Literatura

Divina Comédia

Commedia (later Divina Commedia)

c. 1308–1321 · Ravena (escrita no exílio)

Em uma frase

A Divina Comédia é um longo poema italiano em que Dante imagina uma viagem pelo Inferno, a subida da montanha do Purgatório e a ascensão ao Paraíso.

Divina Comédia
Imagem: Domenico di Michelino / After Alesso Baldovinetti · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há cerca de 700 anos, um homem chamado Dante vivia em Florença, na Itália. Ele gostava de poesia e também participava da política da cidade. Um dia, seus inimigos venceram, e Dante foi proibido de voltar para casa. Pelo resto da vida, ele passou de uma cidade para outra, sentindo saudade de Florença.

Longe de casa, Dante escreveu um poema enorme. Nele, conta que se perdeu em uma floresta escura. Então aparece Virgílio, um poeta famoso da Antiguidade. Virgílio diz que vai mostrar o caminho de saída, mas que a viagem será longa.

Primeiro, os dois descem ao Inferno. No poema, ele parece um funil gigante dentro da Terra, com círculos cada vez menores. Ali estão pessoas que fizeram coisas ruins. Cada castigo tem a ver com o erro da pessoa. Depois, Dante e Virgílio sobem uma grande montanha chamada Purgatório. Lá, as pessoas aprendem a ser melhores, um passo de cada vez.

No alto da montanha, Dante encontra Beatriz, uma mulher que ele amava desde jovem. Ela o guia pela Lua, pelo Sol, pelos planetas e pelas estrelas, até um lugar cheio de luz. No fim, Dante vê um amor tão grande que move o Sol e as outras estrelas.

O poema se chama “Comédia” porque começa em um lugar assustador e termina bem, não porque seja engraçado. Dante o escreveu na língua que as pessoas falavam em Florença, em vez de usar o latim. Isso ajudou a formar o italiano usado hoje.

Em resumo

Autor
Dante Alighieri (1265–1321), poeta, pensador e político florentino exilado
Composição
c. 1308–1321 (a data de início é debatida; o Paraíso foi concluído pouco antes da morte de Dante)
Onde foi escrita
No exílio, principalmente no norte da Itália (provavelmente na Lunigiana, em Verona e, por fim, em Ravena), e não em Florença
Língua
Italiano vernáculo florentino (toscano), e não latim
Forma
Poema narrativo de 100 cantos em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), com 14.233 versos em terza rima
Data fictícia da viagem
Semana da Páscoa do ano 1300
Primeira edição impressa
Foligno, 11 de abril de 1472
Importância
Obra fundamental da literatura italiana e um dos poemas mais influentes da literatura mundial

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O que é a Divina Comédia?

A Divina Comédia é um longo poema narrativo escrito em italiano por Dante Alighieri no início do século XIV. Narrado em primeira pessoa, conta a história de uma viagem imaginária que o próprio Dante faz pelos três reinos da vida após a morte, conforme eram concebidos pelo cristianismo latino medieval: Inferno, Purgatório e Paraíso.

Dante chamava o poema simplesmente de Commedia, ou “Comédia”. Na teoria literária medieval, comédia não era uma história engraçada, mas uma história que começa na desgraça e termina na felicidade, contada em um estilo relativamente simples; a tragédia fazia o caminho inverso. O adjetivo “Divina” foi acrescentado mais tarde por admiradores: Giovanni Boccaccio elogiou o poema como “divino” na década de 1350, e o título completo Divina Commedia apareceu pela primeira vez em uma edição impressa em Veneza, em 1555.

O poema é imenso: tem 100 cantos (um canto é uma parte de um poema longo, semelhante a um capítulo) e 14.233 versos. Ainda assim, sua organização é rigorosa. Ele reúne pessoas reais da história e da época de Dante e está repleto de teologia, filosofia, astronomia e política. Pode ser lido ao mesmo tempo como uma aventura, uma autobiografia espiritual, uma obra de protesto político e uma enciclopédia do conhecimento medieval.

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Fácil

A história: de uma floresta escura às estrelas

O poema começa com seus versos mais famosos: no meio do caminho da vida, Dante se vê perdido em uma floresta escura, depois de se afastar da estrada certa. Três feras (uma onça, um leão e uma loba) bloqueiam sua subida por uma colina iluminada pelo sol. Então aparece a sombra, ou espírito, do poeta romano Virgílio. Ele explica que Beatriz, uma florentina amada por Dante que morreu em 1290, pediu do Céu que Dante fosse socorrido. A única saída exige um longo desvio: atravessar os reinos da vida após a morte.

No Inferno, Virgílio conduz Dante pelos nove círculos de uma imensa cavidade em forma de funil sob Jerusalém. Nos círculos superiores estão aqueles cujos pecados nasceram da falta de autocontrole, como os amantes Francesca e Paolo, arrastados eternamente por uma tempestade. Mais abaixo estão os violentos e, nos círculos mais profundos, os fraudulentos e os traidores. No fundo congelado, Lúcifer está preso no gelo, mastigando os traidores Judas, Bruto e Cássio. Os viajantes descem pelo corpo de Lúcifer, atravessam o centro da Terra e saem do outro lado do mundo.

No Purgatório, eles sobem uma montanha que se ergue do oceano no hemisfério sul. Ali, as almas que se arrependeram antes de morrer são purificadas de suas faltas em sete terraços, cada um ligado a um dos sete pecados capitais (soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria). Ao contrário do Inferno, o Purgatório é cheio de esperança, orações e cantos, e as almas avançam para cima. No cume fica o Paraíso Terrestre, o Jardim do Éden. Ali Beatriz aparece, Virgílio desaparece discretamente, e Dante confessa suas faltas e é purificado.

No Paraíso, Beatriz guia Dante pelas nove esferas celestes da astronomia medieval: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, Estrelas Fixas e Primeiro Móvel (a esfera móvel mais externa). Santos e filósofos explicam questões de fé, livre-arbítrio e justiça. Por fim, além do espaço e do tempo, no Empíreo, Dante vê os bem-aventurados dispostos como uma grande rosa branca. Guiado então por São Bernardo de Claraval, ele tem uma breve visão de Deus. O poema termina quando sua vontade passa a se mover em harmonia com “o amor que move o sol e as outras estrelas”.

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Fácil

Quem foi Dante?

Dante Alighieri nasceu em Florença em 1265, em uma família da pequena nobreza. Quando jovem, escreveu poemas de amor e participou de um grupo de poetas cujo estilo novo e refinado ele mais tarde chamou de “doce estilo novo” (dolce stil novo). Seu primeiro livro, Vita nuova (“Vida nova”, c. 1293–1295), conta em prosa e verso seu amor por Beatriz, geralmente identificada como Beatrice Portinari, que morreu em 1290.

Dante também participou da política. Florença estava dividida entre facções e, em 1300, ele exerceu por dois meses o cargo de prior, uma das mais altas autoridades da cidade. Em 1301–1302, uma facção rival apoiada pelo papa Bonifácio VIII tomou o poder. Dante, que estava fora da cidade, foi condenado em janeiro de 1302 e depois sentenciado à morte caso voltasse. Ele nunca mais viu Florença.

No exílio, Dante dependeu de protetores em outras cidades, entre eles os senhores Della Scala, de Verona, e, no fim da vida, Guido Novello da Polenta, de Ravena. Nesses anos, escreveu a obra filosófica Convivio, o tratado em latim De vulgari eloquentia sobre a dignidade da língua vernácula, o tratado político Monarchia e a Commedia. Morreu em Ravena em setembro de 1321, pouco depois de concluir o Paraíso, e está sepultado ali, não em Florença.

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Intermediário

Contexto histórico: a Itália e o mundo por volta de 1300

Por volta de 1300, a península Itálica não era um país unificado, mas um conjunto de cidades-repúblicas, senhorios, o Reino de Nápoles e os Estados Pontifícios. Florença era uma das cidades mais ricas da Europa, um centro bancário e do comércio de lã e tecidos. Sua moeda de ouro, o florim, circulava por todo o Mediterrâneo. A política florentina era violenta: à longa disputa entre guelfos (em geral favoráveis ao papa) e gibelinos (em geral favoráveis ao imperador) seguiu-se uma divisão entre os guelfos vitoriosos, em Brancos e Negros. Dante pertencia aos Brancos.

Essa política atravessa o poema. Dante coloca papas entre os condenados, inclusive Bonifácio VIII, ainda vivo na época da viagem fictícia, por meio de uma profecia engenhosa. Ele critica a ganância de Florença e deseja a vinda de um imperador do Sacro Império Romano-Germânico capaz de trazer paz à Itália. Quando o imperador Henrique VII chegou à Itália em 1310, Dante depositou nele essa esperança; a morte de Henrique em 1313 pôs fim a ela. Em 1309, o papado havia se transferido para Avignon, na França, o que também alimentou a indignação de Dante com a corrupção da Igreja.

No campo das ideias, Dante viveu no auge da escolástica, um método desenvolvido nas universidades para examinar questões de teologia e filosofia por meio do raciocínio. As obras de Aristóteles, muitas das quais haviam chegado à Europa latina nos séculos XII e XIII em traduções do grego e do árabe, foram incorporadas ao pensamento cristão, junto com comentários de filósofos muçulmanos como Avicena e Averróis, por autores como Alberto Magno e Tomás de Aquino. Dante reconhece essa herança compartilhada: no Limbo, primeiro círculo do Inferno, onde não cristãos virtuosos vivem sem tormento, ele coloca Avicena e Averróis ao lado de Aristóteles, Platão e Euclides, além do sultão muçulmano Saladino.

Em outras partes do mundo, no início do século XIV, os estados sucessores do Império Mongol se estendiam pela Eurásia, o sultanato mameluco governava o Egito e a Síria, o Império do Mali atingia seu auge sob Mansa Musa (cuja famosa peregrinação a Meca ocorreu em 1324–1325), e a dinastia Yuan governava a China. Dante sabia pouco sobre essas regiões distantes, mas o comércio e a produção de conhecimento que ligavam o Mediterrâneo ao mundo islâmico ajudaram a formar o saber presente em seu poema.

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Intermediário

Forma e estrutura: uma catedral de números

Dante construiu o poema com uma simetria quase arquitetônica. Há três cânticas (as três grandes partes), cada uma com 33 cantos, além de um canto introdutório, totalizando 100: um número que os leitores medievais consideravam perfeito (10 × 10). O número três, associado à Trindade cristã, aparece em toda a obra, inclusive na forma dos versos.

Essa forma, inventada por Dante, é a terza rima (“terceira rima”). O poema é escrito em tercetos, estrofes de três versos, geralmente com onze sílabas cada (hendecassílabos). As rimas se encadeiam no esquema ABA BCB CDC e assim por diante: o verso do meio de cada terceto fornece a rima do seguinte. Essa corrente conduz o leitor adiante, como passos de uma viagem, e também dificultava alterações ou acréscimos ao texto, pois mudar um verso rompia a sequência.

Cada uma das três cânticas termina com a mesma palavra, stelle (“estrelas”), marcando cada etapa da viagem como um passo rumo aos céus. A geografia moral também foi cuidadosamente planejada. A estrutura do Inferno segue, em linhas gerais, a ética de Aristóteles (descontrole, violência e fraude), interpretada por categorias cristãs; o Purgatório segue os sete pecados capitais, entendidos como formas de amor desordenado; e o Paraíso segue o cosmos ptolomaico, no qual a Terra ocupa o centro de esferas concêntricas. A ordem moral, a ordem física e a ordem poética refletem umas às outras.

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Intermediário

Ideias e temas centrais

Justiça e contrapasso. No Inferno, os castigos correspondem aos pecados por meio do contrapasso (“sofrimento correspondente”), termo usado no próprio poema (Inferno 28). Os luxuriosos, que se deixaram levar pela paixão, são arrastados para sempre por um vendaval; os adivinhos, que tentaram enxergar longe demais no futuro, caminham com a cabeça virada para trás. Os castigos não são crueldades arbitrárias, mas imagens visíveis da natureza de cada pecado.

Amor e livre-arbítrio. Uma ideia central do poema é que toda ação humana nasce do amor e que o pecado é o amor desordenado: dirigido ao objeto errado, fraco demais ou forte demais. Isso é explicado no centro da obra, em Purgatório 17–18. Como os seres humanos têm livre-arbítrio, são responsáveis pela direção que dão a seu amor. A viagem reeduca os desejos do próprio Dante e termina com sua vontade em harmonia com o amor divino.

Razão e fé. Virgílio, poeta pagão, representa o que há de melhor na razão humana e na cultura clássica. Ele pode guiar Dante pelo Inferno e pela subida do Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso. Ali, Beatriz, associada à graça, à revelação e à teologia, assume a função de guia. Assim, o poema valoriza profundamente o saber clássico e, ao mesmo tempo, afirma seus limites, uma relação que fascina leitores há séculos.

O indivíduo na história. Diferentemente de muitos relatos de visões anteriores, a Comédia está repleta de pessoas identificadas pelo nome, muitas delas conhecidas por Dante ou de quem ele tinha ouvido falar, cada uma com uma voz própria. O crítico literário Erich Auerbach argumentou que as personagens de Dante são mostradas na verdade decisiva e eterna de suas vidas terrenas. Desse modo, a vida após a morte se torna uma forma de revelar o caráter humano com uma intensidade sem precedentes. A política também é um tema: Dante defende que Igreja e Império atuem cada qual em sua própria esfera, ideia desenvolvida em Monarchia.

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Intermediário

Por que a língua importa

Na época de Dante, os textos de estudo considerados mais importantes na Europa Ocidental eram escritos em latim. Escolher o vernáculo florentino (a língua falada na região) para escrever um poema épico sobre teologia e filosofia era afirmar, com ousadia, que a fala cotidiana podia expressar as ideias mais elevadas. Dante já havia defendido a dignidade do vernáculo em De vulgari eloquentia, obra escrita, ironicamente, em latim para alcançar os estudiosos.

A Commedia combina livremente diferentes registros: palavras grosseiras e cômicas nas profundezas do Inferno, linguagem lírica e delicada no Purgatório e palavras abstratas, por vezes inventadas, no Paraíso. Ali, Dante cria verbos como trasumanar (“ir além do humano”) para descrever experiências que a linguagem comum não consegue expressar.

Como o poema passou a ser amplamente lido, copiado e recitado, sua língua florentina se tornou um modelo. No século XVI, estudiosos como Pietro Bembo promoveram o toscano do século XIV, sobretudo o de Petrarca e Boccaccio, como padrão do italiano literário, e o vocabulário de Dante entrou na língua comum. Por isso, Dante costuma ser chamado de “pai da língua italiana”: é uma simplificação, mas reflete sua influência real.

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Intermediário

Manuscritos, impressão e edições

Nenhum manuscrito escrito pela mão de Dante sobreviveu; na verdade, não se conhece uma única linha de sua caligrafia. O poema circulou em cópias: restam cerca de 800 manuscritos dos séculos XIV e XV, o que o torna um dos textos em língua vernácula mais copiados da Idade Média europeia. Ao que parece, o Inferno já circulava antes de o poema inteiro estar concluído; versos dessa parte foram copiados por tabeliães em Bolonha na década de 1310.

Logo após a morte de Dante, começaram a surgir comentários sobre o poema, inicialmente escritos por seus filhos Jacopo e Pietro Alighieri e por outros primeiros leitores. Em 1373–1374, Florença, a cidade que havia exilado Dante, contratou Boccaccio para dar palestras públicas sobre a obra, sinal de como ela rapidamente se tornara um clássico da cidade. Boccaccio também copiou o poema várias vezes, e suas cópias influenciaram a tradição textual posterior.

A primeira edição impressa saiu em Foligno em 11 de abril de 1472. Outras edições logo apareceram em Veneza e em outros lugares, muitas vezes acompanhadas de comentários e, mais tarde, de ilustrações em xilogravura. A edição crítica moderna de referência foi preparada por Giorgio Petrocchi e publicada em 1966–1967; ela reconstitui o texto a partir de manuscritos copiados antes de aproximadamente 1355, a chamada antica vulgata (“antiga versão corrente”). Editores posteriores propuseram outros métodos, de modo que a redação exata de alguns versos continua em debate.

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Intermediário

Influência e legado

Na Itália, a Commedia se tornou uma obra fundamental para a literatura, a educação e, mais tarde, a identidade nacional. Durante o movimento de unificação italiana do século XIX, Dante foi celebrado como um profeta da nação. Artistas do início do Renascimento ilustraram o poema, especialmente Sandro Botticelli, em uma série de desenhos do fim do século XV.

Sua influência vai muito além da Itália. Em inglês, Chaucer adaptou passagens do poema. No século XIX, o poeta Henry Wadsworth Longfellow publicou uma influente tradução norte-americana (1867), e as ilustrações de William Blake e Gustave Doré marcaram a maneira como gerações posteriores imaginaram o Inferno e o Paraíso. A escultura A Porta do Inferno, de Auguste Rodin, que inclui a figura mais tarde conhecida como O Pensador, nasceu do Inferno. No século XX, T. S. Eliot, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, Primo Levi e muitos outros dialogaram intensamente com Dante. A lembrança de Levi de recitar o canto de Ulisses em Auschwitz é um dos testemunhos mais comoventes da força do poema.

O poema foi traduzido para dezenas de línguas, incluindo várias traduções para o coreano, o japonês e o chinês, e continua a inspirar romances, filmes, músicas, histórias em quadrinhos e jogos eletrônicos. Expressões cotidianas como chamar um lugar terrível de “dantesco” ou falar em “círculos do Inferno” vêm da obra. Ao mesmo tempo, leitores atuais também examinam criticamente certos trechos, como aquele em que o profeta Maomé e Ali aparecem entre os “semeadores da discórdia”, no canto 28 do Inferno. Muitos muçulmanos consideram essa representação profundamente ofensiva, e estudiosos a entendem como produto das polêmicas cristãs medievais sobre o cisma.

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Avançado

Debates acadêmicos e questões em aberto

Datação. Os estudiosos concordam, em linhas gerais, que Dante escreveu o poema durante o exílio e concluiu o Paraíso perto de sua morte, em 1321, mas a data de início é controversa. Muitos situam o começo do Inferno por volta de 1306–1308; outros defendem uma data anterior, por volta de 1304. Boccaccio registrou uma história segundo a qual os primeiros sete cantos teriam sido escritos antes do exílio, relato que a maioria dos estudiosos atuais considera uma lenda. Também se discute quando cada cântica foi “publicada”, ou seja, liberada para ser copiada; o Inferno provavelmente já circulava por volta de 1314–1317.

A Carta a Cangrande. Uma carta em latim dirigida a Cangrande della Scala, senhor de Verona, explica o título do poema e descreve quatro maneiras de interpretá-lo (literal, alegórica, moral e anagógica, isto é, espiritual ou mística). Ela afirma que seu tema é “o estado das almas após a morte”. Há mais de um século se discute se Dante escreveu a carta inteira, apenas uma parte dela ou nada dela. A resposta influencia o peso dado às interpretações alegóricas.

Alegoria, ficção e verdade. Os leitores discordam sobre como o poema se apresenta como verdadeiro. Charles Singleton defendeu, de forma influente, que Dante adota a “alegoria dos teólogos”: dentro da ficção, apresenta a viagem como literalmente real, à maneira dos acontecimentos bíblicos que também têm significado espiritual. A ideia de figura proposta por Auerbach (pessoas e acontecimentos reais em si mesmos que também cumprem um padrão mais profundo) está relacionada a essa leitura. Em The Undivine Comedy (1992), Teodolinda Barolini propôs que os leitores observassem os recursos narrativos com que Dante dá autoridade a seu mundo inventado, em vez de simplesmente aceitar a teologia do poema como chave de interpretação.

Fontes islâmicas. Em 1919, o estudioso espanhol Miguel Asín Palacios defendeu que Dante foi influenciado por relatos islâmicos da viagem noturna e ascensão do profeta Maomé (isra e miraj). A descoberta e publicação, em 1949, de versões em latim e francês do Livro da Escada (Liber scale Machometi), narrativa do miraj traduzida na Castela do século XIII, mostrou que esse material circulava na cristandade latina. Ainda não há prova de que Dante o conhecesse diretamente, e os estudiosos continuam divididos entre os que identificam uma influência efetiva e os que veem desenvolvimentos paralelos dentro de uma tradição mediterrânea compartilhada de relatos visionários.

Filosofia e ortodoxia. O grau de “ortodoxia” do pensamento de Dante continua em debate. A presença de Siger de Brabante, aristotélico controverso, entre os sábios do Paraíso, e as ideias de Dante sobre a separação entre Igreja e Império (Monarchia foi posteriormente condenada e incluída no Índice de Livros Proibidos) levaram alguns estudiosos a destacar sua independência em relação a Tomás de Aquino. Outros ressaltam a ampla base tomista de seu pensamento. A Enciclopédia Stanford de Filosofia descreve a influência do averroísmo latino sobre Dante como um tema de debate ainda ativo.

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Avançado

Fontes primárias e notas metodológicas

As principais fontes para estudar o poema são os manuscritos (nenhum deles escrito pela mão de Dante), os primeiros comentários (de Jacopo e Pietro Alighieri, Graziolo Bambaglioli, Jacopo della Lana, do Ottimo commento, de Benvenuto da Imola e de outros), documentos sobre a vida de Dante, como as sentenças florentinas de 1302, e as demais obras do poeta. Para sua biografia, o Trattatello in laude di Dante, de Boccaccio, é uma fonte antiga, mas mistura fatos e lendas e deve ser usado com cuidado.

Como a tradição textual é “contaminada” (os copistas usavam vários manuscritos como modelos e corrigiam um com base em outro), o método genealógico clássico, que tenta reconstruir uma árvore de parentesco dos manuscritos, funciona de maneira imperfeita. A decisão de Petrocchi de se limitar à antica vulgata foi uma resposta prática a esse problema. Estudantes devem saber que a numeração e a redação dos versos podem variar um pouco entre as edições.

A tradição dos comentários também é uma fonte primária para estudar a recepção da obra. Recursos digitais como o Dartmouth Dante Project, que reúne textos de comentários produzidos ao longo de muitos séculos, permitem acompanhar como determinados versos foram interpretados do século XIV até hoje. Por fim, ler o poema em tradução sempre exige escolhas: a maioria dos tradutores precisa decidir entre reproduzir a terza rima e permanecer próxima do sentido literal de Dante. Por isso, recomenda-se comparar várias traduções ou consultar uma edição com o texto italiano na página ao lado.

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Ideias principais

A viagem como conversão
A viagem pelos reinos da vida após a morte reflete a transformação interior de Dante, que passa da confusão e do pecado à clareza e ao amor.
Contrapasso
Princípio segundo o qual cada castigo no Inferno reflete a natureza do pecado, tornando-o visível.
O amor como origem das ações
Toda ação humana nasce do amor; o pecado é o amor mal direcionado, excessivo ou insuficiente, e a virtude é o amor corretamente ordenado.
Razão e graça
Virgílio (razão humana e cultura clássica) só pode guiar Dante até certo ponto; Beatriz (graça e revelação) o conduz ao Paraíso.
Ordem cósmica
As ordens moral, física e poética se refletem por meio dos números, do cosmos ptolomaico e da estrutura dos três reinos.
Dignidade da língua vernácula
Dante mostrou que o italiano cotidiano podia expressar as ideias mais elevadas da filosofia e da teologia.
O poeta como testemunha e profeta
Dante se apresenta como alguém enviado para relatar o que viu, denunciar a corrupção de seu mundo e convocá-lo à reforma.

Registros

  1. 1265 — Dante Alighieri nasce em Florença.
  2. 1290 — Morre Beatriz (geralmente identificada como Beatrice Portinari).
  3. 1300 — Dante exerce o cargo de prior de Florença; a viagem fictícia do poema se passa na semana da Páscoa desse ano.
  4. 1302 — Dante é condenado e exilado de Florença; nunca mais retorna.
  5. c. 1308 — Período provável em que Dante começa a escrever a Commedia (a data de início é debatida).
  6. c. 1314 — O Inferno provavelmente já circula nessa época; versos são copiados em Bolonha em 1317.
  7. 1321 — Dante conclui o Paraíso e morre em Ravena, em setembro.
  8. 1373 — Boccaccio começa a dar palestras públicas sobre o poema em Florença.
  9. 1472 — Sai a primeira edição impressa, em Foligno.
  10. 1555 — Uma edição veneziana usa pela primeira vez o título “Divina Commedia”.
  11. 1867 — A tradução inglesa de Longfellow é publicada nos Estados Unidos.
  12. 1966 — Começa a ser publicada a edição crítica de Giorgio Petrocchi (1966–1967).

Glossário

Canto
Uma parte importante de um poema longo, semelhante a um capítulo. A Comédia tem 100 cantos.
Cântica (plural: cânticas)
Cada uma das três grandes partes do poema: Inferno, Purgatório e Paraíso.
Terza rima
Esquema de rimas criado por Dante, com estrofes encadeadas de três versos: ABA BCB CDC e assim por diante.
Hendecassílabo
Verso de onze sílabas, comum na poesia italiana.
Limbo
Primeiro círculo do Inferno, onde pessoas virtuosas que não foram batizadas vivem sem tormento, mas sem a visão de Deus.
Purgatório
No ensinamento do cristianismo latino, estado em que as almas salvas são purificadas antes de entrar no Paraíso; Dante o representa como uma montanha.
Empíreo
O céu mais alto, além das esferas físicas, onde habitam Deus e os bem-aventurados.
Guelfos e gibelinos
Facções políticas rivais da Itália medieval, ligadas, em linhas gerais, ao papado e ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico, respectivamente.
Escolástica
Método dos pensadores das universidades medievais que usavam a lógica e a filosofia de Aristóteles para examinar a teologia.
Vernáculo
Língua falada no cotidiano de uma região, em contraste com uma língua de estudo, como o latim.

Perguntas e respostas

Por que o poema se chama “comédia” se não é engraçado?

Na época de Dante, uma comédia era uma história que começava mal e terminava bem, contada em estilo cotidiano. A Commedia começa em uma floresta escura e no Inferno e termina no Paraíso.

A Divina Comédia é uma história verdadeira?

Não. É uma obra de imaginação, embora Dante a apresente como uma visão real e inclua nela pessoas e acontecimentos reais. A viagem se passa em 1300, mas Dante escreveu o poema anos depois.

Quantos círculos tem o Inferno?

Nove. Nos círculos superiores são punidos pecados ligados à falta de autocontrole, como a ganância e a ira; mais abaixo, a violência; e, nos círculos mais profundos, a fraude e a traição. Lúcifer está no fundo.

Quem foi Beatriz?

Uma florentina amada por Dante desde a juventude, geralmente identificada como Beatrice Portinari, que morreu em 1290. No poema, ela se torna uma guia vinda do Céu e um símbolo da graça e da sabedoria divina.

Qual tradução devo ler?

Não existe uma única tradução melhor. As traduções em verso preservam mais da musicalidade; as versões em prosa ou verso a verso tendem a ficar mais próximas do sentido. Muitos leitores escolhem uma edição com o texto italiano na página ao lado e notas explicativas.

Dante se inspirou em fontes islâmicas?

É possível, mas não está comprovado. Uma versão latina de uma narrativa islâmica de ascensão, o Livro da Escada, circulava no século de Dante, e os estudiosos discordam sobre se ele a conhecia.

Por que Dante colocou pessoas reais, até papas, no Inferno?

Para fazer julgamentos morais e políticos sobre o mundo em que vivia. Ao situar pessoas de sua época nos reinos da vida após a morte, ele podia denunciar a corrupção, homenagear amigos e mestres e mostrar como as escolhas individuais têm significado eterno.

Fontes e leituras adicionais

  1. Divine Comedy. Wikipedia
  2. Dante Alighieri. Wikipedia
  3. Dante Alighieri. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  4. Inferno (Dante). Wikipedia
  5. Purgatorio. Wikipedia
  6. Paradiso (Dante). Wikipedia
  7. Terza rima. Wikipedia
  8. Dartmouth Dante Project. Dartmouth College
  9. Erich Auerbach, Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature. Princeton University Press, 1953
  10. Teodolinda Barolini, The Undivine Comedy: Detheologizing Dante. Princeton University Press, 1992

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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