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Para jovens leitores
Imagine uma muralha da altura de um prédio de três andares. Ela faz curvas como uma cobra gigante e foi feita com milhares de pedras cinzentas empilhadas, sem cimento. Essa muralha faz parte do Grande Zimbábue, uma antiga cidade nas colinas do país hoje chamado Zimbábue, no sul da África.
Há cerca de 700 a 900 anos, reis poderosos viviam ali, junto com milhares de outras pessoas. A maioria das famílias morava em casas redondas de terra, com telhados de palha. Os reis e outras pessoas importantes viviam atrás das altas muralhas de pedra, que mostravam seu poder.
Os moradores do Grande Zimbábue cultivavam alimentos, criavam gado e faziam comércio. Enviavam ouro e marfim até a costa do oceano Índico. Em troca, recebiam contas de vidro, tecidos e até cerâmicas vindas da China. Arqueólogos encontraram pedaços dessas tigelas chinesas nas ruínas.
Em uma colina acima da cidade, foram encontrados oito belos pássaros esculpidos em uma pedra macia, de cor entre verde e cinza. Cada pássaro ficava no alto de uma coluna de pedra. Hoje, um deles aparece na bandeira do Zimbábue.
Durante muito tempo, alguns visitantes europeus se recusaram a acreditar que africanos tinham construído uma cidade tão grandiosa. Eles inventaram histórias sobre construtores vindos de longe. Os arqueólogos mostraram que estavam errados: o Grande Zimbábue foi construído pelos antepassados do povo xona, que ainda vive na região.
Em resumo
- Período
- Ocupado desde cerca de 1000 d.C.; construção das muralhas principalmente entre os séculos XII e XV; auge por volta de 1300–1450; declínio nos séculos XV e XVI
- Localização
- Perto de Masvingo, no sudeste do Zimbábue, na borda sul do planalto do Zimbábue
- Construtores
- Antepassados do povo xona, falantes de línguas bantas (Reino do Zimbábue)
- Materiais
- Granito local dividido em blocos e assentado em muralhas de pedra seca (sem argamassa); casas de daga (terra)
- Partes principais
- Complexo da Colina, Grande Recinto e Complexo do Vale; o sítio inteiro ocupa cerca de 7 km²
- Grande Recinto
- Muralha externa com cerca de 250 m de comprimento e até cerca de 11 m de altura; a maior estrutura de pedra pré-colonial ao sul do Saara
- UNESCO
- “Monumento Nacional do Grande Zimbábue”, Patrimônio Mundial desde 1986
- Importância
- Capital de um importante Estado do sul da África ligado ao comércio do oceano Índico; símbolo nacional do Zimbábue
Fácil
O que é o Grande Zimbábue?
O Grande Zimbábue é a antiga capital, hoje em ruínas, de um reino do sul da África. Fica a cerca de 25 km a sudeste da atual cidade de Masvingo, no Zimbábue. É famoso por suas enormes muralhas de blocos de granito, construídas sem argamassa, que se estendem pelas colinas e pelo vale. É o maior entre centenas de sítios semelhantes cercados por muralhas de pedra, muitas vezes chamados de “zimbábues”, espalhados pela região entre os rios Zambeze e Limpopo.
A palavra zimbábue vem do xona, língua falada pela maior parte da população do país atualmente. Costuma ser explicada como dzimba dza mabwe, “casas de pedra”, ou como dzimba woye, “casas veneradas”, expressão usada para as casas ou sepulturas de chefes. Os portugueses registraram o nome já em 1531, na forma “Symbaoe”, com o sentido de corte real. O adjetivo “Grande” distingue esse sítio dos menores.
A cidade cresceu a partir de uma aldeia agrícola, por volta do século XI, e se tornou uma capital que talvez abrigasse 10 mil pessoas ou mais no século XIV. Era o centro de um Estado cuja riqueza vinha do gado, da agricultura e do controle do comércio de ouro e marfim, que seguia para a costa suaíli e atravessava o oceano Índico. No século XVI, havia perdido seu papel central, e o poder na região se deslocou para o norte e o oeste.
O Grande Zimbábue é Patrimônio Mundial da UNESCO e o monumento nacional mais importante do Zimbábue, país que adotou seu nome ao conquistar a independência em 1980. Continua sendo um lugar sagrado para muitas comunidades locais.
Fácil
Percorrendo o sítio: colina, recinto e vale
As ruínas formam três conjuntos principais. O Complexo da Colina fica em uma colina íngreme de granito, cerca de 80 m acima do vale. Ali, as muralhas foram erguidas entre enormes rochas naturais e sobre elas, de modo que a rocha e a construção se misturam. É a parte mais antiga do sítio: a construção em pedra começou ali por volta do século XII. O complexo reúne vários recintos, entre eles o Recinto Oriental, onde foi encontrada a maioria dos famosos pássaros de esteatito. Muitos estudiosos consideram a colina um lugar de importância real e ritual.
Abaixo da colina fica o Grande Recinto, a construção isolada mais impressionante do sítio. Uma muralha externa de cerca de 250 m de comprimento, até cerca de 11 m de altura e até cerca de 5 m de espessura na base forma um oval irregular. Parte de seu topo é decorada com uma faixa de pedras dispostas em zigue-zague, em um padrão de chevrons. No interior há uma muralha mais antiga. Entre as duas passa um corredor estreito, ladeado por muros altos, chamado Passagem Paralela, que leva em direção à Torre Cônica.
A Torre Cônica é um cone maciço de pedra com cerca de 9 m de altura e mais de 5 m de largura na base. Não tem porta nem câmara interna. Seu significado é desconhecido. Entre as explicações propostas estão a de um celeiro simbólico, sinal da generosidade e riqueza do governante; a de um símbolo fálico ou de fertilidade; e a de um monumento cuja forma lembra torres de outros sítios zimbábues.
Entre esses dois conjuntos principais e ao redor deles ficam as ruínas do Complexo do Vale, uma série de recintos menores construídos principalmente nos séculos XIV e XV. Além das muralhas de pedra, a cidade se estendia por uma grande área, onde a maioria dos habitantes vivia em casas redondas de daga, mistura de terra e cascalho, com telhados de palha. Hoje, só as partes de pedra permanecem claramente visíveis. Por isso, é fácil esquecer que as muralhas formavam o núcleo da elite de uma cidade muito maior.
Fácil
Como as muralhas foram construídas
Os construtores usaram o granito das colinas ao redor. Nessa região, as formações arredondadas de granito soltam naturalmente camadas finas e regulares quando a rocha aquece durante o dia e esfria à noite, em um processo chamado esfoliação. As placas podiam ser quebradas em blocos do tamanho de tijolos e levadas ao local da construção. Alguns estudiosos acreditam que os construtores aceleravam o processo aquecendo a rocha com fogo e depois resfriando-a com água, mas há poucas evidências diretas disso.
Todas as muralhas são de pedra seca: os blocos são assentados em fiadas, ou linhas horizontais, sem argamassa. Eles permanecem no lugar graças ao próprio peso e ao encaixe cuidadoso. Cada fiada fica ligeiramente recuada em relação à de baixo, fazendo a muralha se inclinar suavemente para dentro e se tornar mais estável. As muralhas não têm fundações no sentido moderno e muitas vezes foram construídas diretamente sobre a rocha ou sobre terra compactada. As entradas tinham formas arredondadas, e algumas possuíam vergas de madeira e degraus.
As técnicas de construção mudaram com o tempo. Seguindo uma classificação proposta por Anthony Whitty em meados do século XX, os arqueólogos distinguem um estilo inicial, com pedras de formato irregular e assentamento desigual; um estilo posterior muito regular, com fiadas alinhadas, cujo melhor exemplo é a muralha externa do Grande Recinto; e um estilo ainda mais tardio, menos regular. Esses estilos ajudam a estabelecer a ordem relativa de construção das diferentes partes do sítio.
A dimensão da obra era enorme. Estima-se frequentemente que só a muralha externa do Grande Recinto contenha cerca de 15 mil toneladas de pedra. Não há registros escritos de como o trabalho era organizado, mas a construção deve ter exigido muitos trabalhadores durante longos períodos, provavelmente mobilizados pela autoridade dos governantes e pelas obrigações de trabalho das comunidades, como ocorreu em Estados xonas posteriores.
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O povo e o Estado: gado, ouro e poder dos reis
O Grande Zimbábue faz parte de uma longa história de comunidades agrícolas falantes de línguas bantas no sul da África. Agricultores que trabalhavam o ferro e cultivavam plantas como sorgo e milheto viviam na região desde o primeiro milênio d.C. Por volta do século XI, comunidades que os arqueólogos chamam de Gumanye começaram a construir no local. Sua cerâmica e seu modo de vida deram origem diretamente à cultura do Grande Zimbábue.
O precursor imediato do Grande Zimbábue foi Mapungubwe, reino centrado no vale do Limpopo, na atual África do Sul, perto das fronteiras com Botsuana e Zimbábue. Mapungubwe prosperou no século XIII e foi abandonado por volta de 1300. Ali, a classe governante já vivia no alto de uma colina, acima das pessoas comuns, e comerciava ouro e marfim com a costa. A ascensão do Grande Zimbábue na época do declínio de Mapungubwe sugere que o centro do poder e do comércio se deslocou para o norte.
No Grande Zimbábue, a riqueza era medida sobretudo pelo gado. Ossos de animais encontrados no sítio mostram que a elite consumia muita carne bovina. O gado também servia para formar alianças, pagar a compensação matrimonial e recompensar seguidores. Os governantes controlavam ainda o comércio de longa distância. O ouro era extraído no planalto do Zimbábue, principalmente a oeste, e exportado por intermediários, junto com o marfim, para cidades suaílis do litoral, como Sofala e Kilwa. Entre os produtos importados estavam contas de vidro, tecidos, cerâmica persa e peças chinesas de celadon, uma cerâmica de revestimento verde, dos séculos XIII a XV.
As estimativas para a população no auge variam de cerca de 10 mil a 18 mil pessoas, a maioria vivendo fora das muralhas de pedra. Acredita-se que apenas algumas centenas de integrantes da elite morassem dentro dos grandes recintos. O Estado centrado na cidade talvez controlasse uma região de dezenas de milhares de quilômetros quadrados, embora suas fronteiras e sua organização não sejam conhecidas em detalhes.
No contexto mundial, o Grande Zimbábue existiu na mesma época que o Império do Mali, na África Ocidental — onde Mansa Musa fez sua famosa peregrinação em 1324 —, as cidades-Estado suaílis da costa leste africana, as dinastias Yuan e do início da dinastia Ming na China e a Europa do fim da Idade Média. Fazia parte do mundo comercial do oceano Índico, que ligava África, Arábia, Índia e China.
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Significado religioso e cultural; os Pássaros do Zimbábue
O Grande Zimbábue não era apenas um centro político, mas também um lugar sagrado. Na tradição xona posterior, a autoridade do rei, ou mambo, vinha de sua ligação com os antepassados reais e com Deus, Mwari; médiuns espirituais falavam em nome dos antepassados da terra. Muitos estudiosos acreditam que o Complexo da Colina, com suas cavernas, rochas e recintos, estivesse ligado a funções rituais desse tipo, possivelmente incluindo cerimônias para pedir chuva. Essa interpretação, porém, se baseia em estudos de costumes posteriores, e não em evidências diretas.
Os objetos mais famosos do sítio são oito pássaros esculpidos em esteatito, uma pedra macia e esverdeada. Cada pássaro tem cerca de 40 cm de altura e foi colocado no alto de uma coluna de pedra de aproximadamente um metro. A maioria foi encontrada no Recinto Oriental do Complexo da Colina. Não são representações realistas de uma única espécie: combinam características de aves de rapina, como a águia-bateleur ou a águia-pescadora-africana, com detalhes semelhantes aos humanos, como dedos no lugar de garras. Uma interpretação comum é que representam antepassados reais ou mensageiros entre os vivos, os antepassados e o divino.
Os pássaros tiveram uma história recente conturbada. Em 1889, um caçador retirou um deles e o vendeu a Cecil Rhodes; ele permanece na antiga residência de Rhodes, Groote Schuur, na Cidade do Cabo. Outros foram levados para a África do Sul e a Alemanha. A África do Sul devolveu quatro pássaros em 1981, e a parte inferior de um pássaro guardada em Berlim foi devolvida no início dos anos 2000. O pássaro se tornou emblema da Rodésia e, depois, do Zimbábue independente. Ele aparece na bandeira, no brasão e na moeda do país.
Para as comunidades locais de hoje, o Grande Zimbábue é um lugar dos antepassados, onde ainda se realizam cerimônias. Líderes tradicionais e médiuns espirituais às vezes entram em conflito com os responsáveis pela preservação do patrimônio quanto ao acesso ao local, à realização de rituais e ao direito de cuidar do sítio. Clãs vizinhos também apresentam reivindicações concorrentes. Respeitar essas relações vivas passou a fazer parte da gestão do monumento.
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Declínio e história posterior
A partir do século XV, o Grande Zimbábue perdeu seu papel central. Por volta de 1550, já não era uma capital importante, embora pessoas continuassem a viver no local. As causas são debatidas. Entre os possíveis fatores estão o esgotamento de recursos locais — pastagens, terras agrícolas e lenha — pelo uso de uma grande população, a mudança das rotas do comércio de ouro em direção ao vale do Zambeze, ao norte, e a competição política dentro da família governante.
Tradições orais xonas contam que o príncipe Nyatsimba Mutota partiu para o norte em busca de sal e fundou o que se tornaria o Estado de Mutapa. É preciso usar tradições orais com cuidado como fonte histórica, mas essa história combina com o quadro arqueológico de deslocamento do poder para o norte, em direção a Mutapa, encontrado pelos portugueses no século XVI, e para o oeste, em direção ao Estado de Torwa, centrado em Khami — outro Patrimônio Mundial — e posteriormente sucedido pelos rozvis.
Escritores portugueses estabelecidos na costa registraram informações sobre as construções de pedra no início do século XVI. Em 1531, o capitão Vicente Pegado, de Sofala, escreveu sobre uma fortaleza “construída com pedras de tamanho maravilhoso”, sem argamassa, que a população local chamava de Symbaoe. O historiador João de Barros reproduziu relatos desse tipo em meados do século XVI. Nenhum desses escritores visitou pessoalmente o sítio: suas informações vieram de informantes africanos e suaílis.
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A “controvérsia do Zimbábue”: negação colonial e comprovação arqueológica
Em 1871, o geólogo alemão Karl Mauch foi levado ao sítio depois que um caçador chamado Adam Render o encontrara. Mauch declarou que a cidade não poderia ter sido construída por africanos. Especulou que seria uma cópia do palácio da rainha de Sabá e que uma verga de madeira seria de cedro trazido por fenícios. Essas ideias retomavam antigas lendas portuguesas sobre a terra bíblica de Ofir e atendiam aos interesses dos colonizadores europeus, que estavam prestes a ocupar a região.
Depois que a Companhia Britânica da África do Sul, de Cecil Rhodes, assumiu o controle do território em 1890, Rhodes financiou as escavações de James Theodore Bent em 1891. Bent não tinha formação em arqueologia, concluiu que os construtores eram fenícios ou árabes e escavou de modo destrutivo perto da Torre Cônica. Entre 1895 e cerca de 1901, a Companhia das Ruínas Antigas da Rodésia autorizou garimpeiros a procurar ouro nas ruínas. Em 1902–04, Richard Nicklin Hall, nomeado curador, retirou metros de depósitos arqueológicos do Grande Recinto para eliminar o que considerava vestígios da ocupação “cafre” — termo racista usado por ele. Grande parte das evidências que poderiam ter ajudado a datar o sítio foi destruída.
O primeiro arqueólogo profissional a trabalhar no local, David Randall-MacIver, escavou em 1905 e concluiu, no livro Medieval Rhodesia (1906), que as construções eram medievais e africanas. Em 1929, Gertrude Caton Thompson liderou escavações para a Associação Britânica e confirmou a conclusão por meio de um cuidadoso estudo das camadas arqueológicas: todos os objetos que podiam ser datados apontavam para construtores falantes de línguas bantas e para uma data medieval. Muitos colonos rejeitaram suas conclusões, e ela própria descreveu as construções em termos depreciativos, mas as evidências científicas eram claras.
A datação por radiocarbono, aplicada a partir da década de 1950, confirmou a cronologia medieval. A essa altura, a origem africana já era consenso entre os arqueólogos. Mesmo assim, o governo da minoria branca da Rodésia, sobretudo depois de sua declaração unilateral de independência em 1965, pressionou museus e guias turísticos a apresentar as origens do sítio como incertas ou estrangeiras. Arqueólogos que afirmavam publicamente a verdade enfrentavam censura. Peter Garlake, inspetor de monumentos do governo, deixou o país em 1970, e Roger Summers, do museu nacional, também partiu. Hoje, a controvérsia é um exemplo clássico de como o racismo e a política podem distorcer a interpretação do passado.
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Preservação hoje
O Grande Zimbábue é administrado pelos Museus e Monumentos Nacionais do Zimbábue e foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1986. As muralhas enfrentam várias ameaças: desabamentos causados pela retirada de depósitos que lhes davam sustentação durante as primeiras escavações, crescimento de árvores e raízes, danos provocados pela água, erosão, líquens e visitantes que sobem nas muralhas.
Algumas reconstruções antigas também receberam críticas. No século XX, trechos desabados às vezes foram reconstruídos sem documentação cuidadosa, dificultando a distinção entre a alvenaria original e as obras posteriores. As práticas atuais de preservação dão ênfase ao monitoramento, à intervenção mínima, ao registro de cada reparo e ao uso de técnicas tradicionais de pedra seca por pedreiros locais treinados.
A participação da comunidade é uma questão central. Após a independência, o sítio passou a ser administrado como monumento nacional e atração turística, o que às vezes limitou o acesso dos moradores locais, para quem ele é sagrado. Especialistas em patrimônio, entre eles o arqueólogo zimbabuano Webber Ndoro, defendem que a preservação reconheça o significado espiritual do lugar e envolva as comunidades locais, além de proteger suas pedras.
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Legado: o nome de uma nação
Para os nacionalistas africanos que lutavam contra o governo da minoria branca na Rodésia, o Grande Zimbábue se tornou um poderoso símbolo das realizações e da autonomia política dos africanos. Quando o país conquistou a independência em 1980, adotou o nome Zimbábue, e o pássaro de esteatito passou a figurar na nova bandeira. Poucos sítios arqueológicos no mundo tiveram um papel tão direto na identidade de um Estado moderno.
O sítio também foi usado politicamente depois da independência, por exemplo para sustentar diferentes versões da história nacional favorecidas pelo governo de cada época. Historiadores observam que tanto escritores coloniais quanto nacionalistas recorreram ao Grande Zimbábue para apoiar suas próprias visões do presente. Isso mostra que o patrimônio está sempre sujeito a interpretações.
Nos estudos históricos e arqueológicos, o Grande Zimbábue transformou as ideias sobre o passado africano. É um exemplo fundamental do desenvolvimento de Estados complexos e centros urbanos na África Subsaariana sem a influência de conquistadores externos, além de mostrar a participação africana em uma rede comercial que ligava o continente à Ásia séculos antes do colonialismo europeu.
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Debates acadêmicos e questões em aberto
Cronologia. A sequência mais aceita situa primeiro o Complexo da Colina, a partir de cerca dos séculos XI ou XII; depois, o Grande Recinto, entre os séculos XIII e XV; e, por fim, o Complexo do Vale, nos séculos XIV e XV. Ela foi elaborada com base em datas obtidas por radiocarbono, produtos importados e estilos das muralhas. No entanto, como as primeiras escavações destruíram grande parte das camadas arqueológicas, a sequência se apoia em evidências limitadas. Na década de 2010, Shadreck Chirikure e colegas reexaminaram as datas de radiocarbono com modelos estatísticos bayesianos e argumentaram que as diferentes partes do sítio foram ocupadas de maneira mais simultânea do que supõe o modelo simples de “colina, depois recinto, depois vale”.
Para que servia o Grande Recinto? Duas interpretações amplas predominaram. Em uma delas, associada ao historiador David Beach e a outros estudiosos, os diferentes complexos refletem uma sucessão de governantes que mudaram suas residências ao longo do tempo. Em uma interpretação “estruturalista”, desenvolvida pelo arqueólogo Thomas Huffman com base em estudos de costumes xonas e vendas posteriores, os complexos tinham funções distintas ao mesmo tempo: o Complexo da Colina seria a residência do rei e um centro ritual, enquanto o Grande Recinto abrigaria esposas reais e cerimônias de iniciação. Os críticos argumentam que é arriscado projetar costumes modernos sobre uma época vários séculos anterior e que as datas não sustentam claramente essa interpretação.
Quem exatamente foram os construtores? Os arqueólogos concordam que o Grande Zimbábue foi construído por africanos falantes de línguas bantas, cuja cultura tem continuidade entre os xonas. Atribuições mais específicas são debatidas: a maioria associa os construtores aos antepassados dos carangas, um grupo xona; algumas tradições também apontam ligações com comunidades falantes da língua venda; e os lembas têm tradições orais que os associam ao sítio. Essas são questões sobre a relação entre identidades atuais e uma população antiga, não sobre a origem africana do monumento.
Por que a cidade entrou em declínio e qual era seu tamanho? As estimativas populacionais dependem do número de casas que se supõe terem existido fora das muralhas, onde poucas escavações foram realizadas. Modelos recentes sugerem números menores, abaixo de cerca de 10 mil habitantes, em comparação com estimativas anteriores de até 18 mil. A importância relativa da pressão ambiental, das mudanças nas rotas comerciais e da fragmentação política no declínio continua em aberto.
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Evidências e métodos
Ausência de escrita. Os habitantes do Grande Zimbábue não usavam a escrita, por isso não há inscrições nem crônicas produzidas na própria cidade. O conhecimento sobre ela vem da arqueologia, de fontes escritas externas — textos da costa suaíli, árabes e portugueses que mencionam o ouro e os reinos do interior —, de tradições orais registradas mais tarde e da comparação com sociedades xonas posteriores. Cada tipo de evidência tem limites, e boas interpretações os combinam com cuidado.
Métodos de datação. A datação por radiocarbono mede a desintegração do carbono-14 em materiais orgânicos, como carvão ou madeira. Mais de duas dezenas de datas foram obtidas para o sítio, embora as primeiras medições, feitas na década de 1950, sejam hoje consideradas pouco confiáveis. Objetos importados cuja época é conhecida, especialmente cerâmicas chinesas dos séculos XIV e XV e tipos identificáveis de contas de vidro, permitem conferir as datas. A datação relativa usa a estratigrafia, ou ordem das camadas de depósitos, e os estilos das muralhas.
O registro danificado. A destruição causada por caçadores de tesouros e pelos primeiros escavadores nas décadas de 1890 e 1900 é um problema central para a pesquisa. Os arqueólogos precisam trabalhar com depósitos remexidos, reinterpretar registros de antigas escavações e, muitas vezes, estudar sítios próximos menos danificados e outros zimbábues para compreender a capital.
Historiografia. A história das pesquisas no Grande Zimbábue mostra como as questões acadêmicas são moldadas pelo contexto político. As primeiras teorias foram orientadas pela ideologia colonial, a aceitação da refutação científica foi retardada pela política dos colonos, e as narrativas posteriores à independência às vezes simplificaram o passado para atender a objetivos nacionais. Pesquisadores atuais, muitos deles zimbabuanos, procuram escrever a história do sítio a partir de perspectivas africanas, mantendo-se fiéis às evidências.
Ideias principais
- Arquitetura de pedra seca
- Muralhas construídas com pedras cuidadosamente encaixadas, sem argamassa; no Grande Zimbábue, a técnica alcançou escala monumental e grande refinamento.
- Cultura do Zimbábue
- Tradição arqueológica de centros da elite cercados por muralhas de pedra no planalto do Zimbábue, de Mapungubwe ao Grande Zimbábue, Khami e sítios posteriores.
- Riqueza em gado e ouro
- O poder da elite se apoiava no controle dos rebanhos e do comércio de ouro e marfim com a costa do oceano Índico.
- Realeza sagrada
- A autoridade dos governantes estava ligada aos antepassados e ao divino; as muralhas separavam a elite governante e exibiam seu poder.
- A controvérsia do Zimbábue
- A negação, durante o período colonial, de que africanos construíram o sítio, refutada pela arqueologia, mas mantida politicamente na Rodésia até 1980.
- Patrimônio e identidade
- O sítio deu seu nome e seu emblema ao Zimbábue moderno e continua sagrado para as comunidades locais.
- Ligações com o oceano Índico
- Cerâmicas chinesas e persas e contas de vidro mostram que o interior do sul da África participava de uma rede comercial que chegava à Ásia.
Registros
- c. 300 d.C. — Comunidades agrícolas que trabalhavam o ferro vivem na região.
- c. 1000 — Começa a ocupação agrícola na colina do Grande Zimbábue e em seu entorno.
- c. 1150 — As primeiras muralhas de pedra são construídas no Complexo da Colina.
- c. 1300 — Mapungubwe é abandonado; o Grande Zimbábue se torna o principal centro da região.
- c. 1350 — A muralha externa do Grande Recinto e a Torre Cônica são construídas por volta dessa época.
- c. 1450 — Começa o declínio, enquanto o poder se desloca para o norte, em direção a Mutapa, e para o oeste, em direção a Torwa e Khami.
- 1531 — Vicente Pegado, capitão português em Sofala, registra uma descrição de “Symbaoe”.
- 1871 — Karl Mauch visita o sítio e afirma que seus construtores eram estrangeiros, dando início à “controvérsia do Zimbábue”.
- 1891 — J. Theodore Bent escava para Cecil Rhodes e atribui o sítio a fenícios ou árabes.
- 1905 — David Randall-MacIver realiza escavações e conclui que o sítio é medieval e africano.
- 1929 — As escavações de Gertrude Caton Thompson confirmam que as construções são africanas e datam da Idade Média.
- 1986 — O Monumento Nacional do Grande Zimbábue é inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, seis anos após a independência do Zimbábue, em 1980.
Glossário
- Xona
- Maior grupo linguístico e étnico do Zimbábue, descendente dos construtores do Grande Zimbábue.
- Banto
- Grande família de línguas aparentadas faladas na África Central, Oriental e Austral, incluindo o xona.
- Muralha de pedra seca
- Muralha feita de pedras encaixadas sem argamassa.
- Esfoliação
- Desprendimento natural de camadas finas de uma rocha quando ela aquece e esfria; fornecia placas planas aos construtores.
- Daga
- Material de construção feito de terra misturada com cascalho, usado em casas, pisos e plataformas.
- Padrão de chevrons
- Desenho decorativo em zigue-zague formado por pedras colocadas em ângulo, presente em parte da muralha do Grande Recinto.
- Esteatito
- Pedra macia e fácil de esculpir, usada para fazer os Pássaros do Zimbábue.
- Celadon
- Cerâmica chinesa com revestimento verde, cujos fragmentos foram encontrados no Grande Zimbábue.
- Mambo
- Título xona dado a um rei ou governante.
- Estratigrafia
- Estudo das camadas de solo e de depósitos; as camadas inferiores costumam ser mais antigas, o que ajuda a datar os achados.
- Datação por radiocarbono
- Método que determina a idade de restos orgânicos medindo a desintegração do carbono-14.
Perguntas e respostas
Quem construiu o Grande Zimbábue?
Africanos falantes de línguas bantas que eram antepassados do povo xona do atual Zimbábue. A arqueologia comprovou isso sem deixar dúvidas.
Qual é a idade do Grande Zimbábue?
Pessoas viviam ali desde cerca de 1000 d.C. A maior parte das muralhas de pedra foi construída aproximadamente entre os séculos XII e XV; portanto, elas têm cerca de 600 a 900 anos.
Por que as muralhas não têm cimento nem argamassa?
Os construtores usaram a técnica da pedra seca: blocos planos de granito foram bem encaixados, com cada camada ligeiramente recuada, de modo que a muralha permanece firme graças ao próprio peso.
Para que servia o Grande Zimbábue?
Era a capital de um reino: residência real, centro religioso e cidade. Ainda se debate a função exata de cada uma de suas partes.
Por que algumas pessoas afirmaram que estrangeiros o construíram?
Os colonizadores europeus do século XIX tinham crenças racistas de que africanos não seriam capazes de construir monumentos assim, e essa ideia apoiava o domínio colonial. Arqueólogos começaram a refutá-la em 1905.
O que são os Pássaros do Zimbábue?
São oito pássaros de esteatito colocados sobre colunas altas e encontrados no sítio. Provavelmente eram símbolos ligados à realeza e aos antepassados. Um deles aparece na bandeira do Zimbábue.
Por que o Grande Zimbábue foi abandonado?
Não se conhece uma causa única. Entre os fatores prováveis estão a pressão sobre os recursos locais, as mudanças no comércio de ouro e as divisões políticas, enquanto o poder se deslocava para os Estados de Mutapa e Torwa.
O país Zimbábue recebeu esse nome por causa do sítio?
Sim. Ao conquistar a independência em 1980, a antiga Rodésia adotou o nome Zimbábue, inspirado no sítio.
Fontes e leituras adicionais
- Great Zimbabwe National Monument. UNESCO World Heritage Centre
- Great Zimbabwe. Wikipedia
- Kingdom of Zimbabwe. Wikipedia
- Kingdom of Mapungubwe. Wikipedia
- Zimbabwe Bird. Wikipedia
- Gertrude Caton Thompson. Wikipedia
- Department of the Arts of Africa, Oceania, and the Americas, Great Zimbabwe (11th–15th Century). The Metropolitan Museum of Art, Heilbrunn Timeline of Art History, 2001
- Peter Garlake, Great Zimbabwe. Thames and Hudson, 1973
- Innocent Pikirayi, The Zimbabwe Culture: Origins and Decline of Southern Zambezian States. AltaMira Press, 2001
- Gertrude Caton-Thompson, The Zimbabwe Culture: Ruins and Reactions. Clarendon Press, 1931
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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
