Literatura

Shahnameh (O Livro dos Reis)

شاهنامه (Šāhnāma)

977–1010 d.C. · Tus (Coração)

Em uma frase

O Shahnameh é um longo poema persa, concluído pelo poeta Ferdowsi há cerca de mil anos, que conta as histórias dos reis e heróis do Irã, desde o primeiro rei do mundo até a queda do último império persa da Antiguidade.

Shahnameh (O Livro dos Reis)
Imagem: Attributed to Sultan Muhammad · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Imagine um livro de histórias tão comprido que levaria semanas para ser lido em voz alta. Esse é o Shahnameh, cujo nome significa “O Livro dos Reis”. É um poema escrito em persa, a língua do Irã, por um homem chamado Ferdowsi. Ele trabalhou nele por mais de trinta anos e o terminou no ano de 1010.

O poema começa há muito, muito tempo, com o primeiro rei, que vivia nas montanhas e usava peles de leopardo. Depois vêm reis que descobrem o fogo, ensinam as pessoas a fazer roupas e constroem cidades. Há também um rei terrível chamado Zahhak. Duas cobras crescem em seus ombros e precisam ser alimentadas todos os dias. Um ferreiro corajoso chamado Kaveh ergue seu avental de couro na ponta de uma lança, como se fosse uma bandeira, e o povo se une para derrotar Zahhak.

O herói mais famoso do livro é Rostam. Ele é muito forte, monta um cavalo fiel chamado Rakhsh e enfrenta dragões, demônios e exércitos inteiros. Mas o Shahnameh também conta histórias tristes. Em uma delas, Rostam luta contra um jovem guerreiro sem saber que ele é seu próprio filho, Sohrab.

Mais adiante, as histórias ficam parecidas com relatos históricos. Elas falam de reis que realmente viveram na antiga Pérsia, de um ministro inteligente que explica o jogo de xadrez e, por fim, do fim do antigo império persa, quando exércitos árabes chegaram no século VII.

Ferdowsi usou principalmente palavras persas antigas, e muitas pessoas dizem que seu poema ajudou a manter viva a língua persa. Ainda hoje, pessoas no Irã, no Afeganistão e no Tadjiquistão decoram seus versos. Contadores de histórias os apresentam em casas de chá, e artistas pintam cenas do poema há centenas de anos.

Em resumo

Autor
Abu'l-Qasem Ferdowsi, de Tus (c. 940 – entre 1019 e 1025)
Composição
Iniciada por volta de 977; primeira versão concluída em 994; versão final concluída em 1010
Local
Tus, perto da atual Mashhad, na região de Khorasan (nordeste do Irã)
Língua
Persa novo antigo, com relativamente poucos empréstimos do árabe (cerca de 9% do vocabulário)
Forma
Poema épico em dísticos rimados no metro mutaqareb; tradicionalmente se diz que tem 60 mil dísticos; as edições críticas modernas têm cerca de 50 mil
Conteúdo
O passado lendário e histórico do Irã, desde o primeiro rei, Kayumars, até a conquista árabe do Império Sassânida no século VII
Dedicado a
Sultão Mahmud de Ghazni (reinou de 998 a 1030)
Importância
Epopeia nacional do mundo de língua persa e modelo para a poesia, a pintura e a tradição de contar histórias em persa

Fácil

O que é o Shahnameh?

O Shahnameh (em persa, شاهنامه, “Livro dos Reis”) é um poema épico do Irã escrito por Abu'l-Qasem Ferdowsi, poeta da cidade de Tus, em Khorasan, no nordeste do Irã. Ele conta a história do Irã desde a criação do primeiro reino humano até o colapso do Império Sassânida, o último Estado persa anterior ao islamismo, após as conquistas árabes do século VII.

É um dos poemas mais longos já escritos por um único autor. Tradicionalmente, diz-se que contém cerca de 60 mil dísticos, mas edições modernas mais criteriosas, baseadas nos manuscritos mais antigos, apresentam cerca de 50 mil ou um pouco menos. Cada dístico (bayt) é formado por dois hemistíquios rimados no mesmo metro, o que dá ao poema inteiro um ritmo constante, adequado à leitura em voz alta.

O Shahnameh costuma ser chamado de epopeia nacional do Irã, mas seu universo vai além das fronteiras de qualquer país atual. Seus heróis percorrem terras que hoje pertencem ao Irã, ao Afeganistão, ao Tadjiquistão, ao Uzbequistão, ao Turcomenistão e a outros lugares. Há mil anos, a obra é apreciada por leitores de todo o mundo de língua e cultura persas, do Império Otomano à Índia Mogol.

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Fácil

Quem foi Ferdowsi?

Ferdowsi nasceu por volta de 940 na aldeia de Paj (ou Bazh), perto de Tus. Ele pertencia à classe dos dehqans, famílias proprietárias de terras que se consideravam guardiãs das tradições do Irã anteriores ao islamismo, inclusive das antigas histórias de reis e heróis. Essa origem ajuda a explicar por que ele dedicou a vida ao tema.

Pouco se sabe com certeza sobre sua vida. O próprio poema contém passagens em que ele fala sobre envelhecer, perder seu único filho e viver na pobreza, mas são declarações poéticas, não um diário. O relato em prosa mais antigo sobre sua vida, escrito por Nezami Aruzi no Chahar Maqala (“Quatro Discursos”) cerca de 150 anos após sua morte, mistura informações e lendas.

Ele provavelmente começou o Shahnameh por volta de 977 e trabalhou nele por mais de três décadas. Morreu em algum momento entre cerca de 1019 e 1025. Segundo a tradição, um religioso local não permitiu que ele fosse sepultado no cemitério muçulmano de Tus, e por isso foi enterrado em seu próprio jardim. Seu mausoléu perto de Tus, reconstruído na década de 1930, tornou-se um dos monumentos mais conhecidos do Irã.

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Fácil

O que acontece no poema: três grandes eras

Os estudiosos costumam dividir o Shahnameh em três partes. A primeira, a era mítica, é curta. Kayumars, o primeiro rei, vive nas montanhas vestido com peles de leopardo. Seus sucessores descobrem o fogo, domesticam animais, inventam a escrita e os ofícios e constroem um mundo civilizado. O glorioso rei Jamshid governa durante séculos, até que o orgulho o leva a afirmar que é divino; ele perde sua glória real (farr) e é derrubado pelo tirano Zahhak, de cujos ombros crescem duas serpentes que precisam ser alimentadas com cérebros humanos. O ferreiro Kaveh lidera uma revolta, e o jovem príncipe Fereydun derrota Zahhak e o acorrenta numa caverna no monte Damavand.

Fereydun divide o mundo entre seus três filhos: Salm recebe o Ocidente; Tur, as terras de Turan, na Ásia Central; e o caçula, Iraj, recebe o Irã. Tomados pelo ciúme, os dois irmãos mais velhos assassinam Iraj. Esse crime familiar dá início a uma rivalidade secular entre o Irã e Turan que move grande parte do restante do poema.

A segunda parte, a era heroica, ocupa cerca de dois terços do livro. Nela se destacam os grandes heróis do Sistão, no leste: Zal, a criança de cabelos brancos abandonada nas montanhas e criada pela ave mágica Simorgh, e seu filho Rostam. Rostam serve a várias gerações de reis, supera as Sete Provas (haft khan) numa jornada perigosa e defende o Irã de Turan e de seu astuto rei Afrasiyab. Entre as grandes histórias dessa era estão Rostam e Sohrab, a tragédia do príncipe inocente Siyavash, o reinado do rei ideal Kay Khosrow e o combate fatal entre Rostam e o príncipe invulnerável Esfandiyar.

A terceira parte, a era histórica, começa com Alexandre, o Grande (Eskandar), e passa aos reis sassânidas (224–651), como Ardashir, Bahram Gur e Khosrow Anushirvan, acompanhado de seu sábio ministro Bozorgmehr. O poema termina com a derrota dos sassânidas pelos exércitos árabes muçulmanos e a morte do último rei, Yazdegerd III, assassinado em 651 perto de Merv. Antes da batalha decisiva, o general persa Rostam Farrokhzad escreve uma carta prevendo o fim da antiga ordem; é uma das passagens mais comoventes do poema.

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Fácil

A história mais famosa: Rostam e Sohrab

Enquanto caça perto da fronteira de Turan, Rostam perde seu cavalo Rakhsh e chega à cidade de Samangan. Lá, a princesa Tahmineh lhe pede em casamento. Antes de partir, Rostam lhe entrega um sinal para ser amarrado ao braço do filho deles, caso seja menino. Tahmineh dá à luz Sohrab, que cresce e se torna extraordinariamente forte. Quando descobre quem é seu pai, ele parte com um exército de Turan, sonhando em tornar Rostam rei do Irã.

Afrasiyab, rei de Turan, age secretamente para que pai e filho não se reconheçam. Rostam esconde sua identidade no campo de batalha, e os dois lutam durante vários dias. No último dia, Rostam vence Sohrab e o fere mortalmente. Só então o jovem, à beira da morte, mostra o sinal em seu braço. Rostam implora ao rei Kay Kavus por um remédio capaz de curá-lo (nushdaru), mas o rei, temendo um herói que reúna a força de Rostam e Sohrab, demora a enviá-lo até ser tarde demais.

A história mostra o profundo sentido trágico do Shahnameh: nem o maior dos heróis consegue escapar do destino, e os erros de reis orgulhosos custam vidas inocentes. Ela inspirou inúmeras pinturas e poemas, inclusive o poema inglês “Sohrab and Rustum” (1853), de Matthew Arnold.

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Intermediário

Contexto histórico: a cultura persa após a conquista árabe

Após a conquista árabe do Império Sassânida no século VII, o árabe tornou-se a língua da religião, do governo e do ensino em todo o mundo islâmico. O persa médio (pálavi), língua literária dos sassânidas, aos poucos deixou de ser usado. A partir do século IX, porém, dinastias locais do leste do Irã, sobretudo os samânidas (819–999), em Bucara, patrocinaram uma nova língua literária: o persa novo, escrito com o alfabeto árabe, mas com gramática persa.

As antigas histórias dos reis do Irã haviam sido reunidas no fim do período sassânida numa crônica em persa médio conhecida como Khwaday-namag (“Livro dos Senhores”). A obra não sobreviveu, mas foi traduzida para o árabe e utilizada por historiadores. Em 957, Abu Mansur Muhammad ibn Abd al-Razzaq, governador de Tus, encarregou um grupo de dehqans de compilar uma versão em prosa no persa novo, o chamado Shahnameh de Abu Mansur. Apenas seu prefácio sobreviveu, mas acredita-se que tenha sido a principal fonte de Ferdowsi.

Daqiqi, poeta da corte samânida, havia começado um Shahnameh em versos, mas foi assassinado depois de concluir cerca de mil dísticos sobre o reinado do rei Goshtasp e a chegada do profeta Zoroastro. Ferdowsi retomou o projeto, incluiu os versos de Daqiqi em seu poema com o devido reconhecimento e continuou sozinho.

Quando Ferdowsi terminou a obra, o cenário político havia mudado. Os samânidas perderam o poder em 999, e o leste do Irã passou ao domínio dos gaznévidas, uma dinastia de origem turca. Ferdowsi dedicou a versão final, de 1010, ao sultão Mahmud de Ghazni. Uma famosa lenda, contada pela primeira vez por Nezami Aruzi, diz que Mahmud lhe pagou em prata em vez do ouro prometido; que Ferdowsi, desgostoso, deu o dinheiro a outras pessoas; e que, quando Mahmud finalmente enviou a recompensa completa, ela entrou por um portão de Tus enquanto o corpo de Ferdowsi saía por outro. Os historiadores tratam essa história com cautela, e a autenticidade de uma sátira contra Mahmud encontrada em alguns manuscritos é duvidosa.

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Intermediário

Temas principais: realeza, destino, lealdade e sabedoria

Realeza e glória real. No centro do poema está a ideia de farr (xwarrah em persa médio), um brilho divino que distingue o rei legítimo. Um rei conserva seu farr por meio da justiça e da humildade; quando se torna orgulhoso ou cruel, como Jamshid, ele o perde. O Shahnameh, portanto, não é um simples elogio à monarquia: está repleto de reis insensatos, injustos e ciumentos, por causa dos quais até seus maiores heróis sofrem.

Herói e rei. Grande parte do drama nasce da tensão entre lealdade e consciência. Rostam serve fielmente ao trono, mas é prejudicado várias vezes por reis como Kay Kavus. Na história de Rostam e Esfandiyar, os dois são nobres e nenhum deles deseja lutar, mas as exigências da honra e a ambição de um rei os obrigam a travar um combate que arruína ambos.

Destino e tempo. O poema lembra constantemente aos leitores que o giro dos céus põe fim a toda glória. Ferdowsi muitas vezes interrompe a narrativa para refletir sobre a morte e a natureza passageira do mundo. Essas meditações dão à epopeia grande parte de sua gravidade.

Sabedoria e ética. O poema começa com louvores a Deus e à sabedoria (kherad), e muitos episódios apresentam conselheiros sábios e ensinamentos morais, como as conversas de Bozorgmehr na corte de Anushirvan. O Shahnameh preserva tradições iranianas anteriores ao islamismo, inclusive histórias ligadas ao zoroastrismo, embora tenha sido escrito por um poeta muçulmano para um público muçulmano. A maneira como Ferdowsi conciliou essas heranças é uma questão ainda debatida pelos estudiosos.

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Intermediário

A língua, o estilo e a preservação do persa

Ferdowsi escreveu em persa novo antigo e usou relativamente poucas palavras tomadas do árabe, cerca de 9% de seu vocabulário, bem menos que muitos escritores persas posteriores. Isso provavelmente se deveu em parte às suas fontes, que remontavam ao persa médio, e em parte a uma escolha deliberada de estilo. Gerações posteriores passaram a ver o poema como um tesouro do persa puro.

O poema foi escrito no metro mutaqareb, com versos curtos e vigorosos que se tornaram o padrão da epopeia persa. Seu estilo é direto, vívido e, em alguns trechos, usa fórmulas recorrentes. Imagens repetidas do amanhecer, das batalhas e dos banquetes ajudam os ouvintes a acompanhar a longa narrativa.

Um dístico muito citado no Irã diz, em tradução aproximada: “Suportei muitas dificuldades nestes trinta anos; dei vida aos persas com esta língua persa.” Ele expressa como muitos leitores entendem a realização de Ferdowsi, embora alguns estudiosos duvidem que esses versos específicos sejam de sua autoria. Acredita-se amplamente que o persa tenha mudado relativamente pouco ao longo de mil anos, em parte porque obras como o Shahnameh continuaram a ser muito lidas e recitadas.

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Intermediário

Manuscritos, pinturas e edições

Nenhum manuscrito da época de Ferdowsi sobreviveu. A cópia mais antiga conhecida, datada de 1217, está na Biblioteca Nacional Central de Florença e é anterior às invasões mongóis do Irã. Outro manuscrito antigo, datado de 1276, está na Biblioteca Britânica, em Londres. Como o Shahnameh era muito popular, foi copiado centenas de vezes. Os copistas acrescentavam, omitiam e modificavam versos; por isso, manuscritos posteriores muitas vezes contêm muitos versos que não são de Ferdowsi.

O Shahnameh também se tornou o livro mais frequentemente ilustrado do mundo persa. O Grande Shahnameh Mongol, produzido na corte do Ilcanato na década de 1330, foi desmembrado no início do século XX, e suas páginas foram vendidas separadamente. O Shahnameh de Baysonghor, concluído em Herat em 1430 para o príncipe timúrida Baysonghor, está preservado no Palácio de Golestão, em Teerã, e foi inscrito no Registro Memória do Mundo da UNESCO. O Shahnameh do Xá Tahmasp, iniciado durante o reinado do xá Ismail I em Tabriz e concluído sob Tahmasp I, continha 258 pinturas. Ele foi presenteado ao sultão otomano Selim II em 1568 e também foi disperso no século XX; parte dele voltou ao Irã em 1994 numa troca de obras de arte.

Edições acadêmicas modernas procuraram recuperar o texto original de Ferdowsi. Jules Mohl publicou uma edição francesa com tradução (1838–1878), baseada em cerca de trinta manuscritos. A edição de Moscou (1960–1971) foi a primeira a utilizar sistematicamente os manuscritos mais antigos. A edição crítica coordenada por Djalal Khaleghi-Motlagh, concluída em 2008 e baseada, entre outros, no manuscrito de Florença, é hoje amplamente considerada o melhor texto. Entre as traduções completas para o inglês estão a versão em versos de Arthur e Edmond Warner (1905–1925) e, mais recentemente, a tradução em versos e prosa de Dick Davis (2006).

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Intermediário

Influência e legado

O Shahnameh influenciou a literatura persa durante séculos. Poetas posteriores, como Nezami Ganjavi, inspiraram-se em suas histórias, e muitos imitadores escreveram epopeias no mesmo metro. Seus relatos chegaram a outras línguas e culturas: a literatura georgiana dos séculos XI e XII usa os nomes de seus heróis; sultões otomanos encomendaram traduções turcas e cópias ilustradas; e os sultões seljúcidas da Anatólia decoraram as paredes de Konya com seus versos.

No Irã, o poema permanece vivo nas apresentações públicas. Contadores de histórias profissionais (naqqal) recitam e encenam seus episódios em casas de café, muitas vezes diante de grandes painéis pintados. A tradição do naqqali foi reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial que necessita de salvaguarda urgente. Nos ginásios tradicionais chamados zurkhaneh, atletas se exercitam ao ritmo de versos do Shahnameh.

No século XX, o poema tornou-se um símbolo da identidade nacional iraniana. Em 1934, o Irã celebrou o milênio do nascimento de Ferdowsi com um congresso internacional e a inauguração de um novo mausoléu em Tus. Seus temas também foram interpretados de maneiras diferentes sob distintos governos: como celebração da realeza, crítica à tirania ou herança comum de todos os falantes de persa. No Tadjiquistão e no Afeganistão, o Shahnameh também é valorizado como um clássico compartilhado.

Escritores, cineastas e ilustradores atuais continuam a recontar suas histórias em livros infantis, histórias em quadrinhos e produções teatrais. Falantes de persa em todo o mundo citam seus versos como provérbios.

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Avançado

Debates acadêmicos: fontes escritas, tradição oral e o texto

Fontes escritas ou orais? Um debate central diz respeito à maneira como Ferdowsi trabalhou. Segundo a visão predominante, associada a estudiosos como Theodor Nöldeke, em seu estudo clássico da epopeia nacional iraniana, e, mais recentemente, Djalal Khaleghi-Motlagh e Mahmoud Omidsalar, Ferdowsi transformou fontes escritas em versos, sobretudo o Shahnameh em prosa de Abu Mansur, e foi fiel a elas. O próprio Ferdowsi menciona repetidamente um livro antigo e um dehqan que lhe contou uma história. Olga M. Davidson, com base em estudos comparativos da epopeia oral, defende, por sua vez, que o poema reflete uma tradição viva de apresentações orais e que as referências de Ferdowsi a livros são, em parte, uma forma tradicional de reivindicar autoridade. O debate tem grandes consequências para a maneira como os editores tratam as variantes do texto.

O problema do texto. Como os copistas alteravam livremente o poema, os manuscritos diferem muito entre si. A edição de Moscou baseou-se principalmente em manuscritos de 1276 e 1333, enquanto o manuscrito de Florença, de 1217, identificado na década de 1970, ofereceu um testemunho ainda mais antigo. A edição de Khaleghi-Motlagh reúne evidências de muitos manuscritos antigos e de obras árabes e persas antigas que citam o poema. Os estudiosos continuam a discutir como avaliar um único manuscrito antigo diante da concordância entre manuscritos posteriores e quantos versos famosos foram acrescentados mais tarde.

Datação da composição. Passagens do próprio poema sugerem que Ferdowsi concluiu uma primeira versão em 994, quando os samânidas ainda governavam, e uma segunda versão, ampliada e dedicada a Mahmud de Ghazni, em 1010. O quanto foi revisto entre as duas versões e se os elogios a Mahmud foram inseridos numa obra já existente continuam sendo questões em aberto.

História e mito. As seções históricas são um testemunho importante, embora literário, das tradições reais sassânidas. Elas podem ser comparadas a crônicas árabes, como as de al-Tabari, que também recorreram à tradição do Khwaday-namag. As seções míticas e heroicas preservam elementos indo-iranianos muito antigos: Jamshid corresponde a Yima no Avestá e a Yama no Rigveda, e o rei-dragão Zahhak descende do monstro avéstico Azhi Dahaka. O ciclo de Rostam no Sistão pode ter origem numa tradição distinta do leste iraniano.

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Avançado

Interpretação e política da leitura

Como o Shahnameh ocupa um lugar central na cultura persa, suas interpretações muitas vezes refletiram as preocupações de cada época. Governantes medievais, inclusive de dinastias turcas e mongóis, patrocinaram cópias luxuosas para se apresentarem como herdeiros dos antigos reis iranianos, embora os turanianos sejam grandes inimigos do Irã no poema. Estudiosos atuais ressaltam que os turanianos da epopeia são um povo mítico das estepes e não correspondem simplesmente aos povos turcos de épocas posteriores.

O nacionalismo iraniano do século XX enfatizou o “persa puro” do poema e seus heróis anteriores ao islamismo. Alguns leitores o trataram como uma defesa da monarquia, enquanto outros destacaram seus numerosos reis injustos e a simpatia por rebeldes como Kaveh. Depois de 1979, a obra passou por um período de desconforto oficial antes de voltar a ser amplamente reconhecida como um clássico nacional. Hoje, os estudiosos em geral alertam contra a leitura de um poema do século XI por meio de categorias nacionalistas modernas.

Entre as questões interpretativas mais discutidas estão a posição religiosa de Ferdowsi (a abertura do poema inclui louvores ao Profeta e à sua família que muitos consideram indício de simpatia pelo xiismo, embora essa passagem também seja debatida), o papel das mulheres (o Shahnameh apresenta figuras femininas marcantes, como Tahmineh, Rudabeh, Gordafarid e Manizheh) e a possibilidade de sua visão trágica da história ser um lamento pelo mundo sassânida perdido ou uma reflexão universal sobre o poder e a mortalidade.

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Ideias principais

Farr (glória real)
Um brilho divino que distingue o rei legítimo; permanece com os justos e abandona os orgulhosos e cruéis.
Irã e Turan
A rivalidade secular entre dois ramos da família de Fereydun que move grande parte da era heroica.
Herói e rei
Grandes heróis como Rostam servem lealmente ao trono, mas muitas vezes são prejudicados por reis insensatos ou ciumentos.
Tragédia e destino
Nem os maiores heróis conseguem escapar do destino; o poema reflete repetidamente sobre a morte e a passagem do tempo.
Sabedoria (kherad)
O poema começa com um elogio à sabedoria e contém muitos conselhos sobre justiça, moderação e bom governo.
Preservação da memória
O poema transformou tradições do Irã anterior ao islamismo, que estavam desaparecendo, numa obra duradoura da literatura em persa novo.
Língua persa
O uso moderado de palavras tomadas do árabe fez da obra um modelo do persa e ajudou a consolidar a língua literária.

Registros

  1. 651 d.C. — Yazdegerd III, o último rei sassânida, é assassinado perto de Merv; a conquista árabe do Irã se completa.
  2. c. 940 d.C. — Ferdowsi nasce na aldeia de Paj, perto de Tus, em Khorasan.
  3. 957 d.C. — Abu Mansur, governador de Tus, encomenda um Shahnameh em prosa no persa novo, a principal fonte de Ferdowsi.
  4. c. 977 d.C. — O poeta Daqiqi é assassinado depois de escrever cerca de mil dísticos; Ferdowsi começa seu poema.
  5. 994 d.C. — Ferdowsi conclui uma primeira versão do Shahnameh durante o domínio dos samânidas.
  6. 999 d.C. — A dinastia samânida cai; o leste do Irã passa ao domínio dos gaznévidas.
  7. 1010 — Ferdowsi conclui a versão final e a dedica ao sultão Mahmud de Ghazni.
  8. c. 1020 — Ferdowsi morre em Tus (as datas citadas variam entre 1019 e 1025).
  9. 1217 — É copiado o manuscrito sobrevivente mais antigo do Shahnameh (hoje em Florença).
  10. 1430 — O Shahnameh de Baysonghor é concluído em Herat para o príncipe timúrida Baysonghor.
  11. 1568 — O Shahnameh do Xá Tahmasp é presenteado ao sultão otomano Selim II.
  12. 1934 — O Irã celebra o milênio de Ferdowsi e inaugura seu novo mausoléu em Tus.

Glossário

Epopeia
Poema longo sobre heróis, guerras e a história ou as lendas de um povo.
Dístico (bayt)
Dois hemistíquios rimados que formam uma unidade do verso persa.
Mutaqareb
O metro de versos curtos e vigorosos usado no Shahnameh e em epopeias persas posteriores.
Dehqan
Membro da pequena nobreza rural iraniana que preservou tradições anteriores ao islamismo após a conquista árabe.
Khwaday-namag
Um “Livro dos Senhores” em persa médio, hoje perdido, compilado no período sassânida e considerado a fonte original da história dos reis.
Império Sassânida
O último império persa anterior ao islamismo (224–651).
Samânidas
Dinastia de Bucara e Khorasan (819–999) que patrocinou a literatura em persa novo.
Turan
No Shahnameh, terra dos inimigos do Irã na Ásia Central, governada por Afrasiyab.
Simorgh
Ave sábia e mágica que cria Zal e ajuda Rostam.
Naqqali
Arte iraniana de contar histórias de forma dramática, muitas vezes apresentando episódios do Shahnameh.

Perguntas e respostas

Qual é o tamanho do Shahnameh?

É muito longo: tradicionalmente, tem cerca de 60 mil dísticos; nas edições críticas modernas, cerca de 50 mil. É várias vezes mais longo que a Ilíada e a Odisseia juntas.

Rostam foi uma pessoa real?

Não. Rostam é um herói lendário. A parte final do poema trata de reis sassânidas reais, mas mesmo ali a história é contada de forma literária.

Por que Ferdowsi usou tão poucas palavras árabes?

Em parte porque suas fontes remontavam a tradições em persa médio e em parte por uma escolha de estilo. Leitores posteriores viram nisso uma defesa deliberada da língua persa.

O sultão Mahmud realmente enganou Ferdowsi?

A história das moedas de prata vem de Nezami Aruzi, que escreveu cerca de 150 anos depois, e provavelmente é lendária ao menos em parte. Não sabemos ao certo como Mahmud recebeu o poema.

Ferdowsi usou livros ou histórias transmitidas oralmente?

A maioria dos estudiosos acredita que ele transformou fontes escritas em versos, especialmente o Shahnameh em prosa de Abu Mansur, de 957. Outros, sobretudo Olga M. Davidson, destacam o papel da tradição oral. A questão continua em debate.

Qual é o manuscrito mais antigo?

Um manuscrito datado de 1217, hoje na Biblioteca Nacional Central de Florença.

Onde posso ver pinturas do Shahnameh?

Páginas de cópias ilustradas famosas estão em museus e bibliotecas do mundo todo; o Shahnameh de Baysonghor é preservado no Palácio de Golestão, em Teerã.

Fontes e leituras adicionais

  1. Shahnameh. Wikipedia
  2. Ferdowsi. Wikipedia
  3. Rostam and Sohrab. Wikipedia
  4. Shahnameh of Shah Tahmasp. Wikipedia
  5. Great Mongol Shahnameh. Wikipedia
  6. 샤나메. 위키백과 (Korean Wikipedia)
  7. 페르도우시. 위키백과 (Korean Wikipedia)
  8. Abolqasem Ferdowsi, translated by Dick Davis, Shahnameh: The Persian Book of Kings. Viking, 2006
  9. Theodor Nöldeke, Das iranische Nationalepos, 1896

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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