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Para jovens leitores
Imagine uma montanha de pedra feita por pessoas. Ela tem cinco torres com forma de botões de flor de lótus, corredores compridos cobertos de esculturas e um largo fosso com água ao redor, como um castelo. Esse é Angkor Wat, no Camboja, um país do Sudeste Asiático.
Há cerca de 900 anos, um rei chamado Suriavarmã II mandou construir o templo. Milhares de trabalhadores cortaram grandes blocos de pedra de uma serra a cerca de 40 quilômetros dali, levaram os blocos até a obra e os empilharam com tanto cuidado que a maior parte do templo ainda está de pé.
As paredes parecem uma enorme história em quadrinhos feita de pedra. No corredor externo, você pode ver um exército de macacos ajudando um herói a salvar uma princesa, deuses e demônios puxando uma cobra gigante para agitar um oceano e o próprio rei montado em um elefante. Há também mais de mil deusas dançarinas esculpidas, cada uma com seu penteado e suas joias.
O templo foi construído primeiro para Vixnu, um deus hindu. Mais tarde, muitos cambojanos se tornaram budistas, e monges budistas passaram a morar e rezar ali. Eles nunca deixaram o lugar por completo. Por isso, Angkor Wat é um local de culto vivo há centenas de anos.
Hoje, Angkor Wat é tão importante para os cambojanos que aparece na bandeira do país. Todas as manhãs, visitantes esperam no escuro para ver o sol nascer atrás das torres.
Em resumo
- Construção
- Início do século XII, durante o reinado de Suriavarmã II (reinou de 1113 a cerca de 1150); parte das esculturas ficou inacabada
- Localização
- Angkor, perto de Siem Reap, no noroeste do Camboja
- Construtores
- Império Khmer (período de Angkor, aproximadamente dos séculos IX a XV)
- Dedicação original
- Vixnu (hinduísmo); tornou-se gradualmente um local do budismo teravada, aproximadamente entre os séculos XIV e XVI
- Materiais
- Arenito das colinas de Kulen (a cerca de 40 km), sobre um núcleo de laterita e terra
- Dimensões
- Fosso com cerca de 190 m de largura ao redor de uma área cercada de aproximadamente 1,5 × 1,3 km; torre central com cerca de 65 m de altura em relação ao solo
- UNESCO
- Parte do Patrimônio Mundial “Angkor”, inscrito em 1992 (na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo de 1992 a 2004)
- Importância
- O maior monumento religioso do mundo e um dos pontos mais altos da arquitetura e da escultura em relevo clássicas dos khmeres
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O que é Angkor Wat?
Angkor Wat é um complexo de templos no noroeste do Camboja, a poucos quilômetros ao norte da atual cidade de Siem Reap. Fica na região de Angkor, que durante vários séculos foi a região da capital do Império Khmer, um dos maiores Estados da história do Sudeste Asiático. O nome atual significa simplesmente “templo (wat) da cidade (angkor)”; as duas palavras vêm do sânscrito ou do páli (nagara, “cidade”, e vāṭa, “recinto”).
Foi construído na primeira metade do século XII para o rei Suriavarmã II como templo de Estado, dedicado ao deus hindu Vixnu. Seu nome original não aparece em nenhuma inscrição de fundação, mas talvez tenha sido Vrah Viṣṇuloka, “o mundo sagrado de Vixnu”, expressão que lembra o nome póstumo do rei, Paramaviṣṇuloka, “aquele que foi para o mundo supremo de Vixnu”.
Ao contrário da maioria dos templos de Angkor, Angkor Wat nunca foi totalmente abandonado. A partir de aproximadamente o século XIV, tornou-se um mosteiro budista teravada e um destino de peregrinação. Monges ainda vivem e praticam sua religião ali. Esse uso contínuo é uma das razões pelas quais o templo se conservou melhor que muitos templos vizinhos tomados pela floresta.
Hoje, é um símbolo nacional do Camboja. Aparece na bandeira, nas cédulas e em inúmeros logotipos do país, além de ser o principal monumento do Patrimônio Mundial de Angkor, reconhecido pela UNESCO.
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Como entender a planta: uma montanha dos deuses
Angkor Wat é um mapa do universo feito de pedra. Na cosmologia hindu e budista, o centro do mundo é o monte Meru, morada dos deuses, cercado por cadeias de montanhas e oceanos. O templo reproduz essa imagem: o fosso representa o oceano cósmico, as muralhas representam as cadeias de montanhas ao redor e as cinco torres centrais representam os cinco picos do Meru. Os arquitetos khmeres chamavam esse tipo de construção de templo-montanha: uma pirâmide em degraus com santuários no alto.
Em geral, os visitantes entram pelo oeste, atravessando o fosso por uma longa passagem de pedra ladeada por balaustradas em forma de nagas (serpentes de várias cabeças, guardiãs da água e das entradas). Um grande portal, ou gopura, na muralha externa leva a uma segunda passagem, com cerca de 350 m de comprimento. Ao lado dela ficam dois pequenos edifícios normalmente chamados de “bibliotecas” e dois lagos acrescentados posteriormente.
O templo propriamente dito se eleva em três galerias retangulares encaixadas umas nas outras, cada uma mais alta que a anterior. A galeria externa (com cerca de 187 × 215 m) abriga os famosos painéis em relevo. Um claustro em forma de cruz, chamado Preah Poan, liga essa galeria ao segundo nível, cujas paredes estão repletas de divindades femininas esculpidas. O nível mais interno, o Bakan, é alcançado por escadas muito íngremes; costuma-se interpretar essa inclinação como um lembrete de que é difícil subir até o mundo dos deuses. No alto, quatro torres nos cantos cercam a torre central, formando um quincúncio, como os cinco pontos da face de um dado.
Percorrer o edifício significa avançar para dentro e para cima: do mundo cotidiano, fora do fosso, passa-se por espaços cada vez mais restritos até chegar ao escuro santuário central, onde ficava uma imagem de Vixnu. É provável que as pessoas comuns só pudessem entrar nas partes externas, enquanto os níveis superiores eram reservados aos sacerdotes e à corte.
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As galerias esculpidas e as deusas dançarinas
As paredes da galeria externa apresentam uma das mais longas sequências contínuas de esculturas em relevo do mundo, estendendo-se por várias centenas de metros. Um baixo-relevo é uma escultura que sobressai apenas um pouco de uma superfície plana, como uma imagem levantada da pedra. Os painéis são lidos no sentido anti-horário, a partir do canto noroeste. Isso é incomum e faz parte de um debate acadêmico discutido adiante.
A galeria oeste mostra a Batalha de Lanka, do Ramáiana, na qual Rama e seu exército de macacos lutam contra o rei demônio Ravana, e a Batalha de Kurukshetra, do Maabárata, a grande guerra entre os pândavas e os kauravas. A galeria sul apresenta a única cena histórica: uma procissão da corte e do exército de Suriavarmã II, com o rei sentado sob quinze guarda-sóis. Em seguida, aparece uma visão dos céus e dos infernos, onde os mortos são julgados.
A galeria leste contém o painel mais famoso, o Batimento do Oceano de Leite. Deuses (devas) e demônios (asuras) puxam o corpo da serpente Vasuki, enrolada em uma montanha apoiada sobre uma tartaruga, uma encarnação de Vixnu. Quando agitam o oceano, surgem tesouros, entre eles o amṛta, néctar da imortalidade, e as dançarinas celestiais chamadas apsarás. Partes das galerias norte e leste foram esculpidas muito mais tarde, no século XVI, completando o que os artesãos originais haviam deixado em branco.
Por todos os níveis superiores há devatas, divindades femininas esculpidas quase em tamanho natural, sozinhas ou em grupos. Mais de 1.700 foram catalogadas. Suas coroas, penteados, joias e roupas variam tanto que a artista francesa Sappho Marchal, que as estudou na década de 1920, concluiu que elas refletiam modas reais da corte de Angkor. Para os cambojanos de hoje, também são uma inspiração para a dança clássica.
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Como foi construído: pedra, água e trabalho
No século XII, os construtores khmeres já haviam passado a usar arenito, em vez de tijolos, em seus monumentos mais importantes. As superfícies visíveis de Angkor Wat são feitas de arenito de grão fino extraído das colinas de Kulen (Phnom Kulen), a cerca de 40 km a nordeste. Partes estruturais ocultas, fundações e a muralha externa usam laterita, um material avermelhado e rico em ferro que pode ser cortado em blocos quando úmido e endurece ao ser exposto ao ar. Toda a construção se apoia sobre uma enorme plataforma de areia e terra compactadas.
As estimativas do número de blocos de arenito chegam a milhões, e muitos deles pesam mais de uma tonelada. O mais provável é que os blocos tenham sido transportados por água: estudos de imagens de satélite identificaram antigos canais que ligavam as pedreiras de Kulen a Angkor e permitiriam que jangadas levassem as pedras por grande parte do percurso. Acredita-se que os pequenos furos visíveis em muitos blocos recebiam pinos usados para erguê-los e posicioná-los.
Os construtores khmeres não usavam arcos verdadeiros. As galerias são cobertas por abóbadas em balanço, nas quais cada fileira de pedras avança um pouco além da fileira inferior, até que os dois lados se encontrem. Os blocos foram ajustados com juntas extremamente estreitas, em grande parte sem argamassa, e alguns foram unidos por grampos de ferro. As esculturas foram feitas depois que os blocos estavam instalados, o que explica por que os relevos atravessam as juntas sem interrupção.
Nenhum registro informa quantas pessoas trabalharam no templo, mas cálculos baseados no volume de pedra e no tempo disponível sugerem uma força de trabalho de muitos milhares de pessoas durante várias décadas, entre trabalhadores das pedreiras, barqueiros, pedreiros e escultores altamente especializados. Inscrições de outros templos de Angkor listam aldeias e pessoas encarregadas de fornecer trabalho, arroz e bens aos templos. Assim, a construção e a manutenção provavelmente eram organizadas pelo mesmo sistema de obrigações das comunidades para com os templos e o Estado.
A água fazia parte do projeto, não servia apenas como decoração. O fosso, com cerca de 190 m de largura e perímetro superior a 5 km, ajudava a estabilizar as fundações arenosas ao manter constante o nível do lençol freático. Também ligava o templo à rede mais ampla de canais e reservatórios (barays) que administrava as chuvas das monções na região de Angkor.
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Contexto histórico: o Império Khmer e o mundo do século XII
A fundação do Império Khmer é tradicionalmente datada de 802 d.C., quando, segundo uma inscrição muito posterior, Jaiavarmã II foi consagrado governante universal nas colinas de Kulen. Nos séculos seguintes, sucessivos reis construíram capitais, reservatórios e templos-montanha na região de Angkor. No auge, a influência do império alcançou grande parte dos territórios que hoje são o Camboja, a Tailândia, o Laos e o sul do Vietnã.
Suriavarmã II chegou ao poder por volta de 1113, após um período de disputa pelo trono. As inscrições o descrevem como um rei guerreiro que realizou campanhas contra Đại Việt (no norte do Vietnã) e Champa (no centro do Vietnã) e enviou missões à corte da dinastia Song, na China. Ele contou com um influente sacerdote brâmane, Divākarapaṇḍita, que realizou sua consagração. Angkor Wat, seu templo de Estado, foi o projeto mais ambicioso de seu reinado. Os trabalhos pararam por volta de sua morte, cerca de 1150, deixando alguns relevos inacabados.
Em outras partes do mundo, entre as décadas de 1110 e 1150, a China da dinastia Song perdeu sua capital do norte para a dinastia Jin dos jurchens (1127) e se restabeleceu no sul; o reino de Pagan construía templos na Birmânia; a corte de Goryeo, na Coreia, compilava o Samguk sagi (1145); Estados cruzados haviam sido estabelecidos no Levante; e a arquitetura gótica começava a surgir na França. Angkor Wat pertence a essa época de grandes construções religiosas na Eurásia, mas se baseou sobretudo em tradições do Sul e do Sudeste Asiático.
Essas tradições chegaram ao Camboja por meio de séculos de comércio e intercâmbio com o subcontinente indiano. Estudos mais antigos chamavam esse processo de “indianização”, como se a cultura indiana tivesse sido simplesmente transplantada. Hoje, a maioria dos historiadores destaca o papel ativo dos povos locais: governantes e sacerdotes khmeres selecionaram textos em sânscrito, divindades hindus e budistas e ideias arquitetônicas indianas, combinando-os com a língua khmer, o culto aos ancestrais e suas próprias concepções de realeza para criar algo próprio.
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Significado religioso: de Vixnu a Buda
A maioria dos templos de Estado khmeres anteriores homenageava Xiva, muitas vezes na forma de um linga, pilar estilizado que simboliza o deus. A dedicação de Angkor Wat a Vixnu reflete a devoção de Suriavarmã II ao vixnuísmo. Uma grande imagem de pedra de Vixnu com oito braços, hoje conhecida como Ta Reach e venerada no portal oeste, talvez tenha ficado no santuário central, embora isso não seja certo.
A realeza khmer estava estreitamente ligada aos deuses. Um rei construía um templo-montanha como centro de seu reino e se associava à divindade do templo em vida e após a morte. A ideia de um culto especial ao “deus-rei” (devarāja) já foi entendida como sinal de que os reis eram adorados como deuses. Hoje, muitos estudiosos consideram que o termo se referia a uma divindade protetora do reino e que a relação entre o rei e o deus era mais complexa que uma simples divinização.
Depois que forças de Champa saquearam Angkor em 1177, Jaiavarmã VII restaurou o reino e colocou o budismo maaiana no centro da religião da corte. Ele construiu a nova capital murada de Angkor Thom e seu templo de Estado, o Bayon. Nos séculos seguintes, o budismo teravada, vertente praticada no Sri Lanka e em grande parte do Sudeste Asiático continental, tornou-se a religião da maioria dos khmeres.
Angkor Wat foi adaptado, e não abandonado. As entradas abertas do santuário central foram fechadas com paredes nas quais se esculpiram imagens de Buda em pé, e peregrinos deixaram milhares de imagens de Buda no claustro de Preah Poan. A tradição local reinterpretou o templo por meio de histórias budistas. Visitantes japoneses do século XVII chegaram a identificá-lo como Jetavana, o mosteiro de Buda na Índia. Para os cambojanos de hoje, é um lugar sagrado budista, onde se realizam práticas religiosas e peregrinações, e um monumento cujas imagens hindus continuam visíveis.
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História posterior: nunca esteve realmente “perdido”
O emissário chinês Zhou Daguan permaneceu em Angkor entre 1296 e 1297 e escreveu o único relato de uma testemunha ocular que sobreviveu sobre a cidade em sua fase final de esplendor. Ele descreveu procissões reais, mercados, festivais e especialistas religiosos, além de mencionar um grande monumento de pedra semelhante a um túmulo ao sul da cidade, geralmente identificado como Angkor Wat.
Durante os séculos XIV e XV, Angkor enfrentou guerras contra o reino tailandês de Aiutaia. Crônicas tailandesas registram a tomada de Angkor em 1431 (a data exata é incerta). No período seguinte, o centro da realeza khmer se deslocou para o sul, em direção à região de Phnom Penh. Historiadores debatem até que ponto essa mudança foi causada pelas guerras, por alterações no comércio marítimo que favoreceram a região do Mekong ou por problemas no sistema hídrico de Angkor durante uma época de monções irregulares.
O próprio Angkor Wat continuou em uso. No século XVI, um rei khmer mandou concluir os painéis em relevo que estavam inacabados. Viajantes portugueses ouviram falar do templo: o frade capuchinho António da Madalena o visitou por volta de 1586 e descreveu um templo “sem igual entre os edifícios do mundo”. Peregrinos japoneses chegaram no século XVII e deixaram inscrições a tinta nos pilares, entre elas uma de Morimoto Ukondayu Kazufusa, datada de 1632.
Portanto, é enganosa a história popular de que o explorador francês Henri Mouhot “descobriu” um templo perdido na selva em 1860. Suas notas de viagem, publicadas após sua morte em 1864, tornaram Angkor famoso na Europa. Mas a população local e os monges sempre o conheceram, e outros europeus o haviam visitado antes dele. A França transformou o Camboja em protetorado em 1863, e as províncias do noroeste que incluíam Angkor foram transferidas do Sião para o Camboja sob domínio francês em 1907.
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Restauração, guerra e conservação hoje
Em 1908, a École française d’Extrême-Orient (EFEO) criou a Conservation d’Angkor para remover a vegetação e estudar e reparar os monumentos. A partir da década de 1930, conservadores franceses adotaram a anastilose, método desenvolvido nas Índias Orientais Holandesas. Nele, uma estrutura é desmontada pedra por pedra, suas fundações são reforçadas e os blocos originais são recolocados, com material novo acrescentado apenas onde é necessário e de modo que possa ser identificado. Grandes trabalhos em Angkor Wat prosseguiram até a década de 1960.
A guerra civil e o regime do Khmer Vermelho (1975–1979) interromperam a conservação. O monumento sofreu relativamente poucos danos diretos da guerra, mas, nas décadas de 1980 e início de 1990, saqueadores retiraram cabeças e estátuas de muitos templos de Angkor para o mercado internacional de arte. Entre 1986 e 1992, o Serviço Arqueológico da Índia realizou trabalhos de limpeza e reparação em Angkor Wat. Alguns tratamentos químicos usados na época foram posteriormente criticados por danificar a superfície da pedra, assim como o uso anterior de cimento.
Em 1992, a UNESCO inscreveu Angkor na Lista do Patrimônio Mundial e, ao mesmo tempo, na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo; o sítio saiu da segunda lista em 2004. Desde 1993, um Comitê Internacional de Coordenação (ICC-Angkor), copresidido pela França e pelo Japão, coordena o trabalho de diversos países. A Autoridade Nacional APSARA, criada pelo Camboja em 1995, administra o sítio. O Projeto Alemão de Conservação das Apsarás, por exemplo, concentra-se no desgaste dos relevos de devatas, afetados por sais, películas de microrganismos e água.
Entre os desafios atuais estão o turismo de massa (mais de dois milhões de visitantes por ano antes da pandemia de COVID-19), a pressão sobre as águas subterrâneas causada pelos hotéis de Siem Reap e as questões relativas às comunidades que vivem dentro do parque patrimonial. Em 2022 e 2023, as autoridades transferiram milhares de famílias da área de Angkor para um novo assentamento. O governo apresentou a medida como necessária à conservação, enquanto organizações de direitos humanos, entre elas a Anistia Internacional, a criticaram como despejo forçado. Como proteger o monumento e, ao mesmo tempo, respeitar as pessoas cuja vida e religião estão ligadas a ele continua sendo uma questão em aberto.
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Influência e legado
Angkor Wat define o que historiadores da arte chamam de “estilo Angkor Wat”, a fase clássica da arquitetura khmer, com torres em forma de botão de lótus, galerias alinhadas a eixos, terraços em forma de cruz e decoração abundante, mas ordenada. Sua disposição de galerias concêntricas ao redor de um templo-montanha influenciou templos khmeres posteriores e, de maneira menos direta, a arquitetura religiosa dos reinos vizinhos da Tailândia e do Laos.
No período colonial, Angkor Wat tornou-se um símbolo tanto do império colonial quanto do Camboja. Entre 1889 e 1937, a França o reproduziu em moldes de gesso e pavilhões em tamanho natural em exposições coloniais e universais em Paris e Marselha, apresentando o domínio francês como o salvador de uma civilização em declínio. Nacionalistas cambojanos, por sua vez, fizeram do templo um emblema de sua própria história e independência.
Todas as bandeiras nacionais do Camboja desde meados do século XIX exibiram a imagem de um templo, geralmente Angkor Wat, independentemente do regime político. Para os cambojanos, ele liga a identidade atual ao passado de Angkor; para as comunidades budistas, é um santuário em uso. Também é um dos locais de patrimônio mais visitados da Ásia, o que gera renda e orgulho, mas traz as pressões descritas acima.
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Debates acadêmicos e questões em aberto
Por que o templo está voltado para o oeste? Quase todos os templos de Angkor se abrem para o leste, direção do nascer do sol. A orientação oeste de Angkor Wat e a leitura de seus relevos no sentido anti-horário (prasavya, o inverso da volta ritual normalmente feita no sentido horário) levaram estudiosos como George Cœdès e Maurice Glaize a argumentar que ele foi construído como templo funerário de Suriavarmã II, já que a ordem inversa se associa a ritos fúnebres. Outros observam que vários templos estão voltados para o oeste e que essa direção se associa a Vixnu; assim, a orientação poderia expressar a dedicação ao deus, e não uma finalidade funerária. As duas interpretações podem coexistir: o edifício poderia ser tanto um templo de Vixnu quanto o lugar onde o rei era venerado após a morte.
Astronomia e medidas. A arquiteta e historiadora Eleanor Mannikka argumentou, na década de 1990, que as medidas do templo, expressas na unidade khmer de comprimento (hat), codificam ciclos do calendário e da cosmologia, e que certas linhas de visão assinalam o nascer do sol nos solstícios e equinócios. É amplamente aceito que o eixo principal está alinhado de modo que, nos equinócios, o sol nasce sobre a torre central para quem observa da entrada oeste. As interpretações numéricas mais detalhadas despertaram interesse, mas também ceticismo, pois, diante de tantas medidas, algumas coincidências podem ocorrer por acaso. Especialistas rejeitam alegações populares que ligam Angkor a constelações ou civilizações perdidas.
Um templo ou uma cidade? Estudos antigos imaginavam a área dentro do fosso como um recinto sagrado vazio. Desde 2012, levantamentos aéreos com lidar (varredura a laser que permite mapear a superfície do solo sob a vegetação) e escavações de equipes que incluem Roland Fletcher, Damian Evans e Miriam Stark revelaram uma rede de elevações, lagos e caminhos dentro da área cercada. Isso sugere que uma população residente, possivelmente de vários milhares de servidores do templo e seus familiares, vivia ali em casas de madeira e palha que desapareceram. O lidar também mostrou vestígios de estruturas anteriores no local, construídas e demolidas durante a obra.
A cidade hidráulica e o declínio de Angkor. Em meados do século XX, Bernard-Philippe Groslier descreveu Angkor como uma “cidade hidráulica”, cujos vastos reservatórios irrigavam arrozais e sustentavam o poder real. Críticos argumentaram que os barays eram pequenos demais ou mal conectados para irrigar muita terra e tinham finalidade principalmente religiosa. Estudos mais recentes reconhecem uma rede hídrica real e extensa, mas voltada sobretudo ao controle e à distribuição das águas das cheias. Também relacionam seu colapso a décadas de secas e monções intensas nos séculos XIV e XV, identificadas por estudos dos anéis de crescimento das árvores. Hoje, a maioria dos historiadores explica a mudança da capital pela combinação de várias causas, e não por uma única catástrofe.
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Fontes e métodos: como sabemos o que sabemos
Inscrições. A história de Angkor é reconstruída principalmente a partir de mais de mil inscrições em pedra, escritas em sânscrito (geralmente versos em louvor a reis e deuses) e khmer antigo (geralmente textos em prosa que registram doações, terras e pessoal). A decifração e publicação dessas inscrições, sobretudo por George Cœdès na obra em vários volumes Inscriptions du Cambodge, estabeleceram a cronologia dos reis ainda usada hoje. Angkor Wat, porém, não tem uma estela de fundação. Sua datação se baseia em indícios indiretos: as breves legendas dos relevos da galeria sul que chamam Suriavarmã II por seu título póstumo (mostrando que as legendas foram escritas após sua morte), inscrições sobre seu reinado encontradas em outros lugares e o estilo da arquitetura e das esculturas.
Textos de outras regiões. O relato de Zhou Daguan sobre os anos de 1296 e 1297 (conhecido em chinês como Zhenla fengtu ji) é a única descrição detalhada da vida cotidiana em Angkor. É uma fonte valiosa, mas deve ser lida criticamente, pois foi escrita por um emissário estrangeiro para leitores chineses. Fontes portuguesas, espanholas e japonesas dos séculos XVI e XVII, além de inscrições khmeres posteriores do próprio templo, documentam seu uso contínuo.
Arqueologia e ciência. Desde a década de 1990, escavações, datação de carvão e madeira por radiocarbono, análise de sedimentos dos reservatórios, registros climáticos obtidos dos anéis das árvores e sensoriamento remoto (imagens de satélite, radar de penetração no solo e lidar) transformaram os estudos sobre Angkor. Essas técnicas deslocaram a atenção dos templos e reis para toda a paisagem urbana, a agricultura e a gestão da água.
Cuidados na interpretação. Grande parte do que os visitantes veem resulta de restaurações do século XX. Por isso, detalhes arquitetônicos precisam ser comparados com fotografias antigas e relatórios de escavação antes de serem considerados originais. As interpretações dos relevos também são influenciadas pelos textos usados pelos estudiosos: as versões khmeres do Ramáiana (o Reamker) diferem das versões indianas, e as cenas devem ser compreendidas à luz das tradições khmeres e sânscritas. Por fim, a visão colonial de Angkor como uma “civilização perdida” redescoberta por europeus ainda influencia relatos populares; estudos recentes procuram substituí-la por uma história de continuidade.
Ideias principais
- Templo-montanha
- A forma típica de um templo de Estado khmer: uma pirâmide em degraus coroada por santuários, que representa o monte Meru, centro do universo.
- Monte Meru
- Montanha cósmica no centro do mundo, segundo a cosmologia hindu e budista; é a morada dos deuses e está cercada por oceanos e cadeias de montanhas. O fosso, as muralhas e as cinco torres de Angkor Wat a representam.
- Patrocínio real e realeza sagrada
- Os reis khmeres construíam templos para ligar seu governo à ordem sagrada. O rei era associado ao deus do templo em vida e após a morte, embora os estudiosos debatam como entender essa associação.
- Continuidade do culto
- Angkor Wat passou de templo hindu dedicado a Vixnu a santuário budista teravada sem ser abandonado. Por isso, conservou-se melhor que muitos outros templos.
- Água e urbanismo
- Fossos, canais e reservatórios eram fundamentais para as cidades de Angkor. Serviam para controlar enchentes, armazenar água e expressar ideias religiosas; sua gestão e seus problemas são importantes para entender a história de Angkor.
- Papel ativo dos khmeres
- Os construtores khmeres adaptaram ideias religiosas e artísticas indianas e criaram uma civilização khmer própria, em vez de apenas receber essas ideias sem modificá-las.
- Patrimônio e pessoas
- A conservação de Angkor envolve especialistas internacionais, o Estado cambojano, monges, moradores e turistas, cujos interesses nem sempre coincidem.
Registros
- 802 d.C. — Jaiavarmã II é consagrado governante universal nas colinas de Kulen, data tradicional da fundação do Império Khmer.
- c. 1113 — Suriavarmã II chega ao poder; a construção de Angkor Wat começa no início de seu reinado.
- c. 1150 — Morte de Suriavarmã II; os trabalhos no templo param, deixando alguns relevos inacabados.
- 1177 — Forças de Champa saqueiam Angkor.
- 1181 — Jaiavarmã VII é coroado e coloca o budismo maaiana no centro da religião da corte; ele constrói Angkor Thom e o Bayon.
- 1296 — O emissário chinês Zhou Daguan chega a Angkor (onde permanece até 1297) e depois escreve sua descrição da cidade.
- c. 1431 — Segundo crônicas tailandesas, Aiutaia toma Angkor; mais tarde, o centro da realeza khmer se desloca para o sul.
- c. 1586 — O frade português António da Madalena visita Angkor Wat e se torna um dos primeiros visitantes europeus de que há registro.
- 1632 — O visitante japonês Morimoto Ukondayu Kazufusa deixa uma inscrição a tinta no templo.
- 1860 — Henri Mouhot visita Angkor; suas notas, publicadas em 1864, tornam o lugar famoso na Europa.
- 1908 — A École française d’Extrême-Orient cria a Conservation d’Angkor.
- 1992 — Angkor é inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO (e na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo, da qual sai em 2004).
Glossário
- Khmer
- Povo majoritário do Camboja e sua língua; o termo também se refere ao império do período de Angkor.
- Baixo-relevo
- Escultura em que as figuras sobressaem apenas um pouco de uma superfície plana.
- Gopura
- Pavilhão monumental de entrada ou portal em uma muralha de templo.
- Devata / apsará
- Divindades femininas (devatas) e dançarinas celestiais (apsarás) esculpidas nas paredes dos templos; os termos muitas vezes são usados de modo amplo para as mesmas figuras.
- Naga
- Espírito em forma de serpente, muitas vezes com várias cabeças, associado à água e à proteção; aparece nas balaustradas das passagens.
- Quincúncio
- Disposição de cinco pontos, quatro nos cantos de um quadrado e um no centro, como as torres de Angkor Wat.
- Laterita
- Material avermelhado e rico em ferro que pode ser cortado em blocos e endurece ao ar; usado em fundações e partes estruturais ocultas.
- Abóbada em balanço
- Cobertura feita com fileiras de pedras que avançam cada vez mais para dentro até os lados se encontrarem, sem formar um arco verdadeiro.
- Baray
- Grande reservatório retangular construído pelos governantes khmeres em Angkor.
- Anastilose
- Método de restauração que desmonta e reconstrói um monumento com suas pedras originais, acrescentando material novo apenas onde é necessário.
- Lidar
- Varredura a laser feita de aeronaves que mapeia a superfície do solo sob a vegetação, revelando estradas, lagos e plataformas de edifícios desaparecidos.
- Teravada
- Vertente do budismo predominante no Sri Lanka, Camboja, Tailândia, Laos e Mianmar.
Perguntas e respostas
Quantos anos tem Angkor Wat?
Cerca de 900 anos. Foi construído na primeira metade do século XII, durante o reinado de Suriavarmã II (aproximadamente de 1113 a 1150).
Quem construiu Angkor Wat?
Trabalhadores e artistas khmeres do Império Khmer, por ordem do rei Suriavarmã II. O templo não foi construído por estrangeiros nem por um povo “perdido”; os khmeres são os antepassados dos cambojanos de hoje.
Angkor Wat é hindu ou budista?
Foi os dois, em épocas diferentes. Foi construído como templo hindu dedicado a Vixnu e se tornou gradualmente um local do budismo teravada a partir de aproximadamente o século XIV. Hoje, é um lugar de culto budista.
Quanto tempo levou para ser construído?
Aproximadamente três a quatro décadas, durante o reinado de Suriavarmã II. Os trabalhos pararam com sua morte, e algumas esculturas ficaram inacabadas até o século XVI.
Angkor Wat já esteve perdido?
Não. Continuou sendo um mosteiro budista e um destino de peregrinação. Europeus que chegaram no século XIX, como Henri Mouhot, o tornaram famoso na Europa, mas os cambojanos sempre o conheceram.
Por que Angkor Wat está voltado para o oeste?
Ninguém sabe ao certo. Muitos estudiosos acham que ele era o templo funerário do rei, porque o oeste está ligado à morte e os relevos seguem a ordem inversa. Outros acreditam que a orientação oeste homenageia Vixnu.
Por que Angkor Wat aparece na bandeira do Camboja?
É o maior monumento do passado de Angkor e um emblema nacional do Camboja desde o século XIX. Simboliza a continuidade da história e a identidade nacional.
Quais são as principais fontes usadas pelos estudiosos para conhecer sua história?
Inscrições em khmer e sânscrito (editadas principalmente por George Cœdès), o relato de Zhou Daguan do século XIII, análises de história da arte, escavações e técnicas de sensoriamento remoto, como o lidar.
Fontes e leituras adicionais
- Angkor. UNESCO World Heritage Centre
- Angkor Wat. Wikipedia
- Angkor. Wikipedia
- Khmer Empire. Wikipedia
- Suryavarman II. Wikipedia
- Angkor Wat. Encyclopaedia Britannica
- Henri Mouhot. Wikipedia
- Zhou Daguan. Wikipedia
- Michael D. Coe, Angkor and the Khmer Civilization. Thames & Hudson, 2003
- Charles Higham, The Civilization of Angkor. Weidenfeld & Nicolson, 2001
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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
