Filosofia

O Buda (Sidarta Gautama)

सिद्धार्थ गौतम (Sanskrit) · Siddhattha Gotama (Pali) · Śākyamuni

c. 563–400 a.C. · Magadha (Bodh Gaya)

Em uma frase

O Buda foi um mestre da Índia antiga que, após buscar uma saída para o sofrimento, ensinou que as pessoas podem encontrar uma paz duradoura ao compreender como a própria mente funciona e ao viver com bondade, honestidade e atenção plena.

O Buda (Sidarta Gautama)
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Para jovens leitores

Há cerca de 2.400 a 2.500 anos, no norte da Índia, perto das montanhas do Nepal, nasceu um menino chamado Sidarta, de uma família importante do povo xáquia. As histórias antigas dizem que seu pai queria mantê-lo feliz. Por isso, deu a ele palácios, roupas bonitas e música, para que nunca visse nada triste.

Mas, quando Sidarta cresceu, as histórias dizem que ele saiu do palácio e viu quatro coisas que nunca tinha visto: um homem muito velho, um homem doente, uma pessoa morta e um homem religioso e tranquilo que tinha deixado tudo para trás. Sidarta percebeu que todos envelhecem, adoecem e morrem, até os príncipes. Ele quis descobrir por que as pessoas sofrem e se havia um jeito de se libertar do sofrimento.

Então, por volta dos 29 anos, ele saiu de casa para procurar respostas. Durante anos, fez coisas muito difíceis, como comer quase nada, mas isso só o deixou fraco. Depois, escolheu um “caminho do meio”: sem conforto demais e sem sofrimento demais. Certa noite, sentou-se sob uma grande figueira e meditou, observando a própria mente com calma. Segundo os budistas, pela manhã ele compreendeu a verdade e se tornou “o Buda”, que significa “aquele que despertou”.

Nos 45 anos seguintes, ele caminhou de cidade em cidade e ensinou a todos que quisessem ouvir: ricos e pobres, homens e mulheres. Ensinou que desejar as coisas demais nos deixa infelizes e que podemos nos libertar sendo bondosos, dizendo a verdade, não machucando os seres vivos e aprendendo a manter a mente calma e clara.

O Buda morreu com cerca de 80 anos. Seus seguidores guardaram seus ensinamentos na memória e, mais tarde, os escreveram. Hoje, centenas de milhões de pessoas no mundo seguem o budismo. Estátuas do Buda sentado em paz podem ser encontradas desde o Sri Lanka e a Tailândia até a China, a Coreia e o Japão.

Em resumo

Datas
Incertas. A “cronologia longa” tradicional propõe c. 563–483 a.C.; muitos estudiosos atuais situam sua morte por volta de 400 a.C. (vida: c. 480–400 a.C.)
Nascimento
Lumbini, no atual sul do Nepal (segundo a tradição; uma inscrição de Asoca confirma que o local era um destino de peregrinação)
Povo
Os xáquias (Śākya), comunidade governada por um conselho de homens influentes, próxima ao sopé do Himalaia
Despertar
Sob uma figueira-sagrada em Bodh Gaya, em Mágada (atual Bihar, Índia), por volta dos 35 anos
Primeiro ensinamento
No Parque dos Cervos, em Sarnath, perto de Varanasi
Morte
Em Kushinagar (Kusinārā), por volta dos 80 anos, em um acontecimento que os budistas chamam de parinirvana
Nomes e títulos
Sidarta Gautama; Shakyamuni (“sábio dos xáquias”); Tathagata (“aquele que assim se foi”); Buda (“desperto”)
Ensinamentos
Quatro Nobres Verdades, Nobre Caminho Óctuplo, Caminho do Meio, não eu, impermanência e originação dependente

Fácil

Quem foi o Buda?

“Buda” não é um nome, mas um título. Vem de uma palavra do sânscrito e do páli que significa “desperto” ou “aquele que despertou”. Os budistas usam esse título para alguém que compreendeu plenamente, por si mesmo, a verdade sobre o sofrimento e a libertação e a ensina aos outros. Quando as pessoas dizem “o Buda”, geralmente se referem ao Buda de nossa era: Sidarta Gautama (em páli, Siddhattha Gotama), que viveu no norte da Índia no século V a.C., ou talvez um pouco antes.

Ele também é chamado de Shakyamuni, o “sábio dos xáquias”, em referência ao povo entre o qual nasceu, e de Tathagata, “aquele que assim se foi”, título que usava para si mesmo nos textos antigos. Seus seguidores o consideram um ser humano que alcançou a mais alta compreensão possível e mostrou o caminho aos outros, e não um deus ou criador.

O Buda fundou uma comunidade de monges e monjas, a sanga, e transmitiu um ensinamento, o Darma. Junto com o próprio Buda, eles formam as “Três Joias”, nas quais os budistas tomam refúgio. Do norte da Índia, seus ensinamentos se espalharam pela Ásia e, mais tarde, pelo mundo, tornando-se uma das grandes tradições religiosas e filosóficas da humanidade.

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Fácil

A história de sua vida: do palácio ao despertar

A história tradicional de sua vida, contada em muitas versões, é a seguinte. Sidarta nasceu no bosque de Lumbini. Sua mãe era a rainha Maya, e seu pai, Sudodana, líder dos xáquias, cuja cidade era Kapilavastu. Sua mãe morreu pouco depois do parto, e ele foi criado pela irmã dela, Mahapajapati. Casou-se com Yasodhara e teve um filho, Rahula.

Versões posteriores descrevem as “quatro visões”: um homem idoso, um doente, um cadáver e um asceta itinerante. Profundamente comovido, Sidarta saiu de casa por volta dos 29 anos, cortou o cabelo e vestiu roupas simples. Estudou meditação com dois mestres, Alara Kalama e Uddaka Ramaputta, e alcançou estados de grande serenidade, mas sentiu que aquilo não era a libertação definitiva. Depois, praticou austeridades extremas e jejuou até quase morrer, acompanhado de cinco companheiros.

Ao concluir que nem os prazeres excessivos nem a automortificação levam à libertação, ele aceitou comida e adotou uma prática equilibrada, que mais tarde chamou de Caminho do Meio. Sentado em meditação sob uma figueira-sagrada em Bodh Gaya, enfrentou as tentações e ameaças de Mara, figura associada à morte e ao desejo. Segundo a tradição, alcançou o despertar (bodhi) por volta dos 35 anos. A árvore é venerada como a árvore Bodhi.

Os textos mais antigos são mais comedidos que as lendas posteriores. Trazem poucos detalhes biográficos e quase não mencionam as quatro visões, que só aparecem integralmente em biografias posteriores, como o poema sânscrito Buddhacarita (“Feitos do Buda”), de Asvaghosa, composto por volta dos séculos I–II d.C. É possível apreciar a história e, ao mesmo tempo, lembrar que ela se desenvolveu ao longo do tempo.

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Fácil

Quarenta e cinco anos de ensinamentos

Após seu despertar, o Buda caminhou até o Parque dos Cervos, em Sarnath, perto de Varanasi, e transmitiu seu primeiro ensinamento aos cinco antigos companheiros. Os budistas chamam esse acontecimento de “pôr em movimento a roda do Darma”. Os cinco se tornaram os primeiros monges.

Durante cerca de 45 anos, ele viajou a pé pelos reinos e repúblicas da planície central do Ganges, especialmente Mágada e Kosala, permanecendo em um só lugar durante a estação das chuvas. Reis como Bimbisara, de Mágada, e Pasenadi, de Kosala, assim como comerciantes como Anathapindika, apoiaram-no e doaram parques e mosteiros à comunidade. Seus seguidores vinham de muitas origens: brâmanes, nobres, barbeiros, cortesãs e pessoas excluídas da sociedade.

Segundo os textos, sua madrasta Mahapajapati pediu para ser ordenada e, após hesitar inicialmente, o Buda permitiu que mulheres se tornassem monjas (bhikkhunis). Isso fez da ordem budista uma das primeiras comunidades religiosas conhecidas para mulheres. Historiadores discutem como surgiram as regras posteriores que subordinaram as monjas aos monges.

Por volta dos 80 anos, debilitado por uma doença após uma refeição, ele morreu em Kushinagar. Suas últimas palavras, registradas no texto em páli Mahaparinibbana Sutta, exortaram os seguidores a prosseguir com dedicação, pois todas as coisas condicionadas estão sujeitas à deterioração. Seu corpo foi cremado, e suas relíquias foram divididas entre vários povos, que construíram sobre elas monumentos chamados estupas.

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Intermediário

O ensinamento central: as Quatro Nobres Verdades e o Caminho Óctuplo

As Quatro Nobres Verdades são muitas vezes comparadas ao método de um médico. Primeiro, a doença: a vida é marcada por dukkha, palavra que pode significar sofrimento, dor, insatisfação ou aflição. Nascer, envelhecer, adoecer e morrer são dukkha; separar-se de quem amamos e não conseguir o que desejamos também. Segundo, a causa: dukkha surge do desejo ávido (tanha), a ânsia por prazer, pela existência e pela não existência. Terceiro, a cura: quando o desejo ávido cessa, dukkha cessa; isso é o nirvana (em páli, nibbana), literalmente o “apagamento” dos fogos da ganância, do ódio e da ilusão. Quarto, o tratamento: o Nobre Caminho Óctuplo.

O Caminho Óctuplo tem oito componentes: compreensão correta, intenção correta, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta. Tradicionalmente, eles são reunidos em três práticas: ética (fala, ação e modo de vida), meditação (esforço, atenção plena e concentração) e sabedoria (compreensão e intenção). Não se trata de uma escada com oito degraus, mas de qualidades a desenvolver em conjunto.

Para os seguidores leigos, a ética básica é resumida nos Cinco Preceitos: não matar, não roubar, não ter conduta sexual imprópria, não mentir e não consumir substâncias intoxicantes que perturbem a mente. A generosidade (dana) e a bondade amorosa (metta) para com todos os seres são virtudes centrais.

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Intermediário

Grandes ideias: impermanência, não eu e originação dependente

O Buda ensinou que todas as coisas condicionadas têm três características: são impermanentes (anicca), não proporcionam satisfação duradoura (dukkha) e não constituem um eu (anatta). Nessa análise, uma pessoa é formada por cinco “agregados” mutáveis (khandhas): forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência. Em nenhum deles existe um eu ou uma alma imutável e independente. Isso contrastava fortemente com o ensinamento de algumas Upanixades, que identificavam o verdadeiro eu (atman) com a realidade suprema (brahman).

A originação dependente (paticca-samuppada) explica como dukkha surge por uma cadeia de condições, frequentemente apresentada em doze elos, da ignorância ao envelhecimento e à morte. O princípio geral é simples: “quando isto existe, aquilo surge; quando isto cessa, aquilo cessa”. Nada surge por si só ou sem causas.

O Buda aceitava a crença indiana, amplamente difundida, no renascimento e no carma, mas dava ao carma um sentido ético e psicológico: o que importa é a intenção. Ele se recusou a responder certas questões metafísicas, como se o mundo é eterno ou o que acontece a uma pessoa desperta após a morte, dizendo que elas não ajudavam a pôr fim ao sofrimento. A parábola do homem atingido por uma flecha envenenada, que recusa tratamento até saber quem a disparou, ilustra essa atitude prática.

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Intermediário

O mundo da planície do Ganges

O Buda viveu durante um período de rápidas mudanças no norte da Índia, muitas vezes chamado de “segunda urbanização”. As cidades e o comércio cresciam ao longo do Ganges; moedas passaram a ser usadas; reinos poderosos, como Mágada e Kosala, expandiam-se às custas de Estados menores. Os próprios xáquias não formavam um reino, mas uma gana-sangha, comunidade governada por uma assembleia ou conselho de famílias influentes. Sudodana provavelmente era um desses líderes, e não um rei; passou a ser lembrado como “rei” à medida que a lenda se desenvolveu.

A vida religiosa também mudava. Sacerdotes brâmanes realizavam sacrifícios védicos e reivindicavam a posição social mais elevada. Ao mesmo tempo, muitos śramaṇas (ascetas itinerantes) rejeitavam a autoridade dos Vedas e buscavam a libertação por meio da renúncia, da meditação e da austeridade. O mestre jainista Mahavira e os ajivicas estavam entre os contemporâneos e rivais do Buda. Johannes Bronkhorst argumentou que a região da “Grande Mágada” tinha uma cultura própria, não védica, da qual esses movimentos se originaram.

Os ensinamentos do Buda dialogavam criticamente com todas essas correntes. Ele redefiniu “brâmane” como alguém nobre pela conduta, e não pelo nascimento, rejeitou o sacrifício de animais e ofereceu um caminho aberto a pessoas de qualquer classe. Ao mesmo tempo, incorporou e reformulou grande parte do vocabulário de sua época, como carma, renascimento, darma e meditação semelhante à ioga.

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Intermediário

Como os ensinamentos foram preservados

O Buda não escreveu nada. Seus ensinamentos foram memorizados e recitados por monges e monjas e organizados em coleções de discursos (suttas ou sutras) e regras monásticas (vinaya). Segundo a tradição, um primeiro concílio de 500 monges experientes reuniu-se em Rajagriha pouco depois de sua morte para recitá-los; um segundo concílio ocorreu em Vaishali cerca de um século depois. Historiadores consideram esses relatos parcialmente lendários, mas concordam que a recitação oral era muito organizada.

A coleção antiga mais completa que sobreviveu em uma língua indiana é o Cânone Páli, preservado pela tradição teravada do Sri Lanka e do Sudeste Asiático. Segundo crônicas do Sri Lanka, ele foi registrado por escrito pela primeira vez no país no século I a.C. Coleções paralelas, chamadas Ágamas, sobreviveram sobretudo em traduções chinesas, com fragmentos em sânscrito, gandari e tibetano. Manuscritos de casca de bétula encontrados em Gandara, datados aproximadamente do século I a.C. ao século III d.C., estão entre os manuscritos budistas mais antigos já descobertos.

Quando as versões em páli e chinês concordam estreitamente, os estudiosos consideram provável que o material compartilhado remonte a uma fase muito antiga, anterior à separação das diversas escolas. Esse método comparativo é a principal ferramenta para investigar o que o próprio Buda pode ter ensinado.

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Intermediário

Difusão e legado

Cerca de dois séculos após o Buda, o imperador máuria Asoca apoiou o budismo e enviou emissários por toda a Índia e para além dela. Por volta de 249 a.C., ele visitou Lumbini e ergueu uma coluna de pedra cuja inscrição registra que “aqui nasceu o Buda, sábio dos xáquias” e que os impostos da aldeia foram reduzidos. O budismo chegou ao Sri Lanka na época de Asoca e, mais tarde, espalhou-se pelas rotas comerciais até a Ásia Central, a China (já no século I d.C.), a Coreia (a partir do século IV), o Japão (século VI), o Tibete (séculos VII–VIII) e o Sudeste Asiático.

Ao se espalhar, o budismo desenvolveu várias grandes tradições: o teravada, no Sri Lanka e em grande parte do Sudeste Asiático; o maaiana, que enfatiza o caminho do bodisatva e a existência de muitos Budas, no Leste Asiático; e o vajraiana, no Tibete, na Mongólia e no Himalaia. Na própria Índia, o budismo entrou em declínio após aproximadamente o século XII, mas ressurgiu no século XX, especialmente com a conversão coletiva de dalits liderada por B. R. Ambedkar em 1956.

Durante séculos, o Buda foi representado na arte apenas por símbolos, como uma pegada, um assento vazio, uma roda ou uma árvore. Imagens do Buda em forma humana surgiram por volta do século I d.C. em Gandara e Matura e se tornaram algumas das imagens mais reconhecíveis da arte mundial. Seu nascimento e despertar são celebrados no Vesak, no Sul e no Sudeste Asiático, e no aniversário do Buda, no Leste Asiático. Lumbini e o templo Mahabodhi, em Bodh Gaya, são Patrimônios Mundiais da UNESCO e importantes destinos de peregrinação.

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Avançado

Quando o Buda viveu? O problema da datação

Nenhuma fonte contemporânea fornece as datas da vida do Buda. Todas as cronologias são calculadas retroativamente a partir de Asoca, cujo reinado pode ser situado de modo aproximado — ele assumiu o trono por volta de 268 a.C. — graças às referências a reis helenísticos em suas inscrições. O problema é determinar quantos anos se passaram entre a morte do Buda e o reinado de Asoca.

A “cronologia longa” das crônicas do Sri Lanka situa a morte 218 anos antes da consagração de Asoca. Após ajustes feitos por estudiosos ocidentais, isso resultou nas datas conhecidas de aproximadamente 563–483 a.C. (ou 566–486 a.C.), adotadas como padrão durante a maior parte do século XX. A própria tradição teravada conta a Era Budista a partir de 544/543 a.C.; por isso, o “2.500º aniversário” foi celebrado em 1956–57. Uma “cronologia curta”, preservada em fontes sânscritas e chinesas de escolas do norte, situa a morte apenas cerca de 100 anos antes de Asoca, por volta de 368 a.C.

Em um simpósio realizado em Göttingen em 1988 e organizado por Heinz Bechert, a maioria dos participantes situou a morte do Buda dentro de um intervalo de cerca de vinte anos em torno de 400 a.C. Richard Gombrich defendeu uma data por volta de 404 a.C., e muitas obras de referência hoje apresentam aproximadamente 480–400 a.C. A questão permanece em aberto. Os argumentos dependem da importância atribuída às listas de sucessão de monges, da confiabilidade das crônicas e das evidências arqueológicas sobre a urbanização no vale do Ganges.

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Avançado

O Buda histórico e o problema das fontes

No século XIX, alguns estudiosos europeus, como Émile Senart, sugeriram que a lenda do Buda era em grande parte um mito solar. Hoje, quase todos os estudiosos aceitam que houve um mestre histórico por trás da tradição, mas divergem muito sobre o quanto é possível saber a seu respeito. Os textos antigos foram transmitidos oralmente durante séculos e editados por comunidades com interesses próprios; os elementos sobrenaturais se multiplicam nas camadas posteriores.

Alguns especialistas são relativamente otimistas. Argumentam que os discursos antigos apresentam uma filosofia coerente e singular, provavelmente originada de uma mente criativa, e preservam detalhes realistas sobre lugares e condições sociais. Outros são mais céticos e ressaltam que os cânones preservados foram moldados por disputas entre escolas e por interesses monásticos posteriores. Gregory Schopen, por exemplo, destacou que inscrições e achados arqueológicos às vezes revelam uma vida monástica bastante diferente dos ideais descritos nos textos.

A arqueologia oferece evidências importantes, mas limitadas. A coluna de Asoca em Lumbini (descoberta em 1896) mostra que, no século III a.C., o local era venerado como o lugar do nascimento do Buda. Um relicário encontrado em Piprahwa em 1898 traz uma inscrição antiga em escrita brami que muitos interpretam como referência às relíquias do Buda dos xáquias, embora sua datação e leitura sejam debatidas. Também se discute se a antiga Kapilavastu ficava em Tilaurakot, no Nepal, ou em Piprahwa, na Índia. Escavações sob o templo de Maya Devi, em Lumbini, divulgadas em 2013 por uma equipe que incluía Robin Coningham, identificaram vestígios de uma antiga estrutura de madeira que dataram de aproximadamente o século VI a.C.; a relevância desses achados para as datas da vida do Buda é contestada.

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Avançado

O que o Buda ensinou originalmente? Debates de interpretação

Estudiosos e tradições budistas divergem sobre várias questões centrais. O ensinamento do não eu era uma negação metafísica da existência de qualquer eu ou uma estratégia prática para abandonar o apego sem afirmar nada sobre a realidade última? Diferentes escolas budistas e filósofos atuais defendem ambas as interpretações. Mark Siderits, entre outros, interpreta-o como uma explicação reducionista da pessoa; outros entendem que o Buda evitava deliberadamente a metafísica.

Outro debate trata da relação entre meditação e compreensão. Estudiosos como Lambert Schmithausen e Johannes Bronkhorst argumentaram que os textos antigos apresentam uma tensão entre a libertação pelo profundo estado de absorção meditativa e a libertação pelo discernimento, talvez refletindo camadas textuais distintas. Richard Gombrich enfatizou como as ideias do Buda respondem a termos bramânicos e frequentemente lhes dão uma nova interpretação irônica, o que ele considera evidência de um único pensador original.

Por fim, as tradições maaianas sustentam que o Buda ensinou em diferentes níveis a diferentes públicos e que sutras como o Sutra do Lótus representam seu ensinamento mais completo. Já a pesquisa histórica situa esses textos séculos depois de sua morte. Essas perspectivas respondem a perguntas diferentes, históricas e religiosas, e ambas são importantes para compreender como o Buda foi entendido em toda a Ásia.

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Ideias principais

Quatro Nobres Verdades
O sofrimento existe; surge do desejo ávido; pode cessar; o Caminho Óctuplo leva à sua cessação.
Caminho do Meio
Um caminho entre os prazeres sensuais excessivos e a automortificação severa; na filosofia, também entre o eternalismo e o aniquilacionismo.
Nobre Caminho Óctuplo
Compreensão, intenção, fala, ação, modo de vida, esforço, atenção plena e concentração corretos, desenvolvidos em conjunto como ética, meditação e sabedoria.
Não eu (anatta)
Não se encontra um eu permanente e independente entre as partes mutáveis de uma pessoa.
Impermanência (anicca)
Tudo o que surge de condições muda e desaparece.
Originação dependente
Tudo surge em dependência de condições; o sofrimento surge de uma cadeia de causas e termina quando elas cessam.
Nirvana
O fim do desejo ávido e do sofrimento, o “apagamento” da ganância, do ódio e da ilusão.
Carma como intenção
As ações têm consequências, e o que importa moralmente é a intenção por trás delas.

Registros

  1. c. 563 a.C. — Data tradicional (segundo a cronologia longa) do nascimento de Sidarta em Lumbini, c. 563 a.C.
  2. c. 544 a.C. — A tradição teravada situa o parinirvana do Buda em 544/543 a.C., início da Era Budista.
  3. c. 480 a.C. — Nascimento por volta de 480 a.C., segundo a cronologia preferida por muitos estudiosos atuais.
  4. c. 400 a.C. — Morte em Kushinagar por volta de 400 a.C., segundo muitos estudiosos atuais.
  5. c. 249 a.C. — O imperador Asoca visita Lumbini e ergue uma coluna com inscrição que marca o lugar do nascimento (no 20º ano de seu reinado).
  6. c. 29 a.C. — Segundo as crônicas do Sri Lanka, o Cânone Páli é registrado por escrito no país.
  7. c. 100 d.C. — Asvaghosa compõe o Buddhacarita; imagens do Buda em forma humana surgem em Gandara e Matura.
  8. 1896 — A coluna de Asoca em Lumbini é descoberta, confirmando o local associado pela tradição ao nascimento do Buda.
  9. 1898 — Um relicário com inscrição é escavado em Piprahwa, na Índia.
  10. 1956 — Celebra-se o 2.500º aniversário do parinirvana (segundo o cálculo teravada); B. R. Ambedkar converte-se ao budismo com muitos seguidores.
  11. 1988 — Simpósio em Göttingen sobre a data da vida do Buda histórico; a maioria dos participantes considera provável que sua morte tenha ocorrido perto de 400 a.C.
  12. 2002 — O templo Mahabodhi, em Bodh Gaya, é inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO (Lumbini havia sido inscrita em 1997).

Glossário

Buda
“Desperto”; título de alguém que compreendeu plenamente a verdade e a ensina.
Darma (em páli, dhamma)
O ensinamento do Buda; também a verdade ou lei que ele descreve.
Sanga
A comunidade de monges e monjas budistas e, em sentido mais amplo, de todos os seguidores.
Dukkha
Sofrimento, aflição ou insatisfação; tema da primeira Nobre Verdade.
Nirvana (em páli, nibbana)
Libertação; a extinção do desejo ávido e o fim do renascimento.
Parinirvana
A passagem final de um Buda ao morrer.
Śramaṇa
Asceta itinerante da Índia antiga que buscava a libertação fora dos rituais védicos.
Estupa
Monumento em forma de monte que contém relíquias e é um lugar de devoção budista.
Cânone Páli
Coleção de antigas escrituras budistas em língua páli preservada pela tradição teravada.
Ágamas
Antigas coleções de discursos budistas de outras escolas, preservadas sobretudo em traduções chinesas.
Bodisatva
Ser a caminho de se tornar um Buda; no maaiana, alguém que faz o voto de libertar todos os seres.

Perguntas e respostas

O Buda é um deus?

Nos ensinamentos antigos, não. Ele é um ser humano que alcançou o despertar completo e ensinou outras pessoas. Algumas tradições posteriores descrevem os Budas em termos mais cósmicos, mas eles não são deuses criadores.

O Buda foi realmente um príncipe?

Ele veio de uma família influente dos xáquias, mas esse povo provavelmente era governado por um conselho, e não por um rei. A imagem de um príncipe vivendo em um palácio se desenvolveu ao longo do tempo.

Por que o Buda costuma ser representado sentado de pernas cruzadas?

Essa posição o mostra meditando, prática por meio da qual alcançou o despertar. Gestos das mãos, como tocar a terra, lembram momentos específicos de sua vida.

Por que as datas da vida do Buda são tão incertas?

Não sobreviveu nenhum registro produzido durante sua vida. Os estudiosos fazem cálculos retroativos a partir do reinado do imperador Asoca, mas as tradições antigas divergem em até cerca de um século sobre quanto tempo antes dele o Buda morreu.

O Buda escreveu algum livro?

Não. Seus ensinamentos foram memorizados e recitados durante séculos antes de serem registrados por escrito, no Cânone Páli e em outras coleções preservadas principalmente em chinês.

Qual é a diferença entre teravada e maaiana?

O teravada, forte no Sri Lanka e no Sudeste Asiático, preserva o Cânone Páli e se concentra no caminho para a libertação. O maaiana, forte no Leste Asiático, inclui muitos sutras posteriores e enfatiza o ideal do bodisatva de libertar todos os seres.

Podemos saber o que o Buda histórico realmente ensinou?

Apenas de modo aproximado. Os estudiosos comparam textos paralelos em páli, chinês e outras línguas. O que eles têm em comum provavelmente remonta a uma época muito antiga, mas ainda se debate o quanto corresponde às palavras do próprio Buda.

Fontes e leituras adicionais

  1. Mark Siderits, Buddha. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  2. The Buddha. Wikipedia
  3. Four Noble Truths. Wikipedia
  4. Pāli Canon. Wikipedia
  5. Lumbini pillar inscription. Wikipedia
  6. Mahabodhi Temple. Wikipedia
  7. Rupert Gethin, The Foundations of Buddhism. Oxford University Press, 1998
  8. Richard F. Gombrich, What the Buddha Thought. Equinox, 2009
  9. Johannes Bronkhorst, Greater Magadha: Studies in the Culture of Early India. Brill, 2007

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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