Filosofia

Tractatus Logico-Philosophicus

Logisch-philosophische Abhandlung

1921 · Hallein, perto de Salzburgo

Em uma frase

O Tractatus Logico-Philosophicus é um livro curto, incomum e muito influente do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, escrito em grande parte enquanto ele era soldado na Primeira Guerra Mundial, que procura mostrar como a linguagem pode representar o mundo e onde estão os limites do que pode ser dito com sentido.

Tractatus Logico-Philosophicus
Imagem: Title etc. uncopyrightable; layout by Harcourt Brace. · Public domain · Wikimedia Commons

Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.

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Para jovens leitores

Você já tentou explicar algo muito importante, como por que ama alguém, e sentiu que faltavam palavras? Um jovem chamado Ludwig Wittgenstein pensou muito sobre isso. Ele queria saber: o que as palavras conseguem fazer e o que não conseguem?

Ele escreveu suas ideias em um livro bem curto, com um nome bem comprido em latim: Tractatus Logico-Philosophicus. O livro não tem capítulos como a maioria dos livros. Ele é uma lista de frases numeradas, um pouco como blocos de montar. A frase 1 é um bloco grande; a 1.1 se apoia nele; a 1.11 se apoia na 1.1; e assim por diante.

A primeira frase diz: “O mundo é tudo o que é o caso.” Isso quer dizer que o mundo é feito de fatos, como “o gato está no tapete”. Wittgenstein achava que uma frase funciona como uma imagem ou um modelo de um fato. Um carrinho e um caminhão de brinquedo sobre uma mesa podem mostrar como aconteceu um acidente de verdade. Do mesmo jeito, as palavras de uma frase podem mostrar como as coisas estão no mundo.

Mas há coisas que não podem ser mostradas assim: o que é bom, o que é belo e qual é o sentido da vida. Wittgenstein disse que não podemos colocar essas coisas em frases comuns sobre fatos. A última frase do livro diz: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Ele não queria dizer que essas coisas não têm importância. Muitos leitores acham que, para ele, elas eram as mais importantes.

Wittgenstein escreveu boa parte do livro em cadernos enquanto era soldado na Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, mudou de ideia sobre muitas coisas e escreveu um livro bem diferente. Mesmo assim, o Tractatus ainda faz os filósofos pensar.

Em resumo

Autor
Ludwig Wittgenstein (1889–1951), filósofo nascido na Áustria que mais tarde foi professor em Cambridge
Período de escrita
Por volta de 1913–1918, a partir de anotações feitas em Cambridge e na Noruega e de cadernos mantidos durante o serviço militar na Primeira Guerra Mundial; o prefácio é datado de Viena, 1918
Primeira publicação
1921, em alemão, com o título “Logisch-philosophische Abhandlung”, na revista Annalen der Naturphilosophie, de Wilhelm Ostwald (Leipzig)
Edição em inglês
1922, Londres, Kegan Paul: alemão e inglês em páginas opostas, tradução de C. K. Ogden com Frank Ramsey e introdução de Bertrand Russell
Título
Em latim, sugerido por G. E. Moore em alusão ao Tractatus Theologico-Politicus, de Espinosa
Forma
Sete proposições principais com subproposições numeradas (1, 1.1, 1.11 …); menos de 80 páginas
Temas principais
Teoria pictórica do significado, forma lógica, funções de verdade, dizer e mostrar, limites da linguagem, ética e o místico
Influência
Círculo de Viena e positivismo lógico, filosofia analítica da lógica e da linguagem; mais tarde, o próprio Wittgenstein criticou o livro

Fácil

O que é o Tractatus?

O Tractatus Logico-Philosophicus (geralmente abreviado como Tractatus e citado pela sigla TLP) é o único livro de filosofia que Ludwig Wittgenstein publicou em vida. É muito curto — tem menos de oitenta páginas na maioria das edições —, mas é uma das obras mais discutidas da filosofia do século XX.

O livro pergunta como a linguagem e o pensamento se relacionam com o mundo. Como uma frase pode tratar de alguma coisa e ser verdadeira ou falsa? A resposta de Wittgenstein o leva a uma conclusão marcante: há limites para o que pode ser dito com sentido, e muitas questões tradicionais da filosofia, assim como a ética, a estética e a religião, estão além desses limites.

No prefácio, Wittgenstein diz que todo o sentido do livro poderia ser resumido assim: o que pode ser dito pode ser dito claramente; sobre aquilo de que não podemos falar, devemos calar. Ele também afirma, com ousadia, que resolveu os problemas essenciais da filosofia. Em seguida, acrescenta que isso mostra como pouco se alcança quando esses problemas são resolvidos.

O título em latim significa “Tratado Lógico-Filosófico”. Foi sugerido para a edição inglesa pelo filósofo de Cambridge G. E. Moore, em referência ao título do Tractatus Theologico-Politicus, de Espinosa. O título original em alemão era simplesmente Logisch-philosophische Abhandlung.

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Fácil

Um livro construído com frases numeradas

O Tractatus é formado por observações curtas e numeradas. Há sete proposições principais, numeradas de 1 a 7. Todas, exceto a última, são seguidas por comentários com números decimais: 2.1 comenta a proposição 2, 2.12 comenta a 2.1, e assim por diante. Uma nota de rodapé explica que os números indicam a importância lógica de cada observação e a ênfase dada a ela.

As sete proposições principais formam a estrutura do livro. Em traduções simplificadas: 1. O mundo é tudo o que é o caso. 2. O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas. 3. A figuração lógica dos fatos é o pensamento. 4. O pensamento é a proposição com sentido. 5. A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. 6. (Uma fórmula que apresenta a forma geral da proposição.) 7. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

O estilo é conciso e enigmático, mais parecido com uma série de aforismos do que com uma argumentação. Conta-se que, quando Bertrand Russell pediu a Wittgenstein que apresentasse argumentos para suas afirmações, ele respondeu que os argumentos estragariam a beleza do livro. Por isso, os leitores precisam reconstruir o raciocínio, o que ajuda a explicar por que as interpretações são tão diferentes.

Em linhas gerais, o livro passa do mundo (proposições 1–2) para a maneira como pensamentos e frases o representam (3–4), depois para a lógica (5–6) e, por fim, para os limites da linguagem: o eu, a ética, o místico e o silêncio (final da proposição 6 e proposição 7).

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Fácil

O autor e a guerra

Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena em 1889. Era o mais novo dos oito filhos do industrial do aço Karl Wittgenstein e pertencia a uma das famílias mais ricas do Império Austro-Húngaro. A casa da família era um centro da vida musical vienense. Ludwig estudou engenharia em Berlim e depois aeronáutica em Manchester, onde passou a se interessar pelos fundamentos da matemática.

Por conselho do lógico alemão Gottlob Frege, foi a Cambridge em 1911 para estudar com Bertrand Russell, que logo passou a considerá-lo um gênio. Wittgenstein trabalhou intensamente com lógica e, em 1913, retirou-se para uma cabana na Noruega a fim de pensar sozinho. Anotações que ditou em 1913 e 1914 já contêm algumas das ideias centrais do Tractatus.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, Wittgenstein alistou-se voluntariamente no Exército Austro-Húngaro. Serviu em um barco de patrulha fluvial e em uma oficina de artilharia; depois foi enviado às frentes oriental e italiana, onde recebeu uma condecoração por bravura. Durante todo esse tempo, manteve cadernos nos quais escrevia filosofia de um lado da página e reflexões pessoais, muitas vezes religiosas, em código do outro. A partir de 1916, sob a pressão dos combates, suas anotações passaram a tratar cada vez mais da ética, de Deus, da morte e do sentido da vida.

Ele concluiu o livro em 1918, durante uma licença na Áustria. Em novembro daquele ano, foi capturado por tropas italianas e passou cerca de nove meses em campos de prisioneiros de guerra. De lá, conseguiu enviar o manuscrito a Russell, na Inglaterra.

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Intermediário

O mundo, os fatos e a teoria pictórica

O Tractatus começa com uma explicação do que é o mundo. O mundo não é uma coleção de coisas, mas de fatos. Os fatos são constituídos por “estados de coisas” (Sachverhalte) mais simples, que são combinações de objetos simples. Os objetos são o que há de fixo e imutável; suas combinações possíveis constituem o “espaço lógico”, e as combinações que de fato existem constituem o mundo. Wittgenstein não dá exemplos de objetos simples, o que se tornou um dos enigmas do livro.

A partir daí, ele desenvolve o que se chama teoria pictórica do significado. Uma proposição é uma figuração de um estado de coisas possível. Seus elementos (os nomes) correspondem a objetos, e a maneira como os nomes estão organizados na proposição representa uma maneira como os objetos poderiam estar organizados na realidade. Se estiverem organizados dessa maneira, a proposição é verdadeira; caso contrário, é falsa. Diz-se que Wittgenstein se inspirou no relato de um processo judicial em Paris no qual um acidente foi reconstituído com modelos de brinquedo.

Para que uma figuração possa representar a realidade, ela precisa ter algo em comum com o que representa: sua forma lógica. Mas essa forma compartilhada não pode, ela própria, ser figurada. Uma proposição não pode sair de si mesma para descrever como representa; a forma lógica “se mostra” na proposição. Essa distinção entre o que pode ser dito e o que só pode ser mostrado percorre todo o livro.

A teoria pictórica explica por que uma frase pode ter sentido mesmo quando é falsa e por que podemos entender uma frase que nunca ouvimos antes: entendemos suas partes e a maneira como se combinam. Esses eram problemas reais para a lógica de Frege e Russell, e o Tractatus ofereceu uma solução nova.

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Intermediário

Lógica: funções de verdade, tautologias e “constantes lógicas”

Wittgenstein sustentava que todas as proposições com sentido são construídas a partir de proposições elementares por meio de combinações que usam funções de verdade: “não”, “e”, “ou”, “se … então”. A verdade de uma proposição complexa depende apenas da verdade ou falsidade de suas partes elementares. O Tractatus ajudou a popularizar o uso de tabelas de verdade para mostrar isso, uma técnica que o lógico norte-americano Emil Post desenvolveu de forma independente mais ou menos na mesma época.

Ele chamou de seu “pensamento fundamental” a ideia de que as “constantes lógicas” (palavras como “não” e “ou”) não correspondem a nenhum objeto. A lógica não é uma ciência de objetos lógicos especiais nem dos fatos mais gerais do mundo; ela reflete a estrutura que toda linguagem capaz de representar o mundo precisa ter.

As proposições da lógica são tautologias, verdadeiras independentemente dos fatos, como “está chovendo ou não está chovendo”. As contradições são falsas independentemente dos fatos. Segundo Wittgenstein, ambas “não dizem nada” sobre o mundo, mas mostram sua estrutura lógica. De modo semelhante, a matemática consiste em equações que mostram, em vez de enunciar fatos. Essa visão influenciou profundamente ideias posteriores segundo as quais a lógica e a matemática são verdadeiras em virtude da forma ou do significado, e não por descreverem a realidade.

A proposição 6 apresenta uma única fórmula para a forma geral de toda proposição, baseada em uma operação de negação conjunta (“nem … nem …”) aplicada repetidamente a proposições elementares. Os lógicos debatem muito se essa fórmula realmente pode gerar toda a lógica, inclusive enunciados sobre “todos” e “alguns”.

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Intermediário

Os limites da linguagem: o eu, a ética e o místico

Se proposições com sentido são figurações de fatos possíveis, então muitas frases que parecem ter sentido não o têm. Afirmações filosóficas sobre a essência do mundo, a forma lógica ou o valor não figuram nenhum estado de coisas possível. Wittgenstein conclui que a filosofia não é um conjunto de doutrinas, mas uma atividade: esclarecer pensamentos. A maioria dos problemas filosóficos surge porque não compreendemos a lógica de nossa linguagem.

Nas proposições 5.6 e seguintes, ele escreve que os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo e que o sujeito, o “eu”, não está no mundo, mas é um limite do mundo, assim como o olho não faz parte do campo visual que enxerga. Essas observações sobre o solipsismo estão entre as passagens mais discutidas e enigmáticas do livro.

Nas proposições 6.4 e 6.5 e seguintes, o livro se volta para a ética, a estética, a morte e o sentido da vida. O sentido do mundo deve estar fora do mundo; não pode haver proposições éticas; ética e estética são uma só coisa. “O místico não é como o mundo é, mas que ele exista.” Mesmo que todas as perguntas científicas possíveis fossem respondidas, afirma ele, os problemas da vida não teriam sequer sido tocados.

Por fim, Wittgenstein diz que suas próprias proposições são contrassensos: quem o compreender reconhecerá isso depois de usá-las como degraus para ir além delas e terá de jogar fora a escada após subi-la. Só então verá o mundo corretamente. Vêm depois a proposição 7 e o silêncio. Em uma carta de 1919 ao possível editor Ludwig von Ficker, Wittgenstein explicou que o objetivo do livro era ético e que ele consistia em duas partes: a que havia escrito e tudo o que não havia escrito. A segunda era a importante.

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Intermediário

Como o livro foi publicado e traduzido

Foi difícil encontrar uma editora. Várias recusaram o livro. Wittgenstein encontrou Russell em Haia, em dezembro de 1919, para examiná-lo linha por linha, e Russell concordou em escrever uma introdução para ajudar na publicação. Ao ler a introdução, Wittgenstein achou que ela interpretava mal seu trabalho e retirou seu apoio à publicação com aquele texto, deixando o assunto nas mãos de Russell.

O texto alemão finalmente apareceu em 1921, no volume 14 de Annalen der Naturphilosophie, revista editada pelo químico Wilhelm Ostwald, com a introdução de Russell em alemão. A impressão continha muitos erros, e Wittgenstein ficou insatisfeito com ela.

Em 1922, o livro foi publicado em Londres pela Kegan Paul, em uma coleção editada por C. K. Ogden, com o alemão e o inglês em páginas opostas e a introdução de Russell. A tradução foi preparada em grande parte pelo jovem matemático de Cambridge Frank Ramsey e revisada por Wittgenstein, que enviou correções detalhadas. Uma segunda tradução inglesa, de David Pears e Brian McGuinness, apareceu em 1961 e hoje costuma ser preferida; várias traduções novas foram publicadas desde 2020.

Uma versão anterior do manuscrito foi descoberta em Viena em 1965 pelo filósofo Georg Henrik von Wright e publicada em 1971 como Prototractatus. Os cadernos de Wittgenstein da época da guerra foram publicados em 1961 como Cadernos 1914–1916. Esses documentos permitem aos pesquisadores acompanhar o desenvolvimento das ideias do livro e de seu sistema de numeração.

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Intermediário

O que Wittgenstein fez depois e a influência do livro

Acreditando ter encerrado seu trabalho em filosofia, Wittgenstein doou sua parte da fortuna da família e trabalhou como professor do ensino primário em vilarejos da Baixa Áustria de 1920 a 1926. Depois, trabalhou como jardineiro em um mosteiro e ajudou a projetar uma casa modernista em Viena para sua irmã Margarete.

Enquanto isso, o Tractatus conquistou leitores entusiasmados. Em Viena, um grupo de filósofos e cientistas reunidos em torno de Moritz Schlick, mais tarde conhecido como Círculo de Viena, estudou o livro linha por linha em meados da década de 1920. O grupo o interpretou como apoio ao empirismo lógico: enunciados com sentido seriam tautologias da lógica ou afirmações verificáveis pela experiência, e a metafísica não teria sentido. Wittgenstein encontrou Schlick, Friedrich Waismann e Rudolf Carnap, mas discordava deles quanto à importância do que não pode ser dito. Às vezes, em vez de discutir filosofia, lia para eles poemas de Rabindranath Tagore.

Em 1929, Wittgenstein voltou a Cambridge. Apresentou o Tractatus como tese de doutorado e foi examinado por Russell e Moore. Nos anos seguintes, desenvolveu uma nova filosofia, centrada na linguagem como conjunto de atividades ou “jogos de linguagem”. Esse trabalho deu origem às Investigações Filosóficas, publicadas após sua morte, em 1951. No prefácio dessa obra, escreveu que fora obrigado a reconhecer erros graves em seu primeiro livro.

O Tractatus moldou a filosofia analítica de muitas maneiras: por meio do positivismo lógico, de sua compreensão da lógica como tautologia, de sua concepção da relação entre linguagem e realidade e de sua ideia da filosofia como esclarecimento. Também influenciou artistas, compositores e escritores fascinados por seu silêncio final.

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Avançado

Como ler um livro que chama a si mesmo de contrassenso

O principal problema de interpretação está no final do livro. Se suas próprias proposições são contrassensos, como ele pode ensinar alguma coisa? Leituras tradicionais ou “metafísicas”, associadas a Uma Introdução ao Tractatus de Wittgenstein (1959), de G. E. M. Anscombe, e mais tarde a P. M. S. Hacker, sustentam que o livro procura transmitir percepções reais sobre a lógica, o mundo e o valor que não podem ser ditas, mas podem ser mostradas. Nessa visão, o Tractatus contém verdades inexprimíveis, e seus contrassensos são esclarecedores.

Desde o fim da década de 1980, a leitura “resoluta” ou do “Novo Wittgenstein”, desenvolvida especialmente por Cora Diamond e James Conant, argumenta que isso é incoerente: um contrassenso é apenas um contrassenso, e não há verdades inexprimíveis. O objetivo do livro seria terapêutico. Ao levar os leitores à ilusão de que entendem suas frases metafísicas e depois revelar que não as entendem, ele os liberta da tentação de filosofar dessa maneira. A moldura do livro — o prefácio e o final — indica ao leitor como entender seu corpo principal.

Críticos da leitura resoluta argumentam que ela ignora declarações do próprio Wittgenstein, em cartas e conversas, de que tentava transmitir algo importante, e que torna inúteis as doutrinas lógicas detalhadas do livro. Muitos estudiosos hoje adotam posições intermediárias. O debate também afeta a maneira de entender a relação entre o “primeiro” e o “segundo” Wittgenstein: os leitores resolutos veem mais continuidade; os tradicionais, uma ruptura mais nítida.

Outros debates tratam da natureza dos objetos simples — se são dados dos sentidos, pontos espaciais ou outra coisa, ou se Wittgenstein deixou a questão em aberto deliberadamente —, da relação do Tractatus com Frege e Russell, da influência de Schopenhauer e dos escritos religiosos de Tolstói sobre suas observações éticas e da medida em que o livro pertence à cultura vienense, incluindo a crítica da linguagem de Karl Kraus e a arquitetura de Adolf Loos.

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Avançado

Texto, tradução e fontes de pesquisa

Os estudiosos do Tractatus trabalham com várias camadas de documentação: as “Notas sobre Lógica”, de 1913, e as anotações ditadas a Moore na Noruega em 1914; os cadernos de guerra preservados (conhecem-se três de um conjunto maior); o manuscrito do Prototractatus; textos datilografados e impressões corrigidas; e as cartas de Wittgenstein a Russell, Ogden, Ficker e ao arquiteto Paul Engelmann, seu amigo desde os anos da guerra. O estudo do Prototractatus mostrou que a numeração decimal foi construída aos poucos, e alguns pesquisadores defendem que o livro deve ser lido como uma árvore, seguindo os comentários de cada número, em vez de página por página.

A tradução é, por si só, um problema de interpretação. Termos fundamentais como Sachverhalt (traduzido para o inglês como “fato atômico” por Ogden e “estado de coisas” por Pears e McGuinness), Bild (“figuração”), Sinn (“sentido”) e unsinnig (“sem sentido” ou “contrassenso”) carregam implicações filosóficas nas escolhas de palavras em inglês. A versão de Ogden e Ramsey é mais literal e, às vezes, pouco fluente; a de Pears e McGuinness é mais fluente, mas, segundo alguns, menos fiel. As correções do próprio Wittgenstein à tradução de Ogden são uma fonte importante para compreender suas intenções.

O contexto biográfico também influenciou as interpretações. A biografia Ludwig Wittgenstein: The Duty of Genius (1990), de Ray Monk, destacou como a crise ética e religiosa dos anos de guerra está ligada às últimas páginas do livro. Alguns filósofos objetam que a biografia não deve decidir questões de conteúdo lógico; outros respondem que o próprio Wittgenstein insistiu que o objetivo do livro era ético.

Um século após sua publicação, o Tractatus continua incomum por ser, ao mesmo tempo, um trabalho técnico de filosofia da lógica e uma reflexão sobre o que está além das palavras. A história de sua recepção, do Círculo de Viena aos leitores resolutos, mostra como um texto curto e difícil pode dar origem a tradições de leitura opostas.

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Ideias principais

O mundo como fatos
O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas; os fatos são combinações de objetos simples.
Teoria pictórica
Uma proposição com sentido é uma figuração lógica de um estado de coisas possível e é verdadeira se as coisas forem como ela as figura.
Dizer e mostrar
A forma lógica não pode ser enunciada na linguagem; ela se mostra na estrutura das proposições.
Funções de verdade
Proposições complexas são construídas a partir de proposições elementares, e sua verdade depende apenas da verdade de suas partes.
A lógica como tautologia
As proposições da lógica não dizem nada sobre o mundo; elas exibem a estrutura de qualquer linguagem possível.
A filosofia como atividade
A filosofia não é uma doutrina, mas o esclarecimento dos pensamentos e a eliminação de confusões sobre a linguagem.
Os limites da linguagem
A ética, a estética, o sentido da vida e o místico estão além do que pode ser dito, embora possam ser o que mais importa.
A escada
As proposições do próprio livro servem como degraus e devem ser descartadas depois que se chega à compreensão.

Registros

  1. 1889 — Ludwig Wittgenstein nasce em Viena em 26 de abril.
  2. 1911 — Vai a Cambridge para estudar lógica com Bertrand Russell.
  3. 1913 — Trabalha sozinho na Noruega; dita as “Notas sobre Lógica”.
  4. 1914 — Alista-se voluntariamente no Exército Austro-Húngaro; começa seus cadernos filosóficos da época da guerra.
  5. 1918 — Conclui o livro durante uma licença; é capturado por forças italianas em novembro.
  6. 1919 — É libertado de um campo de prisioneiros de guerra; encontra Russell em Haia para discutir o manuscrito.
  7. 1921 — O texto alemão é publicado em Annalen der Naturphilosophie.
  8. 1922 — A edição bilíngue em alemão e inglês é publicada em Londres pela Kegan Paul.
  9. 1929 — Wittgenstein volta a Cambridge e obtém o doutorado com o Tractatus.
  10. 1951 — Wittgenstein morre em Cambridge em 29 de abril.
  11. 1953 — Investigações Filosóficas é publicado postumamente e critica ideias do Tractatus.
  12. 1961 — São publicados a tradução de Pears e McGuinness e os Cadernos 1914–1916, escritos durante a guerra.
  13. 1971 — O Prototractatus, descoberto em 1965, é publicado.

Glossário

Proposição
Frase que afirma algo verdadeiro ou falso sobre o mundo.
Estado de coisas (Sachverhalt)
Combinação de objetos simples; unidade básica da qual os fatos são compostos.
Forma lógica
Estrutura que uma figuração compartilha com aquilo que representa, tornando possível a representação.
Função de verdade
Proposição cujo valor de verdade depende apenas dos valores de verdade das proposições que a compõem.
Tautologia
Proposição verdadeira em qualquer circunstância possível, como “p ou não p”.
Tabela de verdade
Tabela que apresenta o valor de verdade de uma proposição complexa para cada combinação dos valores de verdade de suas partes.
Positivismo lógico
Movimento filosófico do Círculo de Viena segundo o qual só têm sentido as verdades lógicas e as afirmações verificáveis pela experiência.
Solipsismo
Visão segundo a qual apenas a existência da própria mente ou do próprio eu é certa; o Tractatus a discute em um sentido especial.
Leitura resoluta
Interpretação segundo a qual o Tractatus não contém verdades inexprimíveis e procura livrar os leitores da confusão metafísica.
Filosofia analítica
Tradição filosófica que enfatiza a lógica, a linguagem e a clareza dos argumentos.

Perguntas e respostas

Por que o livro é cheio de números?

Cada observação recebe um número para mostrar sua relação com as outras: 2.1 comenta a proposição 2, 2.11 comenta a 2.1, e assim por diante. Os números indicam a importância lógica das observações.

O que significa “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”?

Em linhas gerais, significa que aquilo que posso pensar e dizer com sentido determina a forma do mundo tal como ele pode ser descrito; além desse limite, nada pode ser dito.

Wittgenstein achava que a ética não era importante?

Não. Ele situou a ética fora daquilo que pode ser dito justamente porque a considerava importante demais para ser reduzida a afirmações sobre fatos. Ele disse que o objetivo do livro era ético.

Por que o livro chama suas próprias frases de contrassensos?

Porque elas tentam dizer coisas sobre a forma lógica e os limites da linguagem que, segundo a própria teoria do livro, só podem ser mostradas. Elas são como uma escada que deve ser descartada após o uso.

Wittgenstein mudou de ideia?

Sim. Sua filosofia posterior, sobretudo nas Investigações Filosóficas, rejeitou a teoria pictórica e a ideia de uma única forma lógica oculta da linguagem, embora alguns temas tenham permanecido.

O livro foi mesmo escrito nas trincheiras?

Boa parte foi redigida em cadernos durante seu serviço militar, de 1914 a 1918, inclusive na frente de batalha. Algumas ideias fundamentais, porém, remontam a Cambridge e à Noruega, entre 1912 e 1914.

Como o Círculo de Viena interpretou o livro?

Como uma base para o empirismo lógico: enunciados com sentido seriam lógicos ou verificáveis pela experiência. Wittgenstein achava que o grupo deixava de reconhecer a importância daquilo que não pode ser dito.

Fontes e leituras adicionais

  1. Anat Biletzki and Anat Matar, Ludwig Wittgenstein. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  2. Ian Proops, Wittgenstein’s Logical Atomism. Stanford Encyclopedia of Philosophy
  3. Duncan J. Richter, Ludwig Wittgenstein (1889–1951). Internet Encyclopedia of Philosophy
  4. Tractatus Logico-Philosophicus. Wikipedia
  5. Ludwig Wittgenstein. Wikipedia
  6. Vienna Circle. Wikipedia
  7. Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus (Ogden translation). Project Gutenberg
  8. Ray Monk, Ludwig Wittgenstein: The Duty of Genius. Jonathan Cape, 1990
  9. G. E. M. Anscombe, An Introduction to Wittgenstein’s Tractatus. Hutchinson, 1959

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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