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Para jovens leitores
Imagine um homem muito poderoso que governava um império enorme, da Britânia ao Egito. No meio de guerras e de dias cheios de trabalho no governo, ele escrevia pequenas mensagens para si mesmo num caderno: lembretes para ter paciência, fazer bem o seu trabalho e não ficar com raiva das pessoas que o irritavam. Esse homem era o imperador romano Marco Aurélio, e seu caderno é o livro que chamamos de Meditações.
Marco não escreveu para nós. Escreveu para si mesmo, mais ou menos como um diário secreto de conselhos. Ele escrevia em grego, a principal língua das aulas de filosofia para os romanos que recebiam uma boa educação. Hoje as anotações estão divididas em doze partes chamadas “livros”, mas ninguém sabe quem fez essas divisões.
Quando ele escreveu, os tempos eram difíceis. Exércitos vindos do outro lado do rio Danúbio atacavam o império, e uma doença terrível se espalhava pelas cidades e pelos acampamentos do exército. Marco passou anos morando em acampamentos de soldados, longe de Roma. Algumas de suas anotações dizem até onde ele as escreveu, como “em Carnunto”, uma cidade-fortaleza romana à beira do Danúbio.
Marco seguia uma forma de pensar chamada estoicismo. Os estoicos diziam: algumas coisas dependem de você, como suas escolhas e o jeito como você trata as pessoas, e muitas não dependem, como o clima ou o que os outros fazem. Então não gaste sua energia ficando chateado com o que você não pode mudar. Use sua energia para ser honesto, justo, corajoso e bondoso.
Durante centenas de anos depois da morte de Marco, quase nenhum texto que chegou até nós fala do caderno. Só se conhecem algumas poucas cópias escritas à mão, e uma das duas mais importantes se perdeu. Hoje o livro é lido no mundo inteiro: uma única editora vendeu mais de 100.000 exemplares dele em um só ano.
Em resumo
- O quê
- Uma coleção pessoal de notas filosóficas e lembretes para si mesmo, não escrita para publicação
- Autor
- Marco Aurélio, imperador romano (161–180 d.C.)
- Quando
- Durante a década de 170 d.C. (as datas exatas são debatidas; costuma ser situada em c. 170–180, e alguns estudiosos propõem c. 171–175)
- Onde
- Pelo menos em parte em acampamentos militares na fronteira do Danúbio; notas no texto mencionam “entre os quados, junto ao Granua” e “em Carnunto”
- Idioma
- Grego (coiné), com muitas citações de autores gregos anteriores
- Forma
- Doze livros de anotações curtas, de lemas de uma linha a reflexões de uma página
- Filosofia
- Estoicismo da época romana, fortemente influenciado por Epicteto
- Transmissão
- Duas testemunhas principais: o Codex Vaticanus Graecus 1950 (século XIV) e um manuscrito palatino perdido, usado na primeira edição impressa (Zurique, 1558/59)
Fácil
O que é Meditações?
Meditações é um conjunto de anotações que Marco Aurélio, imperador de Roma de 161 a 180 d.C., escreveu para si mesmo. Não é um tratado com um argumento planejado, nem um discurso, nem um conjunto de leis. Está mais perto de um caderno de trabalho: Marco repete as mesmas ideias muitas vezes com novas palavras, discute consigo mesmo e copia versos de poetas e frases de filósofos que o ajudavam. Quase todas as anotações se dirigem a “você” — e esse “você” é o próprio Marco.
Ele escrevia em grego, não em latim. Para um romano instruído do século II, isso era natural: embora Cícero e Sêneca tivessem escrito filosofia em latim, o grego continuava sendo a principal língua do ensino filosófico, e Marco estudava com professores de língua grega desde menino. O texto chegou até nós dividido em doze “livros”, mas não sabemos se foi o próprio Marco quem fez essas divisões; o primeiro autor conhecido a mencionar doze livros é o léxico bizantino chamado Suda, no fim do século X.
Não há nenhuma evidência de que Marco quisesse que outras pessoas lessem essas notas. A maioria dos estudiosos acha que ele as escreveu para treinar a própria mente, e é por isso que o livro parece tão pessoal. Até o nome é incerto. “Meditações” vem de um título moderno em inglês, Meditations, e o título grego Ta eis heauton, “para si mesmo” ou “as coisas para si mesmo”, aparece registrado pela primeira vez por volta de 900 d.C. e talvez nem remonte a Marco.
Fácil
O que há dentro: doze livros de lembretes
O Livro 1 é diferente dos demais. É uma lista de agradecimentos: Marco passa em revista sua família, seus professores e amigos e anota a boa qualidade que aprendeu com cada um — a modéstia com um, o autocontrole com outro. Com seu professor Júnio Rústico, diz ele, aprendeu que seu caráter precisava ser corrigido, e foi por meio dele que chegou a ler os discursos do mestre estoico Epicteto. O livro termina com agradecimentos aos deuses.
Os Livros 2 a 12 são formados por centenas de anotações. Algumas são ordens curtas (“Apague a impressão!”), outras são pequenos ensaios. Uma das mais famosas abre o Livro 2: ao amanhecer, diz ele a si mesmo, espere encontrar hoje pessoas intrometidas, ingratas, arrogantes e desonestas — e lembre-se de que elas são seus semelhantes e de que fomos feitos para trabalhar juntos, como as mãos, os pés e as pálpebras. Outra, no início do Livro 5, começa assim: “Ao amanhecer, quando você relutar em se levantar, tenha isto à mão: levanto-me para fazer o trabalho de um ser humano”.
Os leitores costumam notar como voltam sempre os mesmos poucos pensamentos: a morte chega logo para todos; a fama é vazia; os defeitos dos outros não podem prejudicar o seu caráter; faça bem a tarefa que está à sua frente. Os estudiosos discutem se há uma ordem oculta nos livros, mas a repetição faz sentido se o objetivo era a prática, e não a apresentação. Marco escreve no Livro 4 que em nenhum lugar uma pessoa pode se retirar para um sossego maior do que em sua própria alma — e o caderno era uma das maneiras pelas quais ele fazia esse retiro.
Intermediário
Escrito em tempo de guerra: a fronteira do Danúbio e a Peste Antonina
Marco subiu ao trono em 161, junto com seu irmão adotivo Lúcio Vero. Quase imediatamente, Roma entrou em guerra com a Pártia, no Oriente (161–166). Autores antigos dizem que os soldados que voltavam dessa campanha trouxeram uma epidemia, hoje chamada Peste Antonina, que se espalhou pelo império a partir de cerca de 165. O médico Galeno descreveu febre, diarreia e uma erupção na pele; a varíola é há muito tempo o diagnóstico preferido, mas pesquisas genéticas recentes tornaram os estudiosos mais cautelosos, e o sarampo é outro candidato. As estimativas de mortos variam muito. O próprio Marco morreu em 180, possivelmente da mesma doença.
Ao mesmo tempo, a pressão crescia na fronteira do Danúbio. Nas guerras que os historiadores chamam de Guerras Marcomânicas (166–180), povos germânicos como os marcomanos e os quados, além dos jáziges, de origem sármata, entraram em território romano; por volta de 170, invasores chegaram a sitiar Aquileia, no norte da Itália. Marco passou a maior parte da década de 170 com o exército. Desde o início dessa década, instalou seu quartel-general em Carnunto, fortaleza legionária e cidade às margens do Danúbio, a leste da atual Viena, e mais tarde fez campanhas do outro lado do rio contra os quados.
Duas notas curtas nos manuscritos ligam o texto a essas campanhas. Depois do Livro 1 aparece “Entre os quados, junto ao Granua” (provavelmente o rio Hron, afluente do Danúbio), e depois do Livro 2, “Em Carnunto”. Os editores divergem sobre se cada nota encerra o livro anterior ou abre o seguinte, mas, de qualquer forma, elas mostram que pelo menos parte da obra foi escrita em acampamentos militares ou perto deles. O caderno nunca descreve batalhas, mas a sombra da guerra e da doença está em toda parte, em sua insistência de que a vida é curta e de que é preciso manter o próprio posto até o fim.
Intermediário
Ideias estoicas na voz do próprio Marco
Logos e natureza. Os estoicos afirmavam que o universo é ordenado por uma razão divina, o logos, que percorre todas as coisas, e que o objetivo da vida é viver de acordo com a natureza. Marco volta a isso constantemente, mas muitas vezes de uma forma marcante: “ou providência, ou átomos”. Ou o mundo é governado por uma inteligência, ou é um redemoinho aleatório de partículas, como ensinavam os epicuristas. Ele claramente prefere a primeira resposta, mas argumenta que, nos dois casos, a reação correta é a mesma: agir com justiça e não se queixar.
O que depende de nós. De Epicteto, Marco herdou a linha nítida entre o que depende de nós — nossos julgamentos, escolhas e ações — e o que não depende — o corpo, os bens, a reputação e os acontecimentos. Não são as coisas que nos perturbam, diz ele repetidas vezes, mas nossas opiniões sobre elas; portanto, mude a opinião. Pierre Hadot organizou o pensamento de Marco em torno de três práticas que remontam a Epicteto: a disciplina do julgamento (o assentimento), a do desejo (aceitar o que acontece) e a da ação (agir com justiça em favor dos outros).
Impermanência. Marco se treina para ver tudo de uma grande altura e ao longo de vastos períodos de tempo. “A Ásia e a Europa são cantos do cosmos; todo mar é uma gota no cosmos”, escreve ele no Livro 6. Os imperadores e filósofos do passado hoje são todos pó, e assim também serão os bajuladores e os críticos da corte de hoje. Essa “visão do alto” não pretende tornar a vida sem sentido, mas liberar a atenção para o que importa: a virtude, que os estoicos consideravam o único bem verdadeiro.
O dever e a cidade cósmica. Para Marco, todo ser racional é concidadão de uma única cidade-mundo, a cosmópolis, e deve aos outros justiça e ajuda. Ele afirma sua dupla identidade com clareza: “Como Antonino, minha cidade e minha pátria é Roma; como ser humano, é o cosmos”. Também adverte a si mesmo: “Cuide para não se transformar em César, para não se deixar tingir de púrpura” — um lembrete de que seu papel imperial era um dever a cumprir, e não uma identidade a assumir.
Intermediário
De um caderno perdido a um livro impresso
Não se sabe como as notas pessoais de Marco sobreviveram à sua morte. Durante séculos, os registros são quase silenciosos. Herodiano, no século III, elogiou os escritos de Marco em termos gerais; o orador Temístio, por volta de 364 d.C., falou dos “preceitos” de Marco, o que pode ou não se referir a este livro; a História Augusta, uma coleção de biografias imperiais provavelmente escrita no século IV, conta na Vida de Avídio Cássio que, antes de partir para a guerra marcomânica, Marco passou três dias discutindo os livros de suas “Exortações”. Nenhuma dessas referências identifica com clareza a obra Meditações.
A primeira menção segura vem de Aretas, bispo bizantino de Cesareia e grande colecionador de manuscritos. Antes de 907, ele escreveu que possuía uma cópia antiga do “livro utilíssimo” do imperador, tão velha que estava se desfazendo, e que mandou copiá-la. Em suas notas marginais a outros autores, ele se refere à obra como ta eis heauton ēthika, “escritos éticos para si mesmo”. Um pouco depois, a Suda cita cerca de trinta passagens e chama a obra de “guia de sua própria vida” em doze livros. A cópia de Aretas se perdeu, mas pode ser a ancestral de todos os manuscritos conservados.
Os textos modernos dependem sobretudo de duas testemunhas. A primeira é um códice do século XIV da Biblioteca Vaticana, o Vaticanus Graecus 1950, no qual Meditações aparece ao lado de obras de Xenofonte e do Manual de Epicteto; seu copista cometeu muitos erros e pulou umas quarenta e tantas linhas. A segunda era um manuscrito vindo da Biblioteca Palatina de Heidelberg: o poeta Michael Toxites o entregou a Conrad Gesner, em Zurique, onde Wilhelm Xylander editou o texto com uma tradução latina ao lado e Andreas Gesner o imprimiu. A página de rosto traz a data de 1558, e a edição costuma ser datada de 1558 ou 1559. Quando Xylander revisou seu trabalho, em 1568, já não podia consultar esse manuscrito, e ninguém o viu desde então.
Por isso o título é um enigma. O grego Ta eis heauton vem dessa tradição manuscrita e de Aretas, e não de alguma fonte antiga próxima de Marco. A tradução inglesa de Meric Casaubon, de 1634, ajudou a fixar “Meditations” em inglês; outras versões usaram “Thoughts” (Pensamentos), “Communings with Himself” (Conversas consigo mesmo) ou simplesmente “To Himself” (Para si mesmo).
Intermediário
Enquanto isso no mundo: Roma, o oceano Índico e a China Han
O caderno de Marco o exorta a se ver como cidadão do mundo inteiro, e em sua época redes de comércio de longa distância ligavam o Mediterrâneo, o oceano Índico e a China Han. A história oficial da dinastia Han Oriental, o Hou Hanshu (Livro dos Han Posteriores), registra que, no nono ano da era Yanxi do imperador Huan — 166 d.C. —, enviados de “Andun, rei de Da Qin” chegaram de além da fronteira de Rinan, uma comandaria na costa central do Vietnã, trazendo marfim, chifre de rinoceronte e carapaça de tartaruga. Da Qin é o nome chinês para o mundo romano, e Andun costuma ser interpretado como “Antonino”, nome usado tanto por Antonino Pio (morto em 161) quanto por Marco Aurélio.
Os próprios historiadores chineses desconfiaram: os presentes, observaram, não eram nem preciosos nem raros, e eles se perguntaram se os relatos não teriam sido exagerados. Muitos historiadores modernos acham que os visitantes eram mercadores do Oriente romano que se apresentaram como enviados, e não uma embaixada mandada por Marco. O que o registro mostra, sim, é que a notícia de visitantes “romanos” chegou à corte Han através de Rinan, vinda do sul marítimo. O comércio do lado romano do oceano está documentado separadamente. Mercadores do Egito romano navegavam até a Índia com os ventos das monções, e um papiro de meados do século II hoje em Viena, o “papiro de Muziris”, trata de uma carga embarcada no porto indiano de Muziris no navio Hermapollon: 167 presas de elefante, uma quantidade enorme de um produto geralmente identificado como pimenta (cerca de 139 toneladas) e outras mercadorias; a conta da carga no verso do papiro (o anverso conserva um contrato de empréstimo), provavelmente um registro particular de cálculos alfandegários, avalia as mercadorias restantes após a dedução alfandegária em quase sete milhões de dracmas. Essas mercadorias viajavam por cadeias de portos e intermediários, e não em viagens únicas entre Roma e a China.
O ano de 166 também foi um momento decisivo dentro da China. Na corte Han, facções de eunucos convenceram o imperador Huan a expulsar um grupo de funcionários e estudantes confucianos que os haviam criticado, dando início às “proibições partidárias”; um expurgo mais duro veio em 168–169. Fontes chinesas registram epidemias repetidas entre as décadas de 160 e 180, e em 184 o curandeiro religioso Zhang Jue liderou a rebelião dos Turbantes Amarelos em todo o norte da China. A revolta foi esmagada ainda naquele ano, mas os exércitos reunidos contra ela, uma nova crise na corte após a morte do imperador Ling, em 189, e as lutas entre senhores da guerra que se seguiram, juntos, despedaçaram a dinastia, levando ao período dos Três Reinos.
Teria a mesma doença atingido os dois impérios? O historiador William McNeill defendeu em 1976 que epidemias ajudaram a enfraquecer tanto a China Han quanto Roma, e alguns estudiosos observam que as epidemias chinesas se concentram nas mesmas décadas que a Peste Antonina. Mas não sabemos qual era a doença chinesa, e a ligação continua sendo uma hipótese. O que se pode dizer com segurança é que dois grandes impérios, nas duas pontas da Eurásia, enfrentaram epidemias, pressão nas fronteiras e tensão política ao mesmo tempo — enquanto um de seus governantes escrevia em seu caderno que a Ásia e a Europa eram meros cantos do cosmos.
Intermediário
Recepção: dos eruditos do Renascimento à autoajuda moderna
Em Bizâncio, o livro foi lido por estudiosos, que dele extraíram trechos, e há citações em antologias gregas dos séculos XIV a XVI. Sua carreira no Ocidente começou com a edição greco-latina de Xylander, que o tornou acessível aos humanistas europeus. Seguiram-se traduções para as línguas vernáculas; em inglês, a versão de Meric Casaubon, de 1634, foi seguida por muitas outras, entre elas a influente tradução de George Long, de 1862.
Para os europeus do século XIX, Marco tornou-se um caso exemplar para discutir se um não cristão podia ser um modelo moral. Em Sobre a liberdade (1859), John Stuart Mill descreveu Marco como talvez o melhor e mais sábio governante de sua época, cujos escritos eram próximos da ética cristã — e que, no entanto, por senso de dever, perseguiu o cristianismo. Mill chamou isso de um dos fatos mais trágicos da história e usou o episódio para argumentar que nem mesmo a autoridade mais sábia deve suprimir opiniões. Matthew Arnold respondeu com seu próprio ensaio sobre Marco, em 1863, e o debate moldou a imagem vitoriana do imperador-filósofo.
No século XX, o livro chegou à psicologia. Os fundadores da terapia cognitiva escreveram em 1979 que as origens de sua abordagem podiam ser rastreadas até os filósofos estoicos, citando Marco Aurélio entre eles, e a ideia estoica de que nossos julgamentos moldam nossas emoções tornou-se central para a terapia cognitivo-comportamental.
No século XXI, Meditações se tornou um best-seller. A Penguin informou que as vendas de sua edição se multiplicaram várias vezes na década de 2010, ultrapassando 100.000 exemplares em 2019. Autores como Ryan Holiday formaram na internet um grande público para o “estoicismo moderno”, e políticos que vão de Bill Clinton ao ex-primeiro-ministro chinês Wen Jiabao elogiaram o livro. Críticos — incluindo filósofos que veem com bons olhos esse renascimento — alertam que frases tiradas de seu contexto podem transformar Marco num guru da produtividade ou da repressão das emoções, algo muito distante de um texto que pede o tempo todo a seu autor que sirva aos outros.
Avançado
Perspectivas diferentes
Filosofia ou exercício espiritual? Há muito tempo os leitores tratam Meditações ou como um resumo da doutrina estoica, ou como uma janela para a personalidade e os estados de ânimo de Marco. Pierre Hadot, em La Citadelle intérieure (1992; em inglês, The Inner Citadel, 1998), argumentou, ao contrário, que o texto é uma série de “exercícios espirituais”: Marco seguia o conselho de Epicteto de escrever todos os dias os princípios centrais do estoicismo, para torná-los vívidos e viver de acordo com eles. Nessa leitura, a repetição, a força retórica e as imagens sombrias são ferramentas, não confissões, e Hadot advertia contra lê-las como pistas da psicologia do imperador. Resenhistas elogiaram a leitura de Hadot, mas questionaram partes dela: Rachana Kamtekar, por exemplo, observou que a necessidade de recursos literários persuasivos não combina bem com a psicologia estoica ortodoxa e que a explicação de Hadot sobre a doutrina estoica das coisas “indiferentes” faz os estoicos parecerem mais confusos do que eram.
Estoico ortodoxo ou eclético? Marco cita Heráclito, Platão e Demócrito, e chega a aprovar o que Epicuro diz sobre a dor. Nove vezes ele apresenta a alternativa “providência ou átomos”. Alguns estudiosos, como John Rist e Julia Annas, viram nisso um sinal de que seu domínio da física estoica era frágil; outros, incluindo Hadot, interpretam essa alternativa como um argumento de que o modo de vida estoico se sustenta qualquer que seja a física verdadeira. A Enciclopédia de Filosofia de Stanford acrescenta uma advertência de método: como Marco escreve para produzir atitudes em si mesmo, afirmações que parecem contraditórias podem ser exageros deliberados, e lê-las como doutrina faz com que ele pareça mais eclético e impreciso do que era.
Os ideais e o reinado. O elogio do livro à justiça e à paciência convive com um histórico duro. Sob Marco, cristãos foram executados: o apologista Justino foi decapitado em Roma por volta de 165, por ordem do prefeito da cidade, Júnio Rústico — o mesmo professor estoico a quem Marco agradece no Livro 1 —, e em 177 cristãos de Lião e Vienne foram torturados e mortos em Lião depois que o governador consultou o imperador, que, segundo a carta dos sobreviventes preservada por Eusébio, ordenou que os que confessassem fossem executados e os que negassem fossem libertados. Os historiadores divergem sobre o papel pessoal de Marco: as perseguições eram locais e movidas por multidões e governadores, os autores cristãos da época não o culparam diretamente, e Tertuliano chegou a apresentá-lo como protetor com base em uma carta hoje considerada falsa. A própria obra Meditações menciona os cristãos apenas uma vez (11.3), num comentário depreciativo sobre morrer “por pura obstinação”; muitos editores acham que essas palavras são uma nota marginal de um leitor posterior que acabou entrando no texto.
A escolha de Cômodo. Os “bons imperadores” anteriores a Marco haviam, em sua maioria, adotado seus herdeiros; Marco fez de seu filho biológico Cômodo coimperador em 177, e Cômodo governou sozinho de 180 até ser assassinado, em 192. O senador Cássio Dião, que viveu esse período, escreveu que, com a morte de Marco, a história caiu “de um reino de ouro para um de ferro e ferrugem”. Defensores de Marco, como o historiador Michael Grant, argumentam que preterir um filho adulto em favor de outra pessoa quase certamente teria levado a uma guerra civil; os autores antigos já tratavam essa escolha como a grande desgraça de sua vida — a História Augusta observa que, se Marco tivesse sido realmente afortunado, não teria deixado um filho. Até a ideia de Marco como o “rei-filósofo” de Platão é em parte uma construção: a História Augusta diz que ele citava com frequência a máxima de Platão de que os Estados prosperam quando os filósofos governam, e apologistas cristãos o lisonjeavam como filósofo; no entanto, em seu próprio caderno, ele diz a si mesmo que não espere a República ideal de Platão e que se contente se até a menor coisa avançar.
Avançado
Evidências e método: como ler um texto pessoal danificado
Toda edição moderna é uma reconstrução. Como o manuscrito palatino desapareceu, suas leituras sobrevivem apenas por meio da edição impressa de Xylander, que os editores comparam com o códice vaticano. Antologias feitas por leitores bizantinos acrescentam um pouco mais: um manuscrito de Darmstadt (nº 2773) conserva mais de cem excertos dos nove primeiros livros, e um manuscrito de Paris (gr. 319), algumas dezenas dos quatro primeiros. Muitas passagens continuam corrompidas, e as edições às vezes dividem e numeram as anotações de modo diferente, de forma que a mesma frase pode ter referências ligeiramente distintas.
A datação se apoia em evidências escassas. As duas notas de lugar, as referências internas à velhice e à morte e o que sabemos dos deslocamentos de Marco sugerem a década de 170, mas os estudiosos propõem intervalos diferentes — de aproximadamente 170–180 a, de forma mais restrita, c. 171–175 —, e é debatido se as anotações foram escritas na ordem em que hoje aparecem.
O maior problema metodológico é o gênero. Se Meditações é um exercício pessoal, suas afirmações não podem ser lidas diretamente como autobiografia de Marco nem como registro de suas políticas; a distância entre o caderno e o reinado pode ser exatamente o que o caderno tentava diminuir. Por isso os historiadores o combinam com outras fontes — a história de Cássio Dião (preservada em excertos bizantinos), a pouco confiável História Augusta, inscrições, moedas, a Coluna de Marco Aurélio em Roma, os escritos médicos de Galeno e as cartas de seu professor Frontão —, enquanto os filósofos o leem ao lado de Epicteto. Cada disciplina vê um Marco diferente, e o caderno raramente resolve suas divergências.
Ideias principais
- Logos
- A razão divina que, para os estoicos, ordena todo o cosmos. A razão humana é uma parcela dela; por isso, viver racionalmente significa viver de acordo com a natureza.
- O que depende de nós
- A distinção, herdada de Epicteto, entre nossos próprios julgamentos e escolhas, que estão em nosso poder, e as coisas externas, como saúde, riqueza e reputação, que não estão.
- Providência ou átomos
- A alternativa recorrente de Marco: ou o mundo é governado por uma inteligência, ou é uma colisão aleatória de átomos. Ele argumenta que, em qualquer dos casos, deve-se agir com justiça e calma.
- Impermanência e visão do alto
- Imaginar toda a história e a Terra inteira de uma só vez, para ver como são breves a fama, a dor e as brigas, e liberar a atenção para a virtude.
- Cosmópolis
- A ideia estoica de que todos os seres racionais são cidadãos de uma única cidade-mundo, com deveres de justiça uns para com os outros.
- O dever e o próprio posto
- Marco trata seu papel de imperador como um posto atribuído pela natureza, que deve ser bem ocupado, sem vaidade — “sem se deixar tingir de púrpura”.
- A escrita como exercício
- A visão de Pierre Hadot de que o caderno era uma ferramenta para treinar a mente reescrevendo princípios centrais, e não um livro para leitores.
Registros
- 121 d.C. — Marco Aurélio nasce em Roma (26 de abril).
- 161 d.C. — Marco se torna imperador junto com Lúcio Vero; começa a guerra contra a Pártia.
- c. 165 d.C. — A Peste Antonina começa a se espalhar pelo Império Romano.
- c. 165 d.C. — O mestre cristão Justino é executado em Roma sob o prefeito da cidade Júnio Rústico, professor estoico de Marco.
- 166 d.C. — O Hou Hanshu registra a chegada à China Han, por via marítima, de enviados de “Andun, rei de Da Qin”; começa na corte Han a primeira proibição partidária.
- c. 170 d.C. — Povos do norte invadem a Itália e sitiam Aquileia; Marco dirige a guerra a partir de Carnunto no início da década de 170. Pelo menos parte de Meditações é escrita durante essas campanhas, embora não se saiba quando ele começou.
- 177 d.C. — Cômodo se torna coimperador; cristãos de Lião e Vienne são martirizados em Lião.
- 180 d.C. — Marco morre durante uma campanha (17 de março); Cômodo passa a governar sozinho e faz a paz no Danúbio.
- 184 d.C. — Eclode na China Han a rebelião dos Turbantes Amarelos.
- c. 907 d.C. — Antes dessa data, Aretas de Cesareia manda copiar novamente um exemplar antigo do livro — a primeira menção segura da obra.
- 1558 — A primeira edição impressa, de Wilhelm Xylander, com tradução latina, é publicada em Zurique (datada de 1558; muitas vezes indicada como 1558/59).
- 1634 — Meric Casaubon publica a primeira tradução inglesa.
- 1859 — Sobre a liberdade, de John Stuart Mill, usa a perseguição de Marco aos cristãos como alerta sobre a autoridade.
- 1992 — La Citadelle intérieure, de Pierre Hadot, lê Meditações como exercícios espirituais.
Glossário
- Estoicismo
- Escola filosófica grega fundada por Zenão de Cítio por volta de 300 a.C., que ensinava que a virtude é o único bem e que se deve viver de acordo com a natureza.
- Epicteto
- Mestre estoico (c. 50–c. 135 d.C.), que nasceu escravizado e cujas aulas, registradas por seu aluno Arriano, foram o principal modelo filosófico de Marco.
- Grego coiné
- O grego comum usado em todo o Mediterrâneo oriental na época romana, inclusive por romanos instruídos para escrever e estudar filosofia.
- Guerras Marcomânicas
- Guerras de 166–180 d.C. entre Roma e povos ao norte do Danúbio, entre eles os marcomanos, os quados e os jáziges.
- Peste Antonina
- Epidemia que se espalhou pelo Império Romano a partir de cerca de 165 d.C.; não se sabe com certeza qual foi a doença.
- Carnunto
- Fortaleza legionária e cidade romana às margens do Danúbio, na província da Panônia, a leste da atual Viena, usada por Marco como quartel-general.
- Códice
- Livro manuscrito com páginas, a forma habitual dos manuscritos medievais.
- Editio princeps
- A primeira edição impressa de um texto antigo; no caso de Meditações, a edição de Xylander publicada em Zurique em 1558/59.
- Da Qin
- Nome usado nas fontes chinesas da época Han para o mundo romano, que conheciam sobretudo por ouvir dizer.
- Exercícios espirituais
- Termo de Pierre Hadot para práticas antigas de pensamento, escrita e imaginação destinadas a transformar o modo de viver de uma pessoa.
Perguntas e respostas
Marco Aurélio queria que as pessoas lessem seu caderno?
Provavelmente não. Nada no texto se dirige a outro leitor além dele mesmo, e a maioria dos estudiosos o vê como um treinamento pessoal. Não se sabe como ele sobreviveu e se tornou público.
Por que um imperador romano escrevia em grego?
O grego era a principal língua da educação filosófica no mundo romano, embora romanos como Cícero e Sêneca também tenham escrito filosofia em latim. Marco aprendeu grego desde a infância e estudou com professores de língua grega; por isso, era natural para ele pensar a filosofia em grego.
“Meditações” é o título verdadeiro?
Nenhum título dado por Marco chegou até nós. O título grego Ta eis heauton (“Para si mesmo”) é atestado pela primeira vez por volta de 900 d.C., e “Meditações” vem de um título moderno em inglês.
Onde foi escrito?
Pelo menos parte foi escrita durante campanhas na fronteira do Danúbio. Notas no texto dizem “entre os quados, junto ao Granua” e “em Carnunto”, uma cidade-fortaleza romana a leste da atual Viena.
Marco Aurélio perseguiu os cristãos?
Cristãos foram executados durante seu reinado, especialmente Justino, em Roma (c. 165), e os mártires de Lião (177), onde, segundo os relatos, a decisão do imperador mandou executar os que confessassem. Até que ponto ele dirigiu pessoalmente as perseguições é tema de debate.
Roma enviou uma embaixada à China durante seu reinado?
Registros chineses descrevem enviados de “Andun, rei de Da Qin” em 166. Muitos historiadores acham que eram mercadores que diziam representar Roma, e não embaixadores oficiais de Marco.
Quão confiável é o texto que lemos hoje?
Bastante confiável no conjunto, mas depende de pouquíssimos manuscritos, um dos quais se perdeu; por isso, muitas passagens isoladas são incertas, e os editores ainda divergem sobre as leituras.
Meditações é boa filosofia ou apenas autoajuda?
As duas leituras existem. Alguns o valorizam como registro da ética estoica; outros, seguindo Hadot, como exercício prático. Críticos alertam que a autoajuda moderna muitas vezes elimina sua exigência de servir aos outros.
Fontes e leituras adicionais
- Rachana Kamtekar, Marcus Aurelius. Stanford Encyclopedia of Philosophy
- John Sellars, Marcus Aurelius. Internet Encyclopedia of Philosophy
- Stoicism. Stanford Encyclopedia of Philosophy
- Epictetus. Stanford Encyclopedia of Philosophy
- Meditations. Wikipedia
- C. R. Haines, Introduction, in The Communings with Himself of Marcus Aurelius Antoninus (Loeb Classical Library). William Heinemann / Wikisource, 1916
- George Long (trans.), The Thoughts of the Emperor Marcus Aurelius Antoninus (trans. George Long). Project Gutenberg, 1862
- Vat.gr.1950, pt. 2 (Xenophon, Marcus Aurelius, Epictetus and others). Biblioteca Apostolica Vaticana, DigiVatLib
- Jona Lendering, Marcus Aurelius. Livius.org
- Commodus. Livius.org
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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
