Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.
- Fácil
- Intermediário
- Avançado
Para jovens leitores
Imagine acordar uma manhã e descobrir que você virou um inseto gigante. Você não consegue sair da cama, sua família fica com medo de você, e ainda precisa se preocupar em não chegar atrasado ao trabalho. É assim que começa a história mais famosa de Franz Kafka, A metamorfose.
Kafka viveu há cerca de cem anos em Praga, uma bela cidade antiga que hoje é a capital da República Tcheca. Ele falava e escrevia em alemão. Durante o dia, trabalhava em um escritório que cuidava de trabalhadores feridos no emprego. À noite, ficava acordado até tarde escrevendo histórias.
Suas histórias parecem sonhos estranhos. Em uma delas, um homem é preso, mas ninguém lhe diz o que ele fez de errado. Em outra, um homem tenta muitas vezes chegar a um castelo no alto de uma colina, mas nunca consegue. As pessoas de suas histórias continuam tentando, mesmo quando as regras parecem não fazer sentido.
Kafka era tímido e muitas vezes duvidava de si mesmo. Tinha medo do pai severo e escreveu para ele uma carta muito longa explicando seus sentimentos. Kafka adoeceu de tuberculose, uma doença que atinge principalmente os pulmões, e morreu aos 40 anos.
Antes de morrer, ele pediu a seu melhor amigo, Max Brod, que queimasse seus escritos que ainda não tinham sido publicados. Brod não fez isso. Em vez disso, publicou os romances de Kafka, e pessoas do mundo inteiro começaram a lê-los. Hoje existe até a palavra “kafkiano” para uma situação confusa em que alguém se sente preso, como se estivesse perdido em um labirinto de regras.
Em resumo
- Vida
- 3 de julho de 1883 (Praga) – 3 de junho de 1924 (sanatório de Kierling, perto de Viena)
- Terra natal
- Praga, Reino da Boêmia, Áustria-Hungria; depois de 1918, Tchecoslováquia
- Idioma
- Escrevia em alemão; também sabia tcheco e estudou hebraico no fim da vida
- Profissão
- Doutor em direito (1906); funcionário do Instituto de Seguros contra Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia, 1908–1922
- Obras publicadas em vida
- Textos breves em prosa e contos, incluindo Contemplação (1912), A sentença (1913), A metamorfose (1915), Na colônia penal (1919), Um médico rural (1919/20) e Um artista da fome (1924)
- Obras publicadas após a morte
- Os romances O processo (1925), O castelo (1926) e América (O desaparecido, 1927), além de diários e cartas, editados por Max Brod
- Temas principais
- Autoridade obscura e burocracia, culpa e julgamento, pais e filhos, isolamento, o corpo e a busca de sentido
- Legado
- Um dos principais escritores do modernismo literário; o adjetivo “kafkiano” entrou em muitas línguas
Fácil
Quem foi Franz Kafka?
Franz Kafka foi um escritor de língua alemã que viveu quase toda a vida em Praga. Em vida, publicou apenas alguns livros pequenos de contos e era conhecido principalmente por um grupo restrito de leitores. Após sua morte, seus três romances inacabados e muitos outros escritos foram publicados. Em poucas décadas, ele passou a ser lido e discutido no mundo inteiro.
As histórias de Kafka muitas vezes começam com algo impossível, narrado em frases calmas, precisas, quase como as de um relatório. Um caixeiro-viajante acorda transformado em um inseto monstruoso. Um bancário é preso na manhã de seu trigésimo aniversário por homens que não dizem de que ele é acusado. Um agrimensor chega a uma aldeia e passa o restante do romance tentando, sem sucesso, falar com os funcionários do castelo que supostamente o chamaram. A estranheza nunca é explicada, e os personagens raramente a questionam; eles apenas tentam lidar com a situação.
Os leitores encontram nessas histórias imagens de muitas coisas: o poder de burocracias sem rosto, a sensação de ser julgado sem saber por quê, a solidão da vida nas cidades modernas, a ansiedade de um filho diante de um pai poderoso e a experiência de se sentir excluído. O próprio Kafka se recusava a dar explicações simples, uma das razões pelas quais sua obra continua aberta a tantas interpretações.
Fácil
Vida: Praga, família e trabalho
Kafka nasceu em 3 de julho de 1883 em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro. Seu pai, Hermann Kafka, havia crescido na pobreza em uma aldeia judaica de língua tcheca e montou em Praga uma loja bem-sucedida de artigos de luxo. Sua mãe, Julie Löwy, vinha de uma família judaica de língua alemã com maior escolaridade. Dois irmãos mais novos morreram ainda bebês; Franz cresceu com três irmãs mais novas, Elli, Valli e Ottla.
Ele estudou em escolas de língua alemã, incluindo o exigente Ginásio Alemão da Cidade Velha, e depois cursou direito na universidade alemã de Praga, onde obteve o doutorado em 1906. Na universidade, conheceu Max Brod, escritor que se tornou seu amigo mais próximo, o primeiro a defender sua obra e, mais tarde, seu testamenteiro literário.
Depois de um ano na seguradora Assicurazioni Generali, Kafka entrou, em 1908, para o Instituto de Seguros contra Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia, uma instituição semiestatal. Era um funcionário competente e respeitado, que escrevia relatórios sobre prevenção de acidentes e riscos em fábricas e pedreiras, e foi promovido várias vezes. O emprego lhe dava um horário fixo à tarde, mas ele frequentemente reclamava que o deixava cansado demais para escrever. Grande parte de sua ficção foi escrita tarde da noite.
Kafka nunca se casou. Ficou noivo duas vezes de Felice Bauer, uma mulher de Berlim para quem escreveu centenas de cartas entre 1912 e 1917, e teve um breve noivado com Julie Wohryzek. A partir de 1920, manteve um relacionamento intenso, principalmente por cartas, com a jornalista e tradutora tcheca Milena Jesenská. Em 1923, conheceu Dora Diamant, uma jovem de família judaica ortodoxa, e viveu com ela em Berlim por vários meses, a única vez em que morou longe de Praga por um período longo.
Em agosto de 1917, Kafka recebeu o diagnóstico de tuberculose. Afastou-se do trabalho por longos períodos e se aposentou em 1922. A doença atingiu sua garganta, tornando doloroso comer e beber. Ele morreu em 3 de junho de 1924, aos 40 anos, em um sanatório em Kierling, perto de Viena, e foi sepultado no Novo Cemitério Judaico de Praga.
Fácil
Um judeu de língua alemã em uma cidade tcheca
A Praga de Kafka reunia vários mundos. A maioria dos habitantes falava tcheco, e o sentimento nacional tcheco se fortalecia. Uma minoria menor, mas influente, falava alemão, e muitos falantes de alemão em Praga eram judeus, como os Kafka. Assim, Kafka pertencia a uma minoria dentro de outra: era falante de alemão entre tchecos e judeu entre falantes de alemão, em uma época em que o antissemitismo era comum em diferentes grupos.
Kafka falava bem tcheco e lia literatura tcheca, mas escrevia apenas em alemão. Seu alemão é frequentemente elogiado pela clareza e precisão, talvez em parte porque o alemão de Praga tinha menos contato com a língua alemã falada no dia a dia em outros lugares. Quando o Império Austro-Húngaro se desfez em 1918, Praga se tornou a capital da nova Tchecoslováquia, e Kafka, como muitos falantes de alemão, passou a viver em um novo Estado.
Sua relação com o judaísmo mudou ao longo da vida. Sua família seguia as práticas religiosas de maneira pouco rigorosa, e, na adolescência, ele se declarou ateu. A partir de 1911, porém, ficou fascinado por uma companhia itinerante de teatro em iídiche do Leste Europeu e passou a se interessar pela cultura judaica e pelo sionismo. Nos últimos anos de vida, estudou hebraico e sonhou em se mudar para a Palestina. Depois de sua morte, suas três irmãs foram assassinadas no Holocausto, assim como Milena Jesenská, no campo de concentração de Ravensbrück; essa história influenciou a maneira como muitos leitores posteriores veem sua obra.
Intermediário
As principais obras
O grande avanço de Kafka como escritor ocorreu na noite de 22 para 23 de setembro de 1912, quando escreveu o conto A sentença de uma só vez. Nele, a conversa de um jovem com seu pai idoso de repente se transforma em uma acusação, e o pai condena o filho à morte por afogamento. O filho cumpre a sentença imediatamente. Kafka escreveu depois em seu diário que essa era a única maneira de escrever: com total abertura do corpo e da alma. O conto foi dedicado a Felice Bauer.
Algumas semanas depois, em novembro e dezembro de 1912, ele escreveu A metamorfose. Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que sustenta os pais e a irmã, acorda transformado em um “inseto monstruoso” (ungeheueres Ungeziefer). No início, a família tenta lidar com a situação, e sua irmã Grete lhe traz comida, mas aos poucos passa a vê-lo como um fardo. Seu pai o fere atirando maçãs; Gregor morre sozinho, e a família sente alívio e faz planos para o futuro. Publicada em 1915, essa foi a obra mais longa que Kafka considerou concluída. Ele disse ao editor que o inseto não deveria ser desenhado na capa.
O processo (Der Process), iniciado em 1914, acompanha Josef K., um funcionário de banco preso certa manhã sem ser informado da acusação. Ele pode continuar indo ao trabalho, mas sua vida é aos poucos consumida por um tribunal misterioso que funciona em sótãos e prédios de moradia. O romance contém a parábola “Diante da lei”, na qual um homem do campo espera a vida inteira diante de uma porta aberta que dá acesso à Lei, vigiada por um porteiro. No fim, descobre que aquela porta se destinava apenas a ele. Kafka publicou a parábola separadamente em vida.
O castelo (Das Schloss), iniciado em 1922, trata de um agrimensor conhecido apenas como K., que chega a uma aldeia coberta de neve, governada pelos funcionários de um castelo, e luta sem parar para que reconheçam sua função. América, ou O desaparecido (Der Verschollene), iniciado em 1912, é um romance mais cômico sobre um jovem emigrante europeu nos Estados Unidos, país que Kafka nunca visitou. Os três romances ficaram inacabados.
Outras obras importantes são Na colônia penal (1919), sobre um oficial dedicado a uma máquina que executa prisioneiros gravando a sentença em seus corpos; Um médico rural (1919/20), uma coletânea de textos breves; Um artista da fome (1924), sobre um artista que jejua em uma jaula para entreter o público; e Carta ao pai (escrita em 1919), uma longa carta em que Kafka descreve seu medo de Hermann Kafka, mas que nunca foi entregue.
Intermediário
Como Kafka escreve
A técnica mais característica de Kafka é descrever o impossível com a linguagem do cotidiano. A metamorfose não pergunta como ou por que Gregor foi transformado; ocupa-se de problemas práticos, como abrir uma porta, perder um trem e pagar as dívidas da família. Esse estilo sóbrio e exato faz as situações absurdas parecerem perturbadoramente reais.
Seus narradores geralmente acompanham de perto um único personagem, que sabe tão pouco quanto o leitor. Josef K. e o agrimensor K. continuam tentando entender suas situações pelo raciocínio: reúnem informações, fazem planos e defendem seus argumentos. Mas cada explicação leva a outro atraso ou a outro funcionário. A lógica de cada frase é clara; é o conjunto que não faz sentido.
Kafka também gostava de formas breves: parábolas, fragmentos e aforismos. Em 1917–18, enquanto se recuperava na aldeia de Zürau, escreveu uma série de aforismos numerados sobre verdade, pecado e esperança. Muitos de seus textos curtos, como “Diante da lei” ou “Uma mensagem imperial”, funcionam como parábolas religiosas modernas cujo significado não pode ser definido com precisão.
O humor é uma parte importante de sua escrita que pode passar despercebida. Max Brod recordou que Kafka riu tanto ao ler em voz alta o primeiro capítulo de O processo para os amigos que mal conseguia continuar. Hoje, muitos leitores consideram sua obra tragicômica, ligada tanto à comédia física e ao teatro em iídiche quanto à literatura religiosa e filosófica.
Intermediário
Temas: lei, culpa, pais e excluídos
Lei e autoridade. Kafka estudou direito e passou sua vida profissional em uma grande instituição administrativa. Sua ficção está cheia de tribunais, funcionários, arquivos e hierarquias poderosas, mas ocultas. Os personagens nunca encontram as autoridades mais altas; lidam apenas com funcionários de baixo escalão, advogados e mensageiros que também sabem pouco. Muitos leitores viram nisso uma imagem antecipada da burocracia moderna e até dos Estados totalitários que surgiram após sua morte, embora Kafka tenha escrito antes deles.
Culpa e julgamento. Em A sentença, O processo e Na colônia penal, pessoas são acusadas e punidas, muitas vezes sem que haja um crime claro. Os acusados frequentemente parecem aceitar a própria culpa. Os críticos discutem se essa culpa é religiosa, psicológica, social ou existencial; os textos permitem várias leituras ao mesmo tempo.
Pais e filhos. O pai poderoso e autoritário aparece em A sentença e A metamorfose, e a Carta ao pai de Kafka descreve um sentimento de inadequação que ele carregou a vida inteira diante de Hermann Kafka. Leitores que usam a psicanálise deram grande importância a isso, embora o próprio Kafka duvidasse de que ela fosse uma chave para sua obra.
Excluídos e o corpo. Os protagonistas de Kafka muitas vezes são estranhos que não encontram seu lugar: um agrimensor em uma aldeia, um emigrante na América, um macaco que aprende a agir como humano em Um relatório para uma academia, uma criatura escondida em sua toca. Corpos se transformam, adoecem, passam fome e recebem marcas. Essas imagens foram interpretadas em relação à experiência judaica na Europa Central, à doença, à alienação do trabalhador moderno e à própria dificuldade de comunicação.
Intermediário
Max Brod e a preservação dos escritos
Kafka deixou dois bilhetes pedindo a Max Brod que queimasse seus diários, manuscritos, cartas e desenhos sem lê-los. Brod já lhe havia dito que nunca faria isso, e não o fez. Entre 1925 e 1927, editou e publicou O processo, O castelo e América, seguidos por coletâneas de contos, diários e cartas. O próprio Kafka havia destruído boa parte de sua obra, parte dela queimada em Berlim com a ajuda de Dora Diamant, de modo que muito se perdeu.
As edições de Brod tornaram Kafka famoso, mas também influenciaram a maneira como ele foi lido. Brod organizou capítulos inacabados, deu títulos aos romances e lhes conferiu uma aparência de obras concluídas, além de interpretar Kafka como alguém em busca de respostas religiosas. Mais tarde, estudiosos criticaram algumas de suas decisões editoriais. Novas edições críticas baseadas nos manuscritos, iniciadas na década de 1980, recuperaram a grafia, a pontuação e o caráter fragmentário dos textos de Kafka.
Em 1939, quando as tropas alemãs ocuparam Praga, Brod fugiu para a Palestina levando uma mala com papéis de Kafka. Parte do material foi posteriormente depositada em Oxford, onde hoje é guardada pela Biblioteca Bodleiana. O manuscrito de O processo foi vendido em leilão em 1988 e hoje está no Arquivo de Literatura Alemã, em Marbach. Os papéis que Brod deixou com sua secretária, Esther Hoffe, foram objeto de uma longa disputa judicial em Israel, encerrada em 2016, quando a Suprema Corte israelense decidiu que pertenciam à Biblioteca Nacional de Israel.
Intermediário
Influência e legado
A fama de Kafka cresceu rapidamente após a Segunda Guerra Mundial. Traduções para o inglês feitas por Willa e Edwin Muir a partir da década de 1930, além de traduções para o francês, apresentaram sua obra a leitores de outros países. Depois da guerra, ele se tornou um dos escritores mais discutidos do mundo. Escritores existencialistas como Albert Camus o viam como um guia para compreender o absurdo, enquanto outros o liam como um profeta do totalitarismo.
Escritores do mundo inteiro descreveram sua influência. Jorge Luis Borges escreveu várias vezes sobre ele, sobretudo no ensaio “Kafka e seus precursores”, que argumenta que cada escritor cria seus próprios precursores. Gabriel García Márquez disse que a leitura de A metamorfose lhe mostrou que a ficção podia romper as regras do realismo. A influência de Kafka pode ser percebida em autores tão diferentes quanto Samuel Beckett, Bruno Schulz, Philip Roth, Kōbō Abe e Haruki Murakami, cujo romance Kafka à beira-mar traz seu nome no título.
Na Tchecoslováquia comunista, Kafka foi visto com desconfiança por muito tempo. Uma conferência realizada em Liblice em 1963, que defendeu que seus temas de alienação também se aplicavam às sociedades socialistas, é frequentemente considerada uma precursora do movimento reformista da Primavera de Praga. Hoje, Praga o homenageia com museus, monumentos e prêmios literários.
O adjetivo “kafkiano” é usado hoje em muitas línguas para situações angustiantes de tão complexas, ilógicas e burocráticas. Alguns críticos alertam que esse uso popular simplifica a obra de Kafka, que também é engraçada, terna e profundamente ambígua.
Avançado
Debates sobre a interpretação
Poucos escritores modernos receberam tantas interpretações diferentes. Os primeiros leitores, seguindo Brod, viam Kafka como um escritor religioso ou teológico em busca da graça divina; o castelo e o tribunal podiam ser lidos como imagens de um Deus oculto. Leituras existencialistas das décadas de 1940 e 1950 entendiam que ele retratava o absurdo da existência humana. Leitores marxistas e sociólogos destacavam o trabalho alienado e a dominação burocrática, enquanto críticos ligados à psicanálise se concentravam no complexo paterno e no corpo.
Uma contribuição marcante veio de Gilles Deleuze e Félix Guattari em Kafka: por uma literatura menor (1975; edição em inglês de 1986). Eles argumentaram que Kafka escreveu uma “literatura menor”: a literatura de uma minoria que usa uma língua dominante, o alemão de Praga, de modo a desterritorializá-la, tornar tudo político e dar à escrita um valor coletivo. Sua leitura rejeitava a busca de significados simbólicos ocultos e preferia acompanhar como os textos de Kafka funcionam como máquinas de desejo e poder.
Outros estudiosos destacaram o contexto judaico de Kafka, lendo sua obra em relação à assimilação dos judeus da Europa Central, ao sionismo, à cultura iídiche e ao antissemitismo, e perguntando como o Holocausto influenciou sua recepção. Outros ainda, como Walter Benjamin em um ensaio de 1934, alertaram contra interpretações exclusivamente teológicas ou psicológicas e enfatizaram os gestos e o caráter insolúvel das parábolas.
Uma ressalva hoje compartilhada por muitos estudiosos é que as obras resistem a qualquer chave única de interpretação. Os textos de Kafka parecem convidar à interpretação ao mesmo tempo que mostram seu fracasso, como em “Diante da lei”, quando o sacerdote de O processo apresenta vários comentários contraditórios sobre a parábola. Por isso, alguns críticos argumentam que o debate interminável faz parte do próprio efeito da escrita de Kafka.
Avançado
Fontes: manuscritos, diários e biografia
O que sabemos sobre Kafka depende, em grau incomum, de documentos particulares: seus diários, mantidos aproximadamente de 1909 a 1923, cadernos e vários milhares de cartas enviadas a Felice Bauer, Milena Jesenská, Max Brod, seus familiares e outras pessoas. As cartas de Felice Bauer e de Milena para ele não sobreviveram, de modo que conhecemos apenas um lado dessas correspondências. Esses documentos são ricos em informações, mas não foram escritos para publicação e mostram Kafka apresentando a si mesmo de maneiras diferentes a pessoas diferentes.
Por décadas, os leitores dependeram das edições de Brod e de sua biografia de 1937, que apresentava um Kafka santo e religioso. A edição crítica publicada pela S. Fischer a partir de 1982 e, mais tarde, as edições fac-similares dos manuscritos permitiram aos estudiosos observar trechos riscados por Kafka, diferentes ordens dos capítulos e fragmentos inacabados. Por exemplo, Kafka não definiu a ordem dos capítulos de O processo, que foi reconstruída de maneiras diferentes por diferentes editores.
A biografia moderna mais completa é a obra de Reiner Stach em três volumes. Ela utiliza documentos que se tornaram disponíveis mais recentemente, incluindo material do espólio de Brod, para reconstituir o cotidiano e o meio social de Kafka. Stach e outros estudiosos também recorreram aos textos profissionais que Kafka escreveu para o instituto de seguros. Esses textos mostram que ele era um funcionário público cuidadoso e eficiente, além de um artista atormentado.
Muitos detalhes continuam incertos: o conteúdo exato dos manuscritos perdidos, o que Kafka pretendia fazer com seus romances inacabados e até que ponto ele realmente desejava que seus papéis fossem destruídos. Os estudiosos continuam debatendo se o pedido feito a Brod era sincero, já que Kafka escolheu como testamenteiro justamente o amigo que certamente se recusaria a cumpri-lo.
Ideias principais
- O kafkiano
- Uma situação angustiante de tão confusa e ilógica, controlada por autoridades ocultas; a palavra vem da ficção de Kafka.
- Autoridade obscura
- Tribunais, castelos e repartições que têm grande poder, mas que as pessoas submetidas a eles nunca conseguem alcançar ou compreender.
- Culpa sem crime
- Personagens são acusados e julgados sem saber o que fizeram e muitas vezes acabam aceitando a própria culpa.
- Estranheza narrada com naturalidade
- Acontecimentos impossíveis são narrados em linguagem calma, precisa e cotidiana, o que os faz parecer reais.
- Parábola
- Narrativa breve, como “Diante da lei”, que parece conter uma lição profunda, mas resiste a um significado único.
- Pai e filho
- O pai dominador é uma figura recorrente que reflete a relação difícil de Kafka com Hermann Kafka.
- Literatura menor
- Expressão de Deleuze e Guattari para a literatura escrita por uma minoria em uma língua dominante, como Kafka fez em alemão em Praga.
Registros
- 1883 — Nasce em Praga, em 3 de julho, filho de Hermann e Julie Kafka.
- 1906 — Obtém o doutorado em direito pela universidade alemã de Praga.
- 1908 — Entra para o Instituto de Seguros contra Acidentes de Trabalho; seus primeiros textos em prosa aparecem na revista Hyperion.
- 1912 — Conhece Felice Bauer; escreve A sentença em uma noite (22–23 de setembro) e A metamorfose em novembro e dezembro; Contemplação é publicado.
- 1914 — Começa O processo após romper seu primeiro noivado com Felice Bauer.
- 1915 — A metamorfose é publicada.
- 1917 — Recebe o diagnóstico de tuberculose em agosto; passa um período em Zürau e escreve aforismos.
- 1919 — Na colônia penal é publicado; escreve a Carta ao pai, que nunca é entregue.
- 1922 — Começa O castelo; aposenta-se do instituto de seguros.
- 1923 — Vive em Berlim com Dora Diamant.
- 1924 — Morre em 3 de junho em Kierling, perto de Viena; Um artista da fome é publicado pouco depois.
- 1925 — Max Brod publica O processo, seguido por O castelo (1926) e América (1927).
Glossário
- Áustria-Hungria
- Império formado por vários povos e governado pelos Habsburgo, que incluía a Boêmia e Praga até 1918.
- Boêmia
- Região histórica do oeste da atual República Tcheca, cuja capital é Praga.
- Novela
- Obra de ficção mais longa que um conto e mais curta que um romance, como A metamorfose.
- Parábola
- Narrativa breve usada para ensinar ou sugerir uma verdade moral ou espiritual.
- Aforismo
- Frase breve e marcante que expressa uma ideia ou verdade.
- Testamenteiro literário
- Pessoa que decide o destino das obras não publicadas de um escritor após sua morte; no caso de Kafka, Max Brod.
- Modernismo
- Movimento artístico do início do século XX que rompeu com formas tradicionais para expressar a experiência moderna.
- Tuberculose
- Doença infecciosa grave que geralmente atinge os pulmões e era uma das principais causas de morte na época de Kafka.
- Edição crítica
- Edição preparada por estudiosos que reconstitui um texto a partir de manuscritos e registra suas variantes e alterações.
- Iídiche
- Língua tradicional dos judeus asquenazes da Europa Central e Oriental, baseada no alemão e com elementos hebraicos e eslavos.
Perguntas e respostas
Kafka realmente escreveu uma história sobre um homem que vira um inseto?
Sim. Em A metamorfose (1915), Gregor Samsa acorda transformado em um “inseto monstruoso”. Kafka nunca diz exatamente que tipo de criatura ele é e pediu que ela não fosse desenhada na capa do livro.
Por que Kafka queria que seus escritos fossem queimados?
Ele era muito crítico de si mesmo e estava insatisfeito com a maior parte de sua obra. Mas encarregou Max Brod da tarefa, mesmo sabendo que ele havia dito que se recusaria a cumpri-la. Por isso, alguns estudiosos questionam até que ponto o pedido era sério.
Kafka era um escritor alemão ou tcheco?
Ele era um judeu de Praga que escrevia em alemão e viveu primeiro na Áustria-Hungria e depois na Tchecoslováquia. Sua obra pertence ao mesmo tempo à literatura de língua alemã, à cultura tcheca e de Praga e à literatura judaica.
O que significa “kafkiano”?
A palavra descreve uma situação confusa, ameaçadora e absurdamente burocrática, na qual você não consegue descobrir quais são as regras nem quem está no comando.
Os romances de Kafka estão terminados?
Não. O processo, O castelo e América ficaram inacabados. O processo tem um capítulo final, mas a ordem dos demais capítulos precisou ser decidida pelos editores.
O processo é uma profecia do totalitarismo?
Muitos leitores depois de 1945 interpretaram o livro dessa maneira, mas Kafka o escreveu em 1914–15, antes do surgimento dos Estados totalitários. Os estudiosos debatem se é melhor lê-lo como uma obra sobre o direito, a religião, a psicologia ou as instituições modernas em geral.
Onde estão os manuscritos de Kafka hoje?
Principalmente na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, no Arquivo de Literatura Alemã, em Marbach, que inclui O processo, e na Biblioteca Nacional de Israel, em Jerusalém.
Fontes e leituras adicionais
- Franz Kafka. Wikipedia
- 프란츠 카프카. 위키백과 (Korean Wikipedia)
- The Metamorphosis. Wikipedia
- The Trial. Wikipedia
- The Castle (novel). Wikipedia
- Letter to His Father. Wikipedia
- Max Brod. Wikipedia
- Kafkaesque. Wikipedia
- Reiner Stach (trans. Shelley Frisch), Kafka: The Decisive Years. Harcourt, 2005
- Gilles Deleuze and Félix Guattari (trans. Dana Polan), Kafka: Toward a Minor Literature. University of Minnesota Press, 1986
Conteúdo relacionado
- Fiódor DostoiévskiRomancista russo cujas obras investigam a responsabilidade moral, a pobreza, a fé e as pressões da vida urbana moderna.
- Friedrich NietzscheFilósofo e estudioso dos clássicos alemão que questionou valores morais herdados e examinou a cultura, o poder e o sentido da vida.
- Lu XunEscritor e crítico chinês cuja ficção e cujos ensaios examinaram a hierarquia social, os costumes e as pressões da mudança moderna.
- UlissesO romance de James Joyce acompanha um dia em Dublin por meio de estilos variados e da vida interior de seus personagens.
- FiccionesA coletânea de contos de Jorge Luis Borges explora livros imaginários, labirintos, o acaso e os limites do conhecimento.
- Tractatus Logico-PhilosophicusLivro filosófico conciso de Ludwig Wittgenstein que examina a linguagem, a lógica e o que pode ser dito com sentido.
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
