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Para jovens leitores
Há muito tempo, o poeta grego Homero contou a história de Odisseu (que os romanos chamavam de Ulisses), um herói que passou dez anos tentando voltar para casa depois de uma guerra. No caminho, enfrentou monstros e escapou de feiticeiras, enquanto sua esposa Penélope esperava por ele.
Cerca de cem anos atrás, um escritor irlandês chamado James Joyce teve uma ideia: e se um homem comum vivesse uma grande aventura durante um dia normal em sua própria cidade? Ele escreveu um livro bem longo sobre Leopold Bloom, que anda por Dublin, na Irlanda, em 16 de junho de 1904. Bloom prepara o café da manhã, vai a um funeral, trabalha, almoça, visita um bar e, por fim, volta para casa tarde da noite.
Nada de mágico acontece. Mas Joyce mostra os pensamentos dos personagens: lembranças, preocupações, piadas e ideias pela metade, tudo misturado como acontece na nossa cabeça. Isso se chama “fluxo de consciência”, porque os pensamentos correm como a água de um riacho.
Joyce também brincou com os jeitos de escrever. Um capítulo parece um jornal, com manchetes. Outro lembra música. Há um capítulo que parece uma peça de teatro e outro feito de perguntas e respostas. No último, Molly, a esposa de Bloom, pensa enquanto está na cama, quase sem usar pontuação.
Quando o livro foi lançado, alguns países disseram que ele era indecente e o proibiram. Hoje, muita gente o considera um dos maiores romances já escritos. Todos os anos, em 16 de junho, leitores do mundo inteiro comemoram o “Bloomsday”, vestindo roupas de época e seguindo o caminho de Bloom por Dublin.
Em resumo
- Autor
- James Joyce (1882–1941), romancista e poeta irlandês
- Escrito
- 1914–1921, em Trieste, Zurique e Paris
- Publicado em capítulos
- Em parte na The Little Review (Nova York), de março de 1918 a dezembro de 1920, e na The Egoist (Londres)
- Primeira publicação
- 2 de fevereiro de 1922, em Paris, pela livraria Shakespeare and Company, de Sylvia Beach (impresso em Dijon)
- Ambientação
- Dublin, quinta-feira, 16 de junho de 1904, das 8h até depois das 2h da manhã seguinte
- Estrutura
- 18 episódios em três partes, cada um vagamente paralelo a um episódio da Odisseia de Homero
- Extensão
- Cerca de 265 mil palavras; 732 páginas na primeira edição
- Histórico judicial
- Objeto de processo nos Estados Unidos em 1921; considerado não obsceno pelo juiz John M. Woolsey em 1933; publicado pela primeira vez na Grã-Bretanha em 1936
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O que é Ulisses?
Ulisses é um romance de James Joyce e uma das obras centrais do modernismo literário. Descreve um único dia, 16 de junho de 1904, na vida de três moradores de Dublin: Leopold Bloom, um vendedor de anúncios; sua esposa Molly Bloom, cantora de concertos; e Stephen Dedalus, um jovem aspirante a escritor que apareceu pela primeira vez como protagonista do romance anterior de Joyce, Um retrato do artista quando jovem (1916).
O título é a forma latina do nome de Odisseu, herói da Odisseia de Homero. Cada um dos dezoito episódios do romance corresponde vagamente a um episódio da Odisseia: Bloom é um Odisseu moderno que percorre a cidade; Stephen, um Telêmaco em busca de um pai; e Molly, uma Penélope, embora, ao contrário da Penélope de Homero, ela seja infiel.
O que tornou Ulisses famoso não foi seu enredo, que é simples, mas a maneira como foi escrito. Joyce revela a vida interior dos personagens por meio do monólogo interior, muda de estilo a cada episódio e enche o livro de trocadilhos, paródias, alusões e detalhes precisos da vida em Dublin. O romance é engraçado, franco ao tratar do corpo e do sexo e, em certos trechos, muito difícil.
O livro foi publicado em Paris em 2 de fevereiro de 1922, no aniversário de quarenta anos de Joyce. Foi proibido ou apreendido em vários países por obscenidade antes de se tornar um clássico. Muitos críticos o consideram o romance mais importante do século XX em língua inglesa, embora outros o julguem superestimado ou ilegível. Esse debate também faz parte de sua história.
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Um dia em Dublin: a história
O romance começa às 8h em uma torre Martello (um pequeno forte redondo) na costa de Sandycove, onde Stephen Dedalus mora com Buck Mulligan, um estudante de medicina brincalhão e debochado, e Haines, um visitante inglês. Stephen está de luto e sente culpa pela morte recente da mãe. Ele dá uma aula de história em uma escola para meninos, recebe seu pagamento e caminha sozinho pela praia de Sandymount, pensando.
A narrativa então volta às 8h, agora no número 7 da Eccles Street, onde Leopold Bloom prepara o café da manhã, incluindo um rim de porco, e leva chá para Molly na cama. Ela recebeu uma carta de Blazes Boylan, seu empresário de concertos. Bloom sabe que Boylan a visitará naquela tarde e que os dois iniciarão um caso. Descendente de judeus em uma Dublin católica, Bloom muitas vezes é tratado como alguém de fora. Ele e Molly ainda lamentam a morte do filho Rudy, que morreu bebê onze anos antes.
Bloom vai ao funeral de um conhecido, Paddy Dignam, visita a redação de um jornal, almoça, pesquisa um anúncio na Biblioteca Nacional, bebe no bar de um hotel e em um pub, onde é atacado por um nacionalista agressivo chamado “o Cidadão”, e descansa na praia ao anoitecer. Durante todo o dia, evita voltar para casa enquanto Boylan está lá.
Tarde da noite, Bloom segue Stephen, que está bêbado, até a zona de prostituição de Dublin, tira-o de uma briga com soldados e o leva para casa para tomar chocolate quente. Stephen vai embora, e Bloom se deita. O episódio final é o longo monólogo noturno de Molly, que termina com a lembrança de quando aceitou o pedido de casamento de Bloom: “sim eu disse sim eu quero Sim”.
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Por que a Odisseia?
Joyce admirava a figura de Ulisses desde menino, quando leu uma versão da história recontada para crianças por Charles Lamb. Mais tarde, disse que Ulisses era o personagem mais completo da literatura: filho, pai, marido, amante, amigo e soldado. Joyce queria mostrar que um homem comum dos tempos modernos, com sua bondade, seus constrangimentos e seus pequenos atos de coragem, podia ser um tema tão rico quanto um herói épico.
Os paralelos são divertidos e às vezes irônicos. O ciclope de um olho só de Homero vira um frequentador de pub intolerante, que enxerga apenas um lado das coisas. As sereias que atraem marinheiros com seu canto viram duas atendentes do bar de um hotel. A feiticeira Circe, que transforma homens em porcos, vira a dona de um bordel. A vingança sangrenta de Odisseu contra os pretendentes de sua esposa vira a aceitação tranquila de Bloom diante do que aconteceu.
Os títulos dos episódios, como “Telêmaco”, “Calipso”, “Hades” e “Penélope”, não aparecem no livro. Joyce os usou em cartas e em esquemas que deu a amigos, e os leitores passaram a adotá-los. Alguns críticos consideram a estrutura homérica essencial; outros a veem como um andaime de que Joyce precisou para construir o livro, mas que os leitores podem deixar de lado.
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Dezoito episódios, dezoito estilos
O romance se divide em três partes: três episódios sobre Stephen (a “Telemaquia”), doze sobre as andanças de Bloom e três sobre o retorno para casa. Na primeira metade, a narração combina, em geral, um narrador em terceira pessoa com os monólogos interiores dos personagens. A partir do meio do livro, os estilos se tornam cada vez mais experimentais, como se o próprio livro assumisse o lugar dos personagens.
“Éolo”, ambientado na redação de um jornal, é interrompido por manchetes. “Sereias” imita a música: começa com uma lista de temas musicais e os repete como em uma fuga. “Ciclope” alterna o relato de um frequentador de pub dado à fofoca com paródias grandiosas da linguagem jurídica, épica e jornalística. “Nausícaa” começa no estilo sentimental dos romances de revistas populares, refletindo a mente de uma jovem, Gerty MacDowell, antes de passar aos pensamentos de Bloom.
“Os bois do Sol”, ambientado em uma maternidade, imita a evolução da prosa em inglês, passando por estilos anglo-saxões e influenciados pelo latim, por Malory, pela Bíblia, pelos romancistas do século XVIII e por Dickens, até chegar à gíria moderna. Essa evolução espelha o crescimento de um bebê no útero. “Circe” é escrito como uma peça de teatro cheia de alucinações. “Ítaca” é uma série de perguntas e respostas impessoais, como um catecismo. “Penélope” consiste em oito frases enormes, quase sem pontuação.
Essa variedade é uma das razões pelas quais o livro é admirado e também considerado difícil. Cada estilo revela algo diferente: como jornais e anúncios moldam a linguagem, como os clichês moldam o desejo e como a literatura representou a vida ao longo dos séculos. Em parte, o romance se torna um livro sobre as possibilidades e os limites da própria escrita.
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Fluxo de consciência e vida interior
Ulisses costuma ser chamado de exemplo clássico do romance de “fluxo de consciência”. O termo, tomado do psicólogo William James, descreve uma escrita que procura acompanhar o curso dos pensamentos, das percepções e das lembranças de uma pessoa. Joyce não inventou a técnica: reconheceu sua dívida com o escritor francês Édouard Dujardin, e autores como Dorothy Richardson faziam experiências semelhantes na mesma época. Mas ele a desenvolveu mais plenamente do que seus antecessores.
Nos monólogos de Stephen, os pensamentos são densos em erudição, citações e questões filosóficas. A mente de Bloom é prática, curiosa e cheia de associações: ele se pergunta sobre ciência e publicidade, repara em gatos e cheiros, lembra-se do pai e do filho mortos e volta repetidamente ao pensamento de Molly e Boylan. O monólogo de Molly é terreno, contraditório e afetuoso. Os leitores passam a conhecer cada personagem por dentro de uma maneira que os romances tradicionais raramente permitiam.
Joyce combina esses monólogos com detalhes precisos do mundo exterior. Ele se gabava de que, se Dublin fosse destruída, poderia ser reconstruída a partir de seu livro. Conferia distâncias, nomes de lojas e trajetos dos bondes escrevendo a parentes e consultava o guia de endereços de Dublin publicado por Thom em 1904. O resultado é um livro ao mesmo tempo profundamente voltado para a mente dos personagens e repleto de detalhes concretos.
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Joyce, o exílio e a Dublin colonial
James Joyce nasceu em Dublin em 1882 e estudou em escolas jesuítas. Em 1904, deixou a Irlanda com Nora Barnacle, uma jovem de Galway, e viveu o resto da vida na Europa continental. Segundo a tradição, 16 de junho de 1904 foi a data do primeiro passeio dos dois, o que talvez explique a escolha desse dia para o romance.
Em 1904, a Irlanda fazia parte do Reino Unido e estava sob o domínio britânico e a forte influência da Igreja Católica. O Renascimento Irlandês promovia a língua e a cultura irlandesas. Stephen se sente preso por essas três forças: o Império Britânico, representado por Haines; a Igreja, representada pela fé de sua mãe morta; e o nacionalismo irlandês. “A história”, diz ele, “é um pesadelo do qual estou tentando acordar”.
O romance critica o nacionalismo intolerante, sobretudo em “Ciclope”, no qual o Cidadão ataca Bloom por ser judeu e estrangeiro. Bloom responde que o contrário do ódio é o amor e é ridicularizado por isso. Ainda assim, o livro é profundamente irlandês, permeado pela fala, pelas canções, pela política e pela história da Irlanda, inclusive pela memória do líder Charles Stewart Parnell, cuja carreira chegou ao fim em meio a um escândalo.
Ulisses foi publicado em 1922, ano em que o Estado Livre Irlandês foi estabelecido após a Guerra de Independência. Alguns críticos o leram como uma resposta ao colonialismo e à questão do que poderia ser uma identidade irlandesa moderna. Joyce nunca voltou a morar na Irlanda e morreu em Zurique em janeiro de 1941.
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A escrita e a publicação do livro
A ideia de Ulisses surgiu por volta de 1906 como um conto planejado para a coletânea Dublinenses, sobre um morador de Dublin chamado sr. Hunter, mas o conto nunca foi escrito. Joyce começou a escrever o romance para valer em 1914, em Trieste, então parte da Áustria-Hungria, onde trabalhava como professor de inglês. Quando a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial, mudou-se para a neutra Zurique em 1915 e, em 1920, para Paris. Terminou o livro no fim de 1921, enquanto sofria de uma dolorosa doença nos olhos.
Com a ajuda do poeta Ezra Pound, episódios foram publicados na The Little Review, revista americana editada por Margaret Anderson e Jane Heap, de março de 1918 a dezembro de 1920. Harriet Shaw Weaver, uma mecenas inglesa, publicou alguns episódios em sua revista The Egoist e sustentou Joyce financeiramente por muitos anos.
Nenhuma editora tradicional queria assumir o risco de publicar o livro completo. Sylvia Beach, americana que administrava a livraria parisiense Shakespeare and Company, ofereceu-se para publicá-lo. O impressor Maurice Darantière, em Dijon, compôs o texto, e Joyce continuou acrescentando material às provas tipográficas, ampliando muito alguns episódios. A primeira edição, de mil exemplares numerados, saiu em 2 de fevereiro de 1922. Continha muitos erros de impressão, em parte porque os tipógrafos franceses não liam inglês.
Ainda em 1922, a Egoist Press, de Weaver, lançou uma edição impressa a partir das mesmas chapas. Outras edições vieram depois, entre elas uma da Odyssey Press, publicada em Hamburgo em 1932 e revisada com a ajuda de Stuart Gilbert, amigo de Joyce.
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Processos por obscenidade e censura
A franqueza de Ulisses ao tratar do sexo e do corpo causou problemas desde o início. O serviço postal dos Estados Unidos confiscou e destruiu números da The Little Review que continham episódios do romance. Em 1920, depois que a revista publicou parte de “Nausícaa”, em que Bloom fica excitado ao observar Gerty MacDowell, a Sociedade de Nova York para a Supressão do Vício apresentou uma denúncia. Em 1921, Anderson e Heap foram condenadas e multadas por publicar material obsceno, e a publicação em capítulos foi interrompida.
Depois que o livro saiu, exemplares enviados aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha foram apreendidos e queimados por autoridades postais e alfandegárias. Era preciso introduzi-lo nesses países clandestinamente. Sua fama de livro proibido se espalhou entre escritores e estudantes.
Em 1932, a editora Random House e o advogado Morris Ernst providenciaram deliberadamente a apreensão de um exemplar para contestar a proibição na Justiça. Em 6 de dezembro de 1933, no processo Estados Unidos contra um livro chamado Ulisses, o juiz John M. Woolsey decidiu que o livro não era obsceno: deveria ser julgado como um todo e pelo efeito que teria sobre um leitor médio, e sua intenção lhe pareceu séria, não pornográfica. A decisão foi mantida em recurso em 1934, e a Random House publicou a primeira edição americana autorizada naquele ano.
Na Grã-Bretanha, a Bodley Head publicou o livro em 1936, quando já não se considerava provável que houvesse um processo. A decisão de Woolsey se tornou um precedente importante na história da liberdade de expressão e influenciou a legislação americana posterior sobre literatura e obscenidade.
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Recepção, influência e Bloomsday
As primeiras reações foram muito divididas. T. S. Eliot escreveu em 1923 que o romance era a expressão mais importante encontrada pela época e que o uso do mito por Joyce era um método para dar forma à história moderna. Ezra Pound o elogiou com entusiasmo. Virginia Woolf, cujo romance Mrs. Dalloway (1925) também acompanha um único dia em uma cidade, teve uma reação ambivalente: reconheceu sua ousadia, mas, em um ensaio de 1923, chamou-o de “catástrofe memorável”. O romancista inglês Arnold Bennett admirou algumas partes, mas reclamou de seu caráter enfadonho, enquanto certos resenhistas o condenaram como obsceno ou como uma forma de anarquia literária.
Nas décadas seguintes, Ulisses se tornou uma obra central do modernismo e um modelo para romancistas de muitas línguas. Escritores como William Faulkner e Samuel Beckett — que trabalhou como assistente de Joyce em Paris —, além de muitos romancistas experimentais posteriores, incorporaram suas técnicas. O livro passou a fazer parte dos cursos universitários e se tornou um dos romances mais estudados do mundo, com uma vasta produção acadêmica dedicada a suas alusões.
Em 1954, no cinquentenário do dia em que o romance se passa, um grupo de escritores irlandeses, entre eles Flann O’Brien e Patrick Kavanagh, percorreu partes do trajeto descrito no livro. Desde então, 16 de junho se tornou o Bloomsday, celebrado em Dublin e no mundo inteiro com leituras, apresentações, roupas da época eduardiana e cafés da manhã com rins. O romance também foi adaptado para o teatro, o cinema e o rádio, incluindo uma leitura dramatizada integral transmitida pelo rádio irlandês em 1982.
O último livro de Joyce, Finnegans Wake (1939), levou a experimentação linguística ainda mais longe. Ulisses ocupa um lugar entre as obras anteriores, mais realistas, e esse radical livro final.
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Problemas textuais e a disputa entre edições
O texto de Ulisses é excepcionalmente instável. Joyce escreveu rascunhos em cadernos, preparou uma cópia a limpo (hoje conhecida como manuscrito Rosenbach, na Filadélfia), mandou fazer cópias datilografadas por diferentes pessoas e revisou extensamente várias séries de provas tipográficas. Erros surgiram em todas as etapas, e sua visão debilitada o impediu de perceber todos eles. Edições posteriores corrigiram alguns equívocos e introduziram outros; a primeira edição americana, de 1934, foi composta a partir de uma versão não autorizada.
Em 1984, o pesquisador alemão Hans Walter Gabler publicou Ulysses: A Critical and Synoptic Edition, que reconstruiu o texto com base em manuscritos e provas tipográficas, usando métodos auxiliados por computador, e afirmou ter corrigido cerca de 5 mil erros. A princípio, a edição foi saudada como definitiva. Em 1988, o pesquisador americano John Kidd a atacou na The New York Review of Books, chamando-a de “o escândalo de Ulisses” e argumentando que ela introduzia novos erros e seguia princípios editoriais inconsistentes. Gabler e seus apoiadores rejeitaram muitas dessas críticas.
A controvérsia teve consequências práticas. A Random House e a Bodley Head voltaram a usar seus textos anteriores em algumas edições, e uma edição planejada por Kidd nunca foi publicada. Hoje, vários textos são utilizados, e estudiosos costumam citar os números dos episódios e das linhas da edição de Gabler enquanto consultam outras. O debate levantou questões mais amplas sobre o que seria um texto “correto” quando o autor revisava continuamente e o processo de produção fazia parte da obra.
A descoberta e a disponibilização de outros rascunhos, incluindo cadernos adquiridos pela Biblioteca Nacional da Irlanda no início dos anos 2000, continuam alimentando a “crítica genética”, que estuda como o livro cresceu das anotações até as provas tipográficas.
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Debates críticos
O método homérico. Eliot via os paralelos com a Odisseia como um “método mítico” que dava ordem ao caos moderno; Pound os chamava de andaime. James Joyce’s Ulysses (1930), de Stuart Gilbert, escrito com a colaboração de Joyce, publicou um esquema detalhado que atribuía a cada episódio uma hora, um órgão do corpo, uma arte, uma cor, um símbolo e uma técnica. Críticos posteriores debateram até que ponto esses esquemas deveriam ser levados a sério, e consta que o próprio Joyce disse a Samuel Beckett que talvez tivesse “sistematizado demais” o livro.
Humanismo e forma. Uma linha de interpretação, representada pela importante biografia James Joyce (1959, revista em 1982), de Richard Ellmann, lê Ulisses como uma celebração humana da vida comum, centrada na decência de Bloom. Outros críticos, influenciados pelo estruturalismo e pelo pós-estruturalismo, destacam seus jogos de linguagem e sua recusa de um estilo único e definitivo, lendo o livro como uma obra sobre a própria escrita.
Molly e o gênero. O monólogo de Molly Bloom foi lido tanto como uma celebração do desejo feminino quanto como uma fantasia masculina que identifica a mulher ao corpo e à natureza. Críticas feministas debatem se o retrato feito por Joyce questiona ou reproduz estereótipos; o episódio continua sendo um dos mais discutidos da literatura moderna.
Irlanda e império. Desde os anos 1980, críticos como Declan Kiberd leem Ulisses por uma perspectiva pós-colonial, como um livro sobre uma cidade colonizada e uma crítica tanto ao imperialismo britânico quanto ao nacionalismo excludente. Em Ulysses and Us (2009), Kiberd também contesta a ideia de que o romance pertença apenas aos especialistas, apresentando-o como um livro de sabedoria prática para a vida cotidiana.
Ideias principais
- O cotidiano como epopeia
- Um único dia de um homem comum em uma cidade recebe a dimensão e a seriedade da epopeia de Homero.
- Paralelos homéricos
- Cada episódio espelha vagamente um episódio da Odisseia, muitas vezes de forma irônica.
- Fluxo de consciência
- O curso dos pensamentos, sentimentos e lembranças é apresentado diretamente, muitas vezes sem frases completas.
- Mudança de estilos
- Cada episódio tem sua própria técnica, de manchetes de jornal a roteiro teatral e catecismo.
- Dublin em detalhes
- A cidade de 1904 é retratada com ruas, lojas e pessoas identificadas com precisão, o que ancora a experimentação na realidade.
- O forasteiro e o exilado
- Bloom, um morador de Dublin de ascendência judaica, e Stephen, um artista que se sente deslocado, estão ambos à margem da sociedade dominante.
- Censura e liberdade
- As disputas judiciais em torno do livro ajudaram a mudar a forma como a literatura é avaliada pelas leis sobre obscenidade.
Registros
- 1882 — James Joyce nasce em Rathgar, Dublin, em 2 de fevereiro.
- 1904 — 16 de junho: dia em que se passa o romance; Joyce deixa a Irlanda com Nora Barnacle em outubro.
- 1914 — Joyce começa a escrever Ulisses em Trieste; Dublinenses é publicado.
- 1915 — Muda-se para Zurique durante a Primeira Guerra Mundial.
- 1918 — Começa a publicação em capítulos na The Little Review (março).
- 1920 — Joyce se muda para Paris; a publicação de “Nausícaa” leva a uma denúncia por obscenidade.
- 1921 — As editoras da The Little Review são condenadas; a publicação em capítulos termina; Joyce conclui o livro.
- 1922 — 2 de fevereiro: a Shakespeare and Company publica a primeira edição em Paris.
- 1933 — O juiz John M. Woolsey decide que Ulisses não é obsceno (6 de dezembro).
- 1934 — A decisão é mantida em recurso; a Random House publica a primeira edição americana autorizada.
- 1936 — A Bodley Head publica a primeira edição impressa na Grã-Bretanha.
- 1941 — Joyce morre em Zurique em 13 de janeiro.
- 1954 — Primeiro percurso organizado do Bloomsday em Dublin, no cinquentenário do dia retratado no romance.
- 1984 — É publicada a edição crítica de Hans Walter Gabler, logo seguida por uma intensa controvérsia editorial.
Glossário
- Modernismo
- Movimento artístico do início do século XX que rompeu com formas tradicionais para expressar a experiência moderna.
- Fluxo de consciência
- Técnica narrativa que representa o curso contínuo dos pensamentos e das percepções de um personagem.
- Monólogo interior
- Pensamentos não falados de um personagem apresentados diretamente, como se pudéssemos ouvi-los.
- Paródia
- Imitação de um estilo para produzir um efeito cômico ou crítico.
- Esquema
- Quadro que Joyce deu a amigos, listando o título homérico, a hora, o órgão, a arte, o símbolo e a técnica de cada episódio.
- Torre Martello
- Pequeno forte redondo construído no litoral; o romance começa em uma dessas torres, em Sandycove.
- Bloomsday
- 16 de junho, dia em que se passa o romance, comemorado todos os anos pelos leitores.
- Lei sobre obscenidade
- Conjunto de leis que proíbem publicações consideradas indecentes; Ulisses foi julgado com base nelas nos Estados Unidos.
- Edição crítica
- Edição que reconstrói um texto a partir de manuscritos e primeiras impressões, registrando suas variantes.
- Catecismo
- Formato de perguntas e respostas usado no ensino religioso e imitado no episódio “Ítaca”.
Perguntas e respostas
Ulisses se passa mesmo em apenas um dia?
Sim. A história vai da quinta-feira, 16 de junho de 1904, por volta das 8h, até depois das 2h da manhã seguinte, mas as lembranças voltam a momentos de toda a vida dos personagens.
Preciso conhecer a Odisseia para ler o livro?
Não, mas conhecer a história em linhas gerais ajuda a apreciar as brincadeiras e os paralelos. Os títulos dos episódios oferecem pistas.
Por que o livro foi proibido?
As autoridades consideraram obscenas suas descrições francas do sexo e das funções do corpo. Em 1933, um tribunal americano decidiu que, avaliado como um todo, o livro era uma obra de arte séria.
O que é o Bloomsday?
É uma comemoração anual em 16 de junho, quando leitores em Dublin e no mundo inteiro encenam passagens, fazem leituras em voz alta e seguem o trajeto de Bloom.
Por que é tão difícil de ler?
O livro usa muitos estilos, alusões difíceis, trocadilhos e passagens entre narração e pensamento sem avisar. Muitos leitores recorrem a guias ou o leem em grupo.
Qual é o texto correto de Ulisses?
Não existe um texto único aceito por todos. A edição de 1922 tem muitos erros, e a edição corrigida por Hans Walter Gabler em 1984 também recebeu fortes críticas. Várias edições são usadas hoje.
Quem foi Sylvia Beach?
Uma livreira americana em Paris cuja livraria, a Shakespeare and Company, publicou Ulisses quando nenhuma outra editora quis fazê-lo.
Fontes e leituras adicionais
- Ulysses (novel). Wikipedia
- James Joyce. Wikipedia
- United States v. One Book Called Ulysses. Wikipedia
- The Little Review. Wikipedia
- Bloomsday. Wikipedia
- Stream of consciousness. Wikipedia
- James Joyce, Ulysses (full text). Project Gutenberg
- Richard Ellmann, James Joyce (new and revised edition). Oxford University Press, 1982
- Stuart Gilbert, James Joyce’s Ulysses: A Study. Faber and Faber, 1930
- Declan Kiberd, Ulysses and Us: The Art of Everyday Living. Faber and Faber, 2009
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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
