História

Queda do Império Romano do Ocidente

Imperium Romanum Occidentale

476 d.C. · Ravena

Em uma frase

Em 476 d.C., um soldado chamado Odoacro depôs o jovem imperador Rômulo Augústulo na Itália e não nomeou um sucessor. Esse acontecimento costuma marcar o fim da metade ocidental do Império Romano, que vinha perdendo territórios e poder havia gerações.

Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.

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Para jovens leitores

Durante centenas de anos, o Império Romano governou uma área enorme ao redor do mar Mediterrâneo, da Britânia e da Espanha até o Egito e a Síria. Ele era tão grande que, por volta de 400 d.C., geralmente tinha dois imperadores: um no Ocidente e outro no Oriente, na grande cidade de Constantinopla.

Na parte ocidental, começaram a surgir problemas. Povos de fora do império, como godos, vândalos e francos, cruzaram as fronteiras. Alguns buscavam abrigo, outros lutavam pelo exército romano, e outros atacavam. Generais romanos brigavam pelo poder, e o governo ficou com pouco dinheiro e poucos soldados.

Aos poucos, os imperadores do Ocidente perderam suas terras. A própria cidade de Roma foi invadida e saqueada em 410 e novamente em 455. Na década de 470, o imperador do Ocidente governava, na prática, apenas a Itália, e os comandantes do exército tinham o verdadeiro poder.

Em 476, um comandante chamado Odoacro tirou do trono o último imperador do Ocidente, um menino chamado Rômulo Augústulo, e o mandou morar no sul da Itália. Odoacro não escolheu um novo imperador. Ele governou a Itália como rei e disse que servia ao imperador de Constantinopla.

Para muitas pessoas daquela época, a vida não mudou de repente em 476. Os agricultores continuaram cultivando a terra, as igrejas continuaram realizando cerimônias e as pessoas continuaram falando latim. O Império Romano do Oriente durou quase mais mil anos. Por isso, os historiadores falam tanto da “queda” quanto de uma longa “transformação” do mundo romano.

Em resumo

Data principal
4 de setembro de 476 d.C.: deposição de Rômulo Augústulo (fim tradicional do Império Romano do Ocidente)
Onde
Ravena, capital da corte ocidental, e Itália; o processo mais amplo afetou toda a Europa Ocidental e o norte da África
Processo mais longo
Em geral, é acompanhado desde a entrada dos godos no império (376) e a Batalha de Adrianópolis (378) até 476 ou 480
Principais participantes
Imperadores do Ocidente e seus generais (Estilicão, Aécio, Ricímero, Orestes); godos, vândalos, hunos, francos, burgúndios e suevos; a corte romana oriental
Últimos imperadores do Ocidente
Rômulo Augústulo (475–476), na Itália; Júlio Nepos, reconhecido pelo Oriente, reivindicou o título até sua morte em 480
Consequências
Reinos sucessores: Odoacro e depois os ostrogodos na Itália, visigodos na Espanha, francos na Gália e vândalos na África
O que continuou
O Império Romano do Oriente (Bizantino) até 1453; o latim, o direito romano, as cidades e a Igreja cristã no Ocidente
Debate
Os historiadores discutem se o período é mais bem descrito como declínio e queda ou como transformação em um novo mundo

Fácil

O que aconteceu em 476?

No verão de 476, soldados na Itália, muitos deles vindos de povos de língua germânica que serviam no exército romano, exigiram terras onde pudessem se estabelecer. Seu comandante, o patrício Orestes, recusou. Os soldados recorreram a um de seus oficiais, Odoacro, que prometeu lhes dar terras. Eles o proclamaram rei em 23 de agosto de 476. Odoacro derrotou Orestes, que foi executado perto de Placência (atual Piacenza) ainda naquele mês, e depois tomou Ravena, sede da corte imperial ocidental.

Rômulo Augústulo, o jovem filho de Orestes, havia sido colocado no trono pelo pai em outubro de 475. Em 4 de setembro de 476, Odoacro o depôs. Em vez de matar o menino, concedeu-lhe uma pensão e o enviou para viver no Castellum Lucullanum, uma residência fortificada perto de Nápoles. Seu nome reunia Rômulo, o lendário fundador de Roma, e Augusto, o primeiro imperador. Para autores posteriores, essa combinação pareceu simbolizar o encerramento de um ciclo.

Odoacro então fez algo incomum. Não proclamou a si mesmo nem outra pessoa imperador. Em vez disso, o Senado romano enviou as insígnias imperiais a Constantinopla. Seus representantes disseram ao imperador oriental Zenão que um único imperador bastava para as duas metades do mundo romano e pediram que Odoacro pudesse governar a Itália. Zenão deu uma resposta ambígua, lembrando que Júlio Nepos, um imperador ocidental anterior expulso por Orestes, ainda estava vivo na Dalmácia.

Durante séculos, 476 foi tratado como o fim do Império Romano do Ocidente. O cronista do século VI Marcelino Comes, escrevendo em Constantinopla, já apresentava a deposição de Augústulo como o fim do império ocidental. Mas muitas pessoas que viviam em 476 talvez mal tenham percebido a mudança: os funcionários romanos, o Senado e os tribunais na Itália continuaram funcionando, e Odoacro governou por meio deles.

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Fácil

O Império Romano antes da queda

Em seu auge, no século II d.C., o Império Romano se estendia do norte da Britânia ao rio Eufrates e dos rios Reno e Danúbio ao Saara. Abrigava talvez entre 50 e 70 milhões de pessoas, ligadas por estradas, rotas marítimas, um exército, o direito romano e as línguas latina e grega.

No século III, o império passou por uma grave crise: muitos imperadores foram assassinados, o Império Sassânida da Pérsia derrotou exércitos romanos e invasores cruzaram as fronteiras. O imperador Diocleciano (284–305) reorganizou o império, dividiu o poder entre vários governantes e ampliou muito o exército e a administração. Seu sucessor Constantino (306–337) adotou o cristianismo e fundou Constantinopla como nova capital no Oriente.

Após a morte de Teodósio I, em 395, o império foi dividido de forma permanente entre seus dois filhos: Arcádio no Oriente, governando de Constantinopla, e Honório no Ocidente. Ainda era considerado um só império com dois imperadores, mas as duas metades seguiram caminhos cada vez mais distintos. A metade oriental era mais rica, tinha mais cidades e contava com maior proteção geográfica; a ocidental tinha fronteiras mais extensas e arrecadava menos impostos.

Por volta de 400, a capital ocidental já não era Roma, mas primeiro Milão e depois, a partir de 402, Ravena, uma cidade protegida por pântanos perto do mar Adriático. Roma continuou sendo um símbolo do império e a sede do Senado e do bispo de Roma, o papa.

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Fácil

Quem participou?

Romanos. Os imperadores do Ocidente nesse período muitas vezes eram fracos ou muito jovens, e o poder real ficava com generais chamados magister militum (mestre dos soldados). Entre os mais importantes estavam Estilicão (morto em 408), de ascendência vândala, Flávio Aécio (morto em 454), que lutou contra os hunos, e Ricímero (morto em 472), que colocou e retirou vários imperadores do trono. Proprietários de terras romanos, bispos e conselhos municipais também tiveram papel importante na reação de cada região à crise.

Godos. Os godos viviam ao norte do Danúbio e do mar Negro. Os visigodos, como geralmente são chamados, entraram no império em 376, saquearam Roma em 410 e mais tarde criaram um reino na Gália e na Espanha. Os ostrogodos, liderados por Teodorico, conquistaram a Itália de Odoacro entre 489 e 493.

Vândalos, alanos e suevos cruzaram o Reno por volta de 406 e atravessaram a Gália até a Espanha. Em 429, os vândalos, liderados por Genserico, passaram para o norte da África e tomaram Cartago em 439, privando o império ocidental de suas províncias mais ricas. Francos e burgúndios se estabeleceram na Gália; anglos, saxões e jutos se estabeleceram na Britânia depois que as forças romanas partiram, no início do século V.

Hunos. Os hunos, cavaleiros nômades das estepes, chegaram ao norte do mar Negro por volta de 370. Seu deslocamento empurrou outros povos em direção à fronteira romana. Sob a liderança de Átila, nas décadas de 440 e no início da década de 450, atacaram as duas metades do império. Após a morte de Átila, em 453, seu império se desfez rapidamente.

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Intermediário

O desenrolar dos acontecimentos, 376–480

376–382: os godos entram no império. Fugindo dos hunos, muitos godos pediram para cruzar o Danúbio e receberam permissão do imperador oriental Valente. Maltratados e explorados por funcionários romanos, rebelaram-se. Em 9 de agosto de 378, em Adrianópolis, na Trácia, destruíram um exército romano e mataram Valente. Em 382, Teodósio I firmou um tratado que lhes permitiu se estabelecer como um grupo semiautônomo dentro do império, um acordo novo e arriscado.

406–410: a fronteira cede e Roma é saqueada. Por volta do fim de 406, vândalos, alanos e suevos cruzaram o Reno e entraram na Gália, enquanto usurpadores surgiram na Britânia e na Gália. Na Itália, Estilicão foi executado em 408, e soldados romanos massacraram as famílias de tropas bárbaras nas cidades italianas. Isso levou muitos desses soldados a se juntar ao líder godo Alarico. Após negociações fracassadas, os godos de Alarico saquearam Roma em 24 de agosto de 410. Foi a primeira tomada da cidade por um inimigo estrangeiro em cerca de 800 anos.

418–454: perda de províncias e época de Aécio. Os visigodos se estabeleceram na Aquitânia, no sudoeste da Gália, em 418. A Britânia foi, na prática, abandonada. A conquista vândala da África (429–439) talvez tenha sido a perda mais prejudicial, pois interrompeu o fornecimento de grãos e a arrecadação de impostos. Aécio manteve a Gália unida com a ajuda de povos aliados e, em 451, junto com visigodos, francos e outros, deteve o exército de Átila nos Campos Cataláunicos. Em 452, Átila invadiu a Itália, mas recuou. Em 454, o imperador Valentiniano III assassinou Aécio; ele próprio foi assassinado no ano seguinte.

455–476: o fim da corte ocidental. Em 455, os vândalos saquearam Roma novamente, durante duas semanas. Nas duas décadas seguintes, reinou uma série de imperadores que permaneceram pouco tempo no poder; vários foram colocados e retirados do trono por Ricímero. As tentativas de recuperar a África fracassaram, inclusive uma enorme expedição conjunta do Oriente e do Ocidente em 468. Em 474, o Oriente colocou Júlio Nepos no trono, mas em 475 seu general Orestes o expulsou e proclamou imperador o próprio filho, Rômulo. Em 476, Odoacro depôs Rômulo. Nepos, reconhecido por Zenão, continuou reivindicando o trono ocidental na Dalmácia até ser assassinado em 480. Alguns historiadores consideram essa data o verdadeiro fim da linhagem de imperadores ocidentais.

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Intermediário

Por que o Império Romano do Ocidente caiu?

A questão das causas da queda do Império Romano do Ocidente é uma das mais debatidas de toda a história. O historiador alemão Alexander Demandt reuniu cerca de 210 explicações propostas ao longo dos séculos. A maioria dos historiadores atuais concorda que não houve uma causa única, mas atribui pesos diferentes a cada fator.

Pressão externa. Uma corrente destaca a chegada dos hunos e a entrada de muitos povos no império, que o Ocidente não conseguiu absorver nem derrotar, além da longa rivalidade com a Pérsia sassânida, que ocupava recursos do Oriente. Peter Heather, por exemplo, argumentou que o império ocidental caiu principalmente por causa de forças externas postas em movimento pelos hunos.

Fraquezas internas. Outros destacam as guerras civis, as usurpações e a rivalidade entre generais; o peso elevado dos impostos e a perda da receita de províncias tomadas por outros povos; a maior exposição e os recursos mais escassos do Ocidente em comparação com o Oriente; e a dependência crescente de tropas bárbaras aliadas (federados), cuja lealdade era dirigida a seus próprios líderes.

Meio ambiente e doenças. Pesquisas recentes acrescentaram o clima e as epidemias a esse quadro. Historiadores como Kyle Harper argumentam que a mudança para condições climáticas menos favoráveis e uma série de pandemias a partir do século II enfraqueceram o império a longo prazo, embora se discuta a dimensão desse efeito.

Explicações mais antigas, como a decadência moral, a ascensão do cristianismo (enfatizada por Edward Gibbon) ou o envenenamento por chumbo, hoje são em geral rejeitadas ou consideradas, no máximo, fatores secundários. A sobrevivência do império oriental, igualmente cristão, costuma ser citada contra explicações religiosas simplistas.

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Intermediário

Depois de 476: os reinos sucessores e o Oriente

Odoacro governou a Itália até 493. Em 489, o imperador oriental Zenão incentivou Teodorico, rei dos ostrogodos, a invadir a Itália. Após anos de guerra e um longo cerco a Ravena, Teodorico tomou a cidade em 493 e matou Odoacro com as próprias mãos durante um banquete. O reino ostrogodo de Teodorico (493–553) manteve boa parte da administração romana e o Senado, e estudiosos romanos como Boécio e Cassiodoro serviram em sua corte.

Nas antigas províncias ocidentais, novos reinos foram fundados pelos visigodos na Espanha, pelos francos na Gália, pelos burgúndios no vale do Ródano, pelos vândalos na África e por diversos povos na Britânia. Em geral, seus reis governavam uma população predominantemente romana e usavam o direito romano, documentos em latim e a Igreja na administração. Clóvis, rei dos francos, batizado como cristão católico por volta de 500, fundou o reino do qual mais tarde surgiriam a França e a Alemanha.

O Império Romano do Oriente continuou existindo e chamava a si mesmo simplesmente de “romano”. Sob Justiniano I (527–565), seus exércitos reconquistaram o norte da África dos vândalos (533–534) e, após uma guerra devastadora que durou até 554, a Itália dos ostrogodos. Mas, em 568, os lombardos invadiram a Itália, e o império oriental não conseguiu conservar a maior parte do Ocidente. Com capital em Constantinopla, ele sobreviveu até 1453.

Em 800, o papa coroou Carlos Magno, rei dos francos, como imperador em Roma, retomando o título de imperador romano no Ocidente. Isso mostrou que a ideia de Roma continuava poderosa muito depois do fim do império ocidental.

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Intermediário

Viver durante a queda: vítimas e sobreviventes

Para muitas pessoas, o século V foi uma época de violência, medo e perdas. Cidades foram sitiadas e saqueadas; fazendas foram incendiadas; pessoas foram mortas, escravizadas ou mantidas em cativeiro para exigir resgate. Autores da época descreveram o horror do saque de Roma em 410; Jerônimo, em Belém, escreveu que a cidade que havia conquistado o mundo inteiro tinha sido conquistada. Refugiados da Itália fugiram para a África e o Oriente.

As vítimas não eram apenas romanas. Os refugiados godos de 376 passaram fome e foram explorados por funcionários romanos. O historiador Amiano Marcelino relata que alguns foram obrigados a vender os próprios filhos como escravos em troca de comida. Em 408, tropas romanas na Itália massacraram as esposas e os filhos de soldados bárbaros. A escravização, o deslocamento forçado e a destruição de comunidades atingiram todos os grupos.

Ao mesmo tempo, muitas regiões se adaptaram. No sul da Gália, na Espanha e na Itália, proprietários de terras romanos e bispos negociaram com os novos governantes, conservaram suas propriedades e trabalharam em seus governos. Os bispos frequentemente se tornaram líderes locais, organizando a defesa, resgatando pessoas em cativeiro e alimentando os pobres. Autores como o sacerdote Salviano de Marselha chegaram a afirmar que alguns romanos preferiam viver sob o domínio bárbaro a suportar as injustiças e os altos impostos dos funcionários romanos.

A arqueologia mostra grandes diferenças regionais. Na Britânia, as cidades romanas, as vilas rurais e o uso de moedas desapareceram poucas décadas depois de 400. Em partes da Itália, da Espanha e do sul da Gália, as mudanças foram mais lentas. Em muitos lugares do Mediterrâneo oriental, o século V e o início do século VI foram períodos de prosperidade.

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Intermediário

Memória e significado: diferentes maneiras de contar essa história

A história da “queda de Roma” foi contada de maneiras diferentes, conforme quem a narrava. Para os humanistas do Renascimento, o fim do império ocidental marcou o início de uma Idade Média “sombria”, situada entre a glória da Antiguidade e a retomada dos estudos clássicos em sua época. History of the Decline and Fall of the Roman Empire (1776–1789), de Edward Gibbon, tornou o tema famoso no mundo de língua inglesa, descrevendo-o como “o triunfo da barbárie e da religião”.

Na Alemanha do século XIX, historiadores nacionalistas frequentemente celebravam os povos germânicos como herdeiros vigorosos que renovaram um império enfraquecido. Na França e na Itália, o período às vezes era visto como uma tragédia causada por invasões ou como a origem de reinos nacionais, como o de Clóvis. Essas interpretações revelam mais sobre as identidades nacionais modernas do que sobre o século V. Os estudiosos atuais ressaltam que os “povos germânicos” eram grupos diversos, cujas identidades se formaram em grande parte dentro do mundo romano.

Do ponto de vista do Mediterrâneo oriental, não houve queda em 476: o Império Romano continuou em Constantinopla, e os bizantinos de língua grega se chamaram romanos até 1453 e, em certos sentidos, por muito mais tempo. No norte da África, a conquista vândala, a reconquista bizantina e a posterior conquista árabe compõem uma história própria, na qual os reinos berberes (amazigues) também tiveram papel importante.

A queda de Roma também tem sido usada como advertência em debates políticos, do século XVIII até hoje, com comentaristas comparando Estados modernos a uma Roma em declínio. Os historiadores geralmente alertam que essas comparações simplificam um passado complexo e muito diferente.

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Avançado

Debates acadêmicos: declínio, transformação ou catástrofe?

Transformação. Na década de 1970, The World of Late Antiquity (1971), de Peter Brown, ajudou a estabelecer o campo de estudos da “Antiguidade Tardia” (aproximadamente 200–700 d.C.), que enfatizava a criatividade religiosa e cultural e as continuidades, em vez do declínio. Barbarians and Romans (1980), de Walter Goffart, argumentou que alguns grupos bárbaros foram assentados por meio de acordos relativamente organizados, baseados em parcelas da receita tributária ou de terras, em vez de conquistas violentas. Um grande programa europeu de pesquisa da década de 1990, “The Transformation of the Roman World”, aprofundou essa abordagem.

O retorno do declínio. Em 2005, dois livros influentes questionaram essa visão. Em The Fall of Rome and the End of Civilization, Bryan Ward-Perkins usou evidências arqueológicas, como a forte redução na qualidade e na distribuição da cerâmica, no tamanho das construções e até no porte do gado, para argumentar que o fim do domínio romano no Ocidente provocou um verdadeiro colapso da complexidade econômica e dos padrões de vida. The Fall of the Roman Empire: A New History, de Peter Heather, enfatizou a pressão militar e política externa impulsionada pelos hunos.

Identidade e etnicidade. Estudiosos influenciados pela “escola de Viena”, associada a Herwig Wolfram e Walter Pohl, pesquisaram a etnogênese: a ideia de que grupos como godos ou francos não eram povos antigos de identidade fixa, mas comunidades políticas formadas e reformadas em torno de líderes e tradições. Em Barbarian Migrations and the Roman West, 376–568 (2007), Guy Halsall argumentou que a crise do império ocidental teve causas sobretudo internas e que os grupos bárbaros foram atraídos para a política romana, em vez de simplesmente irromperem de fora. O tamanho dos grupos migrantes e sua relação com a população romana continuam sendo questões em aberto.

Periodização. Muitos historiadores hoje consideram 476 uma data simbólica, e não decisiva. Alguns preferem 410, 455, 480 ou até a invasão lombarda de 568 como marcos. Outros argumentam que o domínio romano terminou em momentos muito diferentes conforme a região: por volta de 410 na Britânia, mas apenas no século VI ou mais tarde em partes do Mediterrâneo.

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Avançado

Evidências e métodos: as fontes sobre a queda

Fontes narrativas. Nenhuma obra histórica contemporânea cobre todo o século V no Ocidente. A história de Amiano Marcelino, escrita em latim no fim do século IV, termina com a Batalha de Adrianópolis. Para o início do século V, os historiadores recorrem a autores gregos posteriores, como Zósimo, que usou a história perdida de Olimpiodoro, e aos fragmentos de Prisco, que visitou a corte de Átila. O autor cristão Orósio escreveu, na década de 410, uma história contra os pagãos por sugestão de Agostinho.

Relatos do século VI. Os acontecimentos de 476 são conhecidos principalmente por fontes posteriores: a crônica de Marcelino Comes, o chamado Anonymus Valesianus, a Getica de Jordanes (escrita em Constantinopla por volta de 551) e as Guerras de Procópio. Esses autores tinham seus próprios objetivos, como justificar a reconquista da Itália por Justiniano ao apresentar o Ocidente como perdido. Isso influencia a forma como descrevem o fim do império ocidental.

Outros textos. Códigos de leis, especialmente o Código Teodosiano (438), cartas de bispos e aristocratas como Sidônio Apolinário na Gália, sermões, vidas de santos e crônicas como a de Idácio na Espanha oferecem visões locais da crise. A Cidade de Deus, de Agostinho, e Sobre o Governo de Deus, de Salviano, mostram como os cristãos interpretavam os desastres.

Arqueologia e ciência. Escavações de cidades, vilas rurais, fortes e cemitérios, estudos de moedas e cerâmica e, mais recentemente, análises de DNA antigo, testemunhos de gelo, anéis de crescimento das árvores e pólen transformaram o debate ao fornecer evidências independentes das fontes escritas. Esses estudos mostram grandes diferenças regionais e permitem aos historiadores avaliar as mudanças econômicas, mas também levantam novos problemas de interpretação. Por exemplo: uma mudança nos costumes funerários ou nos objetos encontrados indica uma migração ou apenas novas modas?

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Ideias principais

Declínio e queda
Visão tradicional, popularizada por Gibbon, segundo a qual o império ocidental enfraqueceu gradualmente e depois entrou em colapso.
Transformação
Visão segundo a qual o mundo romano assumiu novas formas, mantendo muitas continuidades na religião, no direito, na língua e na cultura.
Antiguidade Tardia
Período histórico situado aproximadamente entre 200 e 700 d.C., estudado como uma época criativa por si só, e não apenas como uma fase de declínio.
Federados
Grupos aliados não romanos estabelecidos dentro do império ou perto dele e obrigados por tratado a fornecer soldados, fundamentais para o Ocidente no século V.
Reinos sucessores
Os reinos visigodo, franco, vândalo, ostrogodo e outros que substituíram o domínio romano no Ocidente.
Divergência entre Oriente e Ocidente
O império oriental sobreviveu enquanto o ocidental entrou em colapso, o que ajuda os historiadores a avaliar as explicações para a queda.
Periodização
476 é um marco convencional; o domínio romano terminou em momentos diferentes conforme a região.

Registros

  1. 376 d.C. — Godos que fogem dos hunos cruzam o Danúbio e entram no império oriental.
  2. 378 d.C. — Batalha de Adrianópolis (9 de agosto): os godos derrotam e matam o imperador Valente.
  3. 395 d.C. — Morte de Teodósio I; o império é dividido de forma permanente entre Arcádio e Honório.
  4. 406 d.C. — Vândalos, alanos e suevos cruzam o Reno e entram na Gália (data tradicional: 31 de dezembro).
  5. 410 d.C. — Os visigodos de Alarico saqueiam Roma (24 de agosto).
  6. 439 d.C. — Os vândalos tomam Cartago e as províncias mais ricas do Ocidente.
  7. 451 d.C. — Batalha dos Campos Cataláunicos: Aécio e as forças aliadas detêm Átila.
  8. 455 d.C. — Os vândalos saqueiam Roma.
  9. 476 d.C. — Odoacro é proclamado rei (23 de agosto) e depõe Rômulo Augústulo (4 de setembro).
  10. 480 d.C. — Júlio Nepos, o último imperador ocidental reconhecido pelo Oriente, é assassinado na Dalmácia.
  11. 493 d.C. — Teodorico, o ostrogodo, toma Ravena e mata Odoacro.
  12. 554 d.C. — Termina a reconquista da Itália por Justiniano; os lombardos invadem em 568.

Glossário

Império Romano do Ocidente
A metade ocidental do Império Romano, governada por seu próprio imperador, geralmente a partir de Milão ou Ravena, depois da divisão de 395.
Império Romano do Oriente (Bizantino)
A metade oriental do império, governada a partir de Constantinopla, que durou até 1453.
Magister militum
“Mestre dos soldados”, um alto comando militar romano; no Ocidente do século V, muitas vezes era quem exercia o verdadeiro poder por trás do trono.
Patrício
No período final do império, um alto título honorífico concedido aos generais e funcionários mais poderosos.
Federados
Grupos aliados obrigados por tratado a prestar serviço militar a Roma.
Usurpador
Alguém que toma o poder, especialmente o título de imperador, sem ter direito legal a ele.
Visigodos / ostrogodos
Dois grandes grupos godos: os visigodos fundaram um reino na Gália e na Espanha; os ostrogodos, na Itália.
Vândalos
Povo que passou da Espanha para o norte da África em 429 e fundou um reino com centro em Cartago.
Etnogênese
Processo de formação de um povo ou de uma identidade étnica, muitas vezes em torno de líderes políticos e tradições.
Historiografia
Estudo de como a história foi escrita e interpretada.

Perguntas e respostas

Roma caiu em um único dia?

Não. 476 é uma data simbólica. O império ocidental perdeu territórios e poder ao longo de muitas décadas, e em muitos lugares a vida continuou quase como antes.

Quem foi o último imperador romano?

No Ocidente, geralmente se considera Rômulo Augústulo (deposto em 476), embora Júlio Nepos tenha reivindicado o título até 480. No Oriente, os imperadores governaram até a queda de Constantinopla, em 1453.

Os “bárbaros” eram apenas invasores?

Não. Muitos eram refugiados, aliados ou soldados do exército romano e, frequentemente, queriam um lugar no mundo romano, não sua destruição.

Por que a metade oriental sobreviveu?

Ela tinha uma economia mais rica, mais cidades, fronteiras menos extensas e mais bem defendidas e uma capital muito fortificada, Constantinopla. Também conseguia, muitas vezes, desviar invasores para o Ocidente.

O cristianismo causou a queda?

Gibbon sugeriu que ele contribuiu para a queda, mas a maioria dos historiadores atuais rejeita essa explicação, observando que o império oriental, igualmente cristão, sobreviveu.

“Queda” é a palavra certa?

Os historiadores discordam. Alguns destacam a transformação e as continuidades; outros apontam evidências arqueológicas de colapso econômico e defendem os termos declínio e queda.

Qual era o título de Odoacro?

Seus soldados o proclamaram rei (rex); o imperador oriental Zenão o reconheceu como patrício governante da Itália, e Odoacro reconheceu formalmente a autoridade de Zenão.

Fontes e leituras adicionais

  1. Fall of the Western Roman Empire. Wikipedia
  2. Romulus Augustulus. Wikipedia
  3. Odoacer. Wikipedia
  4. Julius Nepos. Wikipedia
  5. Battle of Adrianople. Wikipedia
  6. Sack of Rome (410). Wikipedia
  7. The History of the Decline and Fall of the Roman Empire. Wikipedia
  8. Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History. Macmillan, 2005
  9. Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization. Oxford University Press, 2005
  10. Peter Brown, The World of Late Antiquity, AD 150–750. Thames and Hudson, 1971

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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