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Para jovens leitores
Há cerca de 2.600 anos, em Mileto, uma cidade portuária na costa do que hoje é a Turquia, vivia um homem chamado Tales. Navios chegavam do Egito, da Fenícia e de várias cidades gregas, trazendo mercadorias, notícias e ideias.
Tales fez uma pergunta simples de dizer, mas difícil de responder: do que tudo é feito? Ele observou a chuva, os rios, o mar e as plantas, que precisam de água para crescer. Então respondeu: tudo vem da água. Sua resposta não estava certa, mas ele tentava explicar a natureza usando algo da própria natureza.
As pessoas contavam histórias incríveis sobre ele. Diziam que Tales descobriu a altura de uma pirâmide no Egito olhando para sua sombra. Também diziam que ele calculava a distância de um navio no mar. Outra história conta que ele previu um eclipse solar. Num eclipse solar, a Lua encobre o Sol e o dia escurece. Segundo essa história, dois exércitos ficaram com tanto medo que pararam de lutar.
Há histórias engraçadas também. Uma conta que Tales estava olhando para as estrelas e caiu num poço. Uma jovem criada riu dele: como podia entender o céu se nem via o que estava aos seus pés? Outra história diz que Tales percebeu que haveria muitas azeitonas, alugou as prensas usadas para fazer azeite e ganhou muito dinheiro. Assim, mostrou que um pensador também podia enriquecer se quisesse.
Nenhum livro escrito por Tales chegou até nós. O que sabemos sobre ele vem de pessoas que escreveram muito tempo depois. Mesmo assim, ele ficou conhecido por perguntar «por quê?» e procurar respostas na natureza. O filósofo grego Aristóteles o chamou de primeiro filósofo, e muitas pessoas o chamam de pai da ciência.
Em resumo
- Período de vida
- c. 624/623 – c. 548/545 a.C. (cronologia antiga; as datas exatas são incertas)
- Local
- Mileto, cidade grega da Jônia, na costa oeste da Ásia Menor (perto da atual Balat, na Turquia)
- Conhecido por
- Ter sido apontado por Aristóteles como fundador da filosofia da natureza; a afirmação de que a água é a origem de todas as coisas
- Outras afirmações
- A Terra flutua sobre a água; o ímã tem alma; todas as coisas estão cheias de deuses
- Ciência e matemática
- Tradicionalmente associado à previsão de um eclipse solar (585 a.C.) e aos primeiros teoremas de geometria
- Obras escritas
- Nenhuma chegou até nós; é possível que ele não tenha escrito nada. Tudo o que sabemos vem de relatos posteriores
- Distinções
- Incluído entre os Sete Sábios da Grécia antiga
- Seguidores
- Anaximandro e Anaxímenes, que, junto com Tales, formam a chamada escola de Mileto
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Quem foi Tales?
Tales de Mileto é tradicionalmente considerado o primeiro filósofo grego e uma das primeiras pessoas de que se tem notícia, pelo nome, a tentar explicar a natureza por meio de causas naturais. Viveu no início do século VI a.C. em Mileto, uma próspera cidade grega na costa da Ásia Menor.
Aristóteles, que escreveu mais de dois séculos depois, chamou Tales de fundador do tipo de filosofia que busca os princípios básicos de todas as coisas. Segundo os relatos, Tales afirmava que a origem de tudo é a água. Por trás dessa resposta havia um novo tipo de pergunta: em vez de «qual deus criou o mundo?», «do que o mundo é feito e como funciona?».
Tales também foi lembrado como alguém habilidoso em questões práticas: engenheiro, astrônomo, matemático e conselheiro político. Foi incluído entre os Sete Sábios, os homens considerados sábios na Grécia antiga. Mas ele não deixou escritos que tenham chegado até nós, e quase tudo o que sabemos a seu respeito vem de autores posteriores. Por isso, muitas vezes é difícil separar o Tales histórico das lendas.
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Mileto: uma cidade no encontro de diferentes culturas
Mileto era uma das cidades gregas mais ricas de sua época. Ficava perto da foz do rio Meandro, na região chamada Jônia, onde os gregos haviam se estabelecido ao longo da costa da Ásia Menor. Seus portos a ligavam ao mar Negro, onde fundou muitas colônias, e ao Egito, onde os gregos comerciavam em Náucratis.
Perto dali ficava o reino da Lídia, cujos reis Aliates e Creso eram poderosos e ricos. A Lídia foi um dos primeiros lugares a usar moedas. Mais a leste viviam os medos e, pouco depois, os persas. Ao sul e a leste estavam as antigas civilizações do Egito e da Mesopotâmia, que tinham séculos de registros astronômicos e conhecimentos práticos de matemática.
Essa combinação de comércio, viagens e contato com culturas mais antigas fez de Mileto um lugar favorável ao surgimento de novas ideias. Autores antigos dizem que Tales viajou ao Egito, e muitos estudiosos consideram provável que ele tenha tido algum contato com a astronomia babilônica e a geometria egípcia. Ainda se discute, porém, quanto ele recebeu dessas tradições e quanto desenvolveu por conta própria.
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Sua vida: o que dizem os autores antigos
Segundo o cronógrafo Apolodoro, citado por Diógenes Laércio, Tales nasceu no primeiro ano da 39ª Olimpíada (624/623 a.C.) e morreu durante a 58ª Olimpíada (548–545 a.C.), aos 78 anos, enquanto assistia a competições atléticas sob o calor. Seus pais são chamados de Examias e Cleobulina. Heródoto afirma que Tales era «de origem fenícia», afirmação interpretada de diferentes maneiras pelos estudiosos.
Heródoto também conta duas histórias políticas. Antes da conquista persa da Jônia, Tales teria aconselhado os gregos jônios a criar um conselho comum com sede em Teos, no centro da região, enquanto as demais cidades manteriam suas próprias leis. Era uma proposta inicial de união federativa. Heródoto relata ainda que, quando o rei Creso da Lídia não conseguiu atravessar o rio Hális com seu exército, alguns gregos disseram que Tales desviou o rio para dois canais. O próprio Heródoto duvidava disso e acreditava que Creso usara pontes.
Duas histórias famosas mostram como os gregos posteriores imaginavam Tales. No Teeteto, de Platão, ele cai num poço enquanto observa as estrelas, e uma espirituosa criada trácia zomba dele por querer saber o que há no céu sem enxergar o que está a seus pés. Na Política, de Aristóteles, Tales, ridicularizado por ser pobre, usa seu conhecimento dos astros para prever uma boa safra de azeitonas. Ele aluga no inverno todas as prensas de azeite de Mileto e Quios e faz fortuna, mostrando que os filósofos poderiam enriquecer se quisessem.
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«Tudo é água»: a primeira filosofia da natureza
No primeiro livro da Metafísica, Aristóteles examina os pensadores anteriores que procuraram o princípio material (arché) do qual todas as coisas vêm e ao qual retornam. «Tales, o fundador desse tipo de filosofia», escreve ele, «diz que é a água». Aristóteles também relata que, para Tales, a Terra repousa sobre a água, flutuando como um pedaço de madeira.
Aristóteles admite que não conhece as razões de Tales e apresenta suas próprias hipóteses: a de que o alimento de todas as coisas é úmido, a de que o próprio calor nasce da umidade e é mantido por ela, e a de que as sementes de todas as coisas têm natureza úmida. Estudiosos atuais acrescentam outras possibilidades: a capacidade da água de existir como sólido, líquido e vapor; seu papel nas cheias do Nilo e na chuva; e os mitos difundidos no Oriente Próximo sobre um oceano primordial do qual o mundo surgiu.
A novidade não era a ideia da água como origem — mitos da Mesopotâmia, do Egito e da Grécia continham imagens semelhantes —, mas a maneira como Tales parece tê-la usado. Em vez de uma história na qual os deuses criam o mundo por suas ações, ele apresentou uma única substância natural como explicação que podia ser discutida, questionada e aperfeiçoada. Foi o que seus sucessores fizeram: Anaximandro substituiu a água pelo «ilimitado» (ápeiron), e Anaxímenes, pelo ar.
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Ímãs, almas e deuses
Na obra Sobre a Alma, Aristóteles relata outras duas ideias. A primeira é que Tales considerava que o ímã natural tinha alma, pois movia o ferro. Autores posteriores acrescentam o âmbar, que atrai objetos leves quando é esfregado. Para Tales, ao que parece, a alma era aquilo que causava movimento; assim, coisas capazes de mover outras coisas deviam estar vivas em algum sentido.
A segunda é que, segundo Aristóteles, algumas pessoas acreditavam que a alma estava misturada em todo o universo, «e talvez por isso Tales tenha pensado que todas as coisas estão cheias de deuses». Essa frase sugere que Tales não eliminou simplesmente o divino da natureza. Talvez visse a vida e o poder divino como presentes no próprio mundo natural, uma visão às vezes chamada de hilozoísmo («matéria viva»).
Esses relatos mostram que devemos ter cuidado com a imagem de Tales como pensador puramente «científico». Suas ideias combinavam explicações naturais com a noção de que o mundo era vivo e divino. O afastamento das explicações míticas foi real, mas gradual e parcial.
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O eclipse de 585 a.C.
A história mais famosa sobre Tales vem de Heródoto. Os lídios e os medos estavam em guerra havia cinco anos. No sexto ano, durante uma batalha, o dia de repente se transformou em noite. Segundo Heródoto, Tales havia anunciado aos jônios que isso aconteceria e indicado o ano em que ocorreu. Os dois lados ficaram tão assustados que interromperam a luta e fizeram as pazes.
Astrônomos atuais identificaram esse acontecimento com um eclipse solar total visível na Ásia Menor em 28 de maio de 585 a.C. Se Tales realmente o previu, teria sido uma das realizações científicas mais impressionantes do mundo antigo. Por isso, a data é frequentemente usada como marco simbólico do início da filosofia grega.
Mas será que ele fez essa previsão? Muitos historiadores da astronomia, entre eles Otto Neugebauer e D. R. Dicks, argumentaram que nenhum método disponível no século VI a.C. permitia prever se um eclipse solar seria visível em um lugar específico. Astrônomos babilônios conseguiam prever quando eclipses eram possíveis usando ciclos como o «saros», de cerca de 18 anos. Isso talvez permitisse afirmar que um eclipse poderia ocorrer em determinado ano. Outros estudiosos sugeriram que a história surgiu depois do acontecimento ou que, originalmente, se referia a outro fenômeno. A questão permanece em aberto.
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Geometria e astronomia
O filósofo neoplatônico Proclo, que escreveu no século V d.C. com base numa História da Geometria, hoje perdida, de Eudemo, aluno de Aristóteles, atribui a Tales a introdução da geometria egípcia na Grécia e várias descobertas: um diâmetro divide o círculo em duas partes iguais; os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais; os ângulos opostos pelo vértice formados por duas retas que se cruzam são iguais; e dois triângulos são congruentes quando têm um lado e os dois ângulos adjacentes iguais. Segundo o relato, Eudemo disse que Tales deve ter usado esse último teorema para calcular a distância de navios no mar.
Diógenes Laércio, citando a escritora Pânfila, afirma que Tales foi o primeiro a inscrever um triângulo retângulo em um círculo. Por isso, a afirmação de que um ângulo inscrito em uma semicircunferência é reto ainda é chamada de «teorema de Tales» em muitos países. Outro relato diz que ele mediu a altura das pirâmides esperando a hora do dia em que a sombra de uma pessoa tivesse o mesmo comprimento que sua altura e, então, medindo a sombra da pirâmide.
Na astronomia, dizem que ele aconselhava os marinheiros a se orientar pela Ursa Menor, como faziam os fenícios, e que estudou os solstícios. Alguns autores antigos lhe atribuíram um guia náutico das estrelas, mas outros já duvidavam dessa atribuição. Estudiosos atuais são cautelosos: os relatos surgiram muitos séculos depois, e os autores antigos tendiam a atribuir descobertas a nomes famosos. Ainda assim, eles mostram que os gregos viam Tales como o início de sua tradição matemática e astronômica.
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Por que isso começou na Jônia?
Há muito tempo os historiadores perguntam por que esse novo modo de pensar apareceu em Mileto no século VI a.C. e não em outro lugar. Não existe uma resposta única aceita por todos, mas vários fatores são frequentemente propostos e provavelmente atuaram em conjunto.
Contato e comparação. As cidades jônicas ficavam na borda do mundo grego e mantinham contato cotidiano com lídios, fenícios, egípcios e, por meio deles, com a Mesopotâmia. Viajantes que conheciam diferentes relatos sobre a origem do mundo talvez se sentissem estimulados a perguntar qual deles era verdadeiro e a buscar explicações que não dependessem dos deuses de um só povo.
Ausência de uma autoridade religiosa única. A religião grega não tinha um livro sagrado nem uma classe sacerdotal que controlasse o ensino sobre a origem do mundo. Os mitos existiam em muitas versões, e poetas como Homero e Hesíodo eram admirados, mas seus relatos não eram tratados como dogmas. Isso deixava espaço para que cada pessoa propusesse suas próprias explicações.
A cidade-Estado. Na pólis grega, leis e decisões eram cada vez mais debatidas em público. O historiador francês Jean-Pierre Vernant argumentou que essa cultura política de discussão aberta influenciou a nova filosofia, na qual era preciso defender as afirmações com razões diante de outras pessoas. A proposta atribuída ao próprio Tales de criar um conselho comum para os jônios mostra como o pensamento político e o teórico podiam estar ligados.
Riqueza, escrita e dinheiro. O comércio trouxe prosperidade e tempo livre; o alfabeto facilitou o registro e a circulação de ideias; e as novas moedas lídias e gregas acostumaram as pessoas a pensar em uma medida abstrata de valor que podia ser trocada por qualquer coisa. Richard Seaford argumentou que essa experiência com o dinheiro ajudou a tornar concebível a ideia de uma única substância fundamental. Essas explicações são debatidas, mas, em conjunto, ajudam a situar Tales em uma sociedade específica, em vez de vê-lo como um gênio isolado.
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Influência e legado
Talvez o legado mais importante de Tales seja a tradição de discussão crítica que ele iniciou. Seus conterrâneos Anaximandro, considerado seu aluno e parente, e Anaxímenes retomaram sua pergunta sobre a origem das coisas e propuseram respostas diferentes. Juntos, eles são conhecidos como a escola de Mileto. Esse modo de um pensador propor uma teoria e o seguinte criticá-la e aperfeiçoá-la é frequentemente visto como uma das origens da filosofia e da ciência.
Autores gregos posteriores trataram Tales como um modelo de sábio. Ele aparece nas listas dos Sete Sábios ao lado de Sólon de Atenas, Bias de Priene e Pítaco de Mitilene. Máximas famosas como «Conhece-te a ti mesmo» às vezes lhe foram atribuídas, embora também tenham sido atribuídas a outros. Platão usou a história do poço para refletir sobre o lugar do filósofo na sociedade, e Aristóteles colocou Tales no início da história da filosofia, uma organização que os historiadores seguem desde então.
Hoje, Tales costuma ser apresentado como o «pai da ciência» ou o ponto de partida da filosofia ocidental. Seu nome permanece no teorema de Tales, ensinado em escolas de vários países. Historiadores atuais também destacam que o início da filosofia grega fazia parte de uma história mais ampla: nos mesmos séculos, os autores dos Upanixades, na Índia, e pensadores como Confúcio, na China, também faziam novas perguntas sobre o mundo e a vida humana.
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Como sabemos? O problema das fontes
Nenhum texto de Tales chegou até nós, e não se sabe ao certo se ele escreveu alguma coisa. Todas as evidências são indiretas e pertencem a diferentes épocas. As mais antigas são breves menções em Heródoto, no século V a.C., e em Platão. O testemunho filosófico mais importante vem de Aristóteles, no século IV a.C., que tampouco tinha escritos de Tales e muitas vezes indica incerteza com expressões como «dizem» e «talvez».
Teofrasto, aluno de Aristóteles, reuniu uma história das opiniões dos primeiros filósofos da natureza. Embora essa obra tenha se perdido, ela serviu de base à tradição doxográfica posterior, formada por compilações das ideias dos filósofos. Fontes muito mais tardias — Diógenes Laércio, provavelmente do século III d.C., Proclo, do século V d.C., e outros — preservam histórias, datas e atribuições de confiabilidade variável.
Os estudos atuais organizam esse material com a ajuda das coletâneas de Hermann Diels, especialmente Die Fragmente der Vorsokratiker (1903), posteriormente revisada por Walther Kranz. Tales ocupa o capítulo 11 na numeração padrão de Diels–Kranz. Como as evidências chegaram até nós por meio da teoria das «causas materiais» de Aristóteles, muitos estudiosos alertam que a imagem de Tales como o primeiro pensador a buscar uma arché pode ser, em parte, uma reconstrução aristotélica, e não uma formulação do próprio Tales.
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Debates: primeiro filósofo, sábio ou engenheiro?
Tales foi mesmo o primeiro filósofo? No século XIX e no início do século XX, historiadores como John Burnet destacaram a novidade do pensamento dos milésios e viram nele o nascimento da ciência racional. Outros, como F. M. Cornford, argumentaram que a filosofia grega antiga se desenvolveu a partir de ideias religiosas e míticas e manteve fortes vínculos com elas. Hoje, a maioria dos estudiosos adota uma posição intermediária: a busca de Tales por explicações naturais abertas à discussão era de fato nova, mas também se apoiava em imagens cosmológicas mais antigas.
Qual foi a importância das influências do Oriente Próximo? As semelhanças entre a água de Tales e as águas primordiais dos relatos mesopotâmicos e egípcios sobre a origem do mundo, além das notícias de suas viagens ao Egito e de seu conhecimento da astronomia babilônica, levaram alguns estudiosos a vê-lo como transmissor de saberes mais antigos. Outros destacam que a novidade grega estava menos no conteúdo das ideias e mais no método e no contexto social: as ideias eram debatidas publicamente em uma cultura competitiva de cidades-Estado.
Alguns historiadores também questionam a própria classificação de Tales como «filósofo». Nos relatos antigos, ele é tanto engenheiro, estadista e sábio prático quanto teórico. Vê-lo dessa maneira mais ampla ajuda a explicar por que os gregos posteriores contaram tantas histórias sobre ele e nos lembra que o pensamento grego antigo estava ligado à navegação, ao comércio, à política e ao calendário, e não separado da vida cotidiana.
Ideias principais
- Arché
- A origem ou o primeiro princípio de todas as coisas; segundo Aristóteles, Tales a identificou com a água.
- Explicação natural
- Explicar acontecimentos por causas presentes na natureza, em vez de recorrer às ações dos deuses; Tales é lembrado como um pioneiro dessa abordagem.
- Monismo
- A ideia de que todas as coisas vêm de uma única substância básica, como nas teorias milésias da água, do ilimitado e do ar.
- Hilozoísmo
- A ideia de que a matéria é viva ou tem alma, sugerida pelas afirmações atribuídas a Tales sobre o ímã e sobre «todas as coisas estarem cheias de deuses».
- Tradição crítica
- A prática de questionar e aperfeiçoar teorias anteriores, iniciada entre os pensadores de Mileto.
- Geometria dedutiva
- A demonstração de verdades gerais sobre as formas geométricas; a tradição grega atribuiu a Tales os primeiros teoremas.
- Tradição dos sábios
- A imagem grega do homem sábio, hábil em questões práticas e políticas, além das teóricas, exemplificada pelos Sete Sábios.
Registros
- c. 624 a.C. — Tales nasce em Mileto, segundo a cronologia de Apolodoro (39ª Olimpíada, primeiro ano).
- c. 610 a.C. — Nasce Anaximandro, posteriormente considerado aluno e sucessor de Tales.
- 585 a.C. — Um eclipse solar total (28 de maio) interrompe uma batalha entre lídios e medos; Heródoto diz que Tales o havia previsto.
- c. 547 a.C. — Creso da Lídia é derrotado por Ciro da Pérsia; pouco depois, a Jônia passa ao domínio persa.
- c. 546 a.C. — Tales morre com cerca de 78 anos, segundo Diógenes Laércio (58ª Olimpíada).
- 494 a.C. — Mileto é tomada e saqueada pelos persas após a Revolta Jônica.
- c. 340 a.C. — Na Metafísica, Aristóteles apresenta Tales como fundador da filosofia da natureza.
- c. 220 d.C. — Diógenes Laércio reúne sua obra Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, que inclui um relato sobre Tales.
- c. 450 d.C. — Proclo, com base em Eudemo, enumera as descobertas geométricas atribuídas a Tales em seu comentário sobre Euclides.
- 1903 — Hermann Diels publica Die Fragmente der Vorsokratiker, a coletânea de referência das evidências sobre os pensadores pré-socráticos.
Glossário
- Jônia
- Região da parte central da costa oeste da Ásia Menor e das ilhas próximas, onde ficavam cidades gregas como Mileto e Éfeso.
- Pré-socráticos
- Pensadores gregos anteriores ou contemporâneos de Sócrates, de Tales a Demócrito.
- Escola de Mileto
- Tales, Anaximandro e Anaxímenes, os três primeiros filósofos da natureza de Mileto.
- Sete Sábios
- Grupo tradicional de homens sábios da Grécia arcaica; todas as listas incluem Tales.
- Doxografia
- Compilações antigas que resumem as opiniões dos filósofos e que muitas vezes são nossa principal fonte sobre os pré-socráticos.
- Testemunho
- Relato posterior sobre a vida ou as ideias de um pensador, em oposição a uma citação direta, chamada fragmento.
- Saros
- Ciclo de cerca de 18 anos após o qual os eclipses se repetem, conhecido pelos astrônomos babilônios.
- Magnetita
- Mineral naturalmente magnético que atrai o ferro.
- Teorema de Tales
- Um ângulo inscrito em uma semicircunferência é sempre um ângulo reto.
- Diels–Kranz
- Sistema padrão de numeração dos fragmentos e testemunhos dos pensadores pré-socráticos.
Perguntas e respostas
Tales realmente achava que tudo era feito de água?
Aristóteles afirma que sim, embora admita não conhecer as razões de Tales. Talvez Tales quisesse dizer que a água é a origem das coisas, e não que tudo é literalmente água hoje.
Ele realmente previu um eclipse?
Heródoto diz que sim, mas muitos historiadores da astronomia duvidam que alguém naquela época pudesse prever um eclipse solar para um lugar específico. A questão continua em debate.
Por que ele é chamado de primeiro filósofo?
Porque Aristóteles o apontou como fundador da filosofia da natureza: Tales buscou um princípio natural por trás de todas as coisas, em vez de se apoiar nos mitos.
Ele caiu num poço?
Essa história aparece em Platão e provavelmente é uma brincadeira sobre pensadores distraídos, não um relato histórico.
Que livros Tales escreveu?
Nenhum chegou até nós, e talvez ele não tenha escrito nenhum. Tudo o que sabemos vem de autores posteriores.
As informações que temos sobre Tales são confiáveis?
As evidências são indiretas e tardias e chegaram até nós sobretudo pela interpretação de Aristóteles. Por isso, os estudiosos examinam cada relato com cautela.
Tales foi influenciado pelo Egito e pela Babilônia?
Provavelmente de alguma maneira, por meio do comércio e das viagens, mas ainda se discute quanto ele recebeu dessas culturas e quanto havia de novo em suas ideias.
Fontes e leituras adicionais
- Patricia O’Grady, Thales of Miletus (c. 620 B.C.E.—c. 546 B.C.E.). Internet Encyclopedia of Philosophy
- Thales of Miletus. Wikipedia
- Presocratic Philosophy. Stanford Encyclopedia of Philosophy
- Eclipse of Thales. Wikipedia
- Thales’s theorem. Wikipedia
- Anaximander. Wikipedia
- Herodotus, Herodotus, The Histories. Perseus Digital Library, Tufts University
- Aristotle, Aristotle, Metaphysics. Perseus Digital Library, Tufts University
- G. S. Kirk, J. E. Raven and M. Schofield, The Presocratic Philosophers (2nd edition). Cambridge University Press, 1983
Conteúdo relacionado
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- PlatãoDiscípulo de Sócrates e fundador da Academia. Seus diálogos continuam a ser fundamentais para a filosofia ocidental.
- SócratesFilósofo ateniense que não deixou escritos próprios. Conhecido por meio de Platão e Xenofonte, foi julgado e executado em 399 a.C.
- Primeiros UpanixadesTextos que perguntam o que é o eu (ātman) e como ele se relaciona com a realidade última (brahman), fundamentos da filosofia indiana posterior.
- ConfúcioMestre do estado de Lu cujas palavras, reunidas nos Analectos, moldaram a ética e o governo em todo o Leste Asiático.
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
