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Para jovens leitores
Há cerca de mil anos, existia no Japão uma cidade chamada Heian-kyō, que hoje é Quioto. O imperador morava lá com centenas de nobres que gostavam de poemas, música, roupas bonitas e festas para admirar a Lua. Uma das damas que serviam à imperatriz escreveu uma história tão longa que ela ocupa vários livros grossos. Essa dama ficou conhecida como Murasaki Shikibu.
A história é sobre um príncipe chamado Genji. Ele é tão bonito e talentoso que as pessoas o chamam de «Genji, o Resplandecente». Mas sua mãe morre quando ele é bem pequeno, e ele passa a vida procurando amor e pessoas que se pareçam com ela.
Genji escreve poemas, toca música, se apaixona, comete erros e até precisa ficar longe da capital por um tempo. Quando ele envelhece, a história continua. Ela acompanha seus filhos e netos, que têm seus próprios problemas.
Naquela época, as pessoas mandavam pequenos poemas umas às outras, como nós mandamos mensagens hoje. Os personagens do livro trocam quase 800 poemas curtos! Eles escolhem o papel, a cor da tinta e até uma flor para prender à carta.
O livro é especial porque mostra o que as pessoas sentem por dentro: tristeza, ciúme, solidão e alegria. Muita gente o considera um dos primeiros romances do mundo. No Japão, as pessoas ainda o leem e fazem desenhos, quadrinhos e filmes inspirados nele.
Em resumo
- Data
- Início do século XI; partes já circulavam em 1008, e a obra completa era conhecida por volta de 1021
- Lugar
- Heian-kyō (Quioto), capital do Japão no período Heian (794–1185)
- Autora
- Murasaki Shikibu (c. 973/978 – depois de c. 1014), dama de companhia da imperatriz Shōshi; a autoria dos últimos capítulos é debatida
- Idioma
- Japonês clássico, escrito principalmente em kana (hiragana)
- Forma
- Monogatari (narrativa em prosa) em 54 capítulos, com quase 800 poemas waka
- Estrutura
- A vida de Genji (capítulos 1–41), transição (42–44) e os capítulos de Uji, sobre a geração seguinte (45–54)
- Importância
- Obra central da literatura clássica japonesa; frequentemente considerada um dos primeiros romances do mundo
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O que é A História de Genji?
A História de Genji (Genji monogatari) é uma longa narrativa em prosa escrita no Japão no início do século XI, geralmente atribuída a uma mulher conhecida como Murasaki Shikibu. Acompanha a vida e os amores de Hikaru Genji («Genji, o Resplandecente»), filho de um imperador, e depois a vida da geração seguinte. Seus 54 capítulos, que ocupam bem mais de mil páginas nas traduções modernas, se passam entre os aristocratas da corte imperial em Heian-kyō, a atual Quioto.
A obra pertence ao gênero chamado monogatari, literalmente «relato de coisas», um tipo de narrativa escrita em japonês, em vez de chinês, que na época era o idioma do governo e dos estudos. Os monogatari anteriores eram muitas vezes curtos, fantásticos ou anedóticos, como O Conto do Cortador de Bambu. Genji transformou o gênero ao apresentar um grande elenco de personagens verossímeis que envelhecem, se lembram do passado e mudam ao longo de várias décadas.
O livro é famoso pela profundidade psicológica, pela atenção a pequenos gestos e estados de espírito e pelo sentimento melancólico da passagem do tempo. Contém quase 800 waka, poemas de 31 sílabas que as pessoas da corte usavam para comunicar sentimentos. Por essas razões, é frequentemente descrito como um dos primeiros romances do mundo, embora o próprio significado de «romance» seja objeto de debate.
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A história: o Príncipe Resplandecente e a geração seguinte
A narrativa começa com o amor de um imperador por uma consorte de posição modesta, a dama de Kiritsubo. Suas rivais a atormentam até que ela morre, deixando um filho pequeno. Temendo as facções da corte, o imperador torna o menino um plebeu com o sobrenome Minamoto — Genji significa «do clã Minamoto» — para que ele não se torne um instrumento nas disputas políticas. O menino cresce com talentos extraordinários e se apaixona por Fujitsubo, a nova consorte de seu pai, que se parece muito com sua mãe falecida. O filho secreto dos dois é criado como filho do imperador e mais tarde se torna o imperador Reizei.
A busca de Genji pelo amor o leva a muitos relacionamentos: com sua orgulhosa esposa Aoi, que morre após dar à luz, aparentemente atacada pelo espírito vivo da ciumenta dama Rokujō; com a frágil Yūgao, que morre misteriosamente em uma casa abandonada; e, acima de tudo, com Murasaki, a jovem sobrinha de Fujitsubo, que ele leva para sua casa ainda menina e mais tarde torna sua principal companheira. Depois de um escândalo, Genji é exilado para a costa solitária de Suma e Akashi. Lá conhece a dama de Akashi, cuja filha um dia se tornará imperatriz.
Genji volta ao poder e constrói uma vasta residência, a Rokujō-in, onde reúne as mulheres de sua vida. Mas seu casamento tardio com a jovem Terceira Princesa fere profundamente Murasaki. A princesa tem um caso com um jovem nobre, Kashiwagi, e dá à luz Kaoru. Ao criar um filho que não é seu, Genji reconhece nessa situação um eco de sua própria transgressão na juventude. Murasaki adoece e morre. Um capítulo que tem apenas um título, «Desaparecido entre as Nuvens» (Kumogakure), marca a morte de Genji sem descrevê-la.
Os dez capítulos finais, ambientados principalmente em Uji, ao sul da capital, acompanham Kaoru, um homem sério e atormentado por dúvidas sobre sua origem, e seu rival Niou, o apaixonado neto de Genji. A busca dos dois por três meias-irmãs termina em tragédia: a mais velha, Ōigimi, definha em vez de se casar; a mais nova, Ukifune, dividida entre os dois homens, tenta se afogar, é salva e se torna uma monja budista. O livro termina de repente, com Kaoru suspeitando que outro homem a esconde — um desfecho marcadamente aberto.
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Contexto histórico: a corte Heian e os regentes Fujiwara
Em 794, a corte japonesa se mudou para uma nova capital, Heian-kyō, planejada em uma malha inspirada em Chang’an, capital chinesa. O período Heian (794–1185) que se seguiu é conhecido por sua cultura aristocrática altamente refinada. Na época de Murasaki, o poder efetivo estava menos nas mãos dos imperadores do que nas do ramo setentrional da família Fujiwara. Seus membros governavam como regentes (sesshō e kanpaku), casando suas filhas com imperadores e tornando-se avós dos futuros soberanos.
Fujiwara no Michinaga (966–1028) dominava esse sistema, e sua filha Shōshi, a quem Murasaki servia, deu à luz dois futuros imperadores. Assim, a política passava por casamentos, nascimentos e pelo prestígio dos aposentos das mulheres. Damas de companhia instruídas eram recrutadas para tornar atraente o círculo da imperatriz, e a literatura se tornou parte da competição na corte. Isso ajuda a explicar a atenção que a narrativa dá à política dos casamentos, à posição social e à reputação.
Ao mesmo tempo, em outras partes do mundo, a dinastia Song governava a China, Goryeo governava a Coreia, o Império Chola estava no auge no sul da Índia e os fatímidas governavam o Egito. O Japão havia deixado de enviar embaixadas oficiais à China no fim do século IX, e floresceu uma cultura cortesã distintamente «nativa» (kokufū bunka), embora o conhecimento chinês continuasse prestigioso. O budismo influenciou profundamente a visão de mundo da época, inclusive a crença de que o mundo estava entrando em uma era de decadência do Darma (mappō), cujo início era comumente situado em 1052.
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As mulheres, o kana e a escrita do japonês
No Japão do período Heian, documentos oficiais, obras de história e estudos eram escritos em chinês literário (kanbun), que se esperava que os homens da corte dominassem. Durante os séculos IX e X, desenvolveram-se a partir dos caracteres chineses sistemas de escrita fonética simplificados chamados kana. A forma cursiva, o hiragana, era às vezes chamada de «escrita das mulheres» (onnade), por estar estreitamente ligada aos textos escritos por mulheres e à poesia e às cartas pessoais, embora os homens também a usassem.
O kana permitiu escrever com fluidez o japonês falado na corte, com seus tratamentos respeitosos, terminações verbais sutis e nuances emocionais. No fim do século X e no início do XI, mulheres da corte produziram um conjunto extraordinário de obras em prosa escritas em kana: o Diário de Kagerō, O Livro do Travesseiro, de Sei Shōnagon, os diários de Izumi Shikibu e da própria Murasaki e, mais tarde, o Diário de Sarashina. A História de Genji é o ponto culminante dessa tradição.
Ao mesmo tempo, Genji está profundamente ligado à literatura chinesa. O primeiro capítulo faz eco ao poema da dinastia Tang «Canção da Dor Eterna», de Bai Juyi, sobre um imperador que perde sua consorte amada. Alusões à história chinesa e à poesia japonesa anterior aparecem por toda a obra. Murasaki precisava esconder seu conhecimento de chinês, considerado impróprio para uma mulher, mas o utilizou para dar profundidade e ressonância à narrativa.
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Temas e técnicas principais
Um tema central é a impermanência (mujō), o ensinamento budista de que nada dura para sempre. A beleza, o amor, o poder e a juventude passam, e os personagens sentem isso com mais intensidade nos momentos de maior esplendor. A isso se liga a ideia de vínculo cármico (sukuse): relacionamentos e infortúnios são entendidos como consequências de atos praticados em vidas passadas, e a transgressão de Genji com Fujitsubo retorna a ele no nascimento de Kaoru. Muitos personagens, especialmente mulheres, buscam uma saída tornando-se monjas.
A narrativa também explora a substituição e o desejo por alguém ausente. Genji ama Fujitsubo porque ela se parece com sua mãe, e Murasaki porque se parece com Fujitsubo; nos capítulos de Uji, Kaoru procura em Ukifune alguém que substitua sua irmã falecida. Essa sequência de pessoas que evocam outras (yukari) cria uma estrutura de ecos e questiona se alguém pode realmente substituir outra pessoa.
A técnica narrativa é notável. A narradora muitas vezes fala como uma dama de companhia que comenta rumores, hesita ou afirma não saber de algo. Os personagens raramente são chamados diretamente pelo nome: são identificados por títulos, lugares ou poemas. Grande parte do sentido é transmitida pelos poemas trocados em momentos decisivos, pelas estações do ano e por detalhes das roupas, do incenso e da caligrafia. A famosa conversa de uma «noite de chuva», no capítulo 2, em que jovens classificam tipos de mulheres, e uma passagem posterior em que Genji defende a ficção por revelar verdades omitidas pelas histórias oficiais mostram a autora refletindo sobre sua própria arte.
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Manuscritos, comentários e edições
Nenhum manuscrito escrito pela autora sobreviveu. No período Heian, a narrativa circulava em cópias manuscritas que os leitores tomavam emprestadas e copiavam, o que multiplicou as variantes. A autora do Diário de Sarashina descreve a alegria de conseguir, por volta de 1021, um conjunto de «mais de cinquenta capítulos» e de lê-los dia e noite. É um testemunho antigo de que a obra completa já circulava.
No início do século XIII, o poeta e estudioso Fujiwara no Teika (1162–1241) preparou um texto conhecido como Aobyōshi-bon («texto de capa azul»). Por volta da mesma época, Minamoto no Mitsuyuki e seu filho Chikayuki produziram um texto diferente, o Kawachi-bon. A maioria das edições modernas descende da linhagem de Teika, especialmente de um manuscrito do século XV chamado Ōshima-bon, complementado por outras cópias. Em 2019, uma cópia feita pelo próprio Teika do capítulo 5, «Wakamurasaki», foi redescoberta em Tóquio, um achado importante para os estudiosos do texto.
Genji deu origem a uma vasta tradição de comentários, pois os leitores posteriores precisavam de ajuda com sua linguagem arcaica, os costumes da corte e as alusões. Entre os exemplos importantes estão o Kakaishō (século XIV) e o Kogetsushō (1673), de Kitamura Kigin, que tornou a narrativa acessível a um público mais amplo no período Edo. No século XX, a poeta Yosano Akiko produziu a primeira versão em japonês moderno, seguida por versões de Tanizaki Jun’ichirō, Enchi Fumiko e Setouchi Jakuchō, entre outros.
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Legado na arte, na literatura e no mundo
No Japão, Genji se tornou a obra clássica por excelência. No fim do século XII, o poeta Fujiwara no Shunzei declarou ser lamentável compor poesia sem conhecer Genji, e a obra se tornou leitura essencial para os poetas. Peças de teatro nô, narrativas posteriores, paródias do período Edo e livros ilustrados populares se inspiraram nela. O Genji Monogatari Emaki, conjunto de rolos ilustrados da primeira metade do século XII hoje conservados no Museu de Arte Tokugawa e no Museu Gotoh, está entre os mais antigos rolos ilustrados japoneses que sobreviveram. As «imagens de Genji» se tornaram, por séculos, um importante gênero de pintura, biombos e objetos de laca.
No período Edo, o estudioso Motoori Norinaga (1730–1801) argumentou que o coração da narrativa é o mono no aware, uma profunda sensibilidade à emoção despertada pelas coisas, e não as lições morais budistas ou confucionistas. Essa interpretação teve enorme influência na definição da estética «japonesa», embora os estudiosos atuais a considerem uma leitura entre muitas.
Fora do Japão, Suematsu Kenchō publicou uma tradução parcial para o inglês em 1882, mas foi a versão de Arthur Waley (1925–1933) que tornou a narrativa famosa no mundo de língua inglesa; Virginia Woolf escreveu uma resenha admirada do primeiro volume. Edward Seidensticker publicou a primeira tradução completa para o inglês (1976), seguido por Royall Tyler (2001) e Dennis Washburn (2015). Há traduções para coreano, chinês, francês, alemão e dezenas de outros idiomas, além de mangás como Asakiyumemishi, de Yamato Waki, e muitos filmes. Desde 2012, o Japão celebra em 1º de novembro o «Dia dos Clássicos» (Koten no hi), com base na anotação do diário de 1008, e uma cena dos rolos de Genji aparece na nota de 2.000 ienes.
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Debates acadêmicos: autoria, ordem de composição e interpretação
Uma só pessoa escreveu os 54 capítulos? A atribuição da maior parte da narrativa a Murasaki Shikibu se apoia em seu diário e na tradição antiga e é amplamente aceita. Os capítulos de Uji (45–54), porém, diferem no tom e no cenário, e desde a Idade Média alguns leitores suspeitam da participação de outra pessoa. A poeta Yosano Akiko propôs que Daini no Sanmi, filha de Murasaki, escreveu boa parte do trecho final. Estudos estilísticos e estatísticos de vocabulário e gramática foram usados para defender as duas posições. Hoje, a maioria dos estudiosos aceita Murasaki como autora da obra inteira, embora reconheça que a questão não pode ser resolvida com certeza.
Uma questão relacionada é a ordem de composição. Os capítulos estão numerados na ordem dos acontecimentos, mas isso não significa que tenham sido escritos nessa ordem. Em meados do século XX, o estudioso Takeda Munetoshi propôs que um grupo de capítulos (a «série b», incluindo Hahakigi e a sequência de Tamakazura) foi escrito mais tarde e inserido em uma «série a» original. A teoria exerceu influência, mas continua em debate. Também se discute se a obra foi planejada como um todo ou se cresceu por episódios à medida que os leitores pediam mais.
As interpretações mudaram com o tempo. Comentaristas budistas medievais às vezes tratavam a narrativa como uma parábola sobre o apego, e havia até lendas segundo as quais Murasaki sofria no inferno por ter escrito ficção. Leitores confucionistas a viam como uma advertência contra a imoralidade; Norinaga a interpretava por meio do mono no aware. Os estudos modernos incluem leituras feministas voltadas às restrições impostas às mulheres e a figuras como Ukifune e Ōigimi, que recusam o casamento ou escapam dele; estudos sobre possessão espiritual e doença; e interpretações históricas do casamento e da política. Também se debate se o livro é «o primeiro romance»: alguns apontam obras anteriores, como os romances gregos e romanos ou a obra sânscrita Kādambarī.
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Fontes primárias e evidências textuais
As principais fontes externas para a datação são diários da época. O diário da própria Murasaki Shikibu (que cobre 1008–1010) menciona a narrativa e a preparação de uma bela cópia na corte. Uma passagem conhecida registra que o imperador Ichijō, após ouvir a leitura da obra, comentou que a autora devia ter lido as Crônicas do Japão (Nihon shoki), um elogio à sua erudição. O Diário de Sarashina, escrito décadas depois, mas ao descrever acontecimentos de cerca de 1020–1021, mostra que então já existia um conjunto de mais de cinquenta capítulos. Juntas, essas fontes situam a composição da maior parte da narrativa aproximadamente nas duas primeiras décadas do século XI.
A tradição textual é complexa. Os estudiosos classificam os manuscritos em três grupos principais: a linhagem Aobyōshi-bon, associada a Teika; a linhagem Kawachi-bon; e um grupo heterogêneo de outros textos (beppon). As diferenças vão de pequenas alterações na redação a passagens variantes mais longas. Fragmentos antigos continuam a aparecer; por exemplo, um manuscrito do capítulo 6, do período Kamakura, foi identificado em Quioto em 2008. Como os manuscritos mais antigos de extensão considerável datam do período Kamakura (1185–1333), cerca de dois séculos após a composição, não é possível recuperar a redação exata do texto de Murasaki.
As evidências visuais também são importantes. Os rolos ilustrados de Genji, do século XII, combinam texto caligráfico e pinturas no estilo «telhado removido» (fukinuki yatai), que mostra os interiores vistos de cima. Seus trechos de texto estão entre os testemunhos mais antigos da redação de alguns capítulos. Eles também mostram como leitores de aproximadamente um século após a autora imaginavam o mundo da narrativa.
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Observações metodológicas para leitores e pesquisadores
Ler Genji em qualquer idioma exige interpretação desde o início. O original raramente usa nomes próprios ou explicita os sujeitos das frases; recorre a formas verbais honoríficas para indicar quem age. Os tradutores precisam decidir quem está falando, como chamar cada personagem e como traduzir os poemas. A elegante versão de Waley reorganiza e omite trechos livremente (ele deixou de fora o capítulo 38); Seidensticker é conciso; Tyler preserva os títulos da corte e explica os costumes em muitas notas; Washburn busca uma leitura fluente e clareza psicológica. Comparar traduções é, por si só, uma maneira de se aproximar do texto.
Edições acadêmicas modernas, como as das principais coleções de literatura clássica japonesa, oferecem textos anotados baseados sobretudo no Ōshima-bon, acompanhados de variantes e comentários. Pesquisadores devem observar qual texto-base uma edição utiliza e ter cautela ao tratar qualquer texto impresso como se reproduzisse exatamente as palavras de Murasaki.
Por fim, os leitores devem situar historicamente a maneira como a narrativa trata gênero e poder. Algumas relações de Genji, inclusive o fato de levar a jovem Murasaki para sua casa, perturbam leitores atuais, e a própria narradora frequentemente assinala o sofrimento que elas causam. Conhecer os costumes matrimoniais do período Heian, nos quais os maridos geralmente visitavam esposas que viviam nas residências de suas próprias famílias, ajuda a compreender aquele mundo social sem justificar os danos causados.
Ideias principais
- Mono no aware
- «A emoção diante das coisas»: uma sensibilidade profunda e delicada à beleza e à tristeza do que passa, que Motoori Norinaga considerava o coração da narrativa.
- Impermanência (mujō)
- O ensinamento budista de que tudo muda e chega ao fim; ele marca o tom da narrativa, especialmente nos capítulos finais.
- Vínculo cármico (sukuse)
- A crença de que laços e infortúnios resultam de atos praticados em vidas anteriores, usada na narrativa para explicar o destino e a repetição.
- Substituição (yukari)
- O padrão de amar alguém porque essa pessoa se parece com outra: a mãe de Genji, Fujitsubo e Murasaki; mais tarde, Ōigimi e Ukifune.
- Monogatari
- Gênero japonês de narrativa em prosa. Genji o transformou: de histórias curtas ou fantásticas, passou-se a uma longa narrativa realista sobre a vida interior dos personagens.
- Troca de poemas
- Os personagens se comunicam por meio de waka de 31 sílabas; os poemas transmitem sentimentos que não podem ser expressos abertamente e ligam a prosa a uma tradição poética.
- Miyabi
- Refinamento e elegância da corte, ideal de bom gosto no vestuário, na caligrafia, na música e no comportamento, valorizado pelos aristocratas do período Heian.
Registros
- 794 d.C. — A capital imperial é transferida para Heian-kyō (Quioto), dando início ao período Heian.
- c. 973 d.C. — Murasaki Shikibu nasce em um ramo secundário da família Fujiwara (c. 973–978).
- 1001 — Morre seu marido, Fujiwara no Nobutaka; ela pode ter começado a escrever a narrativa durante a viuvez.
- c. 1005 — Ela entra para o serviço da imperatriz Shōshi, filha de Fujiwara no Michinaga (c. 1005–1006).
- 1008 — Seu diário menciona a narrativa; essa anotação é a base do «Dia dos Clássicos», celebrado no Japão em 1º de novembro.
- c. 1021 — A autora do Diário de Sarashina obtém um conjunto de mais de cinquenta capítulos (c. 1020–1021).
- c. 1120 — São produzidos os rolos ilustrados Genji Monogatari Emaki (primeira metade do século XII).
- c. 1225 — Fujiwara no Teika prepara o texto Aobyōshi-bon (início do século XIII).
- 1673 — O Kogetsushō, edição anotada de Kitamura Kigin, torna a narrativa amplamente acessível no período Edo.
- c. 1799 — O estudo Genji monogatari tama no ogushi, de Motoori Norinaga, apresenta a teoria do mono no aware.
- 1925 — A tradução inglesa de Arthur Waley começa a ser publicada (até 1933).
- 1976 — Edward Seidensticker publica a primeira tradução completa para o inglês.
Glossário
- Período Heian
- Época da história japonesa de 794 a 1185, quando a capital era Heian-kyō.
- Monogatari
- «Relato de coisas»: narrativa japonesa em prosa, frequentemente com poemas inseridos.
- Waka
- Poema clássico japonês de 31 sílabas (5-7-5-7-7), também chamado de tanka.
- Kana / hiragana
- Sistemas de escrita fonética japoneses derivados dos caracteres chineses; o hiragana era a escrita cursiva usada na maior parte da prosa das mulheres da corte.
- Kanbun
- Chinês literário escrito no Japão, usado em textos oficiais e acadêmicos.
- Regente (sesshō / kanpaku)
- Cargos por meio dos quais a família Fujiwara governava em nome dos imperadores, muitas vezes seus próprios netos.
- Capítulos de Uji
- Os dez últimos capítulos (45–54), ambientados em grande parte em Uji e centrados em Kaoru, Niou e Ukifune.
- Aobyōshi-bon
- O texto de «capa azul» de Fujiwara no Teika, do qual descende a maioria das edições modernas.
- Emaki
- Rolo ilustrado que combina pintura e texto e é visto ao ser desenrolado da direita para a esquerda.
- Fukinuki yatai
- «Telhado removido»: convenção pictórica que mostra os interiores dos edifícios vistos de cima, usada nos rolos ilustrados de Genji.
Perguntas e respostas
A História de Genji é o primeiro romance do mundo?
Ela é frequentemente chamada assim por ser uma longa narrativa em prosa centrada na vida interior dos personagens. Mas os romances gregos e romanos antigos e a obra sânscrita Kādambarī são anteriores. Por isso, muitos estudiosos preferem chamá-la de um dos primeiros romances ou de primeiro grande romance psicológico.
Quem escreveu A História de Genji?
A obra é atribuída a Murasaki Shikibu, uma dama de companhia da corte Heian no início do século XI. Seu nome verdadeiro é desconhecido. Alguns estudiosos questionaram se ela escreveu os dez últimos capítulos, mas a maioria a aceita como autora da obra inteira.
Qual é a extensão de A História de Genji?
A obra tem 54 capítulos. As traduções completas para o inglês têm cerca de 1.100 a 1.300 páginas, e a história abrange aproximadamente 75 anos e centenas de personagens.
O que acontece no fim de A História de Genji?
Genji morre muito antes do fim. Os últimos capítulos acompanham Kaoru, Niou e a jovem Ukifune, que se torna monja. O livro termina de repente, com Kaoru se perguntando se outro homem a esconde. Os estudiosos ainda debatem se a obra foi concluída.
Por que os personagens não têm nomes verdadeiros?
Os cortesãos do período Heian evitavam usar nomes pessoais, considerados privados. Os personagens são conhecidos por títulos, posições sociais, residências ou palavras de poemas associados a eles; «Murasaki», «Yūgao» e «Ukifune» são apelidos dados pelos leitores com base em títulos de capítulos ou poemas.
O que significa mono no aware?
A expressão é frequentemente traduzida como «a emoção diante das coisas»: uma sensibilidade à beleza do que não dura. O estudioso Motoori Norinaga (século XVIII) argumentou que ela é a essência de Genji e da literatura japonesa, uma visão influente, mas debatida.
Qual tradução devo ler?
A tradução de Royall Tyler (2001) tem muitas notas e é fiel à cultura da corte; a de Dennis Washburn (2015) é fluente e completa; a de Edward Seidensticker (1976) é concisa; a de Arthur Waley (1925–1933) tem uma escrita elegante, mas é livre e incompleta. Muitos leitores começam por uma versão abreviada.
Fontes e leituras adicionais
- The Tale of Genji. Wikipedia
- Murasaki Shikibu. Wikipedia
- The Diary of Lady Murasaki. Wikipedia
- Sarashina Nikki. Wikipedia
- Genji Monogatari Emaki. Wikipedia
- Heian period. Wikipedia
- Motoori Norinaga. Wikipedia
- Mono no aware. Wikipedia
- Murasaki Shikibu; trans. Royall Tyler, The Tale of Genji (translation). Viking, 2001
- Haruo Shirane, The Bridge of Dreams: A Poetics of ‘The Tale of Genji’. Stanford University Press, 1987
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