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Para jovens leitores
Kālidāsa viveu na Índia há muito tempo, provavelmente por volta do ano 400. Ele escrevia em sânscrito, uma antiga língua usada na poesia, na religião e nos estudos da Índia. Sabemos muito pouco sobre sua vida, mas as pessoas gostam de seus poemas e peças há mais de 1.500 anos.
Sua peça mais famosa é Shakuntala. Um rei vai caçar na floresta e se apaixona por Shakuntala, uma jovem que cresceu perto de cervos e flores. Eles se casam, e o rei lhe dá um anel. Mas um sábio irritado lança uma maldição: o rei vai esquecê-la até ver o anel de novo. Então ela perde o anel em um rio! No fim, um pescador encontra o anel dentro de um peixe, o rei se lembra dela e a família se reúne.
Em outro poema, O Mensageiro das Nuvens, um espírito que está longe de casa pede a uma nuvem de chuva que leve uma mensagem de amor à sua esposa. Ele conta à nuvem sobre as montanhas, os rios e as cidades que ela verá no caminho. Ler o poema é como viajar pela Índia em cima de uma nuvem.
Kālidāsa sabia fazer comparações bonitas e surpreendentes. Por exemplo, mostrava como uma coisa podia se parecer com outra. Um antigo ditado da Índia diz que ninguém fazia comparações tão bem quanto ele.
Também surgiram histórias sobre sua vida. Uma lenda diz que ele era um jovem sem estudos que se casou com uma princesa inteligente por causa de uma trapaça. Depois, ao rezar para a deusa Kālī, tornou-se um grande poeta. Seu nome significa “servo de Kālī”. Os historiadores acham que essa história é uma lenda, mas ela mostra a curiosidade das pessoas sobre o homem que escreveu os poemas.
Em resumo
- Época em que viveu
- Incerta; a maioria dos estudiosos o situa entre o fim do século IV e o século V, durante o período Gupta
- Local
- Tradicionalmente associado a Ujjain, no centro da Índia; outras regiões, como Caxemira, Bengala e Vidisha, também foram propostas
- Língua
- Sânscrito clássico (com dialetos prácritos usados por muitos personagens de suas peças)
- Peças
- Abhijñānaśākuntalam (Shakuntala), Vikramorvaśīyam, Mālavikāgnimitram
- Poemas
- Raghuvaṃśa e Kumārasambhava (longos poemas épicos de corte); Meghadūta (poema lírico); Ṛtusaṃhāra (autoria debatida)
- Conhecido por
- Linguagem refinada, imagens vívidas da natureza, comparações magistrais e a experiência estética da emoção (rasa)
- Testemunhos mais antigos
- Citado como poeta famoso na inscrição de Aihole, de 634; possíveis ecos de seus versos aparecem em uma inscrição de Mandasor, de 473
- Influência
- Modelo para poetas posteriores que escreveram em sânscrito; Shakuntala, traduzida para o inglês em 1789, inspirou Goethe e o romantismo europeu
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Quem foi Kālidāsa?
Kālidāsa é o poeta e dramaturgo mais celebrado da literatura clássica em sânscrito. Em geral, atribuem-se a ele três peças, dois longos poemas narrativos e um famoso poema lírico. Essas obras serviram de modelo de estilo para escritores indianos por mais de mil anos. Seu nome significa “servo de Kālī”, uma deusa hindu, o que sugere que ele ou sua família eram devotos de Shiva e de sua esposa. Suas obras, porém, também honram outros deuses.
Sabemos muito pouco sobre sua vida. Ele quase nada diz a respeito de si mesmo, e não sobreviveu nenhuma biografia confiável escrita em sua época. A maioria dos estudiosos acredita que ele viveu no fim do século IV ou no século V, quando a dinastia Gupta governava grande parte do norte da Índia. Suas descrições afetuosas de Ujjain levaram muitos a associá-lo a essa cidade, que era um importante centro político e cultural.
Kālidāsa escrevia em sânscrito, a língua clássica do conhecimento, da religião e da literatura de corte no sul da Ásia. Em suas peças, reis, deuses e homens brâmanes falam sânscrito, enquanto mulheres, criados e muitos outros personagens falam diferentes línguas prácritas, usadas na vida cotidiana da época. Essa combinação reflete o mundo social da corte para a qual ele escrevia.
As obras de Kālidāsa ainda são lidas, encenadas e ensinadas na Índia e em outros lugares. Suas peças são apresentadas em sânscrito e em tradução, seus poemas ganham versões em música e dança, e um prêmio de artes da Índia, o Kālidāsa Samman, leva seu nome.
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Lendas sobre sua vida
Como se sabe tão pouco sobre Kālidāsa, surgiram muitas lendas a seu respeito. A mais famosa conta que ele era um jovem simples e sem estudos. Uma princesa orgulhosa e instruída recusava todos os pretendentes que não conseguissem vencê-la em um debate. Inimigos dela a enganaram para que se casasse com Kālidāsa, fingindo que os gestos silenciosos dele expressavam ideias filosóficas profundas. Quando descobriu a verdade, ela o rejeitou. Envergonhado, ele rezou para a deusa Kālī, que lhe concedeu o dom da poesia.
Outra tradição o apresenta como uma das “Nove Joias” (navaratna), um grupo de nove estudiosos e artistas famosos da corte de um rei chamado Vikramāditya, de Ujjain. A lista vem de um verso escrito muito tempo depois, e as pessoas que ela menciona viveram em épocas bastante diferentes. Por isso, os historiadores a consideram lendária. Ainda assim, a lenda reflete uma possibilidade real: muitos estudiosos acreditam que Kālidāsa tinha ligação com a corte do rei Gupta Chandragupta II, que usava o título Vikramāditya.
Outras histórias, contadas em diferentes regiões, descrevem suas viagens, sua morte no Sri Lanka ou suas rivalidades com outros poetas. Esses relatos mostram como as pessoas de épocas posteriores imaginavam o poeta ideal, mas não fornecem fatos sobre o Kālidāsa histórico.
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Shakuntala: o reconhecimento de um amor perdido
A obra-prima de Kālidāsa é a peça Abhijñānaśākuntalam, “O reconhecimento de Shakuntala”, dividida em sete atos. Enquanto caça na floresta, o rei Duṣyanta entra no retiro do sábio Kaṇva e conhece Shakuntala, filha adotiva de Kaṇva e filha biológica de uma ninfa e de um sábio de origem real. Os dois se apaixonam e se casam em particular, à maneira gāndharva, por consentimento mútuo. O rei volta à capital e deixa com ela seu anel de sinete como promessa.
Distraída por pensar no rei, Shakuntala deixa de cumprimentar o sábio Durvāsas, conhecido por seu temperamento irritadiço. Ele então a amaldiçoa: o homem em quem ela pensa irá esquecê-la. Atendendo ao pedido das amigas dela, o sábio ameniza a maldição: ela terminará quando o rei vir um objeto que a identifique. Grávida, a caminho da corte, Shakuntala perde o anel em um lago sagrado. O rei não a reconhece, e sua mãe divina a leva embora.
Mais tarde, um pescador encontra o anel na barriga de um peixe. Assim que o rei o vê, recupera a memória e é tomado pela tristeza. No último ato, depois de ajudar o deus Indra em uma guerra contra demônios, ele encontra Shakuntala e o filho dos dois, Bharata, em um retiro celestial. A família se reúne. Bharata é lembrado como antepassado de uma grande linhagem real, e o nome oficial da Índia, Bhārat, é tradicionalmente associado a ele.
A história vem do Mahābhārata, mas Kālidāsa a transformou. No épico, o rei se lembra perfeitamente de Shakuntala, porém a rejeita por medo de um escândalo. Na peça, a maldição e a perda do anel o isentam de culpa e fazem da história uma reflexão sobre memória, amor e perda. A cena de despedida do quarto ato, em que Shakuntala deixa o retiro e as plantas, os animais e seu pai adotivo lamentam sua partida, está entre as passagens mais admiradas da literatura em sânscrito.
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O Mensageiro das Nuvens: uma viagem pela Índia
O Meghadūta (“O Mensageiro das Nuvens”) é um poema lírico de cerca de 110 a 120 estrofes, dependendo da tradição manuscrita. Todas seguem o ritmo lento e solene do metro mandākrāntā. Um yakṣa, ser divino menor a serviço de Kubera, deus da riqueza, foi exilado por um ano nas colinas de Rāmagiri, no centro da Índia, por ter descuidado de suas obrigações. No começo da estação das chuvas, com saudade da esposa que vive na cidade himalaia de Alakā, ele pede a uma nuvem que passa que lhe leve uma mensagem.
A primeira parte do poema descreve o caminho da nuvem rumo ao norte: montanhas, rios, florestas e cidades, incluindo uma longa e afetuosa descrição de Ujjain e de seu templo dedicado a Shiva Mahākāla. Cada lugar é apresentado pelos olhos de alguém apaixonado, de modo que a própria paisagem parece cheia de desejo. A segunda parte descreve a cidade mágica de Alakā, a casa do yakṣa e sua esposa, pálida e magra de tanta saudade. Por fim, apresenta a mensagem, com a esperança de um reencontro quando o exílio terminar.
O Meghadūta deu origem a todo um gênero, o sandeśa-kāvya, ou “poema do mensageiro”, no qual alguém apaixonado envia uma mensagem por meio de uma nuvem, de um pássaro, do vento ou de outro mensageiro. Muitos poetas posteriores, em sânscrito e em outras línguas do sul da Ásia, o imitaram. Horace Hayman Wilson o traduziu para o inglês em 1813. Desde então, o poema foi traduzido para muitas línguas, e Gustav Holst compôs uma obra coral baseada nele.
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Os poemas épicos de corte: Raghuvaṃśa e Kumārasambhava
Kālidāsa também escreveu dois mahākāvyas, longos poemas de corte divididos em muitos cantos, gênero que críticos posteriores consideraram a forma mais elevada da poesia em sânscrito. O Raghuvaṃśa (“Linhagem de Raghu”) conta a história da dinastia solar, família de reis à qual pertence Rāma, herói do Rāmāyaṇa. Em dezenove cantos, o poema vai do rei Dilīpa e sua devoção a uma vaca sagrada à conquista do mundo por Raghu e à história de Rāma. Termina com o último rei, Agnivarṇa, entregue aos prazeres.
O Raghuvaṃśa celebra a realeza e, ao mesmo tempo, reflete sobre ela. Os bons reis protegem seu povo, mantêm a ordem e são generosos. O declínio final mostra o perigo de governantes que abandonam seus deveres. Alguns estudiosos interpretam a conquista do mundo por Raghu como uma representação poética das campanhas dos reis Gupta.
O Kumārasambhava (“Nascimento de Kumāra”) conta como a deusa Pārvatī, filha da montanha Himalaia, conquista o amor do deus asceta Shiva por meio de suas próprias práticas de austeridade. Assim, pode nascer o filho dos dois, Kumāra (Skanda), destinado a derrotar um demônio. São famosas as descrições do Himalaia, da beleza e da penitência de Pārvatī, e do deus Kāma sendo reduzido a cinzas pelo terceiro olho de Shiva. A maioria dos estudiosos acredita que Kālidāsa escreveu apenas os oito primeiros cantos; os cantos posteriores, que narram o nascimento e a vitória de Kumāra, são geralmente considerados acréscimos de outro autor.
No oitavo canto, Kālidāsa descreve o amor de Shiva e Pārvatī em termos abertamente sensuais. Críticos posteriores discutiram se era apropriado retratar dessa forma os pais divinos do universo. O debate mostra o quanto sua obra era valorizada e lida com atenção.
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As outras peças e o poema das estações
Mālavikāgnimitram (“Mālavikā e Agnimitra”) costuma ser considerada a primeira peça de Kālidāsa. É uma comédia leve de corte sobre o rei Agnimitra, governante histórico da dinastia Śuṅga do século II a.C., que se apaixona por Mālavikā. Ela é uma dançarina a serviço da rainha, mas acaba se revelando uma princesa. O prólogo da peça pede ao público que dê uma chance justa a um poeta novo, mesmo conhecendo tão bem os antigos mestres.
Vikramorvaśīyam (“Urvaśī conquistada pela bravura”) reconta uma história antiga, já presente no Ṛgveda: o amor do rei mortal Purūravas pela ninfa celestial Urvaśī. No quarto ato, enlouquecido por tê-la perdido, o rei vaga pela floresta fazendo perguntas a plantas e animais. Esse ato inclui canções em prácrito e é admirado como um exemplo antigo de drama lírico.
O Ṛtusaṃhāra (“Guirlanda das Estações”) descreve as seis estações da Índia, do verão escaldante às chuvas e à primavera, relacionando-as ao amor. Tradicionalmente, é chamado de obra da juventude de Kālidāsa. Muitos estudiosos, porém, duvidam de sua autoria, pois seu estilo é mais simples que o dos outros poemas e os críticos antigos raramente o citam.
Muitas outras obras, incluindo manuais de métrica e astrologia, foram atribuídas a Kālidāsa posteriormente, sinal de que seu nome se tornou uma marca de qualidade. Em geral, os estudiosos aceitam como suas apenas as seis ou sete obras descritas acima.
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Contexto histórico: o período Gupta e a cultura de corte em sânscrito
Se a datação mais aceita estiver correta, Kālidāsa viveu sob a dinastia Gupta, que governou grande parte do norte da Índia entre os séculos IV e VI. Chandragupta II, que reinou aproximadamente de 380 a 415, adotou o título Vikramāditya e dominou um território que incluía Ujjain. Ele é o rei mais frequentemente apontado como patrono de Kālidāsa, mas não há provas diretas disso.
O período Gupta costuma ser chamado de “era clássica” da cultura indiana, embora historiadores atuais alertem que esse rótulo pode ocultar as realizações de outras épocas e regiões. Nesse período floresceram a literatura em sânscrito, a arquitetura e a escultura dos templos hindus, a matemática, a astronomia e os centros budistas de estudo. As pinturas das cavernas de Ajanta, algumas feitas no século V sob uma dinastia relacionada, compartilham com Kālidāsa um mundo cortesão de elegância e amor.
O sânscrito havia se tornado uma língua de prestígio político, usada por governantes no sul e no sudeste da Ásia, tanto em inscrições quanto na poesia régia. Esperava-se que poetas de corte como Kālidāsa dominassem gramática, métrica, retórica, os épicos, tradições religiosas, as artes do amor e os conhecimentos ligados ao governo. Suas obras eram apresentadas e recitadas para conhecedores chamados sahṛdaya, “aqueles de coração sensível”, capazes de apreciar sugestões sutis e emoções.
As obras de Kālidāsa refletem o mundo religioso de sua época: a devoção a Shiva e Vishnu, o respeito pelos sábios brâmanes e seus retiros, e a crença no carma e nos deveres de cada fase da vida. Elas também idealizam a realeza, retratando o rei como protetor da ordem moral (dharma), uma visão que se ajustava ao patrocínio dos governantes.
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Estilo e ideias: rasa, comparações e natureza
Na estética indiana, a finalidade do teatro e da poesia é descrita pelo conceito de rasa, literalmente “sabor”: uma experiência emocional, como amor, heroísmo ou compaixão, que o público sensível aprecia por meio da arte. As obras de Kālidāsa são consideradas exemplos clássicos de śṛṅgāra rasa, o sentimento amoroso ou romântico, em suas duas formas: o amor na união e o amor na separação. A separação, como na rejeição de Shakuntala ou no exílio do yakṣa, dá intensidade a grande parte de sua poesia.
Kālidāsa é famoso sobretudo por suas upamās, ou comparações. Um dito tradicional, “upamā kālidāsasya”, afirma que, para encontrar comparações, deve-se recorrer a Kālidāsa. Elas se inspiram na natureza, nos mitos e na vida cotidiana e são admiradas tanto pela precisão quanto pela beleza.
Em sua obra, a natureza não é apenas cenário: ela participa da ação. Plantas, animais, rios e nuvens compartilham emoções humanas. As trepadeiras do retiro parecem chorar quando Shakuntala parte, e a nuvem se torna amiga e mensageira. Essa afinidade entre seres humanos e natureza, somada à observação precisa das estações, das paisagens e dos animais, ajuda a explicar por que leitores atuais ainda consideram sua obra viva.
Teóricos posteriores da literatura em sânscrito, como Ānandavardhana, no século IX, recorreram muitas vezes a exemplos de Kālidāsa ao explicar dhvani, ou “sugestão”: a ideia de que os sentidos mais profundos da poesia são transmitidos indiretamente. Assim, suas obras ajudaram a moldar tanto a prática quanto a teoria da literatura em sânscrito.
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Influência na Índia e no mundo
No sul da Ásia, Kālidāsa tornou-se uma referência de excelência. Poetas posteriores imitaram seus épicos e seu poema do mensageiro, críticos citaram seus versos como modelos, e comentadores escreveram explicações eruditas de suas obras. O comentador mais famoso, Mallinātha, que provavelmente viveu nos séculos XIV ou XV no sul da Índia, escreveu comentários sobre seus poemas que ainda são publicados junto com os textos.
Em 1789, o juiz e estudioso britânico Sir William Jones, que trabalhava em Calcutá, publicou uma tradução de Shakuntala para o inglês. A partir dela, Georg Forster fez uma versão alemã em 1791. A peça causou grande repercussão. Johann Wolfgang von Goethe escreveu um epigrama de admiração, e frequentemente se diz que o prólogo de seu Fausto foi inspirado no prólogo da peça de Kālidāsa. Em menos de um século, surgiram dezenas de traduções para línguas europeias, e Shakuntala ajudou a formar imagens românticas da Índia na Europa.
Na Índia moderna, Kālidāsa tem sido lido de muitas maneiras: como um clássico nacional, um poeta da natureza, um modelo para o teatro moderno e um tema de debate crítico. Rabindranath Tagore escreveu ensaios e poemas sobre ele; cineastas, pintores como Raja Ravi Varma, bailarinos e diretores de teatro adaptaram suas obras. A cidade de Ujjain realiza um festival anual dedicado a Kālidāsa, e suas obras fazem parte dos currículos escolares e universitários.
No Ocidente, por vezes foi chamado de “Shakespeare da Índia”. A comparação ajudou a apresentá-lo a novos leitores, mas pode induzir a equívocos, pois sua arte pertence a outra tradição teatral e poética, com objetivos e regras próprios.
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Debates acadêmicos: quando viveu Kālidāsa?
As datas de Kālidāsa são debatidas há mais de dois séculos. Os limites mais seguros são os seguintes. O protagonista de sua peça Mālavikāgnimitram é Agnimitra, um rei Śuṅga do século II a.C.; portanto, Kālidāsa não pode ter vivido antes dele. No outro extremo, a inscrição de Aihole do rei Chalukya Pulakeśin II, datada de 634, cita Kālidāsa ao lado do poeta Bhāravi como modelo de fama poética. Assim, ele deve ter vivido antes dessa data.
Uma antiga tradição indiana o situava na corte de um rei Vikramāditya de Ujjain, supostamente associado à era Vikrama, iniciada em 57 a.C. A maioria dos estudiosos atuais rejeita essa hipótese, pois não há boas provas da existência de tal rei naquela época, e a língua, o estilo e as referências culturais de Kālidāsa combinam melhor com o período Gupta.
A datação no período Gupta se apoia em vários argumentos. O título Vikramorvaśīyam pode fazer alusão ao título régio Vikramāditya, usado por Chandragupta II; o Kumārasambhava, “Nascimento de Kumāra”, foi associado a Kumāragupta, seu sucessor. No Raghuvaṃśa, as conquistas de Raghu incluem povos chamados Hūṇas, o que alguns estudiosos interpretam como uma referência aos hunos que chegaram às fronteiras da Índia no século V. Uma inscrição em sânscrito de Mandasor, datada de 473, parece ecoar versos de Kālidāsa. Nenhum desses argumentos é decisivo isoladamente, mas, em conjunto, eles convenceram a maioria dos estudiosos a situá-lo aproximadamente entre 350 e 475.
Estudiosos como V. V. Mirashi também tentaram identificar sua região de origem pela análise da geografia de suas obras, defendendo Ujjain ou a região de Vidarbha. Outros propuseram a Caxemira devido a seu conhecimento detalhado do Himalaia. A divergência entre especialistas mostra os limites de tentar extrair uma biografia da poesia.
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Fontes e métodos: manuscritos, versões e comentários
Não sobreviveu nenhum manuscrito da época de Kālidāsa. Durante séculos, suas obras foram copiadas à mão em folhas de palmeira e casca de bétula, usando diferentes sistemas de escrita. Os manuscritos mais antigos que chegaram até nós foram produzidos muitos séculos depois do autor. Por isso, há diferenças significativas entre as versões regionais. Shakuntala sobrevive em várias recensões, incluindo versões bengalesas, em devanágari (do norte e do oeste), caxemires e do sul da Índia. Elas diferem em extensão e redação, e desde o século XIX se debate qual delas está mais próxima do original.
Para reconstruir o texto, editores usam métodos de crítica textual: comparam manuscritos, registram variantes e examinam as informações fornecidas por comentadores e antologias. Os próprios comentários são fontes valiosas, pois preservam formas do texto e interpretações que circularam em determinados lugares e épocas. Citações de versos de Kālidāsa em obras de poética e antologias mostram quais passagens eram mais conhecidas.
Os mesmos métodos ajudam a resolver questões de autoria. Os cantos posteriores do Kumārasambhava considerados acréscimos, as dúvidas sobre o Ṛtusaṃhāra e as muitas obras atribuídas a ele indevidamente são avaliados pelo estilo, pela métrica, pelo vocabulário e por sua presença ou ausência nas citações dos primeiros críticos.
A pesquisa atual também pergunta como Kālidāsa deve ser lido. Tradutores e críticos como Barbara Stoler Miller destacaram a lógica teatral e estética de suas peças dentro das tradições indianas, em vez de avaliá-las por padrões europeus. Outros examinaram questões de gênero, poder e natureza em suas obras, como a maneira pela qual a voz de Shakuntala é moldada pelos ideais de feminilidade da corte. Esses debates mantêm Kālidāsa como tema vivo de estudo.
Ideias principais
- Kāvya
- Arte literária clássica em sânscrito, valorizada pela linguagem elaborada, pelas figuras de linguagem e pela profundidade emocional; Kālidāsa é considerado seu maior modelo.
- Rasa
- O “sabor” emocional que o teatro e a poesia procuram despertar em um público sensível; Kālidāsa se destaca na expressão do amor.
- Amor na separação
- A saudade entre pessoas apaixonadas e separadas, como em Shakuntala e no Meghadūta, é central em sua poesia.
- Comparação (upamā)
- As comparações são uma marca de Kālidāsa; segundo a tradição, ninguém o supera nessa arte.
- Afinidade com a natureza
- Plantas, animais, rios e nuvens compartilham sentimentos humanos e participam da ação.
- Realeza ideal
- Suas obras retratam o rei como protetor do dharma, refletindo e moldando os ideais da corte.
- Memória e reconhecimento
- Shakuntala gira em torno de esquecer e lembrar, fazendo do reconhecimento um momento de verdade moral e emocional.
Registros
- c. 150 a.C. — Reinado do rei Śuṅga Agnimitra, que mais tarde seria o protagonista de Mālavikāgnimitram, de Kālidāsa.
- c. 380 d.C. — Chandragupta II (Vikramāditya) inicia seu reinado; ele é frequentemente apontado como patrono de Kālidāsa.
- c. 400 d.C. — Kālidāsa provavelmente está em atividade (as datas são incertas; a maioria dos estudiosos o situa entre cerca de 350 e 475).
- 473 d.C. — Uma inscrição de Mandasor parece fazer eco a versos de Kālidāsa.
- 634 d.C. — A inscrição de Aihole, de Pulakeśin II, cita Kālidāsa como modelo de poeta.
- c. 850 d.C. — Ānandavardhana cita Kālidāsa ao desenvolver a teoria da sugestão poética (dhvani).
- c. 1400 — Mallinātha escreve seus influentes comentários sobre os poemas de Kālidāsa.
- 1789 — Sir William Jones publica em Calcutá uma tradução de Shakuntala para o inglês.
- 1791 — É publicada a tradução alemã de Georg Forster; Goethe escreve um epigrama em elogio à peça.
- 1813 — Horace Hayman Wilson publica uma tradução do Meghadūta para o inglês.
Glossário
- Sânscrito
- Língua clássica do sul da Ásia antigo e medieval, usada na religião, no conhecimento e na literatura.
- Prácrito
- Nome dado a línguas faladas aparentadas ao sânscrito; nas peças, são usadas por mulheres, criados e muitos outros personagens.
- Mahākāvya
- Longo poema de corte dividido em muitos cantos, considerado o gênero mais elevado da poesia em sânscrito.
- Nāṭaka
- Principal tipo de drama em sânscrito, geralmente com um herói de origem real ou divina; Shakuntala é um exemplo clássico.
- Dinastia Gupta
- Dinastia que governou grande parte do norte da Índia entre os séculos IV e VI.
- Yakṣa
- Espírito da natureza ou ser divino menor; o protagonista do Meghadūta é um yakṣa a serviço de Kubera.
- Mandākrāntā
- Metro lento e solene do sânscrito, usado em todo o Meghadūta.
- Sandeśa-kāvya
- Gênero do “poema do mensageiro”, iniciado pelo Meghadūta.
- Recensão
- Versão distinta de um texto, muitas vezes associada a uma região, surgida ao longo da transmissão por manuscritos.
- Dhvani
- “Sugestão”: teoria segundo a qual os sentidos poéticos mais profundos são transmitidos indiretamente.
Perguntas e respostas
Quando viveu Kālidāsa?
Não sabemos ao certo. A maioria dos estudiosos o situa no período Gupta, aproximadamente entre 350 e 475, mas tradições mais antigas o colocam já no século I a.C.
Qual é a história de Shakuntala?
Um rei se casa com Shakuntala em um retiro na floresta, esquece-se dela por causa de uma maldição e só recupera a memória ao ver o anel que lhe havia dado, encontrado dentro de um peixe. Por fim, a família se reúne.
Por que uma nuvem leva a mensagem?
No Meghadūta, um espírito exilado vê a primeira nuvem de chuva das monções, estação em que os amantes sentem saudade uns dos outros, e pede que ela leve uma mensagem à sua esposa, no norte.
Kālidāsa foi mesmo uma das Nove Joias do rei Vikramāditya?
A lista das Nove Joias vem de um texto tardio e inclui pessoas de épocas diferentes. Por isso, os historiadores a consideram uma lenda, embora Kālidāsa possa ter tido ligação com uma corte Gupta.
Ele escreveu o Ṛtusaṃhāra?
Segundo a tradição, sim. Muitos estudiosos, porém, duvidam disso porque seu estilo é mais simples e os primeiros críticos raramente o citam.
Por que existem versões diferentes de Shakuntala?
A peça foi copiada à mão durante séculos em diferentes regiões, dando origem a várias recensões com diferenças de extensão e redação.
Como Kālidāsa influenciou a Europa?
A tradução inglesa de Shakuntala publicada por William Jones em 1789 e as versões alemãs posteriores entusiasmaram Goethe e outros românticos e ajudaram a despertar o interesse europeu pela literatura indiana.
Fontes e leituras adicionais
- Kālidāsa. Wikipedia
- Abhijnanashakuntalam. Wikipedia
- Meghadūta. Wikipedia
- Raghuvaṃśa. Wikipedia
- Kumārasambhava. Wikipedia
- 칼리다사. 위키백과
- Barbara Stoler Miller (ed.), Theater of Memory: The Plays of Kālidāsa. Columbia University Press, 1984
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- Grutas de AjantaConjunto de grutas budistas escavadas na rocha no oeste da Índia, conhecido por seus mosteiros, santuários e pinturas.
- Johann Wolfgang von GoetheEscritor alemão cuja poesia, dramaturgia e ficção, do Sturm und Drang ao classicismo de Weimar, se tornaram centrais para a literatura alemã e a cultura europeia.
- Rabindranath TagorePoeta, escritor e educador bengali cuja obra alcançou leitores na Índia e em outras partes do mundo.
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
