Filosofia

Adi Shankara

आदि शङ्कराचार्य (Ādi Śaṅkarācārya)

c. 788–820 d.C. · Kalady (Kerala)

Em uma frase

Adi Shankara foi um mestre indiano, provavelmente do século VIII, que explicou antigas escrituras hindus para mostrar que nosso eu mais profundo e a realidade única por trás de todo o universo, chamada Brahman, não são coisas diferentes.

Adi Shankara
Imagem: Raja Ravi Varma · Public domain · Wikimedia Commons

Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.

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Para jovens leitores

Imagine que você está voltando para casa ao anoitecer e vê uma cobra no caminho. Você pula para trás, assustado. Então alguém traz uma lamparina, e você percebe que era só uma corda enrolada. A cobra nunca esteve lá. Shankara usava essa história para explicar que também podemos nos enganar sobre nós mesmos e o mundo.

Shankara ensinava que existe uma realidade por trás de tudo. As escrituras hindus a chamam de Brahman. Ele também dizia que seu verdadeiro eu, lá no fundo, chamado atman, é essa mesma realidade. Achamos que estamos separados de tudo porque não enxergamos com clareza, como a pessoa que vê uma cobra no lugar de uma corda.

Segundo as histórias, Shankara nasceu numa aldeia chamada Kalady, em Kerala, no sul da Índia. Seu pai morreu quando ele era pequeno. Quando menino, quis se tornar monge: alguém que deixa a casa e seus bens para buscar sabedoria. Uma história conta que um crocodilo agarrou sua perna num rio e só a soltou quando sua mãe concordou que ele poderia ser monge.

Shankara escreveu explicações longas, chamadas comentários, sobre livros sagrados muito antigos, como as Upanixades e o Bhagavad Gita. Segundo as histórias, ele viajou a pé por toda a Índia, debateu com outros pensadores, ensinou alunos e morreu jovem, aos 32 anos.

Hoje, muitos hindus respeitam Shankara como um grande mestre. Mosteiros de várias partes da Índia dizem que ele os fundou. Mas os historiadores têm cuidado com essas histórias: a maioria foi escrita centenas de anos depois de sua morte.

Em resumo

Época em que viveu
É controversa. A cronologia tradicional é 788–820 d.C.; muitos estudiosos atuais preferem a primeira metade do século VIII (c. 700–750). Linhagens monásticas situam sua vida no século V a.C., datação que os historiadores não aceitam.
Local de nascimento (segundo a tradição)
Kalady, às margens do rio Periyar, no atual estado de Kerala, Índia (uma hagiografia indica Chidambaram)
Idioma
Sânscrito
Escola
Advaita Vedanta (Vedanta «não dual»), uma das escolas de filosofia hindu baseadas nas Upanixades
Ensinamento central
O eu individual (ātman) é idêntico a Brahman, a realidade suprema e única; a experiência de separação resulta da ignorância (avidyā)
Principais obras (geralmente aceitas)
Comentário sobre os Brahma Sutras (Brahmasūtrabhāṣya); comentários sobre as principais Upanixades; comentário sobre o Bhagavad Gita; Upadeśasāhasrī («Mil ensinamentos»)
Mestre (segundo a tradição)
Govinda Bhagavatpada, que teria sido discípulo de Gaudapada
Morte (segundo a tradição)
Por volta dos 32 anos; Kedarnath, no Himalaia, é o local citado com mais frequência, mas as tradições divergem

Fácil

Quem foi Adi Shankara?

Adi Shankara (Ādi Śaṅkara, «o primeiro Shankara») é o mestre mais famoso do Advaita Vedanta, uma escola de filosofia hindu. A palavra advaita significa «não dois», e a escola ensina que a realidade é, em última análise, una: o eu mais profundo de cada ser vivo não é diferente de Brahman, o fundamento infinito de tudo. Ele é frequentemente chamado de Shankaracharya, «Shankara, o mestre». O título «Adi» o distingue dos dirigentes posteriores de mosteiros que também recebem o título de Shankaracharya.

Shankara escreveu em sânscrito, a língua clássica do saber indiano. Ele não apresentava suas ideias como invenções novas. Em vez disso, escreveu comentários (bhāṣya) que explicam o sentido de textos sagrados mais antigos: as Upanixades, o Bhagavad Gita e os Brahma Sutras. Na tradição indiana, esses três conjuntos de textos são chamados prasthānatraya, os «três pontos de partida» do Vedanta, e esperava-se que todo mestre importante dessa escola os explicasse.

O que sabemos com segurança sobre Shankara vem principalmente dessas obras. As histórias sobre sua infância, suas viagens e seus debates vêm de biografias escritas séculos depois. Assim, há dois Shankaras a conhecer: o filósofo que fala por meio de seus comentários e o santo e herói lembrado nas lendas e nas práticas religiosas atuais.

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Fácil

Sua vida segundo a tradição

Segundo as biografias tradicionais, Shankara nasceu numa família de brâmanes nambudiri em Kalady, uma aldeia às margens do rio Periyar, em Kerala. A tradição diz que seus pais se chamavam Shivaguru e Aryamba. Seu pai morreu quando ele era pequeno, e sua mãe cuidou de sua educação. Diz-se que ele dominou os Vedas ainda menino.

A história mais famosa de sua infância conta que Shankara tomava banho no rio quando um crocodilo agarrou sua perna. Ele gritou para a mãe que morreria se ela não permitisse que renunciasse à vida comum e se tornasse um sannyāsin, um monge itinerante. Ela concordou, o crocodilo o soltou e Shankara saiu de casa, prometendo voltar quando ela estivesse morrendo. Segundo as histórias, ele cumpriu a promessa e realizou pessoalmente os ritos funerários da mãe, embora não se esperasse que monges fizessem isso.

Shankara viajou então para o norte e encontrou seu mestre, Govinda Bhagavatpada, que, segundo a versão mais comum, vivia às margens do rio Narmada. Govinda teria sido discípulo de Gaudapada, um pensador anterior do Advaita. Depois dos estudos, Shankara foi a Varanasi (Kashi), cidade sagrada às margens do Ganges, onde começou a ensinar e escrever e reuniu discípulos. Quatro deles se tornaram famosos: Padmapada, Sureshvara, Hastamalaka e Totaka.

As biografias descrevem então uma digvijaya, uma «conquista das direções»: Shankara atravessa a Índia, da Caxemira ao extremo sul e de Gujarat a Bengala, vencendo budistas, jainistas, defensores dos rituais e seguidores de escolas hindus rivais em debates públicos. Ele funda mosteiros e morre jovem, por volta dos 32 anos. Vários lugares afirmam ter sido o local de sua morte, mas Kedarnath, um centro de peregrinação no Himalaia, é o mais citado.

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Fácil

A ideia central: o eu e o universo são um só

O ensinamento central de Shankara pode ser expresso de forma simples. Existe apenas uma realidade suprema: Brahman. É ser puro, consciência pura e bem-aventurança pura, sem partes e sem mudança. Seu eu mais íntimo, o ātman, a consciência que observa seus pensamentos, não é uma pequena parte de Brahman. É Brahman.

Por que, então, nos sentimos pessoas separadas num mundo cheio de coisas separadas? Segundo Shankara, isso acontece por causa da avidyā, a ignorância, uma espécie de equívoco fundamental. Confundimos o verdadeiro eu com coisas que não são o eu: o corpo, os sentidos, a mente e seus estados de ânimo. Ele chamou essa confusão de adhyāsa, «sobreposição», como quando vemos a imagem de uma cobra numa corda.

Para Shankara, o objetivo da vida é a mokṣa, a libertação do ciclo de nascimento e morte. Ela não vem de praticar mais boas ações nem de realizar mais rituais, pois as ações só podem produzir novos resultados dentro do mundo sujeito a mudanças. A libertação vem do conhecimento (jñāna): a compreensão direta, despertada pelos ensinamentos das Upanixades, de que «eu sou Brahman». Quando a corda é vista com clareza, o medo da cobra simplesmente desaparece.

Shankara dava especial importância a certas frases curtas das Upanixades, mais tarde chamadas de «grandes enunciados» (mahāvākya). Uma delas é «Tu és isso» (tat tvam asi), da Chandogya Upanixade, em que um pai ensina ao filho que a essência sutil de todas as coisas é seu próprio eu. Outra é «Eu sou Brahman» (ahaṃ brahmāsmi), da Brihadaranyaka Upanixade.

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Intermediário

A Índia na época de Shankara

Se Shankara viveu no século VIII, como pensa a maioria dos estudiosos, atuou num subcontinente dividido entre reinos regionais, como os Chalukya e os Pallava no sul e os Pratihara e os Pala no norte. Era uma época de grandes templos, patrocínio real ao saber e intensa disputa de ideias entre comunidades religiosas.

O budismo ainda era uma importante força intelectual. Os grandes filósofos budistas Nagarjuna, Dignaga e Dharmakirti haviam desenvolvido argumentos contra a existência de um eu permanente e contra a autoridade dos Vedas. Os pensadores jainistas também apresentavam argumentos elaborados. Dentro da tradição bramânica, a escola Mīmāṃsā, cuja principal figura, Kumarila Bhatta, viveu no século VII, defendia que o Veda era essencialmente um conjunto de prescrições para a prática ritual.

Ao mesmo tempo, cresciam os movimentos devocionais (bhakti) dedicados a Shiva e Vishnu, especialmente na região tâmil, e se difundiam novas formas de prática tântrica. Os escritos de Shankara respondem a esse ambiente. Ele argumentou contra budistas, jainistas e filósofos das escolas Sankhya e Nyaya e, sobretudo, contra os defensores dos rituais da Mimamsa, insistindo que a verdadeira finalidade do Veda é o conhecimento de Brahman, e não o ritual.

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Intermediário

Como funciona o Advaita: níveis de realidade, maya e libertação

Se apenas Brahman é real, qual é a condição do mundo que vemos? O Advaita responde com uma teoria de níveis. Do ponto de vista supremo (pāramārthika), só Brahman existe. Do ponto de vista cotidiano ou prático (vyāvahārika), o mundo das pessoas, dos deuses, dos rios e dos deveres é válido e deve ser levado a sério. Abaixo dele está o nível meramente ilusório (prātibhāsika), como os sonhos ou a cobra vista numa corda. Pensadores posteriores do Advaita sistematizaram esses três níveis; o próprio Shankara trabalha principalmente com a distinção entre a verdade suprema e a experiência comum.

Assim, o mundo não é simplesmente real nem simplesmente irreal. Pensadores posteriores do Advaita o chamaram de anirvacanīya, «indescritível» como existente ou inexistente. O termo māyā, muitas vezes traduzido por «ilusão», designa o poder pelo qual o uno aparece como múltiplo. Shankara usa essa palavra com menos frequência que autores posteriores e prefere falar da avidyā, a ignorância, como causa de nossa condição de aprisionamento. Brahman não se transforma realmente no mundo, como o leite se transforma em coalhada; apenas aparece como mundo, assim como a corda parece uma cobra. Autores posteriores chamam isso de vivarta, «transformação aparente».

Isso permitiu a Shankara preservar o lugar da vida religiosa comum. O culto a um Deus pessoal (Īśvara), os deveres éticos e os rituais são reais e úteis no nível prático: purificam a mente e a preparam para o conhecimento. Mas, por si só, não trazem a libertação. Para quem estivesse preparado, Shankara recomendava a renúncia e o estudo disciplinado das Upanixades sob a orientação de um mestre: escuta (śravaṇa), reflexão (manana) e contemplação profunda (nididhyāsana).

Uma característica marcante do Advaita é a ideia de jīvanmukti, a libertação ainda em vida. Depois que o conhecimento surge, a pessoa liberta pode continuar a viver, agir e ensinar até a morte do corpo, como a roda de um oleiro que continua girando por algum tempo depois que ele para de impulsioná-la. Essa imagem é tradicional na literatura do Advaita.

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Intermediário

Seus escritos: quais são autênticos?

Mais de trezentos textos foram atribuídos a Shankara, de densos comentários filosóficos a belos hinos devocionais. A maioria dos estudiosos considera autêntico apenas um pequeno grupo. Sua obra central é o Brahmasūtrabhāṣya, comentário sobre os Brahma Sutras de Badarayana, uma coleção de aforismos muito breves que resumem os ensinamentos das Upanixades. Sua famosa discussão inicial sobre a sobreposição (adhyāsa) é uma das passagens clássicas da filosofia indiana.

Seus comentários sobre as principais Upanixades também são aceitos, embora os estudiosos divirjam quanto a alguns deles; os comentários sobre as Upanixades Brihadaranyaka e Taittiriya são os mais seguramente atribuídos a ele. O comentário sobre o Bhagavad Gita é amplamente aceito. O Upadeśasāhasrī («Mil ensinamentos»), que combina prosa e versos para explicar como um mestre deve orientar um aluno, é o único tratado independente cuja autoria quase todos os estudiosos lhe atribuem.

Muitas obras famosas são hoje consideradas posteriores. A autoria do Vivekacūḍāmaṇi («Joia suprema do discernimento»), muito apreciado pelos leitores atuais, é questionada pela maioria dos especialistas. Hinos populares como o Bhaja Govindam e o Saundaryalahari são tradicionalmente atribuídos a Shankara, mas sua autoria é incerta ou rejeitada. O indólogo alemão Paul Hacker e o estudioso japonês Sengaku Mayeda desenvolveram critérios baseados no vocabulário, na doutrina e nos títulos usados nos colofões dos manuscritos para avaliar quais obras são autênticas. Sua abordagem continua influente, embora ainda seja debatida.

A questão é importante. Boa parte da imagem popular de Shankara como poeta devocional dedicado à deusa ou a Vishnu, ou como mestre de ioga e tantra, se apoia em obras de autoria discutida. O Shankara dos comentários seguramente autênticos é, acima de tudo, um intérprete rigoroso das escrituras e um debatedor.

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Intermediário

Debates com budistas, defensores dos rituais e outros pensadores

Os comentários de Shankara estão repletos de argumentos contra outras escolas. Contra o Sankhya, ele sustentou que a matéria inconsciente não pode ser a causa de um mundo ordenado. Contra os budistas, criticou tanto a posição Yogacara, segundo a qual só existe a consciência, quanto a posição Madhyamaka, segundo a qual tudo é vazio. Ele defendia a existência de uma consciência testemunha, permanente e que ilumina a si mesma, que nenhum argumento pode negar, pois todo argumento já a pressupõe.

Sua divergência mais intensa dentro da tradição védica era com a Mimamsa, segundo a qual o Veda trata da ação, especialmente do ritual. Shankara concordava que a parte ritual do Veda prescreve ações, mas argumentava que as Upanixades, o «fim do Veda» (vedānta), revelam uma realidade que já existe, Brahman, e que não pode ser produzida por nenhuma ação. Conhecê-la é, portanto, a finalidade mais elevada do Veda.

A lenda mais famosa da digvijaya descreve um debate com Mandana Mishra, grande estudioso da Mimamsa, julgado por Ubhaya Bharati, a erudita esposa de Mandana. Após a derrota, Mandana se torna monge e discípulo de Shankara com o nome Sureshvara. Os historiadores duvidam dessa história. Mandana foi um pensador real e importante que escreveu uma obra do Advaita, o Brahmasiddhi, tão influente quanto os escritos de Shankara nos séculos seguintes; há muitas dúvidas de que ele e Sureshvara tenham sido a mesma pessoa.

Ironicamente, críticos hindus posteriores, sobretudo teólogos vaishnavas, acusaram Shankara de ser um «budista disfarçado» (pracchanna bauddha), porque sua ideia de um mundo que, em última análise, não é real parecia próxima dos ensinamentos budistas. Muitos estudiosos identificam uma influência real de Gaudapada, cujos versos sobre a Mandukya Upanixade empregam vocabulário budista. Os seguidores do Advaita respondem que a diferença é fundamental: o budismo nega um eu permanente, enquanto o Advaita afirma que o eu é a única realidade.

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Intermediário

Mosteiros, seguidores e influência posterior

Segundo a tradição, Shankara fundou quatro grandes mosteiros (maṭha) nos quatro extremos da Índia: Sringeri, no sul; Dvaraka, no oeste; Puri, no leste; e Jyotirmath, perto de Badrinath, no norte. Um quinto mosteiro, em Kanchipuram, também afirma ter sido fundado por ele. Os dirigentes dessas instituições recebem o título de Shankaracharya e continuam sendo importantes líderes religiosos. A ele também se atribui a organização das ordens Dashanami («dez nomes») de monges renunciantes.

Os historiadores tratam essas afirmações com cautela. As primeiras evidências firmes desse sistema são muito posteriores, e o estudioso alemão Paul Hacker argumentou que ele tomou forma no século XIV, em ligação com Vidyaranya, monge erudito de Sringeri e conselheiro dos governantes do império de Vijayanagara. É certo que, nesse período e depois dele, a fama de Shankara cresceu enormemente. A hagiografia mais lida, o Śaṅkaradigvijaya atribuído a Madhava, foi composta nesse contexto posterior.

Os discípulos de Shankara e seus sucessores construíram uma rica tradição de estudos. Surgiram duas principais correntes: a escola Bhamati, assim chamada por causa do comentário de Vachaspati Mishra, do século IX ou X, e a escola Vivarana, baseada numa obra de Prakashatman que desenvolve o comentário de Padmapada. Elas debatiam questões como o lugar da ignorância: no eu individual ou em Brahman.

O Advaita também provocou respostas vigorosas. Ramanuja (tradicionalmente, 1017–1137) fundou o Vishishtadvaita, «não dualismo qualificado», segundo o qual o mundo e as almas são partes reais de um Deus pessoal. Madhva (século XIII) fundou o Dvaita, «dualismo», que afirma uma diferença real e eterna entre Deus, as almas e a matéria. Grande parte da filosofia indiana posterior dialoga com Shankara, concordando com ele ou se opondo a suas ideias.

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Intermediário

Shankara no mundo moderno

Nos séculos XIX e XX, o Advaita Vedanta ganhou novo destaque. Orientalistas ocidentais como Paul Deussen e Max Müller o admiravam como um equivalente da filosofia idealista europeia. Reformadores indianos, sobretudo Swami Vivekananda, apresentaram um «neovedanta» modernizado como o núcleo filosófico do hinduísmo e uma espiritualidade universal. Sarvepalli Radhakrishnan, filósofo e, mais tarde, presidente da Índia, escreveu sobre Shankara para leitores do mundo todo.

Essa imagem moderna deu ao Advaita um lugar na filosofia mundial e inspirou escritores, cientistas e pessoas em busca de caminhos espirituais muito além da Índia. Às vezes, porém, também criou a impressão de que o Advaita é a única filosofia hindu «verdadeira», embora, historicamente, a maioria dos hindus tenha seguido tradições devocionais e teístas, muitas das quais discordavam fortemente de Shankara.

Shankara continua presente na vida religiosa. Peregrinos visitam Kalady e os mosteiros ligados a ele; hinos atribuídos a ele são cantados; e, nos últimos anos, grandes estátuas suas foram inauguradas em Kedarnath (2021) e perto de Omkareshwar, às margens do Narmada (2023). Como ocorre com muitos heróis nacionais, os historiadores observam que a imagem moderna de Shankara é moldada pelas necessidades do presente e pelo passado.

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Avançado

O problema da datação e a confiabilidade das biografias

Nenhuma inscrição ou documento da época menciona Shankara. Suas datas de nascimento e morte precisam, portanto, ser inferidas. A cronologia tradicional de 788–820 d.C. foi proposta pelo estudioso neerlandês Cornelis Tiele no século XIX e aceita por Max Müller, Paul Deussen e muitos outros. Foi a datação padrão durante a maior parte do século XX e ainda é amplamente citada.

Estudos mais recentes tendem a situar Shankara na primeira metade do século VIII (aproximadamente 700–750). Esse raciocínio combina um limite inicial e um limite final. Shankara discute e critica pensadores budistas e da Mimamsa dos séculos VI e VII, inclusive posições associadas a Dharmakirti, de modo que não pode ter vivido antes de cerca de 650. Vachaspati Mishra, que escreveu um subcomentário sobre o Brahmasūtrabhāṣya de Shankara, costuma ser situado no século IX ou X, o que fornece um limite final. A cronologia relativa de Mandana Mishra e Shankara também é relevante. Hajime Nakamura foi um dos estudiosos que defenderam uma data no início do século VIII.

Os próprios mosteiros preservam listas de sucessão que situam Shankara no século V ou até no século VI a.C.; algumas linhagens indicam um ano exato, como 509 a.C. Essas datas pertencem à tradição religiosa e não são aceitas pelos historiadores, em parte porque Shankara cita e refuta autores que viveram mais de mil anos depois.

As biografias (Śaṅkaravijaya ou Śaṅkaradigvijaya) apresentam outro problema. São conhecidas cerca de catorze. Foram escritas aproximadamente de duzentos a mil anos depois de Shankara e se contradizem em muitos pontos: onde ele nasceu, onde morreu, com quem debateu e quais templos fundou. O Madhaviya Shankaradigvijaya, o mais influente, costuma ser datado do século XIV ou de uma época posterior. Uma versão de Anandagiri parece reunir histórias sobre várias pessoas diferentes chamadas Shankara. Os historiadores usam esses textos principalmente como provas de como comunidades posteriores lembravam Shankara e recorriam à sua figura.

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Avançado

Debates nos estudos atuais

Qual foi a importância de Shankara em sua própria época? A ideia moderna de que ele foi a figura dominante do pensamento indiano tem sido questionada. Estudiosos como Richard King observaram que outros filósofos dos séculos IX e X raramente o mencionam e que o Brahmasiddhi de Mandana Mishra parece ter sido pelo menos tão influente quanto seus textos no início do Advaita. Segundo essa interpretação, a posição dominante de Shankara resulta em parte de acontecimentos posteriores, especialmente da atividade institucional e literária do século XIV e do entusiasmo do neovedanta moderno.

Shankara considerava o mundo uma ilusão? Estudos ocidentais mais antigos frequentemente descreviam o Advaita como «ilusionismo», interpretando māyā como uma negação absoluta do mundo. Vários estudiosos, entre eles Paul Hacker, argumentaram que essa leitura deve mais ao Advaita posterior do que ao próprio Shankara, que usa o termo māyā com moderação e fala principalmente de ignorância e sobreposição. Outros identificam uma continuidade real entre Shankara e seus sucessores. A questão afeta a maneira como entendemos o valor que ele atribui ao mundo prático e à ética.

Filósofo ou teólogo? Alguns intérpretes leem Shankara principalmente como um filósofo que argumenta a partir da experiência, em especial da inegável consciência testemunha presente na vigília, no sonho e no sono profundo. Outros, incluindo estudiosos da linha de Hacker, ressaltam que, para Shankara, o conhecimento libertador surge apenas das escrituras (śruti) ensinadas por um mestre, o que faz dele, antes de tudo, um intérprete de textos. Suas relações com o budismo, com Gaudapada e com Mandana continuam sendo temas de pesquisa.

A base textual desses debates ainda está sendo aprimorada. Faltam edições críticas de muitas obras atribuídas a Shankara, e os critérios de autenticidade desenvolvidos por Hacker e Mayeda, baseados na terminologia e nos colofões, continuam sendo refinados e questionados. A Encyclopedia of Indian Philosophies, em vários volumes, organizada por Karl Potter, e a edição e tradução do Upadeśasāhasrī feitas por Mayeda são pontos de partida consagrados.

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Ideias principais

Não dualidade (advaita)
Em última análise, a realidade é una; o eu e Brahman não são dois.
Brahman
A realidade única, infinita e imutável, descrita como ser, consciência e bem-aventurança.
Atman (ātman)
O eu mais íntimo, ou consciência testemunha pura, idêntico a Brahman.
Ignorância e sobreposição
Confundimos o eu com o corpo e a mente (adhyāsa); essa ignorância (avidyā) está na origem do sofrimento e do renascimento.
Dois pontos de vista
O mundo é válido do ponto de vista prático, mas não é a realidade suprema.
Libertação pelo conhecimento
A mokṣa vem da compreensão, por meio dos ensinamentos das Upanixades, de que o eu é idêntico a Brahman; o ritual ou a ação, por si sós, não bastam.
Libertação em vida
Uma pessoa pode alcançar a libertação plena ainda em vida (jīvanmukti).

Registros

  1. c. 650 d.C. — Atuam o filósofo budista Dharmakirti e o pensador da Mimamsa Kumarila Bhatta; mais tarde, Shankara debate suas ideias.
  2. c. 700 d.C. — Início do período (c. 700–750) em que muitos estudiosos atuais situam a vida de Shankara.
  3. 788 d.C. — Data tradicional do nascimento de Shankara em Kalady (cronologia tradicional de 788–820).
  4. 820 d.C. — Data tradicional da morte de Shankara, por volta dos 32 anos.
  5. c. 900 d.C. — Vachaspati Mishra escreve o Bhamati, um subcomentário sobre o comentário de Shankara aos Brahma Sutras (datado do século IX ou X).
  6. c. 1100 — Ramanuja desenvolve o Vishishtadvaita, uma importante crítica teísta ao Advaita.
  7. c. 1250 — Madhva funda a escola Dvaita (dualista), contrária ao Advaita.
  8. c. 1380 — Vidyaranya dirige o mosteiro de Sringeri; a importância institucional e lendária de Shankara cresce sob o patrocínio de Vijayanagara.
  9. 1893 — Swami Vivekananda discursa no Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, difundindo pelo mundo uma interpretação moderna do Vedanta.
  10. 2021 — Uma estátua de Shankara é inaugurada em seu santuário funerário reconstruído, o samadhi, em Kedarnath.

Glossário

Vedanta
«Fim do Veda»: as Upanixades e as escolas filosóficas que as interpretam.
Upanixades
Textos filosóficos da parte final da literatura védica que discutem o eu e a realidade suprema.
Brahma Sutras
Coleção concisa de aforismos de Badarayana que resume os ensinamentos das Upanixades; texto fundamental do Vedanta.
Bhāṣya
Comentário que explica, linha por linha, um texto sagrado ou filosófico.
Māyā
O poder pelo qual a realidade una aparece como múltipla; frequentemente traduzido por «ilusão».
Mokṣa
Libertação do ciclo de nascimento, morte e renascimento.
Sannyāsin
Monge renunciante que deixou a casa, a família e os deveres rituais.
Maṭha
Mosteiro hindu e centro de estudos.
Mahāvākya
Um dos «grandes enunciados» das Upanixades, como «Tu és isso».
Mīmāṃsā
Escola que interpreta o Veda principalmente como um guia para a prática ritual.
Hagiografia
Biografia de um santo, muitas vezes com lendas, escrita para inspirar devoção.

Perguntas e respostas

Shankara achava que o mundo é falso?

Não exatamente. Ele dizia que o mundo é real o suficiente para a vida cotidiana e seus deveres, mas não é a verdade suprema. Em última análise, só Brahman é real, e o mundo é a forma como Brahman nos aparece quando não enxergamos com clareza.

Quando Shankara viveu?

Ninguém sabe ao certo. As datas tradicionais são 788–820 d.C., mas muitos estudiosos hoje preferem o início do século VIII, por volta de 700–750.

Ele realmente morreu aos 32 anos?

É o que dizem as biografias tradicionais, e essa informação é muito repetida. Mas essas biografias foram escritas séculos depois, e não é possível confirmar o relato.

Shankara fundou os quatro grandes mosteiros?

Segundo a tradição, sim, e os mosteiros o homenageiam como fundador. Muitos historiadores pensam que o sistema organizado de quatro mosteiros tomou forma mais tarde, especialmente no século XIV.

Ele escreveu o Vivekachudamani?

A maioria dos especialistas duvida disso. As obras atribuídas a ele com mais segurança são os comentários sobre os Brahma Sutras, várias Upanixades e o Bhagavad Gita, além do Upadeśasāhasrī.

Shankara foi influenciado pelo budismo?

Seus adversários o chamavam de budista disfarçado, e muitos estudiosos veem influência budista no Advaita anterior a ele, especialmente em Gaudapada. Mas Shankara argumentou vigorosamente contra ideias budistas, sobretudo contra a negação de um eu permanente.

Como o Advaita difere de outras escolas do Vedanta?

O Advaita afirma que o eu e Brahman são rigorosamente idênticos. O Vishishtadvaita de Ramanuja vê as almas e o mundo como partes reais de Deus, enquanto o Dvaita de Madhva afirma que Deus, as almas e a matéria são eternamente distintos.

Fontes e leituras adicionais

  1. Adi Shankara. Wikipedia
  2. Sangeetha Menon, Advaita Vedanta. Internet Encyclopedia of Philosophy
  3. Advaita Vedanta. Wikipedia
  4. Brahma Sutras. Wikipedia
  5. Maṇḍana Miśra. Wikipedia
  6. Gaudapada. Wikipedia
  7. Sringeri Sharada Peetham. Wikipedia
  8. Sengaku Mayeda, A Thousand Teachings: The Upadeśasāhasrī of Śaṅkara. University of Tokyo Press, 1979
  9. Karl H. Potter (ed.), Encyclopedia of Indian Philosophies, Vol. III: Advaita Vedānta up to Śaṃkara and His Pupils. Princeton University Press, 1981

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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