Literatura

Kojiki

古事記 (Furukotofumi)

712 d.C. · Nara (Heijō-kyō)

Em uma frase

O Kojiki, «Registro de assuntos antigos», é o livro mais antigo do Japão que chegou até nós. Apresentado à imperatriz em 712, conta como os deuses criaram o mundo e as ilhas japonesas e acompanha a linhagem imperial desde a deusa do sol Amaterasu até o início do século VII.

Kojiki
Imagem: Ken'yu (賢瑜), Koten Hozonkai (古典保存会) · Public domain · Wikimedia Commons

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Para jovens leitores

O Kojiki é o livro mais antigo do Japão que ainda existe. Ele ficou pronto no ano 712, há cerca de 1.300 anos. Seu nome significa «Registro de assuntos antigos». O livro está cheio de histórias sobre deuses, heróis e governantes.

Ele começa no início do mundo. Dois deuses, os irmãos Izanagi e Izanami, ficam sobre uma ponte flutuante no céu e mexem o mar com uma lança enfeitada com joias. Gotas caem da lança e formam a primeira ilha. Depois, eles dão origem às ilhas do Japão e a muitos deuses da natureza, como os do mar, das montanhas, do vento e das árvores.

Uma das histórias mais famosas é a de Amaterasu, a deusa do sol. Seu irmão Susanoo, deus das tempestades, se comporta tão mal que ela se esconde em uma caverna e fecha a entrada com uma pedra. O mundo inteiro fica escuro! Os outros deuses fazem uma festa do lado de fora, com uma dança engraçada e muitas risadas. Amaterasu espia para ver o que está acontecendo. Então, eles a puxam para fora, e a luz volta.

Mais tarde, Susanoo vira um herói ao vencer uma cobra gigante com oito cabeças e oito caudas. Dentro de uma das caudas, ele encontra uma espada mágica. Outro deus, Ōkuninushi, ajuda um coelho que perdeu seus pelos. Em troca, o coelho também o ajuda.

O livro diz que o neto de Amaterasu desceu do céu e que um descendente dele se tornou o primeiro imperador do Japão. Os capítulos seguintes contam histórias de imperadores e príncipes. Hoje, os historiadores leem essas histórias como mitos e lendas, não como relatos exatos do passado. Mesmo assim, elas são um tesouro da língua, da religião e das histórias japonesas.

Em resumo

Conclusão
Apresentado à imperatriz Genmei no 28º dia do 1º mês do ano 5 da era Wadō (712 d.C.)
Compilador
Ō no Yasumaro (falecido em 723), com base no material recitado por Hieda no Are por ordem do imperador Tenmu (reinou de 673 a 686)
Local
A corte imperial em Heijō-kyō (Nara), Japão
Língua
Caracteres chineses usados de forma híbrida: prefácio em estilo chinês, texto principal em chinês adaptado ao japonês e canções escritas foneticamente em japonês antigo (man’yōgana)
Estrutura
Três livros: a Era dos Deuses; do imperador Jimmu a Ōjin; do imperador Nintoku à imperatriz Suiko (falecida em 628)
Conteúdo
Mitos da criação, genealogias de deuses e governantes, lendas de heróis e mais de cem canções
Manuscrito mais antigo
Shinpukuji-bon, copiado entre 1371 e 1372 (um Tesouro Nacional)
Importância
O livro mais antigo do Japão que chegou até nós; fundamental para a mitologia xintoísta, a língua e a literatura japonesas antigas e os debates sobre identidade nacional

Fácil

O que é o Kojiki?

O Kojiki (古事記), geralmente traduzido como «Registro de assuntos antigos» ou «Relato de assuntos antigos», é uma coletânea de mitos, lendas, canções e genealogias compilada na corte imperial japonesa. Segundo seu prefácio, foi escrito pelo cortesão Ō no Yasumaro e apresentado à imperatriz Genmei no início de 712. Em geral, é considerado o livro mais antigo escrito no Japão que chegou até nós.

O Kojiki conta uma história contínua. Começa com o surgimento dos primeiros deuses, quando o céu e a terra se separaram; descreve a criação das ilhas japonesas e as aventuras de muitas divindades (kami); e depois acompanha os descendentes da deusa do sol Amaterasu, que descem à terra e se tornam governantes do Japão. As partes finais enumeram imperadores e imperatrizes até a imperatriz Suiko, falecida em 628.

O livro não foi concebido como uma história imparcial. Foi produzido para explicar por que a família imperial tinha o direito de governar e como outros clãs poderosos se relacionavam com ela. Ainda assim, suas histórias vão muito além da propaganda: preservam crenças antigas, tradições locais, poesia e modos de falar que, de outra forma, teriam se perdido.

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Fácil

A Era dos Deuses: criação, morte e sol

O primeiro livro começa com o surgimento dos deuses na Planície do Alto Céu, quando o céu e a terra se formaram, e enumera divindades que aparecem e desaparecem. Após várias gerações, surgem Izanagi («Aquele que convida») e Izanami («Aquela que convida»). De pé sobre a Ponte Flutuante do Céu, eles agitam o oceano com uma lança enfeitada com joias; a água salgada que pinga de sua ponta forma a ilha de Onogoro. Ali eles se casam e dão origem às ilhas do Japão e aos deuses do mar, dos rios, das montanhas, do vento e do fogo.

Ao dar à luz o deus do fogo, Izanami sofre queimaduras, morre e vai para Yomi, a terra dos mortos. Izanagi a segue, mas desobedece à ordem dela de não olhar para seu corpo. Ao vê-lo em decomposição, foge. Ele bloqueia o caminho para Yomi com uma grande rocha. Depois, lava-se em um rio para remover a impureza da morte. De seu olho esquerdo nasce Amaterasu, a deusa do sol; do direito, Tsukuyomi, o deus da lua; e de seu nariz, Susanoo, o deus das tempestades. Essa história costuma ser associada à importância da purificação (misogi, harae) no xintoísmo.

Susanoo sofre, enfurece-se e causa desordem no reino celestial de sua irmã, destruindo plantações de arroz e profanando o salão onde ela tece. Assustada e ofendida, Amaterasu se esconde na Caverna Celestial de Pedra, e o mundo mergulha na escuridão. Os deuses se reúnem do lado de fora, penduram um espelho e joias em uma árvore sagrada, e a deusa Ame-no-Uzume faz uma dança extravagante que provoca muitas risadas. Curiosa, Amaterasu espia para fora, vê sua própria luz refletida no espelho e é atraída para fora; a luz retorna. Susanoo é expulso do céu.

Na terra, em Izumo, Susanoo mata a serpente de oito cabeças Yamata-no-Orochi e encontra uma espada em sua cauda, que oferece a Amaterasu. Seu descendente Ōkuninushi («Grande Senhor da Terra») ajuda a Lebre Branca de Inaba, que havia perdido a pele, supera provas impostas por Susanoo no mundo subterrâneo e desenvolve a terra. Por fim, os deuses celestiais exigem que Ōkuninushi entregue a terra aos descendentes de Amaterasu. Ele concorda em troca de um grande santuário, em uma história frequentemente associada ao Izumo Taisha.

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Fácil

Do céu à terra: os primeiros imperadores e heróis

Amaterasu envia seu neto Ninigi à terra e lhe dá três tesouros: um espelho, uma joia curva e a espada encontrada na cauda da serpente. Eles se tornaram as insígnias imperiais do Japão. Ninigi desce sobre o pico de uma montanha em Himuka (Kyūshū). Seu filho Hoori, chamado «Sorte da Montanha», perde o anzol do irmão, visita o palácio do deus do mar e se casa com a filha dele; o neto desse casal é Kamu-Yamato-Iwarebiko, conhecido após a morte como imperador Jimmu.

O segundo livro começa com a longa campanha de Jimmu, que parte de Kyūshū rumo à região de Yamato, onde, segundo a narrativa, funda a linhagem imperial. Depois de breves registros sobre vários governantes, destacam-se o príncipe Yamato Takeru, guerreiro trágico que derrota inimigos no oeste e no leste, mas morre longe de casa e se transforma em um pássaro branco; e a imperatriz Jingū, que, possuída pelos deuses, lidera uma expedição marítima ao reino coreano de Silla. O livro termina com o imperador Ōjin.

O terceiro livro abrange os governantes de Nintoku a Suiko. Há menos encontros com deuses e mais histórias da corte, romances, disputas pela sucessão e canções. Sobre os últimos governantes, apresenta pouco além de nomes, palácios, casamentos e locais de sepultamento. Assim, o Kojiki passa do mito cósmico à história lendária e, por fim, a uma genealogia sucinta que termina poucas décadas antes da época em que foi compilado.

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Intermediário

Como foi produzido: Tenmu, Hieda no Are e Ō no Yasumaro

Tudo o que sabemos sobre as origens do Kojiki vem de seu prefácio. Segundo ele, o imperador Tenmu, que assumiu o trono após a Guerra Jinshin de 672, preocupava-se com os erros que haviam se acumulado nas crônicas imperiais (Teiki) e nos relatos antigos (Kyūji ou Honji) guardados por diversas famílias. Por isso, mandou examiná-los e corrigi-los e ordenou a Hieda no Are, membro da comitiva da corte que tinha então 28 anos, que os decorasse. Dizia-se que Are conseguia recitar qualquer coisa depois de lê-la uma vez e lembrar qualquer coisa depois de ouvi-la uma vez.

Tenmu morreu antes que o projeto fosse concluído. Décadas depois, no 18º dia do 9º mês de 711, a imperatriz Genmei ordenou a Ō no Yasumaro que registrasse por escrito o que Are havia memorizado. Ele terminou o trabalho em cerca de quatro meses e apresentou os três livros no 28º dia do 1º mês de 712.

O Kojiki integrou um esforço mais amplo do novo Estado centralizado, inspirado na China da dinastia Tang, para se definir por meio de códigos legais, de uma capital em Nara e de histórias oficiais. Em 720, apenas oito anos depois, a corte concluiu o Nihon shoki (Crônicas do Japão), uma história muito mais longa, em trinta livros. O próprio Yasumaro provavelmente ajudou a compilá-la. Por que duas obras desse tipo foram produzidas em um intervalo tão curto é uma questão central nos estudos sobre o Kojiki.

Sabe-se muito pouco sobre Hieda no Are. O título toneri (membro da comitiva) costumava ser ocupado por homens, mas alguns estudiosos, entre eles o folclorista Yanagita Kunio e o pesquisador de literatura Saigō Nobutsuna, sugeriram que Are era uma mulher, talvez da família Sarume, formada por dançarinas de rituais da corte que afirmavam descender de Ame-no-Uzume. A questão permanece em aberto.

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Intermediário

A escrita do japonês com caracteres chineses

No início do século VIII, o japonês não tinha um sistema de escrita próprio. Os funcionários instruídos escreviam em chinês clássico. Yasumaro enfrentou o desafio de registrar histórias e nomes japoneses em sua língua e em sua forma de expressão. No prefácio, escrito em elegante prosa paralela chinesa, ele explica sua solução: às vezes usava caracteres chineses por seu significado, às vezes por seu som e, em outras ocasiões, misturava os dois usos na mesma frase, acrescentando notas quando a leitura pudesse causar dúvidas.

O resultado é um texto híbrido. A narrativa principal está escrita em uma forma de chinês adaptada ao japonês (muitas vezes chamada hentai kanbun), que segue a gramática chinesa apenas de modo aproximado e foi feita para ser lida em japonês. Os nomes dos deuses e mais de cem canções são escritos foneticamente, com um caractere por sílaba, no sistema posteriormente chamado man’yōgana, em referência à antologia poética do século VIII Man’yōshū. Essas passagens fonéticas estão entre as provas mais importantes da pronúncia do japonês antigo.

Como o texto admite mais de uma leitura, a maneira de «lê-lo em voz alta» em japonês é debatida há séculos. Toda edição moderna envolve uma reconstrução feita por estudiosos, e traduções diferentes refletem decisões diferentes sobre a língua por trás da escrita.

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Intermediário

Ideias centrais: kami, linhagem, pureza e canção

Kami. O Kojiki apresenta um mundo repleto de kami, seres divinos que podem ser ancestrais, forças da natureza, lugares ou objetos. São poderosos, mas não sabem tudo nem são moralmente perfeitos: discutem, sofrem, cometem erros e às vezes são engraçados. Essa visão difere bastante da ideia de um Deus criador transcendente nas religiões abraâmicas.

Linhagem e legitimidade. A genealogia é a espinha dorsal do livro. Ao ligar a família imperial a Amaterasu e muitos clãs a deuses ou príncipes, o Kojiki situava cada linhagem em uma hierarquia centrada no governante. A história em que Ōkuninushi entrega a terra apresenta a incorporação de Izumo, região com fortes tradições próprias, como uma submissão voluntária à linhagem celestial.

Pureza e impureza. O contraste entre o puro e o impuro, presente no banho de Izanagi após sua visita a Yomi e nas transgressões de Susanoo, atravessa os mitos e se relaciona com rituais xintoístas posteriores.

Canção e emoção. As canções, muitas delas de amor, lamento, bebida ou guerra, dão ao Kojiki um caráter intensamente emotivo e poético. Alguns estudiosos leem a obra mais como literatura do que como história, destacando sua arte narrativa. Chama a atenção o fato de o Kojiki não fazer referência ao budismo, embora essa religião florescesse na corte quando a obra foi compilada.

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Intermediário

Manuscritos, esquecimento e redescoberta

Ao contrário do Nihon shoki, que era objeto de aulas na corte e estudado durante todo o período Heian, o Kojiki foi tratado como um texto secundário por muitos séculos. Nenhum manuscrito dos períodos Nara ou Heian chegou até nós. A cópia completa mais antiga é o manuscrito Shinpukuji, produzido pelo monge Ken’yu entre 1371 e 1372 e hoje designado Tesouro Nacional. Outros manuscritos pertencem a uma tradição associada à família Urabe, de estudiosos xintoístas.

A primeira edição impressa surgiu em Quioto em 1644, tornando o texto amplamente acessível pela primeira vez. No século XVIII, estudiosos do movimento de «estudos nacionais» (kokugaku), que buscavam uma cultura japonesa autêntica livre da influência chinesa e budista, passaram a considerar o Kojiki o registro mais puro da língua e do modo de vida antigos.

O maior desses estudiosos, Motoori Norinaga (1730–1801), dedicou cerca de 35 anos (1764–1798) à escrita do Kojiki-den, um comentário em 44 livros que reconstruiu a leitura de cada linha em japonês antigo e interpretou os mitos como relatos verdadeiros da Era dos Deuses. Norinaga colocou o Kojiki acima do Nihon shoki, que considerava distorcido por uma «mentalidade chinesa». Seu trabalho continua sendo a base dos estudos filológicos do Kojiki, embora suas interpretações religiosas e nacionalistas já não sejam aceitas como conclusões acadêmicas.

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Intermediário

O Kojiki no Japão e no Leste Asiático modernos

Após a Restauração Meiji de 1868, os mitos do Kojiki e do Nihon shoki foram ensinados nas escolas como história nacional sob o xintoísmo de Estado. A descendência do imperador em relação a Amaterasu e a fundação do Estado por Jimmu, datada pelo Nihon shoki de 660 a.C., tornaram-se doutrina oficial. O historiador Tsuda Sōkichi, que a partir de 1913 argumentou que a Era dos Deuses e os primeiros reinados eram criações políticas da corte, teve vários livros proibidos em 1940 e foi processado.

Esses mitos também serviram à expansão imperial. A história da conquista de Silla pela imperatriz Jingū foi usada para sugerir que a Coreia havia sido subordinada ao Japão na Antiguidade e para justificar o domínio japonês na Coreia (1910–1945). Historiadores da Coreia e do Japão hoje consideram o episódio de Jingū uma lenda; estudiosos coreanos, em especial, criticaram seu uso como mito colonial. Por outro lado, episódios como o do erudito Wani, vindo de Baekje e trazendo livros chineses ao Japão, são lidos como lembranças de uma transmissão cultural real da península Coreana, mesmo que seus detalhes contenham anacronismos.

Depois de 1945, os mitos deixaram de ser ensinados como fatos históricos, e os estudiosos puderam pesquisar o Kojiki como mito, literatura e ideologia. Hoje a obra é lida em muitas traduções, desde a versão inglesa de Basil Hall Chamberlain, de 1882, até as de Donald Philippi, de 1968, e Gustav Heldt, de 2014. Seus deuses e histórias inspiram romances, mangás, animes, jogos e celebrações em santuários como os de Ise e Izumo. Os 1.300 anos de sua conclusão foram comemorados em 2012.

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Avançado

Debates acadêmicos e questões em aberto

Autenticidade. Como o Kojiki não é mencionado no Shoku Nihongi, a crônica oficial que abrange o ano de 712, e seu prefácio é o único relato de sua produção, alguns estudiosos desde o início da era moderna suspeitaram que o prefácio, ou mesmo toda a obra, tivesse sido escrito mais tarde, talvez no século IX. A maioria dos especialistas rejeita a hipótese de falsificação. O texto preserva distinções ortográficas arcaicas do japonês antigo, inclusive entre dois tipos da sílaba mo que desapareceram pouco depois de 712. Além disso, em 1979, o epitáfio de bronze de Ō no Yasumaro foi descoberto em uma plantação de chá em Nara, confirmando que ele foi um funcionário real que morreu em 723.

Duas mitologias ou uma só? O Kojiki e o Nihon shoki contam histórias que se sobrepõem, mas de maneiras diferentes; o Nihon shoki muitas vezes apresenta várias versões de um mesmo episódio («um livro diz...»). Estudos mais antigos tendiam a reuni-las em uma única «mitologia japonesa». Pesquisadores como Kōnoshi Takamitsu argumentam, por sua vez, que cada texto constrói seu próprio universo mítico coerente para fins diferentes e que, portanto, devem ser lidos separadamente.

História ou mito? Depois de Tsuda, a maioria dos historiadores passou a tratar a Era dos Deuses e os primeiros imperadores como mitos políticos. Ainda se debate até que ponto os reinados posteriores preservam lembranças de acontecimentos reais. Comparações com registros chineses e coreanos, achados arqueológicos dos grandes túmulos (kofun) e inscrições como as de espadas do século V ajudam os historiadores a avaliar quais partes podem conter informações históricas.

Origens e comparações. Estudiosos comparam os mitos do Kojiki com os da Coreia, da China, do Sudeste Asiático, do Pacífico e da Eurásia; um exemplo é a comparação entre a jornada de Izanagi ao mundo dos mortos e a história grega de Orfeu. Essas semelhanças levantam questões ainda sem resposta sobre transmissão cultural, origens comuns ou padrões humanos compartilhados.

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Avançado

Evidências e métodos

Filologia. O estudo do Kojiki começa pelo texto: a comparação de manuscritos, a reconstrução das leituras de sua escrita híbrida e o uso das canções e dos nomes escritos foneticamente para reconstruir o japonês antigo. A descoberta do sistema de oito vogais do japonês antigo, refletido em diferenças ortográficas constantes, foi crucial para datar e interpretar a obra.

Contexto histórico. Pesquisadores leem o Kojiki à luz do mundo político de Tenmu, Jitō e Genmei: a construção de um Estado inspirado no modelo chinês, a rivalidade entre clãs e as relações com Silla e a China da dinastia Tang. Tabuletas de madeira (mokkan) escavadas em Nara e nos locais dos palácios de Fujiwara mostram como os funcionários realmente escreviam japonês no fim do século VII e ajudam a explicar a escrita do Kojiki.

Estudos religiosos e antropologia. Os estudiosos comparam os mitos com rituais xintoístas, tradições de santuários e narrativas populares, tomando cuidado para não presumir que o xintoísmo moderno seja uma simples continuação das crenças do século VIII.

História da recepção. Por fim, muitas pesquisas atuais investigam como o Kojiki foi lido: por pensadores xintoístas medievais, por Norinaga, pelo Estado moderno e por estudiosos do pós-guerra. O significado do livro sempre dependeu de seus leitores, o que também ensina algo importante sobre como textos antigos se tornam clássicos nacionais.

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Ideias principais

Kami
Seres divinos ligados à natureza, aos ancestrais e aos lugares; figuras poderosas, mas capazes de errar, nos mitos.
Descendência divina
A afirmação de que a família imperial descende da deusa do sol Amaterasu por meio de Ninigi e Jimmu.
Genealogia como organização social
Ao ligar os clãs a deuses e príncipes, o livro situava cada linhagem em uma hierarquia centrada no governante.
Purificação
O ato de remover por meio da água a impureza associada à morte e às transgressões, tema ligado aos rituais xintoístas.
Escrita híbrida
Uso de caracteres chineses tanto pelo significado quanto pelo som para registrar o japonês, antes da criação dos silabários kana.
Mito e ideologia
O Kojiki serviu para legitimar o Estado do século VIII e foi reutilizado pelo nacionalismo moderno.
Da oralidade à escrita
O prefácio apresenta o livro como o registro escrito de tradições memorizadas e recitadas por Hieda no Are.

Registros

  1. 672 d.C. — Tenmu vence a Guerra Jinshin e assume o trono; mais tarde, ordena a correção de crônicas e relatos.
  2. c. 681 d.C. — A corte de Tenmu inicia o trabalho de compilação histórica, posteriormente concluído no Nihon shoki.
  3. 710 d.C. — A capital é transferida para Heijō-kyō (Nara).
  4. 711 d.C. — A imperatriz Genmei ordena a Ō no Yasumaro que registre o que Hieda no Are havia memorizado.
  5. 712 d.C. — Yasumaro apresenta o Kojiki em três livros à imperatriz Genmei.
  6. 720 d.C. — O Nihon shoki é concluído.
  7. 723 d.C. — Ō no Yasumaro morre, segundo seu epitáfio.
  8. 1371 — O monge Ken’yu copia o manuscrito Shinpukuji (até 1372), a cópia mais antiga que chegou até nós.
  9. 1644 — A primeira edição impressa é publicada em Quioto.
  10. 1798 — Motoori Norinaga conclui o Kojiki-den.
  11. 1882 — Basil Hall Chamberlain publica a primeira tradução integral para o inglês.
  12. 1979 — O epitáfio de bronze de Ō no Yasumaro é descoberto em Nara.

Glossário

Kami
Deuses ou espíritos da religião japonesa, incluindo espíritos da natureza, ancestrais e pessoas divinizadas.
Takamagahara
A Planície do Alto Céu, morada dos deuses celestiais.
Yomi
A terra dos mortos no Kojiki.
Insígnias imperiais
O espelho, a joia e a espada que, segundo a tradição, Amaterasu deu a Ninigi.
Man’yōgana
Uso de caracteres chineses por seus sons para escrever sílabas japonesas.
Nihon shoki
A história oficial «Crônicas do Japão», concluída em 720.
Kokugaku
«Estudos nacionais»: movimento do período Edo dedicado ao estudo de textos japoneses antigos e à recuperação da cultura nativa.
Toneri
Membro da comitiva que servia na corte imperial.
Teiki e Kyūji
As genealogias imperiais e os relatos antigos que, segundo o prefácio, serviram de base para o Kojiki.
Xintoísmo de Estado
Uso do xintoísmo e dos mitos imperiais como ideologia nacional pelo Estado japonês moderno, de 1868 a 1945.

Perguntas e respostas

O Kojiki é uma escritura religiosa?

Não exatamente. Ele não contém mandamentos nem ensinamentos, mas seus mitos são centrais para o xintoísmo, e muitos de seus deuses são venerados em santuários.

Quem escreveu o Kojiki?

Segundo o prefácio, Ō no Yasumaro o registrou por escrito entre 711 e 712 a partir de tradições memorizadas por Hieda no Are por ordem do imperador Tenmu.

O Kojiki relata fatos históricos?

Os historiadores tratam a Era dos Deuses e os primeiros imperadores como mitos e lendas criados ou moldados para fins políticos. As partes posteriores podem preservar algumas lembranças históricas.

Qual é a diferença entre o Kojiki e o Nihon shoki?

O Kojiki (712) é mais curto, concentra-se na linhagem imperial e foi escrito em um estilo mais japonês. O Nihon shoki (720) é uma história oficial mais longa, escrita em chinês e organizada por ano, que muitas vezes apresenta várias versões de cada mito.

Por que a deusa do sol se esconde em uma caverna?

Ela fica assustada e ofendida com o comportamento violento de seu irmão Susanoo. A história explica o retorno da luz e pode refletir rituais de renovação do poder do sol.

O Kojiki poderia ser uma falsificação posterior?

Uma minoria de estudiosos defendeu essa hipótese, mas características arcaicas de sua língua e a descoberta do epitáfio de Yasumaro em 1979 levam a maioria dos especialistas a aceitá-lo como uma obra do início do século VIII.

Por que o Kojiki é controverso na Coreia?

Sua lenda sobre a conquista de Silla pela imperatriz Jingū foi usada na era moderna para justificar o domínio colonial japonês sobre a Coreia, embora os historiadores a considerem uma lenda.

Por que o Kojiki é importante para os linguistas?

Suas canções e seus nomes escritos foneticamente estão entre as melhores evidências de como o japonês era pronunciado há 1.300 anos.

Fontes e leituras adicionais

  1. Kojiki. Wikipedia
  2. 고사기. 위키백과
  3. Ō no Yasumaro. Wikipedia
  4. Hieda no Are. Wikipedia
  5. Nihon Shoki. Wikipedia
  6. Motoori Norinaga. Wikipedia
  7. Man'yōgana. Wikipedia
  8. Mark Cartwright, Kojiki: Japan’s Oldest Book. World History Encyclopedia, 2017
  9. Donald L. Philippi, Kojiki (translated with an introduction and notes). University of Tokyo Press, 1968
  10. Gustav Heldt (trans.), The Kojiki: An Account of Ancient Matters. Columbia University Press, 2014

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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