autores do século XIII: o historiador marroquino Abd al-Wahid al-Marrakushi, que preservou a história do primeiro encontro com o califa conforme a narrativa de um aluno de Ibn Rushd; o biógrafo andalusino Ibn al-Abbar; e o médico e historiador Ibn Abi Usaybi'a, cuja história da medicina lista as obras do filósofo. Essas fontes foram escritas relativamente perto de sua época, mas também refletem avaliações posteriores de sua queda em desgraça. Além disso, divergem em detalhes, como as datas exatas de suas nomeações.

Racionalista ou fiel? Desde Renan, alguns leitores apresentam Ibn Rushd como um racionalista secreto que usava a linguagem religiosa para se proteger, um precursor do Iluminismo. Outros, considerando seu trabalho ao longo da vida como juiz maliquita e os argumentos de O tratado decisivo, veem nele um muçulmano sincero que acreditava que a filosofia demonstrativa e a revelação eram duas expressões de uma mesma verdade. Alguns intérpretes, influenciados pela ideia de Leo Strauss de ler nas entrelinhas, entendem sua distinção entre a elite e as massas como uma estratégia de comunicação esotérica; outros consideram essa leitura anacrônica. A Enciclopédia de Filosofia de Stanford enfatiza que ele integrou a filosofia e a religião, sem subordinar uma à outra.

O contexto almóada. Historiadores debatem em que medida sua obra servia ao programa dos almóadas. Eles defendiam o retorno ao Alcorão e aos hádices, se opunham a certas práticas jurídicas maliquitas e à teologia asharita, e patrocinavam a filosofia na corte. Alguns interpretam os ataques de Ibn Rushd aos teólogos e seu projeto de recuperar o “verdadeiro” Aristóteles como semelhantes ao chamado almóada de retorno às fontes originais; outros destacam sua independência. As razões de sua queda em desgraça em 1195 também são debatidas.

A coerência de sua obra. Como Ibn Rushd revisou suas posições ao longo de décadas e escreveu diferentes tipos de comentário para diferentes fins, os estudiosos discordam sobre como conciliar, por exemplo, suas posições iniciais e posteriores a respeito do intelecto material. Alguns, como Jamal al-Din al-'Alawi, enfatizam a unidade geral de seu pensamento; outros identificam mudanças significativas.

O estado dos textos. Como muitas obras sobrevivem apenas em hebraico ou latim, e as edições críticas ainda estão em andamento, os textos disponíveis para estudar Ibn Rushd são desiguais. Os estudiosos frequentemente precisam reconstituir sua terminologia árabe a partir de traduções medievais, e a descoberta de novos manuscritos pode mudar as interpretações.

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Avançado

Ibn Rushd no mundo islâmico, ontem e hoje

Costumava-se dizer que a filosofia morreu no mundo islâmico depois de Al-Ghazali e que Ibn Rushd foi seu último representante. Hoje, os historiadores rejeitam essa narrativa: a filosofia e a teologia filosófica continuaram a prosperar, especialmente na parte oriental do mundo islâmico, mas seguiram sobretudo caminhos traçados por Avicena, e não por Ibn Rushd. Nenhuma escola de “averroísmo” se formou nas terras islâmicas, e seus comentários sobre Aristóteles foram muito menos lidos ali do que na Europa. O historiador Ibn Khaldun conhecia algumas de suas obras.

A partir do fim do século XIX, reformadores árabes redescobriram Ibn Rushd. O escritor libanês cristão Farah Antun, inspirado por Renan, debateu seu legado com o reformador egípcio Muhammad Abduh no início do século XX. No fim daquele século, o filósofo marroquino Mohammed Abed al-Jabri apresentou o racionalismo de Ibn Rushd como modelo para o pensamento árabe. O filme O destino (1997), de Youssef Chahine, retratou-o como símbolo de tolerância diante do fanatismo.

Hoje, Ibn Rushd é homenageado em Córdoba com uma estátua perto das antigas muralhas da cidade e, em muitos lugares, como uma figura que conecta as tradições intelectuais islâmica, judaica e cristã. Os historiadores advertem, porém, que seu pensamento pertence ao mundo do século XII, marcado pelo direito islâmico, pela ciência aristotélica e pela política almóada, e não deve ser confundido com o liberalismo moderno.

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Ideias principais

A verdade não contradiz a verdade
A filosofia demonstrativa e a revelação são ambas verdadeiras; por isso, qualquer conflito aparente deve ser resolvido pela interpretação.
Três tipos de argumento
Retórica para a maioria das pessoas, dialética para os teólogos e demonstração para os filósofos; o texto sagrado se dirige aos três grupos.
Interpretação alegórica (ta'wil)
Quando uma demonstração entra em conflito com o sentido literal do texto sagrado, os especialistas podem interpretá-lo figuradamente.
Retorno a Aristóteles
Seu objetivo era recuperar o que Aristóteles realmente queria dizer, sem os acréscimos posteriores de Avicena e de outros pensadores.
Unidade do intelecto
Sua tese controversa de que os intelectos material e agente são únicos e compartilhados por todos os seres humanos.
Causalidade real
Em oposição a Al-Ghazali, defendia que as coisas têm poderes causais reais e que conhecer é conhecer as causas.
Direito comparado
Em Bidayat al-mujtahid, explicou por que as escolas jurídicas divergem, e não apenas quais posições defendem.

Registros

  1. 1111 — Morte de Al-Ghazali, autor de A incoerência dos filósofos.
  2. 1126 — Ibn Rushd nasce em Córdoba (14 de abril).
  3. c. 1169 — Ibn Tufayl o apresenta ao califa Abu Yaqub Yusuf; ele é nomeado juiz de Sevilha e começa seus comentários sobre Aristóteles.
  4. c. 1179 — Escreve O tratado decisivo e obras relacionadas à religião e à filosofia.
  5. c. 1180 — Escreve A incoerência da incoerência em resposta a Al-Ghazali.
  6. 1182 — Sucede Ibn Tufayl como médico da corte.
  7. 1195 — Cai em desgraça, alguns de seus livros são queimados e ele é exilado em Lucena.
  8. 1198 — Depois de recuperar o favor do califa, morre em Marraquexe (dezembro).
  9. c. 1217 — Miguel Escoto começa a traduzir seus comentários para o latim (as datas indicadas vão de 1217 à década de 1220).
  10. 1270 — Tomás de Aquino escreve Sobre a unidade do intelecto contra os averroístas.
  11. 1277 — O bispo Tempier, de Paris, condena 219 proposições, muitas delas ligadas ao aristotelismo radical.
  12. 1852 — Ernest Renan publica Averroès et l'averroïsme.

Glossário

Al-Andalus
As partes da Península Ibérica sob domínio muçulmano (711–1492).
Almóadas
Dinastia berbere reformista que governou o norte da África e Al-Andalus nos séculos XII e XIII.
Cádi
Juiz que aplica o direito islâmico.
Escola maliquita
Uma das quatro escolas sunitas de direito islâmico, predominante no norte da África e em Al-Andalus.
Comentário
Obra que explica outro texto, muitas vezes trecho por trecho.
Demonstração
Na lógica de Aristóteles, prova baseada em premissas verdadeiras e certas que produz conhecimento seguro.
Intelecto agente
Na teoria aristotélica da alma, o princípio ativo que torna as coisas compreensíveis para a mente.
Averroísmo
Nome dado a correntes de pensadores medievais e renascentistas que seguiram Aristóteles segundo a interpretação de Averróis.
Escolástica
Método de ensino e argumentação usado nas universidades europeias medievais.
Ta'wil
Interpretação do texto sagrado para além de seu sentido literal.

Perguntas e respostas

Por que ele tem dois nomes?

Ibn Rushd é seu nome em árabe. Os europeus medievais o adaptaram para o latim como Averróis, assim como Ibn Sina se tornou Avicena.

Ele achava que a religião era falsa?

Não. Ele argumentava que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia concordam. Os estudiosos debatem como ele conciliava as duas, mas a maioria dos historiadores não aceita a ideia de que ele rejeitava o islã em segredo.

Por que seus livros foram queimados?

Em 1195, o califa se voltou contra ele, provavelmente por razões políticas: precisava do apoio de estudiosos religiosos conservadores durante uma guerra. Ibn Rushd foi perdoado cerca de dois anos depois.

O que é “dupla verdade”?

É a afirmação de que uma ideia pode ser verdadeira na filosofia e falsa na teologia. Opositores acusaram os averroístas latinos de defendê-la, mas nem Ibn Rushd nem, ao que parece, qualquer pensador medieval realmente a ensinou.

Por que ele é mais famoso na Europa do que no mundo islâmico?

Seus comentários sobre Aristóteles chegaram à Europa quando as universidades adotavam esse filósofo. No mundo islâmico, a filosofia seguiu principalmente a abordagem de Avicena. Desde então, pensadores árabes modernos renovaram o interesse por Ibn Rushd.

Ele aparece em A Escola de Atenas, de Rafael?

Uma figura de turbante no afresco é tradicionalmente identificada como Averróis, mas essa identificação é incerta.

Qual era sua ideia sobre o intelecto?

Em sua obra madura, ele argumentou que existe um único intelecto material compartilhado por todos os seres humanos, ligado a cada pessoa por meio da imaginação. Os críticos diziam que isso negava a imortalidade individual.

Averróis conheceu Maimônides?

Os dois nasceram em Córdoba, mas não há provas de que tenham se encontrado. A família de Maimônides deixou a cidade quando ele era jovem, após a conquista almóada, e ele só conheceu os comentários de Ibn Rushd perto do fim da vida, por volta de 1190.

Fontes e leituras adicionais

  1. Ibn Rushd [Averroes]. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  2. H. Chad Hillier, Ibn Rushd (Averroes) (1126–1198). Internet Encyclopedia of Philosophy
  3. Averroes. Wikipedia
  4. Averroism. Wikipedia
  5. The Incoherence of the Incoherence. Wikipedia
  6. 이븐 루시드. 위키백과 (Korean Wikipedia)
  7. George F. Hourani (trans.), Averroes on the Harmony of Religion and Philosophy. Luzac, 1961
  8. Simon van den Bergh (trans.), Averroes' Tahafut al-Tahafut (The Incoherence of the Incoherence). Oxford University Press / E. J. W. Gibb Memorial, 1954

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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