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Para jovens leitores
O Alcorão é o livro sagrado dos muçulmanos. Seu nome significa "a recitação", ou "algo lido em voz alta". Os muçulmanos acreditam que Deus enviou suas palavras ao profeta Maomé, pouco a pouco, ao longo de cerca de 23 anos, por meio do anjo Gabriel.
O Alcorão é escrito em árabe e dividido em 114 capítulos chamados suras. O primeiro, al-Fatiha ("a Abertura"), é curto, e os muçulmanos o recitam em cada oração, muitas vezes por dia. Depois dele, os capítulos são organizados, de modo geral, do mais longo para o mais curto.
O Alcorão deve ser ouvido, além de lido. Quando recitado bem, soa quase como música, embora não seja cantado com instrumentos. Milhões de crianças e adultos ao redor do mundo aprendem o livro inteiro de cor. Uma pessoa que memorizou tudo é chamada de hafiz, que significa "guardião" ou "protetor".
O Alcorão fala de Deus, que é um só e misericordioso; de como o mundo foi feito; de profetas como Abraão, Moisés, Jesus, filho de Maria, e José; de como tratar pais, órfãos e pessoas pobres; e do Dia do Juízo.
Como os muçulmanos acreditam que as palavras em árabe vêm de Deus, tratam os exemplares do Alcorão com muito cuidado. Traduções para outras línguas, como português ou inglês, são muito úteis, mas os muçulmanos geralmente as veem como explicações do significado, e não como o próprio Alcorão.
Em resumo
- Língua
- Árabe clássico
- Revelação
- Segundo a crença islâmica, revelado a Maomé em Meca e Medina de cerca de 610 a 632 d.C.
- Estrutura
- 114 suras (capítulos) de extensão muito desigual; cerca de 6.236 versículos (āyāt) na contagem mais usada; também dividido em 30 partes iguais (juzʾ) para recitação
- Texto padrão
- O texto consonantal é tradicionalmente atribuído ao códice feito sob o califa Otomão (r. 644–656), por volta de 650
- Manuscritos mais antigos
- Folhas em escrita hijazi datadas por radiocarbono ao século VII, como as folhas de Birmingham (pergaminho de 568–645 d.C.) e o palimpsesto de Sanaa
- Leituras
- Várias leituras canônicas (qirāʾāt); hoje a de Hafs ʿan ʿAsim é a mais comum, e a de Warsh ʿan Nafiʿ predomina no norte e no oeste da África
- Edição impressa amplamente usada
- A edição do Cairo, de 1924 (leitura de Hafs)
- Status
- Para os muçulmanos, a palavra incriada ou eterna de Deus (os teólogos debateram isso), a primeira fonte da crença e do direito islâmicos
Fácil
O que é o Alcorão?
O Alcorão (também escrito Corão) é a escritura do islã. Os muçulmanos acreditam que é a palavra literal de Deus, transmitida pelo anjo Gabriel ao profeta Maomé ao longo de cerca de 23 anos, de cerca de 610 até sua morte, em 632. Maomé recitava o que recebia, e seus seguidores o memorizavam e o registravam por escrito. Os muçulmanos o consideram a revelação final de uma série que inclui a Torá dada a Moisés, os Salmos dados a Davi e o Evangelho dado a Jesus.
A palavra qurʾān vem da raiz árabe q-r-ʾ, "ler em voz alta" ou "recitar", e o livro se autodenomina assim. Também se chama a si mesmo al-kitāb, "o Livro", al-dhikr, "a Lembrança", e al-furqān, "o Critério" que separa o certo do errado.
O Alcorão não é organizado como um livro de história ou uma biografia. Ele fala diretamente, muitas vezes na voz de Deus se dirigindo a Maomé ou à humanidade, e alterna entre louvor a Deus, advertências, histórias de profetas anteriores, leis e orações. Por isso, os leitores costumam recorrer a comentários e a relatos da vida de Maomé para entender o contexto de determinadas passagens.
Esta página explica o Alcorão como os muçulmanos o entendem e também descreve o que historiadores e estudiosos de textos aprenderam sobre como ele foi registrado e transmitido. São tipos diferentes de pergunta, e ambas são apresentadas aqui com respeito.
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Um livro para ser ouvido: recitação e memorização
Acima de tudo, o Alcorão é recitado. Os muçulmanos recitam trechos em cada uma das cinco orações diárias, e o texto inteiro é frequentemente recitado ao longo do mês do Ramadã. A recitação segue um conjunto de regras chamado tajwīd, que regem a pronúncia, o alongamento das vogais, as pausas e os sons nasais. Grandes recitadores são admirados em todo o mundo muçulmano, e gravações e transmissões de recitação fazem parte da vida cotidiana, do Marrocos à Indonésia.
Memorizar o Alcorão é uma tradição antiga e viva. Crianças em escolas corânicas aprendem por repetição com um professor, e muitas completam o texto inteiro. Quem o memorizou por completo recebe a honra do título ḥāfiẓ. A tradição muçulmana ressalta que essa cadeia oral, de professor a aluno, sempre acompanhou o texto escrito e ajudou a preservá-lo.
Os exemplares escritos são tratados com reverência. Muitos muçulmanos fazem a purificação ritual antes de tocar o texto árabe, guardam-no em um lugar alto e limpo, e nunca colocam outros objetos sobre ele. A arte de copiá-lo deu origem à caligrafia e à iluminura islâmicas, algumas das mais belas realizações da arte islâmica.
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Como o Alcorão está organizado
O Alcorão tem 114 suras (capítulos). Cada uma tem um nome tradicional, muitas vezes tirado de uma palavra marcante nela, como al-Baqara ("a Vaca"), Maryam ("Maria") ou al-Nahl ("a Abelha"). Toda sura, exceto a nona, começa com a fórmula chamada basmala: "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso." Vinte e nove suras se abrem com letras isoladas misteriosas, como alif lām mīm, cujo significado é debatido desde os primeiros tempos.
As suras são formadas por versículos chamados āyāt (singular āya), palavra que também significa "sinais", como nos sinais de Deus na natureza. A contagem mais usada dá 6.236 versículos, sem contar a basmala; outros sistemas tradicionais de contagem diferem ligeiramente porque dividem alguns versículos de forma diferente, não porque o texto seja diferente.
A ordem das suras não é cronológica. Depois da curta oração de abertura, al-Fatiha, as suras são organizadas, de modo geral, da mais longa para a mais curta. A segunda sura, al-Baqara, é a mais longa, com 286 versículos; muitas das suras mais curtas, que vêm no fim, estão entre as mais antigas em data e são as que as crianças costumam aprender primeiro. Para a recitação, o texto também é dividido em trinta partes (juzʾ) e sessenta unidades menores.
Tradicionalmente, cada sura é classificada como mecana ou medinense, conforme se acredita que foi revelada antes ou depois da emigração de Maomé para Medina, em 622. Cerca de dois terços são mecanas. Algumas suras são consideradas uma combinação de trechos de épocas diferentes.
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O que o Alcorão ensina: temas principais
O tema central é Deus: único, sem parceiro, criador e sustentador de todas as coisas, misericordioso e justo. A curta sura al-Ikhlas (112) resume isso: "Dize: Ele é Deus, Único; Deus, o Refúgio Eterno. Não gerou, nem foi gerado, e não há ninguém comparável a Ele." O Alcorão convida à reflexão sobre o mundo natural, a alternância entre a noite e o dia, a chuva e o crescimento das plantas, como sinais que apontam para o Criador.
Muitas passagens falam do Último Dia, da ressurreição, do julgamento e da recompensa do paraíso ou do castigo do inferno, muitas vezes com imagens vívidas. A mensagem ética liga a fé à ação: a oração, a esmola, a honestidade no comércio, o cumprimento de promessas, a bondade para com os pais e a justiça para órfãos, viúvas, pobres e viajantes.
O Alcorão reconta e comenta histórias de profetas também conhecidos da Bíblia e de outras tradições: Adão, Noé, Abraão, José, Moisés, Davi, Salomão, Jonas, Zacarias, João, Maria e Jesus, além de profetas arábicos como Hud e Salih. A sura 12 conta a história de José em detalhes; a sura 19 recebe o nome de Maria, mencionada pelo nome no Alcorão com mais frequência do que no Novo Testamento. O Alcorão apresenta esses profetas como portadores da mesma mensagem essencial, e se dirige a judeus e cristãos como "Povo do Livro", ora com elogio, ora com crítica, por exemplo à doutrina da Trindade.
As suras medinenses contêm a maior parte do material legal: regras sobre oração, jejum, peregrinação, casamento, divórcio, herança, contratos, alimentação e a conduta na guerra. Embora esses versículos sejam uma parcela relativamente pequena do todo, tornaram-se fundamentos do direito islâmico (sharīʿa), desenvolvido por juristas posteriores junto com o hadith.
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Língua e estilo literário
O Alcorão não é poesia no sentido formal da métrica árabe, mas grande parte dele é escrita em prosa rimada e rítmica (semelhante ao que os árabes chamavam de sajʿ). As suras mecanas antigas são curtas, com versículos breves e intensos, juramentos ("Pela aurora! Pelas dez noites!") e imagens poderosas do fim do mundo. As suras mecanas posteriores contam histórias mais longas, e as suras medinenses têm versículos mais longos, com detalhes legais e comunitários.
O texto frequentemente muda de locutor e de interlocutor: Deus pode falar como "Nós", "Eu" ou "Ele" em poucos versículos; a Maomé se diz "Dize: ..."; crentes, incrédulos ou toda a humanidade são interpelados por sua vez. As histórias são frequentemente contadas de forma alusiva, como se o público já as conhecesse, concentrando-se em seu sentido moral, e não em detalhes narrativos.
Os muçulmanos sustentam que o Alcorão é inimitável (iʿjāz): sua linguagem supera qualquer coisa que um ser humano poderia produzir. O próprio Alcorão desafia os que duvidam a produzir uma sura semelhante. Estudiosos clássicos como al-Baqillani e Abd al-Qahir al-Jurjani escreveram tratados sobre essa inimitabilidade, que por sua vez lançaram as bases da retórica árabe e da teoria literária. O Alcorão também padronizou o árabe clássico, fixando um modelo da língua para a gramática, o direito e a literatura em todo o mundo islâmico.
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Da revelação ao livro: o relato tradicional
Segundo a tradição muçulmana, durante a vida de Maomé as revelações eram memorizadas por muitos companheiros e escritas por escribas, como Zayd ibn Thabit, sobre quaisquer materiais disponíveis: pergaminho, talos de folhas de palmeira, pedras planas e omoplatas de camelo. A tradição também sustenta que Gabriel revisava o texto revelado com Maomé a cada Ramadã, e que a ordem dos versículos dentro das suras foi fixada por instrução do Profeta.
Depois da morte de Maomé, muitos dos que haviam memorizado o texto morreram na Batalha de al-Yamama (c. 633). Temendo que partes do Alcorão pudessem se perder, Umar convenceu o califa Abu Bakr a mandar reunir o texto. Zayd ibn Thabit o reuniu a partir de fragmentos escritos e "dos corações dos homens" em folhas (ṣuḥuf), que passaram a Umar e depois à sua filha Hafsa, uma das viúvas de Maomé.
Sob o terceiro califa, Otomão (r. 644–656), relatos de divergências na recitação entre soldados de diferentes províncias levaram a um segundo projeto. Uma comissão chefiada por Zayd produziu um códice padrão baseado nas folhas de Hafsa, no dialeto dos coraixitas; cópias foram enviadas às principais cidades, e outras cópias foram mandadas destruir. Alguns companheiros haviam mantido códices pessoais que diferiam na ordem das suras e em algumas leituras; o códice de Ibn Mas'ud, segundo relatos, não continha a primeira sura nem as duas últimas, e o de Ubayy ibn Ka'b, segundo relatos, tinha duas orações curtas adicionais. O texto otomânico se tornou a base de todas as cópias posteriores.
Muçulmanos sunitas e xiitas aceitam o mesmo texto do Alcorão. Embora alguns relatos xiitas antigos questionassem se o códice estava completo, a posição predominante da erudição xiita, assim como a da erudição sunita, é que o Alcorão em uso é a revelação completa.
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Escrita, leituras e edições impressas
A escrita árabe antiga registrava apenas o esqueleto consonantal (rasm) das palavras, muitas vezes sem pontos para distinguir letras de mesma forma e sem sinais de vogais. Esse esqueleto podia ser lido de mais de uma forma, e a tradição oral viva determinava a recitação. Ao longo dos dois séculos seguintes, pontos e sinais de vogais foram acrescentados: os primeiros sistemas usavam pontos coloridos, tradicionalmente atribuídos a Abu al-Aswad al-Du'ali (m. 688); o sistema de sinais vocálicos ainda usado hoje é atribuído a al-Khalil ibn Ahmad (m. 786).
Formas variantes de recitar o texto, todas dentro ou próximas do esqueleto otomânico, foram transmitidas por leitores famosos nas principais cidades. No século X, o estudioso de Bagdá Ibn Mujahid (m. 936) definiu sete leituras como canônicas; mais tarde, Ibn al-Jazari (m. 1429) estabeleceu dez. Cada leitura é conhecida por meio de dois transmissores principais. As diferenças dizem respeito principalmente a vogais, pontos e pronúncia, e ocasionalmente a palavras; os estudiosos muçulmanos as relacionam a um hadith que diz que o Alcorão foi revelado em "sete aḥruf" (modos), frase interpretada de muitas formas.
A impressão chegou tarde. Um Alcorão árabe foi impresso em Veneza na década de 1530, e orientalistas europeus produziram várias edições, mas as sociedades muçulmanas por muito tempo preferiram cópias manuscritas. A edição do Cairo, publicada em 1924 sob o patrocínio do rei Fuad I, seguindo a leitura de Hafs a partir de Asim, tornou-se o padrão global para impressão, e o Complexo Rei Fahd, em Medina, distribuiu muitos milhões de cópias desde a década de 1980. Edições na leitura de Warsh são o padrão em grande parte do norte e do oeste da África.
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Interpretando o Alcorão: o tafsir
O comentário do Alcorão, tafsīr, é uma das grandes tradições eruditas do islã. Começou com explicações atribuídas a Maomé e a seus companheiros, especialmente seu primo Ibn Abbas. Al-Tabari (m. 923) compilou um comentário monumental, reunindo opiniões anteriores com suas cadeias de transmissão. Clássicos posteriores incluem os de al-Zamakhshari, Fakhr al-Din al-Razi, al-Qurtubi e Ibn Kathir, e o conciso Tafsir al-Jalalayn, amplamente usado no ensino.
Os comentaristas usam ferramentas como as "ocasiões da revelação" (asbāb al-nuzūl), relatos sobre as situações em que os versículos foram revelados, e a doutrina da abrogação (naskh), segundo a qual algumas normas posteriores substituíram normas anteriores. Também recorrem à gramática, à retórica, ao direito e à teologia. Comentários xiitas dão peso aos ensinamentos dos imames; comentaristas sufis buscam sentidos interiores e místicos por trás do sentido literal.
Intérpretes modernos abordaram novas questões: Muhammad Abduh e Rashid Rida enfatizaram a razão e a reforma; Sayyid Qutb escreveu um comentário muito influente sobre como construir uma sociedade baseada no Alcorão; outros desenvolveram leituras centradas na justiça social, no gênero ou no meio ambiente. A interpretação sempre foi plural, e os debates sobre como ler o texto continuam vivos dentro das comunidades muçulmanas.
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Tradução e o Alcorão no mundo
Como as próprias palavras árabes são consideradas revelação, os muçulmanos há muito sustentam que uma tradução não é o Alcorão, mas uma interpretação de seu significado; a oração ritual é realizada em árabe por muçulmanos de todas as línguas. Ainda assim, traduções interlineares e completas para o persa e outras línguas surgiram cedo, e hoje há traduções para quase todas as línguas importantes, muitas feitas por estudiosos muçulmanos.
A primeira tradução latina, Lex Mahumet pseudoprophete, foi feita em 1143 por Robert de Ketton para Pedro, o Venerável, abade de Cluny, com objetivos polêmicos. A tradução inglesa de George Sale, de 1734, foi muito lida no Iluminismo. Versões inglesas modernas incluem as de Marmaduke Pickthall (1930), Abdullah Yusuf Ali (1934–1937) e M. A. S. Abdel Haleem (2004). Traduções para o português surgiram ao longo do século XX.
Além de seu papel religioso, o Alcorão moldou as línguas, as literaturas, o direito e as artes visuais de sociedades da África Ocidental ao Sudeste Asiático. Palavras e expressões árabes dele fazem parte da fala cotidiana de muçulmanos no mundo todo, como in shā' Allāh ("se Deus quiser") e bismillāh ("em nome de Deus").
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As evidências dos manuscritos
Os manuscritos mais antigos do Alcorão são escritos numa escrita inclinada chamada hijazi, sobre pergaminho, geralmente em formato vertical, com poucos pontos diacríticos e sem sinais de vogais. Muitos sobrevivem apenas como folhas dispersas hoje guardadas em bibliotecas diferentes. O Códice Parisino-petropolitanus, dividido entre Paris, São Petersburgo, o Vaticano e outros lugares, é um dos exemplos mais bem estudados.
Em 2015, a Universidade de Birmingham anunciou que a análise por radiocarbono realizada em Oxford havia datado o pergaminho de duas folhas de sua coleção Mingana (Mingana 1572a), contendo trechos das suras 18–20, entre 568 e 645 d.C., com 95,4% de probabilidade. As folhas acabaram se revelando parte dos fólios do códice de Paris. O resultado atraiu grande atenção, mas os estudiosos alertam que a datação por radiocarbono determina a morte do animal cuja pele foi usada, não a escrita, e que algumas características das folhas, como divisores decorados de suras e marcadores de versículos, são debatidas.
O manuscrito de Sanaa, encontrado em 1972 num espaço lacrado da Grande Mesquita de Sanaa, no Iêmen, entre milhares de fragmentos, é um palimpsesto: seu texto superior segue o padrão otomânico, mas um texto inferior apagado, recuperado com imagens ultravioleta e digitais, difere dele nas palavras e na ordem das suras. Uma folha foi datada por radiocarbono entre 578 e 669 d.C. Behnam Sadeghi e Mohsen Goudarzi (2012) argumentaram que o texto inferior pertence a uma tradição textual não otomânica da época dos companheiros; Asma Hilali e Éléonore Cellard o estudaram de outros ângulos, inclusive como um possível texto de ensino ou prática. Suas variantes são em geral pequenas, mas é a mais clara evidência material de diversidade textual antes ou ao lado da padronização otomânica.
Grandes projetos de pesquisa hoje catalogam e comparam manuscritos antigos. O projeto Corpus Coranicum da Academia de Ciências e Humanidades de Berlim-Brandemburgo (2007–2024) construiu bancos de dados de manuscritos (Manuscripta Coranica), leituras variantes e textos da Antiguidade Tardia relevantes para o Alcorão, e encomendou análises de radiocarbono de dezenas de manuscritos.
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A erudição histórico-crítica e seus debates
O estudo acadêmico do Alcorão na Europa tomou forma moderna no século XIX. Gustav Weil e, sobretudo, Theodor Nöldeke, em Geschichte des Qorāns (1860; revisado e ampliado por Friedrich Schwally, Gotthelf Bergsträsser e Otto Pretzl no início do século XX), propuseram uma cronologia dividindo as suras em mecanas iniciais, médias e tardias, e medinenses, com base no estilo e no conteúdo. Esse esquema, que em parte se apoia na classificação muçulmana mecana/medinense, continua sendo uma referência comum, embora os estudiosos discordem sobre seus detalhes e sobre se suras inteiras podem ser datadas como unidades.
Na década de 1970, John Wansbrough, em Quranic Studies (1977), argumentou que o Alcorão foi montado ao longo de um longo período num ambiente sectário, talvez tão tarde quanto por volta de 800, e que os relatos tradicionais de compilação eram criações posteriores. Patricia Crone e Michael Cook igualmente questionaram a cronologia tradicional. Essas teorias de datação tardia hoje são amplamente consideradas descartadas pelas evidências dos manuscritos, e a própria Crone mais tarde aceitou que a maior parte do Alcorão remonta, de alguma forma, a Maomé. Propostas mais especulativas, como a tentativa de um estudioso pseudônimo de ler muitas passagens por meio do siríaco, foram em grande parte rejeitadas por especialistas.
Os debates atuais são mais focados. Alguns estudiosos aceitam uma fixação precoce do texto consonantal sob Otomão, como diz a tradição; outros sugerem que a padronização pode ter sido concluída ou imposta sob o califa omíada Abd al-Malik e seu governador al-Hajjaj por volta das décadas de 690–700, quando a escrita também estava sendo reformada. Estudiosos como Angelika Neuwirth leem o Alcorão como um texto da Antiguidade Tardia em diálogo com tradições judaicas, cristãs e arábicas, atentos ao seu caráter oral e litúrgico e ao desenvolvimento de sua comunidade. Outros estudam sua relação com a literatura bíblica e pós-bíblica, sua retórica e seu lugar na história da língua árabe.
Muitos estudiosos muçulmanos dialogam criticamente com esses métodos, alguns rejeitando pressupostos que veem como estranhos à natureza do Alcorão como revelação, outros os adaptando. Crentes e historiadores, portanto, abordam o texto com premissas diferentes, mas compartilham o interesse por sua história antiga, e a descoberta e a datação de manuscritos nas últimas décadas aproximaram suas perguntas.
Ideias principais
- Palavra de Deus (kalām Allāh)
- Os muçulmanos acreditam que o Alcorão é a fala de Deus, revelada em árabe; teólogos medievais debateram se ela é criada ou eterna, e a visão da eternidade tornou-se dominante na teologia sunita.
- Tawhid
- A unicidade absoluta de Deus, o ensinamento central do Alcorão, do qual decorre sua crítica à idolatria.
- Profetas e escrituras
- O Alcorão apresenta uma linha de profetas enviados a diferentes povos com uma só mensagem, e a si mesmo como a confirmação e o completamento de escrituras anteriores.
- Sinais (āyāt)
- A mesma palavra significa tanto os versículos do Alcorão quanto os sinais de Deus na natureza e na história, convidando à reflexão sobre ambos.
- Orientação e lei
- O Alcorão se autodenomina orientação (hudā); seus versículos legais, interpretados junto com o hadith, formam a base do direito islâmico.
- Inimitabilidade (iʿjāz)
- A crença de que a linguagem e o conteúdo do Alcorão não podem ser igualados pelo esforço humano, doutrina que também alimentou a teoria literária árabe.
- Oralidade e texto
- O Alcorão sempre viveu tanto como recitação transmitida de professor a aluno quanto como códice escrito, cada um apoiando o outro.
Registros
- c. 610 d.C. — Segundo a tradição islâmica, a primeira revelação chega a Maomé na caverna de Hira.
- 622 d.C. — A hégira para Medina; a tradição divide o Alcorão em suras mecanas e medinenses a partir desse ponto.
- 632 d.C. — Morte de Maomé; a revelação termina.
- c. 633 d.C. — Depois da Batalha de al-Yamama, Abu Bakr manda Zayd ibn Thabit reunir o texto em folhas (suhuf).
- c. 650 d.C. — O califa Otomão emite um códice padrão e envia cópias às principais cidades.
- c. 691 d.C. — Trechos do Alcorão aparecem nas inscrições em mosaico da Cúpula da Rocha, em Jerusalém (691–692).
- 923 d.C. — Morte de al-Tabari, autor de um comentário (tafsir) monumental.
- 936 d.C. — Morte de Ibn Mujahid, que definiu as sete leituras canônicas.
- 1143 — Robert de Ketton completa a primeira tradução latina.
- 1924 — A edição do Cairo (leitura de Hafs) é publicada e se torna o padrão global de impressão.
- 1972 — Os manuscritos de Sanaa, incluindo o palimpsesto, são descobertos na Grande Mesquita de Sanaa.
- 2015 — É anunciada a datação por radiocarbono das folhas de Birmingham entre 568 e 645 d.C.
Glossário
- Sura
- Um capítulo do Alcorão; há 114.
- Aya
- Um versículo do Alcorão; a palavra também significa "sinal".
- Basmala
- A fórmula "Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso", que abre toda sura exceto a nona.
- Juz'
- Uma das trinta partes aproximadamente iguais em que o Alcorão é dividido para recitação, por exemplo ao longo das noites do Ramadã.
- Hafiz
- Uma pessoa que memorizou o Alcorão inteiro.
- Tajwid
- As regras para a recitação correta e bela do Alcorão.
- Mushaf
- Um exemplar escrito ou impresso do Alcorão como livro físico.
- Rasm
- O esqueleto consonantal do texto escrito, sem pontos ou sinais de vogais.
- Qira'at
- As leituras canônicas, ou formas de recitar o texto, cada uma transmitida por um leitor famoso dos primeiros tempos.
- Tafsir
- Comentário e interpretação do Alcorão.
- Palimpsesto
- Um manuscrito cuja escrita original foi apagada e reescrita, como o manuscrito de Sanaa.
Perguntas e respostas
O Alcorão é o mesmo que a Bíblia?
Não. É uma escritura separada, embora mencione muitas das mesmas figuras, como Abraão, Moisés, Maria e Jesus. Os muçulmanos acreditam que as escrituras anteriores também vieram de Deus, e que o Alcorão as confirma e completa.
Por que as pessoas aprendem o Alcorão de cor?
Recitá-lo faz parte da oração, e memorizá-lo é visto como um ato de devoção e uma forma de manter o texto vivo. Ele vem sendo transmitido oralmente de professor a aluno desde o início.
Uma tradução do Alcorão ainda é o Alcorão?
Para a maioria dos muçulmanos, não: o Alcorão é o texto árabe, e uma tradução é uma interpretação de seu significado. As traduções ainda são amplamente lidas para compreendê-lo.
Existem versões diferentes do Alcorão?
Todos os muçulmanos usam o mesmo texto, atribuído ao códice de Otomão. Há várias leituras canônicas (qira'at) com pequenas diferenças de pronúncia e ocasionalmente de palavras; os estudiosos muçulmanos consideram todas elas autênticas. Manuscritos antigos, como o palimpsesto de Sanaa, mostram que algumas variantes também existiam antes da padronização.
Qual é a idade dos manuscritos mais antigos do Alcorão?
Várias folhas em escrita hijazi têm pergaminho datado por radiocarbono ao século VII, dentro de décadas da vida de Maomé. O radiocarbono data o pergaminho, então a escrita pode ser um pouco posterior à data mais antiga possível.
Como historiadores e crentes diferem no estudo do Alcorão?
Os crentes partem da convicção de que é a palavra de Deus; os estudiosos histórico-críticos perguntam como o texto tomou forma e foi transmitido, usando manuscritos, a língua e comparações com outros textos. Suas perguntas diferem, mas suas descobertas cada vez mais se sobrepõem quanto à data antiga do texto.
Por que a ordem das suras não é cronológica?
A tradição sustenta que o arranjo foi fixado pelo Profeta ou por seus companheiros; ele segue, de modo geral, uma extensão decrescente depois da sura de abertura. Estudiosos, muçulmanos e não muçulmanos, propuseram ordens cronológicas separadamente, mas nenhuma substitui a sequência canônica.
Fontes e leituras adicionais
- Quran. Wikipedia
- History of the Quran. Wikipedia
- Qira'at. Wikipedia
- Tafsir. Wikipedia
- Birmingham Quran manuscript. Wikipedia
- Sanaa manuscript. Wikipedia
- Corpus Coranicum. Wikipedia
- M. A. S. Abdel Haleem, The Qur'an: A New Translation. Oxford University Press, 2004
- Seyyed Hossein Nasr (ed.) et al., The Study Quran: A New Translation and Commentary. HarperOne, 2015
- John Wansbrough, Quranic Studies: Sources and Methods of Scriptural Interpretation. Oxford University Press, 1977
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