Literatura

Clássico da Poesia (Shijing)

詩經 (Shījīng)

c. 1000–600 a.C. · Região central do território Zhou

Em uma frase

O Clássico da Poesia é a mais antiga coletânea de poemas da China: 305 canções, algumas com quase 3 mil anos, sobre amor, trabalho, guerra, banquetes e divindades. Mais tarde, tornou-se um dos livros mais importantes do ensino confuciano no Leste Asiático.

Clássico da Poesia (Shijing)
Imagem: Unknown · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Há muito, muito tempo, na China antiga, as pessoas cantavam enquanto trabalhavam nos campos, quando se apaixonavam, quando os soldados partiam para a guerra e quando os reis faziam oferendas aos antepassados. Cerca de 3 mil anos atrás, algumas dessas canções foram reunidas em um livro. Hoje chamamos essa coletânea de Clássico da Poesia, ou Shijing.

O livro tem 305 canções. Algumas são curtas e simples, como as que você poderia cantar com amigos. Uma das mais famosas começa com duas aves chamando uma à outra numa ilha de um rio. Depois, fala de um rapaz que não consegue dormir porque pensa numa moça de quem gosta.

Outras canções falam de agricultores que trabalham duro o ano inteiro, de um soldado que volta para casa na neve ou de governantes gananciosos. Uma delas até chama um senhor ganancioso de «rato grande» e diz: «Rato grande, rato grande, não coma meu painço!»

As canções costumam repetir versos com pequenas mudanças, como um refrão. Isso ajudava as pessoas a lembrar delas e a cantá-las. A música se perdeu, mas as palavras são lidas em voz alta e decoradas há milhares de anos.

O grande mestre Confúcio gostava muito dessas canções. Ele disse ao filho que, sem estudá-las, uma pessoa não saberia se expressar bem. Por mais de 2 mil anos, estudantes da China, da Coreia, do Japão e do Vietnã aprenderam esses poemas de cor. Muitos ditados usados até hoje vêm deles.

Em resumo

Conteúdo
305 poemas (mais seis títulos sem texto) em três seções: Feng (Ares dos Estados), Ya (Canções da Corte, Menores e Maiores) e Song (Hinos)
Data
Principalmente do período Zhou Ocidental até meados do período das Primaveras e Outonos, aproximadamente dos séculos XI a VII a.C.; os hinos mais antigos talvez sejam anteriores, e os poemas mais recentes datam de cerca de 600 a.C.
Lugar
O domínio real dos Zhou e os estados da planície do rio Amarelo e regiões vizinhas, no norte da China
Língua e forma
Chinês antigo inicial; versos em sua maioria de quatro caracteres, com rimas e estrofes repetidas
Autores
Em sua maioria anônimos; canções de músicos da corte, nobres e pessoas comuns, reelaboradas por músicos da corte
Posição no cânone
Um dos Cinco Clássicos do confucionismo desde a dinastia Han; o texto que chegou até nós é a versão Mao
Manuscritos mais antigos
Manuscritos de bambu do período dos Estados Combatentes (século IV a.C.), manuscritos Han encontrados em túmulos e clássicos gravados em pedra da dinastia Han Oriental

Fácil

O que é o Clássico da Poesia?

O Clássico da Poesia (Shijing, 詩經) é a mais antiga coletânea de poesia chinesa que chegou até nós. Contém 305 poemas, a maioria composta entre os séculos XI e VII a.C., durante a dinastia Zhou Ocidental (cerca de 1046–771 a.C.) e a primeira metade do período das Primaveras e Outonos. Originalmente, os poemas eram canções apresentadas com música na corte, em cerimônias religiosas, em banquetes e na vida cotidiana.

Na China antiga, a coletânea era chamada simplesmente de Shi, «as Canções» ou «os Poemas», ou de Trezentos Poemas. Só na dinastia Han, quando o ensino confuciano se tornou a base da educação oficial, ela passou a ser chamada de jing, um «clássico». Tornou-se um dos Cinco Clássicos, ao lado do Livro dos Documentos, do Livro das Mutações, do Registro dos Ritos e dos Anais das Primaveras e Outonos.

Durante mais de dois mil anos, estudantes de todo o Leste Asiático decoraram o Clássico da Poesia. A obra marcou a língua chinesa, deu origem a inúmeros provérbios e expressões de quatro caracteres (chengyu) e serviu de modelo para a poesia chinesa. Também oferece aos leitores atuais uma rara visão dos sentimentos e da vida cotidiana das pessoas na China antiga.

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Fácil

Três tipos de canção

A coletânea se divide em três partes principais. A primeira e maior é Feng (風), «Ares» ou «Ares dos Estados» (Guofeng), com 160 poemas agrupados em quinze regiões ou estados, como Zhou-nan, Shao-nan, Wei, Zheng e Qin. São, em sua maioria, canções curtas sobre amor e namoro, casamento, saudade de maridos ausentes, agricultura, caça, dificuldades dos soldados e queixas contra governantes.

A segunda parte é Ya (雅), «Canções da Corte» ou «Cantos Elegantes», dividida em Ya Menores (Xiaoya, 74 poemas) e Ya Maiores (Daya, 31 poemas). Inclui canções para banquetes e cerimônias reais, poemas sobre campanhas militares, lamentos sobre o mau governo e poemas narrativos sobre a fundação da dinastia Zhou e seus antepassados. Entre eles estão as histórias de Hou Ji, o antepassado que ensinou as pessoas a cultivar a terra, e dos reis Wen e Wu.

A terceira parte é Song (頌), «Hinos» ou «Elogios», com 40 poemas: 31 hinos da casa real Zhou, 4 do estado de Lu e 5 do estado de Song, cujos governantes afirmavam descender dos reis Shang. Eram canções solenes para os sacrifícios aos antepassados e às divindades, provavelmente acompanhadas por sinos, tambores e instrumentos de pedra, talvez também por danças. Alguns hinos Zhou são considerados dos poemas mais antigos de toda a coletânea.

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Fácil

Vozes da China antiga

O primeiro poema da coletânea, «Guan ju» (關雎), começa assim: 關關雎鳩,在河之洲 — «Guan-guan, gritam as águias-pescadoras, na ilhota do rio». Em seguida, descreve um jovem nobre que anseia por uma moça bela e virtuosa, vira-se de um lado para o outro à noite e, por fim, a recebe ao som de cítaras e sinos. O poema já foi lido tanto como uma simples canção de amor quanto, na tradição confuciana, como um modelo de sentimentos e casamento apropriados.

Muitos Ares falam na voz de pessoas comuns, e um grande número apresenta vozes femininas. Alguns descrevem uma mulher esperando o marido voltar do serviço; outro traz uma moça alertando o amado para não pular o muro, pois seus pais poderiam vê-lo. Em «Shuo shu» (碩鼠, «Rato Grande»), dos Ares de Wei, agricultores comparam seu senhor a um rato gordo que come seus grãos e sonham em partir para uma terra mais feliz.

As canções dos soldados registram as dificuldades das campanhas militares. Em «Cai wei» (采薇, «Colhendo Samambaias»), dos Ya Menores, um soldado que retorna se lembra: 昔我往矣,楊柳依依 — «Há muito tempo, quando parti, os salgueiros balançavam suavemente»; agora, ao voltar para casa, «a neve cai intensamente». O contraste entre as estações expressa, em poucas palavras, a longa duração de seu serviço e sua tristeza.

«Qi yue» (七月, «O Sétimo Mês»), dos Ares de Bin, acompanha mês a mês o ano agrícola: fiar, colher folhas de amoreira, caçar, fazer a colheita, guardar gelo e, por fim, celebrar o banquete de encerramento do ano. Outros poemas louvam boas colheitas, recebem convidados em banquetes ou lamentam um mundo em desordem. Juntos, oferecem um retrato vívido da sociedade Zhou, do palácio à aldeia.

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Intermediário

Forma e técnicas poéticas

Cerca de 95% dos versos têm quatro sílabas (quatro caracteres), geralmente com uma pequena pausa no meio. Os poemas costumam ser divididos em estrofes de formato semelhante, e a maioria dos Ares tem três estrofes. As rimas seguem um padrão regular, mais frequentemente entre o segundo e o quarto versos de uma estrofe de quatro versos. Uma característica marcante é a repetição com variação: de uma estrofe para outra, a maioria das palavras permanece igual, enquanto algumas mudam, como nas estrofes de uma canção popular. Essa estrutura favorece o canto e a memorização.

A crítica tradicional identificou três modos básicos de expressão. Fu (賦) é a descrição ou narração direta. Bi (比) é a comparação explícita, como comparar um senhor ganancioso a um rato. Xing (興), muitas vezes traduzido como «estímulo» ou «evocação», é o mais característico: o poema começa com uma imagem da natureza, como o chamado de aves, pessegueiros em flor ou grama crescendo, que conduz a uma situação humana. A relação exata entre a imagem e o tema humano fica para o ouvinte sentir, e xing se tornou uma ideia central da poética chinesa posterior.

Junto com as três seções (Feng, Ya, Song), esses três modos foram chamados de «seis princípios» (liu yi, 六義) da poesia no «Grande Prefácio» da edição Mao. O Grande Prefácio também afirma que a poesia dá expressão à intenção: o que está no coração é intenção e, quando se expressa em palavras, torna-se poema. Essa ideia de que a poesia expressa sentimentos sinceros e intenção moral influenciou profundamente o pensamento literário chinês.

Como as canções rimavam na pronúncia de cerca de 3 mil anos atrás, muitas já não rimam no chinês moderno. O estudioso Chen Di, do fim da dinastia Ming, argumentou que isso se devia à mudança da pronúncia, e não ao uso impreciso das rimas pelos poetas. Sua percepção fez do Shijing a fonte mais importante para a reconstrução da pronúncia do chinês antigo, como nos trabalhos de Bernhard Karlgren e, mais recentemente, de William Baxter e Laurent Sagart.

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Intermediário

Contexto histórico: música, rituais e diplomacia na China dos Zhou

A dinastia Zhou derrubou a Shang por volta de 1046 a.C. e governou por meio de uma rede de senhores regionais, muitos deles parentes do rei. Rituais e música eram centrais no governo Zhou: sacrifícios aos antepassados, banquetes, competições de arco e flecha e encontros diplomáticos envolviam música e canto formais. Os Hinos e muitas Canções da Corte foram compostos para essas ocasiões. A ideia Zhou do Mandato do Céu — a crença de que o Céu concede aos governantes virtuosos o direito de governar e o retira dos maus governantes — aparece em vários poemas sobre a fundação da dinastia.

Em 771 a.C., a capital dos Zhou Ocidentais caiu diante de invasores e rebeldes aliados a eles, e a corte se mudou para o leste, para Luoyang. Durante o período seguinte, o das Primaveras e Outonos (770–476 a.C.), o poder real enfraqueceu e os estados regionais se tornaram amplamente independentes. Algumas Canções da Corte lamentam a desordem e o mau governo dessa época, à qual também pertencem muitos Ares dos Estados.

No período das Primaveras e Outonos, conhecer os Poemas havia se tornado um sinal de que um nobre era instruído. O Zuozhuan, uma narrativa histórica, descreve enviados e ministros recitando versos dos Poemas em banquetes e encontros diplomáticos para expressar indiretamente suas intenções. Escolher o verso certo e entender o verso escolhido pelo anfitrião era uma habilidade política.

De onde vieram os Ares? Uma tradição da dinastia Han afirmava que os reis Zhou enviavam funcionários para recolher canções do povo e assim conhecer suas condições de vida. Muitos estudiosos atuais duvidam que tenha existido um órgão com essa função e observam que até as canções consideradas «populares» apresentam um acabamento literário consistente, o que sugere que foram reelaboradas por músicos da corte. É melhor entender os Ares como canções enraizadas em tradições regionais, mas moldadas para apresentações na corte.

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Intermediário

Confúcio e os Poemas

Confúcio (551–479 a.C.) considerava os Poemas essenciais à educação. Nos Analectos, ele diz ao filho Boyu que, sem estudar os Poemas, uma pessoa não tem como se expressar; resume os trezentos poemas na frase «sem pensamentos perversos» (思無邪); e afirma que os Poemas podem inspirar, ajudar a observar, a conviver com os outros e a expressar queixas, além de ensinar os nomes de aves, animais, plantas e árvores.

O historiador Sima Qian, escrevendo por volta de 100 a.C., relatou que Confúcio selecionou os 305 poemas entre mais de 3 mil canções antigas. Essa história foi aceita por séculos, mas a maioria dos estudiosos atuais a rejeita. O Zuozhuan registra que, em 544 a.C., quando Confúcio ainda era criança, um visitante do estado de Wu ouviu a música dos Poemas ser apresentada na corte de Lu em uma ordem próxima da atual. Isso sugere que a coletânea já existia em forma semelhante. O próprio Confúcio falava em «trezentos poemas». Ele pode, porém, ter ajudado a organizar a música, como sugere uma passagem dos Analectos.

Por meio de Confúcio e seus seguidores, entre eles Mêncio e Xunzi, que citavam os Poemas com frequência, a coletânea se tornou um livro de ensinamentos morais. Citar os Poemas passou a ser uma maneira habitual de sustentar argumentos na filosofia e na política chinesas.

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Intermediário

Como o texto foi transmitido

Segundo a tradição Han, a queima de livros pela dinastia Qin em 213 a.C. teve os Poemas como alvo, e o texto sobreviveu principalmente porque os estudiosos o haviam memorizado. Os estudiosos atuais tratam essa história com cautela, pois descobertas de manuscritos mostram que já havia diferenças entre as versões antes da dinastia Qin e que os Poemas continuaram a ser estudados.

Na dinastia Han, três escolas de interpretação — identificadas pelos estados de Lu e Qi e pelo estudioso Han Ying — foram oficialmente reconhecidas na academia imperial. Uma quarta tradição, a escola Mao, atribuída a estudiosos chamados Mao Heng e Mao Chang, trazia um prefácio para cada poema que explicava seu suposto significado histórico e moral. A versão Mao ganhou reconhecimento no fim da dinastia Han Ocidental, e o grande estudioso da dinastia Han Oriental Zheng Xuan (127–200) escreveu um comentário sobre ela. As outras três versões se perderam por volta do século V, exceto por fragmentos, alguns preservados nos Clássicos de Pedra de Xiping, gravados entre as décadas de 170 e 180.

Em 653, a corte Tang publicou o Sentido Correto dos Poemas Mao (Maoshi zhengyi), editado sob a direção de Kong Yingda, como interpretação oficial. Na dinastia Song, o estudioso neoconfuciano Zhu Xi (1130–1200) escreveu um novo comentário, os Comentários Reunidos sobre os Poemas (Shi jizhuan). Ele deixou de lado muitos dos prefácios Mao e leu vários Ares como canções de amor, algumas das quais condenou como licenciosas. Durante séculos, o comentário de Zhu Xi foi a referência para os exames de ingresso no serviço público na China, na Coreia e em outros lugares.

Os Poemas se espalharam pelo Leste Asiático junto com o ensino confuciano. Na Coreia, eram estudados desde o período dos Três Reinos e integravam o currículo principal e os exames nas dinastias Goryeo e Joseon. As Lições sobre o Clássico da Poesia (Sigyeong gangui), de Jeong Yak-yong, escritas em resposta a cerca de 800 perguntas do rei Jeongjo em 1791, estão entre os estudos coreanos mais notáveis. No Japão e no Vietnã, os Poemas também eram lidos e citados por estudiosos e poetas.

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Intermediário

Influência e legado

O Clássico da Poesia é uma das fontes da poesia chinesa. Seus versos de quatro caracteres, suas imagens da natureza e sua técnica de xing influenciaram a poesia posterior. Poetas de épocas seguintes, como os poetas Tang Li Bai e Du Fu, viam nele um modelo de poesia que expressava sentimentos reais e preocupações sociais. O Chuci (Canções de Chu), uma coletânea do sul do período dos Estados Combatentes, é frequentemente associado ao Shijing como outra raiz antiga da poesia chinesa.

Os Poemas também marcaram a língua. Muitas expressões comuns vêm deles, e fazer alusões aos Poemas se tornou sinal de erudição em cartas, discursos e obras poéticas por todo o Leste Asiático. Como a coletânea fazia parte do currículo dos exames, gerações de funcionários na China, na Coreia e no Vietnã sabiam grandes trechos dela de cor.

No Ocidente, os jesuítas traduziram os Poemas para o latim e, no século XIX, James Legge produziu uma tradução integral para o inglês (1871). The Book of Songs (1937), de Arthur Waley, e The Confucian Odes (1954), de Ezra Pound, levaram os poemas a um público mais amplo e influenciaram a poesia moderna em língua inglesa. Hoje, o Shijing é lido como literatura, fonte histórica e registro de vozes de pessoas comuns, inclusive mulheres, de quase três mil anos atrás.

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Avançado

Debates acadêmicos: datação, autoria e interpretação

Datação. Os Hinos Zhou e partes dos Ya Maiores são geralmente considerados as camadas mais antigas, talvez do início do período Zhou Ocidental, embora alguns estudiosos situem sua forma final numa época posterior. Os Ares pertencem principalmente ao fim do período Zhou Ocidental e ao período das Primaveras e Outonos. Zheng Xuan considerava «Zhulin» (株林), dos Ares de Chen, que se refere ao escândalo envolvendo o duque Ling de Chen (morto em 599 a.C.), o poema mais recente. Tradicionalmente, afirma-se que os cinco Hinos de Shang preservam canções rituais Shang, mas a maioria dos estudiosos acredita que foram compostos mais tarde pelos governantes de Song. A datação de cada poema depende da língua, das rimas, das alusões históricas e da comparação com inscrições em bronze.

Origem popular ou cortesã? Tanto a ideia Han de que os Ares eram canções populares recolhidas por funcionários reais quanto a tradição posterior de que Confúcio os editou foram questionadas. Alguns estudiosos ressaltam suas origens orais e populares; outros destacam o papel dos artistas aristocráticos e da corte e argumentam que a voz «popular» é, em parte, uma convenção literária. Muitos poemas parecem ter sido escritos por mulheres ou do ponto de vista de uma mulher, o que levanta questões sobre autoria e apresentação.

Alegoria ou leitura literal. Os prefácios Mao interpretavam muitas canções de amor como alegorias políticas, por exemplo, como elogios à virtude de uma rainha ou críticas a um governante específico. Estudiosos céticos a partir da dinastia Song, como Zheng Qiao e Zhu Xi, questionaram muitas dessas leituras. No século XX, o movimento de Questionamento da Antiguidade, liderado por Gu Jiegang, rejeitou os prefácios Mao de maneira mais ampla, enquanto o sinólogo francês Marcel Granet leu os Ares como canções de festivais sazonais e de cortejo amoroso em comunidades rurais. Mais recentemente, estudiosos argumentaram que a própria história das interpretações é importante, pois, durante dois mil anos, os leitores conheceram os Poemas por meio de seus comentários.

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Avançado

Evidências: manuscritos escavados e métodos de estudo

Desde a década de 1970, a arqueologia transformou o estudo dos Poemas. Tiras de bambu de um túmulo Han em Shuanggudui, Fuyang (escavado em 1977), preservam fragmentos de uma versão diferente do texto Mao. Manuscritos do túmulo de Guodian (escavado em 1993) e da coleção do Museu de Xangai (adquirida em 1994) citam os Poemas. Um texto do Museu de Xangai, conhecido como Kongzi shilun («Discussão de Confúcio sobre os Poemas»), contém comentários sobre poemas específicos atribuídos a Confúcio. Tiras de bambu compradas pela Universidade de Anhui em 2015 e publicadas em 2019 contêm quase sessenta poemas dos Ares dos Estados. Datadas do período dos Estados Combatentes, elas formam a cópia manuscrita mais antiga conhecida de uma parte da coletânea. Tiras do túmulo do marquês de Haihun (morto em 59 a.C.), em Jiangxi, preservam uma edição Han.

Essas descobertas mostram que, nos períodos dos Estados Combatentes e do início da dinastia Han, os poemas circulavam com muitas variantes de caracteres, frequentemente com pronúncias semelhantes, e às vezes em outra ordem. Estudiosos como Martin Kern argumentaram que essa variação aponta para uma cultura em que os Poemas eram aprendidos e transmitidos em grande parte pela memória e pela recitação, com a escrita usada para registrar os sons. Outros ressaltam o papel das cópias escritas. O debate afeta a maneira como entendemos a formação do texto e a confiabilidade da versão Mao que chegou até nós.

Entre os métodos usados hoje estão a comparação das variantes dos manuscritos com o texto transmitido, a análise das rimas para estudar a fonologia histórica, a comparação da língua e dos temas com inscrições em bronze do período Zhou Ocidental e o estudo da história da recepção dos comentários. As traduções clássicas de Legge, Waley e Karlgren, assim como as edições modernas anotadas, como a de Cheng Junying, continuam sendo ferramentas importantes.

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Ideias principais

Feng, Ya, Song
As três seções: Ares regionais, Canções da Corte e Hinos rituais.
Fu, bi, xing
Três modos de expressão: descrição direta, comparação explícita e imagens evocativas da natureza na abertura do poema.
A poesia expressa a intenção
A ideia tradicional de que o poema dá voz ao que está no coração (shi yan zhi).
Repetição com variação
As estrofes repetem a maioria das palavras com pequenas mudanças, sinal de sua origem como canções e recurso que ajuda a memorizá-las.
Os Poemas na diplomacia
Nobres dos períodos Zhou e das Primaveras e Outonos citavam os Poemas para expressar indiretamente suas intenções.
Cânone confuciano
Os ensinamentos de Confúcio e a política estatal da dinastia Han fizeram dos Poemas um dos Cinco Clássicos estudados por dois milênios.
Tradição de comentários
Os prefácios Mao, Zheng Xuan e Zhu Xi moldaram a leitura dos poemas; estudiosos atuais também pesquisam essa história.
Manuscritos escavados
As tiras de bambu revelam variantes antigas do texto e contribuem para os debates sobre sua transmissão oral e escrita.

Registros

  1. c. 1046 a.C. — Os Zhou conquistam os Shang; os primeiros Hinos Zhou podem datar das décadas seguintes.
  2. 771 a.C. — A capital dos Zhou Ocidentais cai (771 a.C.); a corte se muda para o leste no ano seguinte, e começa o período das Primaveras e Outonos.
  3. 599 a.C. — O duque Ling de Chen é morto (599 a.C.); o poema relacionado, «Zhulin», é tradicionalmente considerado o mais recente da coletânea.
  4. 551 a.C. — Nasce Confúcio (551 a.C.); mais tarde, ele ensina os Poemas como parte central da educação.
  5. 544 a.C. — Segundo o Zuozhuan, Ji Zha, de Wu, ouve os Poemas serem apresentados na corte de Lu (544 a.C.).
  6. 213 a.C. — Queima de livros pela dinastia Qin (213 a.C.); segundo a tradição Han, os Poemas sobreviveram graças à memorização.
  7. 136 a.C. — O imperador Wu, da dinastia Han, institui estudiosos oficiais para os Cinco Clássicos (136 a.C.), incluindo os Poemas.
  8. c. 175 d.C. — Os Clássicos de Pedra de Xiping são gravados em Luoyang, incluindo a versão Lu dos Poemas.
  9. 653 d.C. — A corte Tang publica o Maoshi zhengyi como comentário oficial.
  10. 1791 — Jeong Yak-yong responde às perguntas do rei Jeongjo em suas Lições sobre o Clássico da Poesia.
  11. 1871 — James Legge publica uma tradução integral para o inglês.
  12. 2019 — São publicadas as tiras de bambu da Universidade de Anhui que contêm cópias dos Ares do período dos Estados Combatentes.

Glossário

Cinco Clássicos
O núcleo do cânone confuciano: os Poemas, os Documentos, as Mutações, os Ritos e os Anais das Primaveras e Outonos.
Zhou Ocidental
A primeira parte da dinastia Zhou (cerca de 1046–771 a.C.), cuja capital ficava perto da atual Xi’an.
Período das Primaveras e Outonos
O período de 770 a 476 a.C., cujo nome vem da crônica do estado de Lu.
Guofeng
«Ares dos Estados», as 160 canções regionais que abrem a coletânea.
Xing
Uma imagem de abertura, geralmente da natureza, que evoca o sentimento do poema.
Poemas Mao
A versão do texto e dos comentários atribuída a Mao Heng e Mao Chang, a única versão Han completa que chegou até nós.
Grande Prefácio
A introdução à edição Mao, um texto fundamental da teoria literária chinesa.
Tiras de bambu
Tiras de bambu amarradas umas às outras e escritas com pincel e tinta; o principal material de escrita da China antiga.
Chinês antigo
A língua chinesa do período Zhou, reconstruída em parte a partir das rimas dos Poemas.
Chengyu
Expressões de quatro caracteres, muitas delas tiradas de textos clássicos como os Poemas.

Perguntas e respostas

Qual é a idade dos poemas?

A maioria foi composta entre cerca de 1000 e 600 a.C.; portanto, os mais antigos têm quase 3 mil anos.

Confúcio escreveu ou escolheu os poemas?

Ele não os escreveu. A tradição diz que selecionou 305 entre 3 mil, mas a maioria dos estudiosos atuais duvida disso, pois a coletânea parece já ter existido em forma semelhante quando ele era criança.

Os poemas eram cantados?

Sim. Eram canções apresentadas com música, mas as melodias se perderam há muito tempo; só as palavras chegaram até nós.

Quem os escreveu?

Quase todos são anônimos. Incluem canções da corte, de nobres e de pessoas comuns, e muitos apresentam uma voz feminina.

Por que alguns poemas não rimam no chinês moderno?

A pronúncia do chinês mudou muito em 3 mil anos. Os estudiosos usam as rimas para reconstruir como soava o chinês antigo.

Por que os leitores encontravam sentidos políticos nas canções de amor?

O comentário Mao interpretava muitos poemas como alegorias sobre governantes e virtude, tornando-os adequados à educação moral. Estudiosos posteriores, como Zhu Xi, e críticos atuais questionaram muitas dessas leituras.

O que os manuscritos escavados mudaram?

Eles mostram que as versões antigas tinham muitas variantes de caracteres e diferenças na ordem dos poemas, sugerindo uma tradição oral e escrita ativa. Também incluem discussões antigas atribuídas a Confúcio.

Fontes e leituras adicionais

  1. Classic of Poetry. Wikipedia
  2. Mao Commentary. Wikipedia
  3. Guan ju. Wikipedia
  4. Five Classics. Wikipedia
  5. Xiping Stone Classics. Wikipedia
  6. 시경강의 (詩經講義). Encyclopedia of Korean Culture, Academy of Korean Studies
  7. Arthur Waley, The Book of Songs. George Allen & Unwin, 1937
  8. 程俊英 (Cheng Junying), 詩經譯注 (Shijing yizhu). 上海古籍出版社 (Shanghai Guji Chubanshe), 1985
  9. Martin Kern, Early Chinese Literature, Beginnings through Western Han, in The Cambridge History of Chinese Literature, vol. 1. Cambridge University Press, 2010

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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