História

Sima Qian

司馬遷

c. 145–86 a.C. · Chang'an (capital Han)

Em uma frase

Sima Qian foi um funcionário da corte chinesa que viveu há mais de 2.000 anos e escreveu o Shiji, ou Registros do Grande Historiador, um enorme livro de história que conta a trajetória da China desde os tempos lendários até sua época por meio da vida de reis, generais, pensadores e pessoas comuns.

Sima Qian
Imagem: Unknown · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há mais de 2.000 anos, durante a dinastia Han, na China, um homem chamado Sima Qian trabalhava no palácio do imperador. Ele observava as estrelas, cuidava do calendário e guardava documentos antigos. Seu pai tinha feito o mesmo trabalho e, antes de morrer, pediu ao filho que terminasse um grande livro de história que ele havia começado.

Sima Qian prometeu que terminaria o livro. Quando era jovem, tinha viajado por muitas partes da China. Visitou antigos campos de batalha, a cidade onde Confúcio viveu e lugares ligados a histórias famosas. Também ouviu o que as pessoas desses lugares lembravam.

Então aconteceu algo terrível. Sima Qian defendeu um general que havia perdido uma batalha e se rendido. O imperador ficou furioso. Sima Qian foi condenado à morte, mas podia escapar se aceitasse um castigo cruel e humilhante. Ele escolheu viver porque queria cumprir a promessa feita ao pai e terminar o livro.

O livro que ele terminou se chama Shiji, ou Registros do Grande Historiador. Tem 130 capítulos. Alguns contam, ano por ano, o que os governantes fizeram. Outros trazem tabelas parecidas com linhas do tempo. Há capítulos sobre música, calendário, rios e dinheiro. Mais da metade conta a vida de pessoas muito diferentes: imperadores e rainhas, mas também assassinos, comerciantes, adivinhos e até artistas que divertiam a corte.

Sima Qian contava as histórias de um jeito tão interessante que as pessoas ainda gostam de lê-las. Durante cerca de dois mil anos, historiadores da China, da Coreia, do Japão e do Vietnã seguiram a forma como ele organizou seu livro. Por isso, ele costuma ser chamado de «pai da história chinesa».O

Em resumo

Época em que viveu
Nasceu por volta de 145 a.C. (alguns estudiosos sugerem por volta de 135 a.C.); morreu por volta de 86 a.C. (data desconhecida)
Local de nascimento
Xiayang, perto de Longmen (próximo da atual Hancheng, em Shaanxi, China)
Dinastia
Han Ocidental, durante o reinado do imperador Wu (141–87 a.C.)
Cargos
Grande Astrólogo / Grande Escriba (taishi ling, a partir de cerca de 108 a.C.); mais tarde, secretário do palácio (zhongshu ling)
Obra principal
Shiji (史記, Registros do Grande Historiador), originalmente chamado Taishigong shu («Livro do Grande Escriba»)
Extensão
130 capítulos, cerca de 526.500 caracteres segundo a contagem do próprio autor
Período abrangido
Do lendário Imperador Amarelo ao reinado do imperador Wu, cerca de 2.500 anos
Legado
Criou o modelo de anais e biografias (jizhuan) usado nas histórias dinásticas oficiais da China e seguido em outras partes do Leste Asiático

Fácil

Quem foi Sima Qian?

Sima Qian foi um funcionário da dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.) que viveu durante o longo reinado do imperador Wu, um dos governantes mais poderosos da história chinesa. É lembrado principalmente pelo Shiji, que concluiu por volta de 91 a.C. Foi a primeira obra histórica a tentar reunir em um só livro todo o passado conhecido do mundo chinês.

Seu cargo, taishi ling, costuma ser traduzido como «Grande Historiador», mas também pode ser chamado de «Grande Astrólogo» ou «Grande Escriba». O responsável pelo cargo cuidava da astronomia, do calendário, dos presságios e dos documentos. Escrever uma história abrangente não fazia parte, propriamente, de suas funções: era um projeto pessoal iniciado por seu pai, Sima Tan, que ocupava o mesmo cargo.

Sima Qian é famoso tanto pelo que escreveu quanto pelo preço que pagou para escrever. Depois de defender um general caído em desgraça, em 99 a.C., foi condenado e escolheu ser castrado em vez de morrer, para poder concluir sua obra. Suas reflexões sobre essa escolha, sobretudo na Carta a Ren An, fizeram dele um símbolo de integridade e perseverança na cultura do Leste Asiático.

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Fácil

Vida: uma promessa de pai para filho

Sima Qian nasceu em Xiayang, perto do desfiladeiro de Longmen («Portão do Dragão»), no rio Amarelo. Seu ano de nascimento é incerto: com base em comentários antigos divergentes, estudiosos propuseram cerca de 145 a.C. ou cerca de 135 a.C. Sua família afirmava descender de antigos historiadores da corte. Seu pai, Sima Tan, foi nomeado Grande Astrólogo em Chang'an e escreveu um breve ensaio que comparava as «Seis Escolas» de pensamento e elogiava o taoismo.

Sima Qian recebeu uma educação clássica e, segundo o posfácio que escreveu, já conseguia ler formas antigas de escrita aos dez anos. Por volta dos vinte, partiu em longas viagens: foi ao sul, até os rios Yangtzé e Huai; ao monte Kuaiji, onde se dizia que estava enterrado Yu, o domador das enchentes; e a Qufu, cidade de Confúcio, onde observou estudantes praticando os rituais antigos. Mais tarde, tornou-se assistente do palácio (langzhong) e, por volta de 111 a.C., foi enviado em missão oficial ao sudoeste recém-conquistado.

Em 110 a.C., o imperador Wu realizou os grandes sacrifícios feng e shan no monte Tai, os ritos mais solenes da realeza. Sima Tan adoeceu e não pôde participar, o que considerou uma desgraça. Em seu leito de morte, segurou a mão do filho, chorou e pediu que ele concluísse a história que havia começado, para que os feitos de governantes dignos, ministros leais e homens justos não fossem esquecidos. Sima Qian prometeu fazê-lo.

Cerca de dois anos depois, Sima Qian sucedeu o pai como Grande Astrólogo e passou a ter acesso à biblioteca e aos arquivos imperiais. Em 104 a.C., participou da reforma que criou o calendário Taichu («Grande Começo») e, por essa época, começou a escrever sua obra com dedicação.

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Fácil

O caso de Li Ling e a Carta a Ren An

Em 99 a.C., o general Li Ling conduziu uma pequena tropa de infantaria até o interior das estepes para combater os xiongnu, a confederação nômade que era a maior rival da China Han. Depois de uma luta intensa contra um exército muito maior, foi cercado e se rendeu. Na corte, os funcionários que antes o haviam elogiado passaram a condená-lo. Sima Qian, que mal conhecia Li Ling, falou em sua defesa: lembrou sua lealdade anterior e sugeriu que ele talvez tivesse se rendido para poder servir novamente ao imperador mais tarde.

O imperador Wu entendeu isso como um ataque a Li Guangli, comandante da campanha principal e irmão da consorte favorita do imperador. Sima Qian foi acusado e condenado à morte. Pela lei Han, a pena podia ser substituída por um grande pagamento ou pela castração. Ele não tinha como pagar e, como escreveu mais tarde, nenhum amigo intercedeu por ele. Escolheu a castração, um castigo considerado tão humilhante que se esperava que um homem de posição preferisse tirar a própria vida.

Sima Qian explicou sua escolha em uma carta ao amigo Ren An, que corria o risco de ser executado após a crise política de 91 a.C. Nela, escreveu que todos morrem, mas uma morte pode ter «mais peso que o monte Tai ou menos peso que uma pena de ganso». Disse que suportara a desonra porque sua obra ainda não estava pronta: queria «investigar a relação entre o Céu e os seres humanos, compreender as mudanças do passado e do presente e formar uma interpretação própria». A carta, preservada no Livro de Han, de Ban Gu, tornou-se um dos textos em prosa mais famosos da literatura chinesa.

Depois de receber o castigo, Sima Qian exerceu o cargo de zhongshu ling, secretário do palácio, normalmente ocupado por eunucos, e assim permaneceu próximo do imperador. A Carta a Ren An é o último registro claro de sua vida. Ninguém sabe quando ou como ele morreu; talvez tenha sido por volta da mesma época que o imperador Wu, em 87 ou 86 a.C.

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Intermediário

Como o Shiji está organizado

O Shiji tem 130 capítulos (juan), divididos em cinco partes. Os Anais Básicos (benji, 12 capítulos) acompanham, em ordem cronológica, as principais casas reinantes e seus governantes, desde o Imperador Amarelo, passando pelas dinastias Xia, Shang e Zhou e pela dinastia Qin, até a dinastia Han sob o imperador Wu. As Tabelas (biao, 10 capítulos) são quadros que alinham as cronologias de diferentes estados e famílias nobres, permitindo comparar acontecimentos rapidamente.

Os Tratados (shu, 8 capítulos) abordam instituições e campos do conhecimento: ritos, música, tubos de afinação, calendário, astronomia, os sacrifícios feng e shan, rios e canais, e economia. As Casas Hereditárias (shijia, 30 capítulos) contam a história dos estados feudais do período Zhou e das grandes famílias do início da dinastia Han.

As Biografias (liezhuan, 70 capítulos) ocupam mais da metade do livro. Incluem biografias individuais e coletivas de estadistas, generais, filósofos e poetas, além de capítulos sobre grupos como assassinos, cavaleiros errantes, funcionários severos, pessoas que enriqueceram, adivinhos e artistas cômicos. Também trazem relatos sobre povos estrangeiros, como os xiongnu, os povos do sudoeste e os de Chaoxian (Joseon), na península Coreana. O último capítulo é o posfácio do próprio Sima Qian, no qual ele apresenta a história de sua família e o propósito do livro.

Muitos capítulos terminam com um breve comentário iniciado por «O Grande Escriba diz» (Taishigong yue). Nele, o autor faz avaliações pessoais, acrescenta informações obtidas em suas viagens ou expressa solidariedade. Essa combinação de registro organizado e voz pessoal é uma das características mais marcantes do Shiji.

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Intermediário

A história como narrativa

O Shiji é admirado tanto como obra literária quanto como obra histórica. Sima Qian escreveu cenas dramáticas, cheias de diálogos: o Banquete de Hongmen, no qual Liu Bang, futuro fundador da dinastia Han, escapa por pouco de um assassinato planejado por seu rival Xiang Yu; a tentativa do assassino Jing Ke de matar o rei de Qin, futuro Primeiro Imperador; e a resistência final de Xiang Yu, que, cercado, canta uma despedida para sua consorte.

Suas escolhas foram ousadas. Ele incluiu Xiang Yu, que nunca governou um império unificado, e a imperatriz viúva Lü, que dominou a corte no início da dinastia Han, entre os personagens dos Anais Básicos, pois ambos exerceram, na prática, o poder supremo. Incluiu Confúcio, que nunca governou um estado, entre as Casas Hereditárias, assim como Chen She, um camponês que liderou a primeira revolta contra Qin. Essas decisões mostram que ele classificava as pessoas por sua importância histórica, e não apenas por sua posição oficial.

Ele também se interessou por pessoas de fora da elite. Os capítulos sobre comerciantes e pessoas que enriqueceram tratam o comércio com seriedade, e o capítulo sobre cavaleiros errantes elogia homens que cumpriam sua palavra mesmo quando infringiam a lei. Sua biografia do Primeiro Imperador de Qin descreve a unificação da China, a queima de livros e a construção do túmulo imperial com rios de mercúrio, detalhes que continuam a orientar arqueólogos no sítio do Exército de Terracota.

Ao mesmo tempo, o Shiji critica o poder, inclusive o poder de sua própria época. Seus relatos sobre as guerras dispendiosas do imperador Wu, seus funcionários severos e sua busca pela imortalidade muitas vezes são lidos como críticas discretas ao imperador que o puniu. Ainda se debate se, e em que medida, Sima Qian deixou que seu ressentimento pessoal influenciasse sua história.

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Intermediário

Fontes e método

Sima Qian recorreu a muitos materiais: clássicos confucianos, como o Livro dos Documentos e os Anais das Primaveras e Outonos com seus comentários; os Discursos dos Estados e as Estratégias dos Estados Combatentes; genealogias; documentos das cortes Qin e Han guardados nos arquivos imperiais; escritos de filósofos; e tradições orais que reuniu durante suas viagens. Quando as fontes discordavam, às vezes registrava mais de uma versão ou dizia que não conseguia decidir.

Ele conhecia o problema das lendas. Nos Anais Básicos dos Cinco Imperadores, observa que as histórias sobre o Imperador Amarelo muitas vezes não são «refinadas nem apropriadas» e que escolheu o que lhe parecia mais confiável após comparar textos com relatos de anciãos de diferentes regiões. Esse é um exemplo antigo de crítica das fontes, embora, pelos padrões atuais, ele também tenha aceitado muitas narrativas lendárias.

A confiabilidade de Sima Qian em alguns assuntos recebeu uma confirmação expressiva. Em 1917, o estudioso Wang Guowei mostrou que a lista de reis Shang no Shiji corresponde de perto aos nomes registrados em ossos oraculares escavados em Anyang, capital Shang. Esses registros só haviam sido redescobertos no fim do século XIX. A correspondência mostrou que Sima Qian tivera acesso a documentos autênticos e muito antigos sobre a dinastia Shang. Manuscritos de bambu e seda dos períodos dos Estados Combatentes e Han, encontrados posteriormente, confirmaram algumas partes de seu relato e levantaram novas questões sobre outras.

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Intermediário

Como o Shiji chegou até nós

Segundo seu posfácio, Sima Qian fez duas cópias do livro: uma para ser guardada «em uma montanha famosa», isto é, em segurança, e outra para ficar na capital. A obra parece não ter circulado muito durante sua vida. Tornou-se mais conhecida por meio de seu neto Yang Yun, filho de sua filha, durante o reinado do imperador Xuan (74–48 a.C.).

Na época da dinastia Han Oriental, havia relatos de que dez capítulos tinham se perdido. Alguns foram completados por autores posteriores; o estudioso Chu Shaosun, ativo no fim do século I a.C., acrescentou trechos identificados com seu nome. Ainda se discute quais capítulos foram reconstruídos posteriormente e quanto do texto transmitido corresponde às palavras do próprio Sima Qian.

No período medieval, três comentários se tornaram padrão e passaram a ser impressos junto com o texto: os de Pei Yin (século V), Sima Zhen e Zhang Shoujie (ambos do século VIII). A edição moderna de referência foi publicada pela Editora Zhonghua, em Pequim, em 1959. O Shiji foi traduzido integral ou parcialmente para muitos idiomas, incluindo a tradução francesa de Édouard Chavannes (iniciada em 1895), as seleções em inglês de Burton Watson e a tradução inglesa em vários volumes coordenada por William H. Nienhauser Jr. Também há traduções completas em coreano e japonês.

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Intermediário

Legado na China e no Leste Asiático

O Shiji criou um modelo para a história oficial chinesa. O Livro de Han (Hanshu), de Ban Gu, concluído no fim do século I d.C., adaptou a forma usada por Sima Qian para narrar a história de uma única dinastia. Depois disso, a história oficial de cada dinastia seguiu o modelo de anais e biografias (jizhuan), formando a série posteriormente conhecida como Vinte e Quatro Histórias, que começa com o Shiji.

Ban Gu também criticou Sima Qian por colocar o taoismo à frente dos clássicos confucianos, elogiar cavaleiros errantes e comerciantes e se afastar da ortodoxia. Essas críticas influenciaram a leitura do Shiji por séculos, embora sua qualidade literária fosse amplamente admirada. A partir da dinastia Tang, escritores do movimento da «prosa antiga» (guwen), como Han Yu, tomaram o estilo de Sima Qian como modelo de escrita vigorosa e clara.

Esse modelo se espalhou pelo Leste Asiático. Na Coreia, o Samguk sagi (1145), de Kim Busik, a mais antiga obra de história coreana preservada, organiza anais, tabelas, tratados e biografias de modo semelhante, assim como a obra posterior Goryeosa. Historiadores das cortes do Japão e do Vietnã também conheciam e imitavam o Shiji. O capítulo do Shiji sobre Chaoxian é, por si só, uma das fontes fundamentais para a história antiga da Coreia: registra o reino de Wiman Joseon e sua conquista pela dinastia Han em 108 a.C.

A história pessoal de Sima Qian também deixou uma marca duradoura. Sua frase sobre mortes que têm «mais peso que o monte Tai ou menos peso que uma pena de ganso» ainda é citada, por exemplo no discurso «Servir ao Povo», de Mao Tsé-Tung, proferido em 1944. Na Coreia, no Japão e na China, ele é visto como exemplo do estudioso que suporta a humilhação para cumprir uma missão. Sua cidade natal, perto de Hancheng, mantém um santuário e um túmulo em sua homenagem.

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Avançado

Debates: autoria, parcialidade e a Carta a Ren An

Quem escreveu o Shiji? Sima Tan iniciou o projeto, e estudiosos há muito tentam identificar os capítulos ou trechos que ele escreveu. Alguns comentários iniciados por «O Grande Escriba diz» podem se referir a Tan, e não a Qian, pois ambos tiveram esse título. Acréscimos posteriores de Chu Shaosun e de outros autores, além da perda de dez capítulos, tornam a história do texto ainda mais complexa. A maioria dos estudiosos aceita que Sima Qian foi o principal autor e deu forma ao conjunto, mas a obra deve ser entendida como resultado de um projeto familiar e de uma longa transmissão.

Até que ponto o Shiji é subjetivo? Em The Cloudy Mirror (1995), Stephen Durrant argumentou que as tensões da vida de Sima Qian, especialmente sua mutilação e suas relações com Confúcio e com o pai, moldam a narrativa, e que o livro expressa tanto uma busca por ordem quanto um sentimento de injustiça. Em Worlds of Bronze and Bamboo (1999), Grant Hardy propôs outra interpretação: a estrutura fragmentada do Shiji, que conta os mesmos acontecimentos de maneiras diferentes em capítulos distintos, seria uma forma deliberada de representar um mundo complexo, uma espécie de «microcosmo» em vez de uma narrativa única e linear. Outros estudiosos destacam os limites impostos pelo serviço na corte e o risco de fazer críticas abertas.

Até a Carta a Ren An passou a ser examinada com mais rigor. Um estudo de 2016, de Stephen Durrant, Wai-yee Li, Michael Nylan e Hans van Ess, analisou sua autenticidade e seu papel na formação da imagem de Sima Qian como um autor que sofreu. Alguns estudiosos suspeitam que ela tenha sido editada posteriormente ou até escrita, em parte, por outras pessoas; muitos outros continuam a considerá-la autêntica. O debate é importante porque grande parte do que se acredita sobre as motivações de Sima Qian vem dessa única carta e do posfácio.

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Avançado

Sima Qian como historiador: comparações e métodos

Sima Qian é frequentemente comparado a Heródoto, o grego chamado de «pai da história», que viveu cerca de três séculos antes. Ambos viajaram muito, recolheram tradições orais e combinaram geografia, etnografia e narrativa. O Shiji, porém, é moldado por outras ideias: trata da ascensão e queda das dinastias, das lições morais da história na tradição confuciana e dos ciclos cosmológicos estudados por um astrólogo. Também apresenta uma estrutura mais sistemática, que combina anais, tabelas e tratados com biografias.

Hoje, os historiadores usam o Shiji com cuidado. Para períodos antigos como o da dinastia Xia, a obra preserva tradições que a arqueologia não consegue confirmar; para a dinastia Shang, algumas partes foram confirmadas por ossos oraculares; para o período dos Estados Combatentes, textos escavados, como anais escritos em bambu, às vezes contradizem sua cronologia. Para a dinastia Qin e o início da Han, muitas vezes é a única fonte narrativa detalhada, e estudiosos modernos a comparam com documentos jurídicos e administrativos encontrados em escavações para verificar suas afirmações.

Os estudiosos também debatem como Sima Qian entendia sua tarefa. O posfácio cita os Anais das Primaveras e Outonos, de Confúcio, como exemplo de história que faz julgamentos morais, mas Sima Qian modestamente nega estar à altura dessa obra. Seu objetivo de «compreender as mudanças do passado e do presente» sugere interesse por padrões de mudança e relações de causa e efeito, inclusive pelo papel do destino e do Céu. Ele questiona esse papel abertamente na biografia de Bo Yi e Shu Qi: se o Céu favorece os bons, por que as pessoas boas sofrem? Essa pergunta, feita por um homem que também havia sofrido, dá ao Shiji sua duradoura profundidade filosófica.

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Ideias principais

Modelo de anais e biografias (jizhuan ti)
Estrutura criada por Sima Qian que combina anais da corte, biografias, tabelas e tratados e se tornou modelo para histórias oficiais em todo o Leste Asiático.
Comentários do Grande Escriba
Breves avaliações pessoais ao fim dos capítulos, que dão uma voz individual ao relato histórico.
Dever filial
Sima Qian apresenta sua obra como o cumprimento de uma promessa feita ao pai moribundo.
Suportar a desonra por um propósito
Ele escolheu suportar a humilhação em vez de morrer para concluir seu livro, decisão admirada pelas gerações posteriores.
O Céu e os seres humanos
Ele procurou entender como a ordem cósmica e as ações humanas se relacionam e questionou se o Céu recompensa os bons.
Crítica das fontes
Ele comparou textos, relatos orais e lugares e, às vezes, admitiu ter dúvidas, embora também tenha registrado lendas.
História de pessoas de todos os tipos
Além de governantes, o Shiji registra comerciantes, assassinos, cavaleiros errantes, mulheres no poder e povos estrangeiros.

Registros

  1. c. 145 a.C. — Sima Qian nasce em Xiayang, perto de Longmen (uma data alternativa é por volta de 135 a.C.).
  2. 141 a.C. — O imperador Wu sobe ao trono (seu reinado é contado a partir de 141 a.C.) e governa por mais de cinquenta anos.
  3. c. 126 a.C. — Por volta dos vinte anos, Sima Qian inicia suas longas viagens pelo Império Han.
  4. 110 a.C. — Sima Tan morre depois de não conseguir participar dos sacrifícios feng e shan no monte Tai e encarrega o filho de concluir a obra histórica.
  5. c. 108 a.C. — Sima Qian torna-se Grande Astrólogo (taishi ling).
  6. 104 a.C. — O calendário Taichu é adotado; Sima Qian participa da reforma e começa a escrever.
  7. 99 a.C. — Sima Qian defende o general Li Ling e é condenado; escolhe a castração em vez da morte (em 99 ou 98 a.C.).
  8. c. 91 a.C. — Carta a Ren An; o Shiji está praticamente concluído.
  9. c. 86 a.C. — Provável morte de Sima Qian, por volta da época da morte do imperador Wu (87 a.C.); a data é desconhecida.
  10. c. 61 a.C. — Seu neto Yang Yun torna a obra mais conhecida durante o reinado do imperador Xuan.
  11. 1145 — Kim Busik compila o Samguk sagi na Coreia, seguindo o modelo de anais e biografias do Shiji.
  12. 1917 — Wang Guowei mostra que a lista de reis Shang no Shiji corresponde às inscrições nos ossos oraculares.

Glossário

Dinastia Han
Dinastia chinesa que governou de 206 a.C. a 220 d.C., com uma interrupção entre 9 e 23 d.C.; Sima Qian viveu durante a Han Ocidental.
Taishi ling
Cargo ocupado por Sima Qian e seu pai, responsável pela astronomia, pelo calendário e pelos registros.
Anais Básicos (benji)
Capítulos que registram a história de governantes e dinastias ano a ano.
Casas Hereditárias (shijia)
Capítulos sobre estados feudais e grandes famílias.
Biografias (liezhuan)
Capítulos sobre a vida de indivíduos ou grupos; são setenta no Shiji.
Xiongnu
Poderosa confederação de povos das estepes ao norte da China Han.
Ossos oraculares
Ossos e carapaças da dinastia Shang inscritos com perguntas dirigidas aos antepassados; formam o mais antigo grande conjunto conhecido de escrita chinesa.
Vinte e Quatro Histórias
Série tradicional das histórias dinásticas oficiais da China, iniciada pelo Shiji.
Eunuco
Homem castrado; na China imperial, os eunucos trabalhavam dentro do palácio.
Guwen (prosa antiga)
Movimento literário surgido na dinastia Tang que tomou escritores antigos, como Sima Qian, como modelos de estilo.

Perguntas e respostas

Por que Sima Qian é chamado de pai da história chinesa?

Porque seu Shiji foi a primeira obra histórica a reunir em um só livro todo o passado conhecido da China, e sua estrutura foi seguida por historiadores oficiais durante dois mil anos.

Por que Sima Qian aceitou um castigo tão terrível?

Ele havia prometido ao pai moribundo que concluiria a obra histórica dos dois. Escreveu que suportou a desonra para que o trabalho não se perdesse.

Que tipos de pessoas aparecem no Shiji?

Imperadores, rainhas, generais e filósofos, mas também assassinos, comerciantes, cavaleiros errantes, adivinhos, artistas cômicos e povos estrangeiros, como os xiongnu.

O Shiji menciona a Coreia?

Sim. O capítulo 115, sobre Chaoxian (Joseon), descreve o Estado de Wiman Joseon e sua conquista pela dinastia Han em 108 a.C., sendo uma fonte fundamental para a história antiga da Coreia.

O Shiji é confiável?

A obra mistura lendas e fatos históricos. Sua lista de reis Shang foi confirmada por ossos oraculares, mas textos encontrados em escavações revelam erros sobre períodos muito antigos e algumas datas dos Estados Combatentes. Historiadores a leem de forma crítica, junto com as descobertas arqueológicas.

Sima Qian realmente escreveu a Carta a Ren An?

A maioria dos estudiosos a considera autêntica, mas algumas pesquisas recentes questionam se ela foi editada ou parcialmente escrita mais tarde. O debate continua.

Em que o Shiji difere das Histórias de Heródoto?

Ambos os historiadores viajaram e usaram fontes orais, mas o Shiji é organizado em anais, tabelas, tratados e biografias e reflete ideias chinesas sobre a mudança das dinastias e os julgamentos morais.

Fontes e leituras adicionais

  1. Sima Qian. Wikipedia
  2. Records of the Grand Historian. Wikipedia
  3. Sima Tan. Wikipedia
  4. Li Ling (Han dynasty). Wikipedia
  5. 사마천. Wikipedia (Korean)
  6. 사기 (역사서). Wikipedia (Korean)
  7. Burton Watson, Records of the Grand Historian of China (trans.). Columbia University Press, 1961 (rev. ed. 1993)
  8. Stephen W. Durrant, The Cloudy Mirror: Tension and Conflict in the Writings of Sima Qian. State University of New York Press, 1995
  9. Grant Hardy, Worlds of Bronze and Bamboo: Sima Qian's Conquest of History. Columbia University Press, 1999
  10. Stephen Durrant, Wai-yee Li, Michael Nylan, Hans van Ess, The Letter to Ren An and Sima Qian's Legacy. University of Washington Press, 2016

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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