Literatura

Lu Xun

魯迅 (鲁迅)

1918–1936 · Xangai, China

Em uma frase

Lu Xun (1881–1936) foi um escritor chinês que deixou a medicina para tentar “curar” seu país com palavras. Seus contos e ensaios, ao mesmo tempo mordazes, tristes e bem-humorados, começando por “Diário de um Louco”, de 1918, ajudaram a criar a literatura chinesa moderna.

Lu Xun
Imagem: Unknown authorUnknown author · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

Lu Xun nasceu na China em 1881, numa cidade cheia de canais chamada Shaoxing. Sua família já tinha sido rica e importante. Mas, quando ele era menino, seu avô foi preso e seu pai ficou muito doente. Lu Xun levava objetos ao penhor para conseguir dinheiro para os remédios. Mesmo assim, seu pai morreu.

Lu Xun decidiu ser médico e foi estudar no Japão. Um dia, durante uma aula, viu a imagem de um homem chinês que seria morto, enquanto outras pessoas chinesas apenas olhavam. Mais tarde, Lu Xun contou que aquela imagem o fez mudar de ideia. Ele achou que as pessoas também precisavam mudar seu jeito de pensar e sentir. Para ele, as histórias podiam ajudar nisso.

Então ele se tornou escritor. Em 1918, escreveu “Diário de um Louco”. Usou uma língua parecida com a fala do dia a dia, em vez da antiga língua escrita, que era difícil. Isso era uma novidade. Na história, um homem acha que todos à sua volta querem comê-lo. Parece uma história de medo, mas mostra como costumes antigos podem machucar as pessoas.

Seu personagem mais famoso é Ah Q, um homem pobre que sempre perde, mas diz a si mesmo que venceu. Os leitores riam dele e depois percebiam que às vezes agiam do mesmo jeito.

Lu Xun também escreveu centenas de ensaios curtos e fortes sobre os problemas da sociedade. Passou seus últimos anos em Xangai e morreu lá em 1936. Hoje, suas histórias são lidas nas escolas da China e em muitos outros países.

Em resumo

Nascimento
25 de setembro de 1881, Shaoxing, Zhejiang, China da dinastia Qing, com o nome Zhou Zhangshou; mais tarde, recebeu o nome Zhou Shuren
Morte
19 de outubro de 1936, Xangai
Pseudônimo
Lu Xun (魯迅), usado pela primeira vez em “Diário de um Louco”, em 1918; também usou muitos outros pseudônimos
Formação
Academia Naval de Jiangnan e Escola de Minas e Ferrovias, Nanquim; Escola de Medicina de Sendai, Japão (1904–1906)
Principais obras de ficção
Grito de Alerta (Nahan, 1923), Hesitação (Panghuang, 1926), Velhas Histórias Recontadas; entre os textos estão “Diário de um Louco” e “A Verdadeira História de Ah Q”
Outras obras
Ervas Selvagens (poemas em prosa), Flores do Amanhecer Colhidas ao Anoitecer (memórias), cerca de 16 volumes de ensaios, Breve História da Ficção Chinesa e muitas traduções
Movimento
Um dos principais escritores do Movimento da Nova Cultura e do período do Movimento Quatro de Maio; mais tarde, ligado à Liga dos Escritores de Esquerda (1930)
Lugares
Shaoxing, Nanquim, Tóquio e Sendai, Pequim (1912–1926), Xiamen, Guangzhou, Xangai (1927–1936)

Fácil

Quem foi Lu Xun?

Lu Xun é o pseudônimo de Zhou Shuren, escritor, crítico, estudioso e tradutor chinês que viveu de 1881 a 1936. Ele é amplamente considerado o escritor chinês mais importante da primeira metade do século XX e um dos fundadores da literatura chinesa moderna.

Ele viveu em meio a enormes mudanças. Nasceu durante a dinastia Qing, quando os homens usavam o cabelo numa longa trança e os funcionários do governo eram escolhidos por exames sobre os clássicos confucionistas. Viu a queda do império na revolução de 1911, as dificuldades da nova República da China diante dos senhores da guerra e das pressões estrangeiras, e a ascensão dos partidos Nacionalista e Comunista.

Lu Xun escreveu relativamente pouca ficção: cerca de 33 histórias reunidas em três coletâneas. Mas textos como “Diário de um Louco”, “Kong Yiji”, “Remédio”, “Minha Terra Natal” e “A Verdadeira História de Ah Q” transformaram as possibilidades da ficção chinesa. Escritos na língua vernácula moderna (baihua), eles empregavam formas tomadas e adaptadas das literaturas europeia, russa e japonesa e encaravam sem desviar o olhar a pobreza, a crueldade e a indiferença.

Uma parte ainda maior de sua obra é formada por ensaios críticos curtos, chamados zawen (“escritos diversos”). Neles, atacava a hipocrisia, a violência, a censura e o respeito cego à tradição, muitas vezes com humor amargo. Também escreveu poemas em prosa, memórias e poesia em estilo clássico, estudou a história da ficção chinesa, traduziu obras russas, japonesas e europeias e promoveu a xilogravura como uma arte moderna para o público em geral.

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Fácil

A infância e o declínio da família

Lu Xun nasceu em Shaoxing, cidade de canais na província de Zhejiang, numa família de funcionários letrados e proprietários de terras. Quando menino, estudou os clássicos confucionistas, mas preferia livros ilustrados, histórias populares, ópera local e relatos de fantasmas contados por uma empregada da família. Muitas dessas lembranças apareceriam mais tarde em seus ensaios e histórias.

Em 1893, quando ele tinha doze anos, seu avô Zhou Fuqing foi preso por tentar subornar um funcionário responsável pelos exames imperiais e condenado à morte. A execução foi adiada ano após ano, até que ele acabou libertado. A família gastou grande parte de seus recursos para salvá-lo. O pai de Lu Xun, Zhou Boyi, adoeceu e morreu em 1896. Durante a doença, o menino ia diariamente ao penhor e à farmácia para comprar remédios tradicionais caros que não ajudavam.

Lu Xun escreveu mais tarde que essa experiência lhe ensinou como as pessoas tratam uma família que perdeu sua posição social. Ela também o deixou profundamente desconfiado da medicina tradicional, que passou a ver como exemplo dos danos que os velhos costumes podiam causar.

Como a família já não podia custear o caminho habitual para uma carreira no governo, em 1898 ele foi a Nanquim estudar numa academia naval pública e gratuita e, depois, numa escola de minas e ferrovias. Lá, leu obras de ciência e pensamento ocidentais em tradução, entre elas Evolução e Ética, de Thomas Huxley, traduzida por Yan Fu, que apresentou a muitos leitores chineses ideias sobre evolução e luta pela sobrevivência.

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Fácil

Da medicina à literatura

Em 1902, Lu Xun foi ao Japão com uma bolsa do governo, como milhares de jovens chineses da época que queriam entender como o Japão havia se modernizado tão rapidamente. Depois de estudar japonês em Tóquio, ingressou na escola de medicina de Sendai em 1904. Esperava, segundo contou mais tarde, curar pessoas como seu pai e servir ao país como médico.

No prefácio de sua primeira coletânea de contos, Grito de Alerta (1923), ele contou uma história famosa. Durante uma aula em Sendai, o professor exibiu imagens da Guerra Russo-Japonesa com um projetor de lanternas. Uma delas mostrava um chinês, apontado como espião da Rússia, prestes a ser decapitado por soldados japoneses, enquanto outros chineses observavam. Os estudantes japoneses comemoraram. Lu Xun escreveu que então percebeu que corpos saudáveis de nada serviam se o espírito das pessoas estivesse entorpecido. A primeira tarefa seria transformar esse espírito, e a literatura lhe pareceu o melhor meio para isso.

Ele deixou a escola de medicina em 1906 e voltou a Tóquio para se dedicar à literatura. Naquele ano, também retornou à China para um casamento arranjado com Zhu An, escolhida por sua mãe; os dois nunca formaram uma verdadeira parceria. Em Tóquio, escreveu ensaios, entre eles “Sobre o Poder da Poesia Mara” (1908), que apresentou aos leitores chineses rebeldes românticos europeus como Byron. Com seu irmão mais novo, Zhou Zuoren, traduziu histórias de literaturas do Leste Europeu. Seu projeto de criar uma revista literária fracassou, e poucas pessoas leram seus primeiros trabalhos.

Seu professor de anatomia em Sendai, Fujino Genkurō, que corrigia suas anotações de aula com grande cuidado, aparece numa afetuosa memória escrita por Lu Xun em 1926. Assim, os anos em Sendai lhe deixaram tanto humilhação quanto gratidão em relação ao Japão.

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Intermediário

Pequim, a “casa de ferro” e “Diário de um Louco”

Depois de voltar à China em 1909, Lu Xun lecionou em Hangzhou e Shaoxing. Após a revolução de 1911, ingressou no Ministério da Educação da nova República em 1912 e mudou-se com ele para Pequim, onde viveu até 1926. A República logo o decepcionou. Durante vários anos, passou as noites copiando inscrições antigas, reunindo textos antigos e lendo escrituras budistas, afastando-se deliberadamente da vida pública.

Em 1917, seu amigo Qian Xuantong pediu que escrevesse para Nova Juventude (Xin qingnian, também chamada La Jeunesse), a revista radical editada por Chen Duxiu que liderava o Movimento da Nova Cultura, contrário à tradição confucionista e favorável à escrita vernácula. No prefácio de Grito de Alerta, Lu Xun relembrou sua resposta por meio de uma imagem que se tornou famosa: imagine uma casa de ferro sem janelas, quase impossível de destruir, na qual muitas pessoas dormem e logo morrerão sufocadas. Se você acordar algumas delas, não as fará sofrer? O amigo respondeu que, se algumas despertassem, haveria alguma esperança de destruir a casa. Lu Xun concordou em escrever.

“Diário de um Louco” saiu em Nova Juventude em maio de 1918. Seu título e a forma de diário vêm de uma história homônima de Nikolai Gógol. Um breve prefácio em chinês clássico explica que o diário pertenceu a um homem que desde então se recuperou; o diário em si está escrito na língua vernácula. O narrador passa a acreditar que as pessoas à sua volta, até seu próprio irmão, são canibais. Ao ler um antigo livro de história, encontra as palavras “benevolência e justiça” em todas as páginas e, nas entrelinhas, duas palavras: “comer gente”. A história termina com o grito: “Salvem as crianças…”.

A história foi lida como uma alegoria devastadora: a antiga ordem moral, com suas virtudes confucionistas, era na verdade um sistema em que os fortes devoravam os fracos. Ela costuma ser chamada de primeiro conto moderno em chinês vernáculo, embora historiadores da literatura apontem experiências anteriores. Nos anos seguintes, Lu Xun publicou os contos reunidos em Grito de Alerta, entre eles “Kong Yiji”, sobre um letrado fracassado ridicularizado numa taverna; “Remédio”, no qual uma família dá ao filho doente um pão embebido no sangue de um revolucionário executado; e “Minha Terra Natal”, que termina com a reflexão de que a esperança é como um caminho pela terra: no início ele não existe, mas surge quando muitas pessoas passam pelo mesmo lugar.

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Intermediário

Ah Q e a “vitória espiritual”

“A Verdadeira História de Ah Q”, a obra de ficção mais longa de Lu Xun, foi publicada em capítulos semanais no suplemento do jornal Beijing Morning Post, de dezembro de 1921 a fevereiro de 1922, sob o pseudônimo Ba Ren. Seu protagonista é um trabalhador diarista pobre e sem terra da aldeia de Weizhuang. Ah Q é espancado, insultado e enganado, mas sempre encontra um modo de dizer a si mesmo que, na verdade, venceu: se alguém bate nele, pensa que é como se um filho estivesse batendo no pai. Lu Xun chamou isso de seu “método da vitória espiritual”.

Ah Q também intimida os mais fracos e se apressa em seguir qualquer novidade da moda. Quando a notícia da revolução de 1911 chega à aldeia, decide se tornar “revolucionário” porque os membros da elite local parecem ter medo dela. No fim, essa mesma elite assume o controle da revolução, e Ah Q é preso por um roubo que não cometeu. Como não sabe escrever o próprio nome, mandam que assine desenhando um círculo, e ele se preocupa apenas por não tê-lo feito suficientemente redondo. É fuzilado para servir de exemplo, enquanto a multidão reclama que a execução não foi divertida.

Os leitores reconheceram imediatamente em Ah Q hábitos que viam à sua volta e em si mesmos: a preocupação em salvar as aparências, o autoengano, a submissão aos poderosos e a crueldade com os fracos. “Ah Q-ismo” tornou-se uma expressão comum em chinês. A história também é um comentário amargo sobre a revolução de 1911, que, na opinião de Lu Xun, havia mudado a bandeira, mas não a sociedade.

A segunda coletânea de contos de Lu Xun, Hesitação (1926), é mais sombria e introspectiva. “O Sacrifício de Ano-Novo” conta a história da esposa de Xianglin, uma empregada viúva cujas desgraças levam os moradores da aldeia a tratá-la como alguém impura e portadora de má sorte, até que ela morre na neve. Outras histórias acompanham intelectuais que voltam derrotados para casa ou abandonam seus ideais.

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Intermediário

Ensaios, poemas em prosa, estudos e traduções

Os ensaios de Lu Xun (zawen) ocupam muitos volumes. Em geral, são curtos e escritos em resposta a um acontecimento da época: um massacre de estudantes, uma nova lei de censura, uma opinião em voga. Seu estilo é conciso, cheio de alusões e irônico. Ele atacou conservadores que defendiam a moral confucionista, mas também outros radicais e rivais literários. Suas disputas com escritores como Liang Shiqiu e com integrantes da esquerda ficaram famosas. Muitos desses ensaios são difíceis de traduzir porque dependem de referências a pessoas e acontecimentos daquele tempo.

Ervas Selvagens (publicado em 1927) é uma coletânea de poemas em prosa repleta de sonhos, sombras e paradoxos, muitas vezes considerada sua obra mais pessoal e experimental. Flores do Amanhecer Colhidas ao Anoitecer reúne memórias de sua infância e juventude, incluindo o ensaio sobre seu professor Fujino. Velhas Histórias Recontadas, sua última coletânea de ficção, reescreve lendas antigas e histórias de filósofos como Confúcio, Laozi e Mozi, acrescentando detalhes modernos e irônicos.

Lu Xun também foi um estudioso dedicado. Suas aulas na Universidade de Pequim e em outras instituições, no início da década de 1920, deram origem a Breve História da Ficção Chinesa, a primeira história sistemática da ficção chinesa. A obra ajudou a firmar romances como O Sonho da Câmara Vermelha e Jornada ao Oeste como objetos de estudo acadêmico.

Ele traduziu muitas obras, sobretudo do russo e do japonês, incluindo Almas Mortas, de Gógol. Defendia uma “tradução dura”, deliberadamente literal, que preservasse as estruturas das frases estrangeiras, pois acreditava que a própria língua chinesa precisava ser enriquecida por novas formas de expressão. Na década de 1930, também apoiou jovens artistas do movimento de xilogravura, reuniu gravuras europeias e organizou oficinas.

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Intermediário

Política, Xangai e os últimos anos

Em 1925 e 1926, Lu Xun envolveu-se em conflitos na Escola Normal Feminina de Pequim, onde lecionava, e apaixonou-se por uma de suas alunas, Xu Guangping. Após o massacre de 18 de março de 1926, quando tropas do governo atiraram contra estudantes manifestantes em Pequim e mataram duas de suas alunas, escreveu o ensaio “Em Memória da Senhorita Liu Hezhen”. Mais tarde naquele ano, deixou Pequim e lecionou por pouco tempo em Xiamen e depois na Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou.

Em 1927, o Partido Nacionalista (Kuomintang), sob Chiang Kai-shek, voltou-se violentamente contra seus aliados comunistas. Horrorizado com o assassinato de jovens, Lu Xun deixou Guangzhou e se estabeleceu em Xangai com Xu Guangping. O filho dos dois, Zhou Haiying, nasceu em 1929. Em Xangai, ele viveu de escrever e editar, mudando-se várias vezes para evitar o perigo.

Nessa época, leu teoria literária marxista e se aproximou da esquerda. Em 1930, tornou-se uma figura de destaque na Liga dos Escritores de Esquerda, alinhada ao Partido Comunista. Em 1931, vários jovens escritores que conhecia foram executados pelas autoridades nacionalistas, e ele escreveu sobre eles com indignação. Ainda assim, nunca ingressou no Partido Comunista e teve duras disputas com dirigentes literários da Liga ligados ao partido, que acusava de intimidação burocrática.

Lu Xun sofria de tuberculose havia muito tempo e fumava muito. Morreu em Xangai em 19 de outubro de 1936, aos 55 anos. Milhares de pessoas compareceram a seu funeral, e seu caixão foi coberto por uma faixa com os dizeres “Alma da Nação”. Está sepultado num túmulo no Parque Lu Xun (antigo Parque Hongkou), em Xangai, perto de um museu dedicado a ele.

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Intermediário

Influência e legado na China e no Leste Asiático

Após sua morte, Lu Xun passou a ser reivindicado pelo Partido Comunista Chinês. Em 1940, Mao Zedong escreveu que ele não era apenas um grande escritor, mas também “um grande pensador e um grande revolucionário”, avaliação que se tornou a visão oficial na República Popular da China. Suas obras foram amplamente ensinadas e, durante a Revolução Cultural, sua voz foi uma das pouquíssimas vozes literárias modernas permitidas. Essa veneração oficial podia fazê-lo parecer um monumento, em vez do escritor independente e cheio de dúvidas que havia sido.

Em Taiwan, durante o período de lei marcial, suas obras foram restringidas por décadas por causa da associação com a esquerda. Após a abertura política, também passaram a ser lidas livremente ali. Na China continental de hoje, suas histórias continuam presentes nos livros escolares, embora a quantidade e a escolha dos textos sejam motivo de debate.

Lu Xun teve especial importância no Japão e na Coreia. No Japão, o livro Lu Xun (1944), do crítico Takeuchi Yoshimi, fez dele um modelo para pensar como as sociedades asiáticas poderiam resistir à modernidade ocidental e incorporá-la. Lu Xun continua muito lido no país, e “Senhor Fujino” já apareceu em livros escolares japoneses. Na Coreia, suas histórias foram traduzidas e debatidas desde o período colonial, e muitos intelectuais coreanos viram em sua luta contra a tradição e o imperialismo uma situação semelhante à sua.

No cenário internacional, as traduções de Yang Xianyi e Gladys Yang, William Lyell e Julia Lovell fizeram dele um dos escritores chineses mais lidos. Escritores de muitos países o citaram como exemplo de uma literatura que une inovação artística e seriedade moral.

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Avançado

Debates de interpretação

Revolucionário ou cético? A interpretação maoista apresentou a vida de Lu Xun como uma trajetória do evolucionismo ao marxismo e do individualismo ao coletivismo. Estudiosos fora do quadro oficial destacaram, em vez disso, suas dúvidas, seu desespero e sua ironia. Em Vozes da Casa de Ferro (1987), Leo Ou-fan Lee o interpreta como um modernista cujos conflitos interiores, visíveis em Ervas Selvagens, não podem ser reduzidos a um programa político. Na década de 1980, pesquisadores da China continental também passaram a ressaltar seu individualismo e a influência de pensadores como Nietzsche sobre ele.

Caráter nacional. A crítica de Lu Xun ao “caráter nacional” (guominxing) dos chineses foi um tema central de sua obra. Alguns estudiosos, especialmente Lydia H. Liu em Prática Translingual (1995), argumentaram que esse modo de pensar veio em parte de textos de missionários ocidentais, sobretudo de Chinese Characteristics, de Arthur Smith, que Lu Xun leu em tradução japonesa. Eles perguntam até que ponto sua crítica reproduzia estereótipos estrangeiros. Outros respondem que ele transformou essas ideias em instrumento de autocrítica voltado à mudança social.

Avaliação literária. O crítico C. T. Hsia, em Uma História da Ficção Chinesa Moderna (1961), admirava os melhores contos de Lu Xun, mas argumentava que seus escritos polêmicos posteriores limitaram sua arte. Seus defensores veem os ensaios como uma nova forma literária, adequada a uma época de crise. A afirmação de que “Diário de um Louco” foi o primeiro conto chinês moderno em língua vernácula também foi relativizada por estudiosos que apontam experiências anteriores, inclusive de escritoras como Chen Hengzhe.

Tradução e linguagem. A “tradução dura” de Lu Xun e sua combinação de linguagem clássica e vernácula foram reavaliadas por estudiosos da tradução. Eles veem nessas escolhas uma estratégia deliberada para fazer os leitores chineses sentir o caráter estrangeiro de novas ideias, em vez de assimilá-las sem dificuldade.

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Avançado

Fontes biográficas e sua confiabilidade

Grande parte do que sabemos sobre o início da vida de Lu Xun vem de seus próprios escritos: o prefácio de Grito de Alerta, as memórias em Flores do Amanhecer Colhidas ao Anoitecer e esboços autobiográficos. São textos literários cuidadosamente elaborados, escritos anos depois dos acontecimentos. A história da imagem projetada, por exemplo, é contada de maneiras diferentes em relatos distintos, e pesquisadores em Sendai não identificaram uma imagem que corresponda exatamente à descrição. Por isso, muitos estudiosos a tratam como uma versão condensada ou simbólica de sua decisão de se dedicar à literatura, e não como um registro preciso.

Outras fontes importantes são seus diários, mantidos de 1912 a 1936; sua extensa correspondência, incluindo as cartas trocadas com Xu Guangping, publicadas como Cartas Entre Dois (1933); e memórias de familiares, amigos e alunos. Seu irmão Zhou Zuoren escreveu lembranças detalhadas da infância que compartilharam e dos anos em Tóquio. Porém, os dois romperam relações em 1923 por razões que nenhum deles explicou publicamente. Mais tarde, Zhou Zuoren colaborou com a ocupação japonesa, o que afetou a maneira como seu testemunho foi recebido.

Depois de 1949, as biografias publicadas na República Popular da China foram moldadas pela imagem oficial de Lu Xun como revolucionário. Por isso, certos episódios foram enfatizados e outros receberam menos atenção. As Obras Completas (Lu Xun quanji) saíram em várias edições anotadas desde a primeira, de 1938, e as próprias notas refletem mudanças nas avaliações políticas.

Assim, os estudos atuais examinam a vida de Lu Xun por meio de várias camadas: a imagem que ele construiu de si mesmo, as lembranças marcadas pelas posições de quem o cercava e o processo posterior que o consagrou como autor de referência. Distinguir essas camadas ajuda a compreender tanto o escritor quanto a história da China moderna.

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Ideias principais

Literatura como cura
Lu Xun abandonou a medicina porque acreditava que primeiro era preciso transformar o espírito de um povo, e que a ficção podia despertá-lo.
A casa de ferro
Sua imagem de pessoas adormecidas numa casa fechada: acordá-las traz sofrimento, mas talvez também a esperança de escapar.
“Comer gente”
Em “Diário de um Louco”, a antiga ordem moral é revelada como um sistema em que as pessoas devoram umas às outras.
Vitória espiritual
O hábito de Ah Q de transformar toda derrota numa vitória imaginária, numa sátira ao autoengano.
Crítica ao caráter nacional
Sua crítica constante à apatia, à preocupação em salvar as aparências e à crueldade tinha o objetivo de mudar a sociedade, não de desprezá-la.
Zawen
O ensaio curto e combativo que ele desenvolveu como uma importante forma literária.
Tradução dura
Tradução literal que preserva estruturas estrangeiras para enriquecer o chinês com novas formas de pensar.

Registros

  1. 1881 — Nasce com o nome Zhou Zhangshou em Shaoxing, Zhejiang, em 25 de setembro.
  2. 1893 — Seu avô é preso por tentar subornar um funcionário responsável pelos exames imperiais; a situação da família piora.
  3. 1898 — Ingressa na Academia Naval de Jiangnan, em Nanquim; adota o nome Zhou Shuren.
  4. 1902 — Vai ao Japão com uma bolsa do governo.
  5. 1904 — Ingressa na Escola de Medicina de Sendai; deixa o curso em 1906 para se dedicar à literatura.
  6. 1912 — Ingressa no Ministério da Educação da República da China e se muda para Pequim.
  7. 1918 — “Diário de um Louco” é publicado em Nova Juventude sob o pseudônimo Lu Xun.
  8. 1921 — Começa a publicação em capítulos de “A Verdadeira História de Ah Q” (dezembro de 1921 a fevereiro de 1922).
  9. 1923 — É publicada Grito de Alerta, sua primeira coletânea de contos; rompe com seu irmão Zhou Zuoren.
  10. 1926 — É publicada Hesitação; após o massacre de 18 de março, deixa Pequim e vai para Xiamen.
  11. 1927 — Muda-se para Guangzhou e depois se estabelece em Xangai com Xu Guangping.
  12. 1930 — Torna-se um dos principais membros da Liga dos Escritores de Esquerda.
  13. 1936 — Morre em Xangai em 19 de outubro.

Glossário

Baihua
Chinês vernáculo escrito, próximo da fala cotidiana, promovido pelo Movimento da Nova Cultura em lugar do chinês clássico.
Chinês clássico (wenyan)
Antiga língua escrita usada durante dois mil anos em textos oficiais e literários.
Movimento da Nova Cultura
Movimento das décadas de 1910 e 1920 que criticava a tradição confucionista e promovia a ciência, a democracia e a literatura em língua vernácula.
Movimento Quatro de Maio
Protestos liderados por estudantes a partir de 4 de maio de 1919 e, em sentido mais amplo, o período de reformas culturais ligado a eles.
Nova Juventude
Revista editada por Chen Duxiu na qual “Diário de um Louco” foi publicado.
Zawen
Ensaios curtos, satíricos ou críticos, sobre acontecimentos da época.
Trança
Longa trança que os homens chineses da etnia han eram obrigados a usar durante a dinastia Qing.
Liga dos Escritores de Esquerda
Associação de escritores de esquerda fundada em Xangai em 1930.
Pseudônimo
Nome que um autor usa em vez do próprio nome.

Perguntas e respostas

Por que Lu Xun parou de estudar medicina?

Ele escreveu que uma imagem projetada de chineses observando uma execução o convenceu de que transformar o espírito das pessoas era mais importante do que curar seus corpos, e de que a literatura podia fazer isso.

“Diário de um Louco” é uma história de terror?

A história usa uma ideia assustadora, o canibalismo, mas é uma alegoria: “comer gente” representa a crueldade escondida na moral tradicional.

Quem é Ah Q?

Um aldeão pobre e sem instrução que sempre se convence de que venceu, mesmo quando apanha. Ele se tornou um símbolo do autoengano.

Lu Xun era comunista?

Ele se aproximou da esquerda e liderou a Liga dos Escritores de Esquerda, mas nunca ingressou no Partido Comunista e discutiu com dirigentes ligados ao partido. O Partido o homenageou após sua morte.

A história da imagem projetada é verdadeira?

O próprio Lu Xun a contou, mas a imagem exata não foi encontrada e os detalhes variam entre os relatos. Por isso, muitos estudiosos a veem como uma reconstrução literária de um momento real de mudança.

Por que ele ainda é importante?

Ele criou uma nova forma de ficção chinesa em língua vernácula e se tornou um modelo de escritor que critica a sociedade com independência. Suas histórias continuam importantes na China e são lidas no mundo todo.

O que Lu Xun escreveu além de histórias?

Ensaios, poemas em prosa, memórias, poemas em estilo clássico, uma história da ficção chinesa e muitas traduções.

Fontes e leituras adicionais

  1. Lu Xun. Wikipedia
  2. 루쉰. Korean Wikipedia
  3. Diary of a Madman (Lu Xun). Wikipedia
  4. The True Story of Ah Q. Wikipedia
  5. New Culture Movement. Wikipedia
  6. League of Left-Wing Writers. Wikipedia
  7. Leo Ou-fan Lee, Voices from the Iron House: A Study of Lu Xun. Indiana University Press, 1987
  8. Lu Xun, translated by Julia Lovell, The Real Story of Ah-Q and Other Tales of China: The Complete Fiction of Lu Xun. Penguin Classics, 2009
  9. Lydia H. Liu, Translingual Practice: Literature, National Culture, and Translated Modernity—China, 1900–1937. Stanford University Press, 1995

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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