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Para jovens leitores
Há cerca de 400 anos, na terra que hoje é Angola, no sul da África, vivia uma princesa chamada Njinga. Seu pai era o rei de Ndongo. Ele a treinou para lutar com um machado de guerra e a deixava participar de reuniões importantes, então ela aprendeu a governar.
Naquela época, soldados e comerciantes portugueses tinham construído fortes nas terras de Ndongo e capturavam pessoas para vender como escravas do outro lado do oceano. Quando o irmão de Njinga se tornou rei, ele a enviou para conversar com o governador português na cidade de Luanda.
Uma história famosa conta que, quando ela chegou, os portugueses tinham cadeiras para si mesmos, mas apenas um tapete no chão para ela. Em vez de sentar-se mais baixo do que o governador, uma de suas acompanhantes se ajoelhou para servir de assento, para que Njinga pudesse conversar com ele olho no olho. Não se sabe se todos os detalhes são verdadeiros, mas a história mostra como ela era orgulhosa e esperta.
Mais tarde, Njinga se tornou a própria governante. Quando os portugueses atacaram, ela se mudou para o leste, fez novos amigos e inimigos, tomou outro reino chamado Matamba e lutou por muitos anos. Ela até se aliou a soldados holandeses contra os portugueses.
Njinga era uma pessoa complexa. Era corajosa e muito inteligente, mas também podia ser dura, e seu reino, como os de seus inimigos, vendia prisioneiros no comércio de escravos. Hoje, muitos angolanos a chamam de “Mãe de Angola”, e há uma estátua dela na capital, Luanda.
Em resumo
- Viveu
- c. 1583 – 17 de dezembro de 1663
- Governou
- Ndongo a partir de 1624 e Matamba a partir de 1631, até sua morte em 1663
- Local
- As terras altas mbundo (ambundo) do que hoje é o norte de Angola; entre suas capitais estavam Kabasa, em Ndongo, e depois a cidade de Matamba
- Povo e língua
- Mbundo; língua quimbundo (Kimbundu). Ela também lia e escrevia em português
- Nomes
- Njinga Mbandi, Nzinga, Ginga ou Jinga; título real Ngola (origem do nome “Angola”); nome cristão Ana de Sousa, após seu batismo em Luanda em 1622
- Principais opositores
- A colônia portuguesa de Angola e seus aliados africanos, incluindo o rei-fantoche Ngola Hari; em certos momentos, o líder imbangala Kasanje e o Reino do Congo
- Principais aliados
- Bandos guerreiros imbangala (a partir de c. 1629–1631) e a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, que ocupou Luanda entre 1641 e 1648
- Registros escritos
- Cerca de uma dúzia de cartas próprias sobrevivem, além da correspondência de governadores portugueses e relatos de missionários capuchinhos que viveram em sua corte
Fácil
Quem foi Nzinga?
Nzinga, cujo nome também é grafado Njinga, foi rainha de dois reinos vizinhos na África centro-ocidental: Ndongo e Matamba, na região que hoje é o norte de Angola. Nasceu por volta de 1583 na família real de Ndongo e morreu em 1663, com cerca de oitenta anos, depois de governar por quase quatro décadas.
Ela viveu em uma época perigosa. Os portugueses haviam chegado ao litoral em 1575, fundado a cidade de Luanda e avançavam pelo interior com soldados, fortes e traficantes de escravos. Boa parte da vida de Nzinga foi uma luta para impedi-los de tomar as terras de seu povo. Ela fez isso de muitas maneiras: negociando, lutando, mudando de religião, casando-se por alianças e transferindo seu reino quando necessário.
Hoje Nzinga é uma das governantes históricas mais famosas da África. Em Angola, ela é homenageada como símbolo de resistência ao colonialismo. Historiadores também ressaltam que ela foi uma governante complexa de seu tempo, que participou do comércio de escravos e usou a força contra rivais, e procuram compreendê-la sem transformá-la em heroína pura nem em vilã.
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Uma princesa treinada para governar
O pai de Nzinga tornou-se rei (ngola) de Ndongo quando ela tinha cerca de dez anos. Sua mãe, Kengela ka Nkombe, era uma das esposas escravizadas do rei. A tradição diz que Nzinga nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço, e que seu nome vem do verbo quimbundo kujinga, “torcer” ou “virar”. Acreditava-se que crianças que sobreviviam a partos difíceis tinham dons espirituais especiais.
Como não se esperava que ela herdasse o trono, seu pai podia favorecê-la sem contrariar os herdeiros homens. Ela treinou como guerreira, aprendendo a usar o machado de guerra, arma tradicional dos combatentes de Ndongo. Também participava de conselhos sobre leis, guerra e rituais importantes. Missionários portugueses lhe ensinaram a ler e escrever em português, habilidade que depois a tornaria uma diplomata valiosa.
Ela tinha um irmão, Mbandi, que era o herdeiro, e duas irmãs, Kambu e Funji, que mais tarde ficaram ao seu lado na guerra e no cativeiro. Essas relações familiares marcaram profundamente sua vida, tanto em lealdade quanto em rivalidade amarga.
Fácil
Ndongo, os portugueses e o tráfico de escravos
Ndongo era um reino do povo mbundo, com capital em Kabasa, uma grande cidade nas terras altas. Seus reis carregavam o título ngola, que os portugueses usaram para nomear sua colônia de “Angola”. Ao norte ficava o poderoso Reino Cristão do Congo, e a leste, Matamba, um reino onde mulheres às vezes haviam governado.
A partir de 1575, os portugueses, com base em Luanda, travaram uma longa série de guerras contra Ndongo. Queimavam aldeias, construíam fortes dentro do território de Ndongo e capturavam um número enorme de pessoas, muitas das quais foram enviadas pelo Atlântico ao Brasil e à América espanhola como escravas. Ndongo venceu uma grande batalha, a Batalha do Lukala, em 1590, mas perdeu muitas terras, e vários senhores locais, chamados sobas, deixaram de pagar tributo ao rei.
No início do século XVII surgiu uma nova força: os imbangalas, bandos guerreiros altamente militarizados cujos membros eram recrutados por iniciação, e não por nascimento. Eram temidos por sua ferocidade, e os portugueses contrataram alguns deles como mercenários. Em 1618, forças portuguesas e imbangalas saquearam a capital de Ndongo. Foi nessa crise que Nzinga entrou em cena.
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A embaixada a Luanda (1621–1622)
Quando seu pai morreu em 1617, seu irmão Mbandi tornou-se rei. Ele matou pretendentes rivais e, segundo as fontes, mandou matar o filho pequeno de Nzinga e submeteu Nzinga e suas irmãs a esterilização forçada. Nzinga parece ter se afastado da corte por um tempo. Ainda assim, em 1621, pressionado pelos portugueses, Mbandi pediu que ela fosse sua embaixadora junto ao governador português, João Correia de Sousa, em Luanda. Ela aceitou com a condição de negociar com plena autoridade.
Em Luanda, ela vestiu deliberadamente trajes esplêndidos de Ndongo, com penas e joias, em vez de roupas europeias, para mostrar que sua cultura não era inferior. A famosa história da cadeira pertence a essa visita: ao encontrar apenas um tapete para si enquanto os portugueses se sentavam em cadeiras, ela mandou que uma acompanhante se ajoelhasse para formar um assento, de modo a poder falar com o governador em pé de igualdade. A história vem de relatos posteriores e pode ter crescido com o tempo, mas capta o sentido político do encontro.
Sua posição de negociação foi firme. Ofereceu paz, acesso a comerciantes e a devolução de escravos fugidos que haviam se juntado ao exército de Ndongo, mas insistiu que os portugueses retirassem seus fortes de Ndongo e recusou-se a pagar tributo, argumentando que só povos conquistados pagavam tributo. Para demonstrar boa vontade, foi batizada publicamente, recebendo o nome de Ana de Sousa em homenagem a seus padrinhos, o governador e sua esposa. Um tratado foi firmado, e ela retornou a Kabasa em 1622.
A paz não durou. Os portugueses não retiraram seus fortes e continuaram a fazer incursões em busca de prisioneiros, enquanto grupos imbangalas atacavam Ndongo. Mbandi ficou cada vez mais deprimido e passou gradualmente suas funções à irmã.
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Tornando-se rainha e perdendo Ndongo (1624–1628)
Mbandi morreu em 1624 em circunstâncias obscuras; alguns dizem que foi suicídio, outros que foi envenenamento. Nzinga agiu rapidamente para tomar o poder. Seus apoiadores tomaram os objetos rituais reais, ela assumiu o título de ngola e eliminou opositores. As fontes dizem que ela se casou com o chefe imbangala que guardava seu jovem sobrinho, um herdeiro rival, e depois mandou matar o menino.
Sua reivindicação foi ferozmente contestada. Alguns nobres argumentavam que nem ela nem seu irmão tinham direito legítimo de governar, porque suas mães eram esposas escravizadas, e que uma mulher não podia sequer ser ngola. Os portugueses exploraram essas divisões. Exigiram que ela se tornasse vassala de Portugal e pagasse tributo, o que ela recusou, e incentivaram os sobas a mudar de lealdade. Nzinga, por sua vez, enviou agentes para convencer escravizados nas terras sob domínio português a fugir e se juntar a ela.
Em 1626, os portugueses declararam guerra e reconheceram um rival, primeiro Hari a Kiluanje e depois Ngola Hari, como rei de Ndongo. As forças de Nzinga foram derrotadas em uma série de batalhas. Sua oferta, em 1627, de se tornar vassala portuguesa em troca de reconhecimento foi rejeitada, e seu embaixador foi executado. Em uma emboscada, suas duas irmãs foram capturadas. No fim de 1628, restava-lhe apenas uma pequena força, e ela havia sido expulsa de seu reino.
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Aliança com os imbangalas e a conquista de Matamba
No exílio, Nzinga fez uma escolha surpreendente. O líder imbangala Kasanje, antigo inimigo, ofereceu uma aliança. Ela aceitou, casou-se com ele e foi iniciada na sociedade imbangala, adotando muitos de seus ritos e sua organização militar, sem abandonar sua identidade mbundo. A historiadora Linda Heywood argumenta que seu gênio esteve em combinar as tradições reais mbundo com o sistema militar imbangala para criar um exército novo e eficaz. Ela acolhia escravos fugidos e ndongos exilados, recompensando-os com liberdade, terras e títulos.
Fontes europeias descrevem a iniciação imbangala como envolvendo rituais extremos, incluindo infanticídio e canibalismo, e algumas afirmam que Nzinga participou deles. Esses relatos vêm em grande parte de estrangeiros que eram hostis ou tinham interesses próprios, e os historiadores discordam sobre até que ponto devem ser lidos ao pé da letra. O que é claro é que se juntar aos imbangalas deu a Nzinga uma comunidade militar poderosa e baseada em mérito, que não dependia dos argumentos de linhagem usados contra ela em Ndongo.
Entre 1631 e 1635, ela invadiu o vizinho Reino de Matamba, capturou sua rainha, Mwongo Matamba, e fez de Matamba sua base. Como Matamba tinha uma tradição de governantes mulheres, isso lhe deu uma base mais segura do que Ndongo. Ela instalou seus seguidores ali e usou a posição da região nas rotas comerciais para o interior para controlar o comércio de escravos, usando os lucros para financiar suas guerras.
Durante esses anos de guerra, ela adotou o papel de governante masculino, assumindo títulos e trajes masculinos, mantendo uma guarda pessoal feminina e exigindo que seus concubinos homens se vestissem como mulheres. Os historiadores interpretam isso como uma estratégia política deliberada em uma sociedade em que o poder de governar estava associado aos homens.
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A aliança holandesa e a guerra da década de 1640
Em agosto de 1641, uma frota da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, aliada ao Reino do Congo, capturou Luanda, e os portugueses recuaram para o interior, para seu forte em Massangano. Nzinga enviou imediatamente enviados aos holandeses e formou uma aliança, oferecendo-lhes comércio, inclusive de escravos. Enviados e soldados holandeses vieram à sua corte. Ela transferiu sua capital para o oeste, para Kavanga, e construiu um enorme acampamento de guerra que, incluindo não combatentes, teria chegado a cerca de 80 mil pessoas.
Entre 1641 e 1644, ela recuperou grande parte de Ndongo. Derrotou os portugueses na Batalha de Ngoleme, em 1644, mas foi derrotada em Kavanga em 1646, onde seus arquivos e sua irmã Kambu foram capturados. Os documentos revelaram que sua outra irmã cativa, Funji, havia lhe enviado informações secretamente, e os portugueses teriam afogado Funji no rio Kwanza. Em 1647, com reforços holandeses, Nzinga venceu uma grande batalha, a Batalha de Kombi, e sitiou Massangano.
No entanto, ela não conseguiu tomar a fortaleza, por falta de artilharia. Em agosto de 1648, uma expedição portuguesa vinda do Brasil, sob o comando de Salvador Correia de Sá, retomou Luanda, e os holandeses concordaram em deixar Angola. Nzinga recuou para Matamba. A partir de então, concentrou-se em defender Matamba e impedir a expansão portuguesa para o interior, em vez de tentar reconquistar Ndongo.
Intermediário
Cristianismo, paz e últimos anos
Nas décadas de 1640 e 1650, Nzinga voltou-se cada vez mais para o cristianismo. Missionários capuchinhos italianos e espanhóis, menos ligados ao governo colonial português do que os jesuítas e párocos anteriores, vieram à sua corte; um deles, Calisto Zelotes, tornou-se seu secretário. Ela os usou como intermediários com Roma e, em 1661, recebeu uma carta do papa Alexandre VII. Construiu igrejas e colocou cruzes em sua corte. Também reprimiu opositores de sua política religiosa, e alguns sacerdotes tradicionais foram vendidos aos portugueses como escravos.
Exausta após décadas de guerra, Nzinga e os portugueses negociaram ao longo do início da década de 1650 e assinaram um tratado de paz em 1656. O rio Lucala tornou-se a fronteira entre a Angola portuguesa e Matamba, comerciantes portugueses foram autorizados a entrar em Matamba, e um mercado de escravos foi concentrado em sua capital, dando-lhe efetivamente um monopólio. Missionários podiam residir em seu reino. Uma cláusula exigindo tributo foi proposta, mas nunca ratificada. Sua irmã Kambu, conhecida como Dona Barbara, foi libertada e voltou para junto dela.
Em seus últimos anos, Nzinga trabalhou para reconstruir Matamba e garantir a sucessão. Ela reassentou pessoas libertas, permitiu que mulheres no acampamento de guerra tivessem filhos, o que o costume imbangala proibia, reformou leis, aboliu o concubinato e casou-se com seu parceiro favorito em uma cerimônia cristã. Nomeou Kambu como sua herdeira. Nzinga morreu em 17 de dezembro de 1663 e foi enterrada com ritos católicos e mbundo. Kambu a sucedeu, e no século seguinte à sua morte rainhas governaram Matamba durante a maior parte do tempo.
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Memória e legado
As tradições orais que celebram Nzinga começaram logo após sua morte. Matamba acabou se tornando parte da Angola portuguesa no século XIX, mas sua memória sobreviveu. Durante a Guerra de Independência de Angola (1961–1974), ela se tornou um poderoso símbolo de resistência e permanece heroína nacional desde a independência. Uma estátua sua foi erguida na Praça do Kinaxixi, em Luanda, em 2002, uma grande avenida tem seu nome, e o Banco Nacional de Angola emitiu uma moeda em sua homenagem em 2014.
Sua imagem também atravessou o mundo atlântico. Escritores da diáspora africana, como a poeta afro-cubana Georgina Herrera, a reivindicaram como figura ancestral; o historiador John Thornton argumentou que sua reputação ajudou a moldar uma cultura crioula atlântica mais ampla. Ela apareceu em filmes, incluindo o filme angolano Njinga: Rainha de Angola (2013), em docudramas e em videogames. A tradição local também identifica marcas de pegadas nas Pedras Negras de Pungo Andongo, na província de Malanje, como sendo dela.
As representações europeias eram muito diferentes. Escritores dos séculos XVIII e XIX, baseando-se em relatos hostis ou embelezados, concentraram-se em histórias de crueldade, sexualidade e canibalismo; o marquês de Sade e G. W. F. Hegel usaram-na, direta ou indiretamente, como exemplo de desordem. A pesquisa acadêmica do século XX, impulsionada em parte pela independência de Angola, adotou uma abordagem mais cuidadosa.
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As fontes e sua confiabilidade
Nzinga é uma das governantes africanas mais bem documentadas do início da era moderna, mas quase toda a documentação foi produzida por estrangeiros ou por meio deles. O material mais rico inclui cerca de uma dúzia de cartas próprias, a maioria publicada na Monumenta Missionaria Africana de António Brásio; a correspondência do governador Fernão de Sousa, que serviu de 1624 a 1631 e descreveu seu início de reinado em detalhe (editada por Beatrix Heintze); a crônica de António de Oliveira de Cadornega (1680–1681); e as obras de dois capuchinhos italianos que viveram em sua corte a partir de 1658, Antonio Gaeta da Napoli e Giovanni Antonio Cavazzi da Montecuccolo.
Cada um tem seus vieses. Funcionários portugueses escreviam para justificar políticas e guerras. A biografia de Gaeta (1669) celebra sua conversão como um triunfo da providência e a compara a heroínas da Antiguidade. Cavazzi, que presidiu seu funeral, elogiou sua habilidade política, mas também a descreveu como uma governante que arruinou a terra, e fez afirmações depreciativas, como sobre canibalismo, sem apresentar provas. Sua obra, livremente adaptada para o francês por Jean-Baptiste Labat em 1732, tornou-se a principal fonte das imagens europeias posteriores de Nzinga, ampliando os elementos sensacionalistas.
Histórias populares, como a alegação de que ela executava amantes depois de uma única noite, assentam-se em bases ainda mais frágeis; uma delas vem de uma compilação do século XVII de Olfert Dapper e não tem apoio independente. O famoso episódio da cadeira, embora amplamente aceito, também é conhecido apenas por fontes narrativas posteriores. Por isso, os historiadores leem os documentos a contrapelo, comparam-nos com tradições orais mbundo e com padrões da cultura política da África Central, e tratam com especial cuidado as alegações de violência ritual.
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Interpretações: resistência, legitimidade e o comércio de escravos
A pesquisa acadêmica moderna ofereceu vários enfoques. O artigo de Joseph C. Miller, de 1975, na The Journal of African History, destacou suas inovações políticas, mas também criticou seus métodos autocráticos, lendo sua trajetória em termos de disputa entre instituições políticas mbundo. John Thornton, em um artigo de 1991 sobre “Legitimidade e Poder Político”, enfatizou sua longa luta para estabelecer legitimidade como mulher e como filha de uma mãe escravizada, mostrando como ela recorreu a precedentes de Ndongo, instituições imbangala e a realeza cristã conforme lhe convinha. A biografia de Linda Heywood de 2017, Njinga of Angola: Africa’s Warrior Queen, retrata-a como uma grande estrategista política e adverte contra retratá-la como heroína popular ou como tirana.
O gênero é central nesses debates. Nzinga não derrubou, em vida, a ideia de que os governantes de Ndongo deveriam ser homens; em vez disso, adotou papéis e títulos masculinos quando útil e, mais tarde, remodelou sua corte em um estilo mais feminino e cristão. Ainda assim, seu sucesso mudou o precedente: no século seguinte à sua morte, rainhas governaram Matamba por pelo menos oitenta dos 104 anos seguintes. Escritoras feministas elogiaram seu desafio ao patriarcado, ao mesmo tempo que notam que ela governou como parte de uma elite sobre outros.
A questão mais difícil é o comércio de escravos. Nzinga lutou contra a conquista portuguesa e, por vezes, incentivou escravizados a fugir de plantações portuguesas. Ao mesmo tempo, capturava, comprava e vendia pessoas, fornecia aos holandeses milhares de cativos por ano e negociou o controle do mercado de escravos no tratado de 1656. Os historiadores não veem contradição nos termos da política do século XVII: o controle do comércio era uma fonte de receita e poder que todo Estado regional buscava. Mas, para os leitores modernos, lembrar Nzinga como símbolo de liberdade exige encarar honestamente essa parte de sua história, ao lado de sua conquista real de preservar um reino africano independente diante de um império europeu.
Ideias principais
- A diplomacia como arma
- Nzinga usou negociação, vestimenta, cerimônia, batismo e cartas como ferramentas de poder, não apenas exércitos.
- Alianças mutáveis
- Ela se aliou a antigos inimigos, como os imbangalas, e aos holandeses, mudando de parceiros conforme as circunstâncias exigiam.
- Legitimidade
- Como mulher e filha de uma mãe escravizada, ela precisou construir seu direito de governar a partir de várias tradições ao mesmo tempo.
- Gênero e poder
- Ela adotou títulos e trajes masculinos em tempos de guerra e depois remodelou sua corte, abrindo caminho para futuras rainhas em Matamba.
- Resistência e o comércio de escravos
- Ela resistiu à conquista portuguesa e, ao mesmo tempo, participou do comércio atlântico de escravos, uma tensão central em seu legado.
- Estratégia religiosa
- Ela transitou entre a religião mbundo, os ritos imbangala e o cristianismo católico, usando cada um para fortalecer sua posição.
- Símbolo nacional
- Em Angola, ela se tornou um símbolo de resistência anticolonial e de liderança feminina.
Registros
- c. 1583 — Nzinga nasce na família real de Ndongo.
- 1590 — Ndongo, com o apoio de Matamba, derrota os portugueses na Batalha do Lukala.
- 1617 — Seu pai morre; seu irmão Mbandi torna-se rei e mata rivais, incluindo o filho de Nzinga.
- 1622 — Como embaixadora em Luanda, Nzinga negocia um tratado e é batizada com o nome de Ana de Sousa.
- 1624 — Mbandi morre; Nzinga assume o poder em Ndongo.
- 1626 — Portugal declara guerra e apoia um rei rival; Nzinga é expulsa de Ndongo até 1628.
- 1631 — Aliada aos imbangalas, ela conquista Matamba e faz dele sua base (campanhas até 1635).
- 1641 — Os holandeses capturam Luanda; Nzinga se alia a eles.
- 1647 — Ela derrota os portugueses na Batalha de Kombi e sitia Massangano.
- 1648 — Os portugueses retomam Luanda; os holandeses partem e Nzinga recua para Matamba.
- 1656 — Tratado de paz com Portugal; sua irmã Kambu é libertada.
- 1663 — Nzinga morre em 17 de dezembro; Kambu (Dona Barbara) a sucede.
Glossário
- Ngola
- O título do governante de Ndongo; origem do nome Angola.
- Mbundo (Ambundo)
- O povo de Ndongo, que fala quimbundo.
- Soba
- Um senhor local em Ndongo que devia tributo ao rei.
- Imbangala
- Bandos guerreiros militarizados da Angola do século XVII, organizados por iniciação, e não por parentesco.
- Kilombo
- Um acampamento de guerra imbangala; conhecido em português como quilombo.
- Kabasa
- A capital do Reino de Ndongo, nas terras altas do atual Cuanza Norte.
- Matamba
- Um reino a leste de Ndongo que Nzinga conquistou e fez sua base a partir de 1631.
- Capuchinhos
- Uma ordem religiosa católica cujos missionários italianos e espanhóis viveram na corte de Nzinga e escreveram sobre ela.
- Massangano
- Um forte português no rio Kwanza que serviu como capital do interior quando Luanda foi perdida.
Perguntas e respostas
Nzinga realmente se sentou nas costas de uma serva?
Essa é a famosa história de seu encontro de 1622 com o governador português. É contada em relatos posteriores e pode ter sido exagerada, mas mostra como ela se recusava a aceitar uma posição inferior.
Por que ela é chamada de Mãe de Angola?
Porque resistiu à conquista portuguesa por décadas, e durante a luta de Angola pela independência as pessoas a viram como um símbolo de liberdade.
Nzinga era cristã?
Ela foi batizada em 1622, mais tarde voltou-se para práticas religiosas imbangala durante a guerra, e a partir das décadas de 1640–1650 abraçou novamente o cristianismo, usando-o na diplomacia e em sua corte.
Ela se opôs à escravidão?
Não. Ela lutou contra os portugueses e às vezes ajudou escravizados a fugir deles, mas também vendeu prisioneiros no comércio atlântico de escravos, como faziam outros governantes da região.
Por que ela se vestia como homem?
Em tempos de guerra, ela adotou títulos e roupas masculinas, provavelmente para fortalecer sua autoridade em uma sociedade em que se esperava que os governantes fossem homens.
Como sabemos sobre ela?
Por suas próprias cartas, relatórios de governadores portugueses e livros de missionários que viveram em sua corte. Os historiadores leem esses materiais com cuidado, porque muitos autores eram hostis a ela ou queriam defender um ponto de vista.
O que aconteceu com seu reino após sua morte?
Sua irmã Kambu tornou-se rainha, e Matamba permaneceu independente por muito tempo, muitas vezes governado por mulheres, antes de ser absorvido pela Angola portuguesa no século XIX.
Fontes e leituras adicionais
- Nzinga of Ndongo and Matamba. Wikipedia
- Kingdom of Ndongo. Wikipedia
- Kingdom of Matamba. Wikipedia
- Imbangala. Wikipedia
- Dutch Loango-Angola. Wikipedia
- Black Rocks at Pungo Andongo. Wikipedia
- Linda M. Heywood, Njinga of Angola: Africa’s Warrior Queen. Harvard University Press, 2017
- John K. Thornton, Legitimacy and Political Power: Queen Njinga, 1624–1663. The Journal of African History 32(1), 1991
- Joseph C. Miller, Nzinga of Matamba in a New Perspective. The Journal of African History 16(2), 1975
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