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Para jovens leitores
Há quase quatro mil anos, na terra entre dois grandes rios que hoje chamamos de Iraque, as pessoas escreviam pressionando pequenas marcas em forma de cunha na argila úmida. Uma das histórias que escreveram assim fala de um rei chamado Gilgamesh. É uma das histórias longas mais antigas do mundo.
Gilgamesh era rei de uma cidade chamada Uruk. Ele era muito forte, mas maltratava as pessoas, que estavam infelizes. Por isso, os deuses criaram Enkidu, um homem que vivia na natureza com os animais. Quando Enkidu chegou à cidade, ele e Gilgamesh lutaram. Nenhum dos dois conseguiu vencer. Depois da luta, tornaram-se melhores amigos.
Os dois amigos viveram aventuras juntos. Viajaram até uma floresta distante, cheia de cedros gigantes, e lutaram contra Humbaba, seu guardião feroz. Também enfrentaram um touro gigante enviado do céu. Mas os deuses decidiram que Enkidu deveria morrer, e Gilgamesh ficou muito triste. Pela primeira vez, ele teve medo de morrer também.
Então Gilgamesh caminhou até os confins do mundo. Atravessou um túnel totalmente escuro e as Águas da Morte para encontrar Utnapishtim, um homem que havia sobrevivido a uma grande inundação e recebido a vida eterna. Gilgamesh encontrou uma planta mágica capaz de fazer os idosos ficarem jovens de novo. Mas, enquanto tomava banho, uma cobra apareceu e comeu a planta!
Gilgamesh voltou para casa sem conseguir viver para sempre. Ao olhar para os fortes muros de sua cidade, pareceu entender uma coisa: as pessoas não vivem para sempre, mas as coisas boas que constroem e as histórias contadas sobre elas podem durar muito tempo. E nós ainda contamos sua história hoje.
Em resumo
- Tipo
- Poema épico (poesia narrativa), escrito em cuneiforme em tabuletas de argila
- Idioma
- Acádio (uma língua semítica); poemas anteriores e independentes em sumério
- Primeira epopeia unificada
- Período paleobabilônico, c. 1800–1700 a.C.
- Versão mais conhecida
- Versão babilônica padrão, em 12 tabuletas, c. 1200–1000 a.C., atribuída a Sîn-lēqi-unninni
- Local
- Mesopotâmia (Babilônia e Assíria, no atual Iraque); cópias também encontradas na Síria, na Turquia e em Israel
- Personagens principais
- Gilgamesh, rei de Uruk; Enkidu; Shamhat; Humbaba; Ishtar; Utnapishtim; Siduri; Urshanabi
- Descoberta importante
- Tabuletas da biblioteca de Assurbanípal em Nínive (século VII a.C.), escavadas entre 1849 e 1853
- Importância
- Uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram; uma reflexão sobre a amizade, a morte e os limites humanos; contém uma história de dilúvio muito semelhante à do Gênesis
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O que é a Epopeia de Gilgamesh?
A Epopeia de Gilgamesh é um longo poema da antiga Mesopotâmia, região entre os rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque. Conta a história de Gilgamesh, rei da cidade de Uruk, sua amizade com Enkidu, um homem que vivia na natureza, as aventuras heroicas dos dois, a morte de Enkidu e a busca desesperada de Gilgamesh por uma forma de escapar da própria morte. Muitas vezes é chamada de primeira grande obra da literatura mundial, embora tenha sido precedida por textos literários mais curtos, entre eles os poemas da sacerdotisa Enheduana e textos de sabedoria como as Instruções de Shuruppak.
O poema foi escrito em cuneiforme, um sistema de escrita formado por marcas em forma de cunha, pressionadas na argila úmida com um estilete de junco. Seu idioma é o acádio, uma língua semítica aparentada ao hebraico, ao aramaico e ao árabe posteriores, que era usada no cotidiano e na diplomacia da Babilônia e da Assíria. A versão mais conhecida ocupa doze tabuletas de argila, cada uma com cerca de 200 a 300 versos.
A epopeia não surgiu de uma só vez. Ela se desenvolveu ao longo de mais de mil anos: primeiro como poemas sumérios independentes sobre Gilgamesh, depois como uma epopeia em acádio no período paleobabilônico (cerca de 1800–1700 a.C.) e, por fim, como a versão babilônica padrão, organizada em doze tabuletas, que escribas posteriores copiaram. Quando hoje se fala na “Epopeia de Gilgamesh”, geralmente se trata dessa última versão, complementada com trechos de versões anteriores onde as tabuletas estão danificadas.
Fácil
A história, tabuleta por tabuleta
Tabuletas I–II: O poema começa louvando Gilgamesh, “dois terços divino e um terço humano”, e os grandes muros de Uruk. Convida o leitor a subir neles e a encontrar a caixa de tabuletas que guarda sua história. Gilgamesh oprime seu povo, então os deuses fazem a deusa Aruru moldar Enkidu da argila. Enkidu vive entre gazelas até que o plano de um caçador leva até ele Shamhat, uma mulher ligada ao templo. Depois de passar uma semana com ela, ele muda: os animais fogem dele, e ele aprende a comer pão, beber cerveja e viver como ser humano. Enkidu chega a Uruk, bloqueia a passagem de Gilgamesh e os dois lutam até se tornarem amigos inseparáveis.
Tabuletas III–VI: Em busca de fama duradoura, os amigos viajam até a Floresta dos Cedros, guardada pelo monstro Humbaba (Huwawa), nomeado pelo deus Enlil. Com a ajuda do deus do Sol, Shamash, eles derrotam e matam Humbaba e derrubam os cedros. De volta a Uruk, a deusa Ishtar pede Gilgamesh em casamento; ele a insulta ao enumerar os destinos terríveis de seus antigos amantes. Furiosa, ela obtém de seu pai, Anu, o Touro Celeste, mas os heróis o matam, e Enkidu atira uma coxa do touro contra ela.
Tabuletas VII–VIII: Os deuses decidem que um dos dois deve morrer por esses atos, e Enkidu adoece. Ele sonha com o mundo dos mortos como uma “casa de pó”, amaldiçoa Shamhat e depois a abençoa, e morre. Gilgamesh o pranteia por sete dias e sete noites, até que um verme sai do nariz do amigo. Então lhe oferece um funeral magnífico.
Tabuletas IX–XI: Apavorado com a morte, Gilgamesh vagueia por terras desertas. Ele passa pelos homens-escorpião que guardam o monte Mashu, com seus dois picos, e corre pelo túnel escuro percorrido pelo Sol. Encontra Siduri, dona de uma taverna à beira-mar, e o barqueiro Urshanabi o leva pelas Águas da Morte até Utnapishtim, sobrevivente do Dilúvio. Utnapishtim conta que o deus Ea o avisou para construir um barco, que a tempestade destruiu a humanidade, que ele soltou uma pomba, uma andorinha e um corvo e que, depois, os deuses lhe concederam a imortalidade. Ele desafia Gilgamesh a ficar acordado por uma semana, mas Gilgamesh adormece imediatamente. Como presente de despedida, Gilgamesh fica sabendo de uma planta que rejuvenesce os idosos. Ele mergulha para buscá-la, mas uma cobra a rouba enquanto ele se banha numa poça e, ao partir, troca de pele. Gilgamesh retorna a Uruk e mostra a Urshanabi os muros da cidade — a mesma imagem que abriu o poema.
Tabuleta XII: A última tabuleta é uma tradução para o acádio da segunda metade de um poema sumério mais antigo. Nela, Enkidu, ainda vivo, desce ao mundo dos mortos para recuperar objetos que Gilgamesh perdeu e não consegue voltar; seu espírito então surge para descrever o destino dos mortos. Como essa tabuleta não se encaixa no enredo das tabuletas I–XI, muitos estudiosos a consideram um apêndice.
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Gilgamesh foi um rei de verdade?
Gilgamesh (Bilgames em sumério) aparece na Lista Real Suméria, um documento antigo posterior que enumera governantes de cidades mesopotâmicas. Ela o apresenta como o quinto rei da Primeira Dinastia de Uruk e atribui a ele um reinado de 126 anos — duração lendária, embora seu nome apareça entre outros que podem corresponder a governantes reais do período Dinástico Arcaico (aproximadamente 2900–2350 a.C.).
Muitos historiadores consideram provável que um rei de Uruk chamado Gilgamesh tenha vivido por volta de 2700 a.C., mas não há nenhuma inscrição de sua época que o mencione. Um poema sumério, Gilgamesh e Aga, o relaciona a Aga (Akka) de Kish, cujo pai, Enmebaragesi, é conhecido por uma inscrição muito antiga. Isso é sugestivo, mas não constitui prova. Em termos precisos, a existência histórica de Gilgamesh é plausível, porém não confirmada.
O que se sabe com certeza é que ele se tornou um herói e, mais tarde, um deus do mundo dos mortos na religião mesopotâmica. Por volta de 2100 a.C., os reis da Terceira Dinastia de Ur (Ur III), especialmente Shulgi, chamavam Gilgamesh de seu “irmão” e usavam sua fama para reforçar a própria legitimidade. Esse interesse da realeza provavelmente explica por que os poemas sumérios sobre Gilgamesh foram compostos ou registrados naquela época.
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O mundo em que a epopeia surgiu
A Mesopotâmia abrigou algumas das primeiras cidades do mundo, como Uruk, que por volta de 3000 a.C. talvez tivesse dezenas de milhares de habitantes. A escrita surgiu ali por volta de 3300–3100 a.C., inicialmente para registros contábeis. Quando as histórias de Gilgamesh foram compostas, os escribas eram formados em escolas chamadas eduba (“casa das tabuletas”), onde copiavam literatura suméria para aprender o ofício. Por isso, tantos poemas sumérios sobreviveram em cópias escolares do período paleobabilônico.
No período paleobabilônico (cerca de 2000–1600 a.C.), o sumério já não era uma língua falada, mas ainda era estudado, assim como o latim na Europa medieval. O acádio era a língua viva, e a época de Hamurábi da Babilônia (que reinou c. 1792–1750 a.C.) viu florescer a literatura em acádio. A primeira epopeia unificada de Gilgamesh pertence a esse momento criativo e recorreu a uma história mesopotâmica de dilúvio mais antiga, também encontrada na Epopeia de Atrahasis.
Mais tarde, a cultura mesopotâmica se espalhou pelas redes comerciais e diplomáticas do antigo Oriente Próximo. Durante a Idade do Bronze Recente (cerca de 1600–1200 a.C.), o acádio era a língua internacional da diplomacia. Escribas de lugares tão distantes quanto Hattusa, capital hitita na Anatólia, Emar e Ugarit, na Síria, e Megido, no Levante, copiaram ou traduziram a história de Gilgamesh. No primeiro milênio a.C., o Império Assírio reuniu textos em grandes bibliotecas de palácios e templos.
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Temas: amizade, fama, morte e sabedoria
A amizade é o centro emocional do poema. Gilgamesh e Enkidu começam como opostos — cidade e natureza, rei e homem selvagem — e se tornam iguais. A transformação de Enkidu por meio de Shamhat, da comida, da bebida e das roupas já foi interpretada como uma reflexão sobre o significado da civilização, seus ganhos e suas perdas; mais tarde, o próprio Enkidu lamenta ter deixado a vida selvagem.
A morte e os limites da vida humana movem a segunda metade da epopeia. No início, Gilgamesh trata a morte com desprezo: só os deuses vivem para sempre, portanto um homem deve conquistar um nome que perdure. A morte de Enkidu transforma essa ideia abstrata em terror pessoal. Na versão paleobabilônica, Siduri dá um conselho famoso: sacie-se, dance, lave-se, cuide da criança que segura sua mão e da esposa em seus braços, pois essa é a condição humana. Esse discurso não aparece na versão padrão, que atribui a Utnapishtim uma fala diferente e mais longa sobre a inevitabilidade da morte.
A sabedoria e o conhecimento estruturam a versão posterior. Seu verso inicial, “Aquele que viu as Profundezas”, apresenta Gilgamesh como alguém que obteve conhecimentos secretos de antes do Dilúvio e os trouxe de volta. A estrutura circular — o poema começa e termina com os muros de Uruk — sugere que sua verdadeira realização é a cidade e a própria história: a mortalidade é aceita, mas as obras humanas e a memória dão sentido à vida.
Os deuses são poderosos e muitas vezes imprevisíveis. A ira de Ishtar, a decisão de Enlil de destruir a humanidade com o Dilúvio e os deuses que se juntam como moscas em torno do sacrifício de Utnapishtim mostram seres divinos que não são simplesmente bons nem maus. Os humanos precisam viver dentro de limites impostos por forças fora de seu controle.
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A história do Dilúvio e seus paralelos
A tabuleta XI contém uma das passagens mais famosas da literatura antiga: o relato de Utnapishtim sobre o Dilúvio. Avisado pelo deus Ea, que fala com ele através da parede de juncos de sua casa, ele desmonta a casa para construir um grande barco, embarca sua família, artesãos, animais e riquezas e sobrevive a uma tempestade que dura seis dias e sete noites. Quando o barco para no monte Nimush, ele solta aves para procurar terra seca e depois oferece um sacrifício.
Os paralelos com a história de Noé no livro do Gênesis chamam a atenção: um aviso divino, um barco com dimensões especificadas e vedado com betume, animais salvos, o barco que pousa numa montanha, aves soltas e um sacrifício cujo cheiro agradável chega aos deuses. Quando essas linhas foram lidas em voz alta em Londres, em 1872, causaram grande comoção pública.
Em geral, os estudiosos explicam a semelhança pela existência de uma tradição mesopotâmica sobre o dilúvio mais antiga que os dois textos. A história aparece antes na epopeia acádia de Atrahasis (cujo herói do dilúvio também é chamado Atrahasis em algumas passagens de Gilgamesh) e em uma narrativa suméria sobre o dilúvio protagonizada por Ziusudra. Os responsáveis pela versão babilônica padrão de Gilgamesh parecem ter adaptado o relato de Atrahasis para a tabuleta XI; a versão paleobabilônica de Gilgamesh talvez não contivesse a narrativa completa do dilúvio.
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Como a epopeia se desenvolveu: dos poemas sumérios à versão padrão
Sobrevivem cinco poemas sumérios sobre Bilgames, principalmente em cópias paleobabilônicas: Gilgamesh e Aga, Gilgamesh e Huwawa (em duas versões), Gilgamesh e o Touro Celeste, Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos e A morte de Gilgamesh. São episódios separados, não uma única história contínua. Neles, Enkidu é servo de Gilgamesh, e não seu amigo em condição de igualdade.
Por volta de 1800–1700 a.C., um poeta que escrevia em acádio criou uma epopeia única a partir desse material, reorganizando-o em torno dos temas da amizade e da morte. Dessa versão paleobabilônica restam apenas fragmentos, como as tabuletas da Pensilvânia e de Yale e uma tabuleta às vezes atribuída a Sippar. Suas palavras iniciais eram “Superior a todos os outros reis” (Šūtur eli šarrī).
No fim do segundo milênio a.C., a epopeia foi revisada e se tornou a versão babilônica padrão. A tradição mesopotâmica a atribuía a Sîn-lēqi-unninni, sacerdote exorcista de Uruk; famílias eruditas posteriores da cidade afirmavam descender dele. É mais adequado considerá-lo um editor ou responsável pela revisão do que o autor original. Essa versão acrescentou o prólogo, o novo verso inicial “Aquele que viu as Profundezas”, a narrativa completa do Dilúvio e, provavelmente, a tabuleta XII.
O estudo The Evolution of the Gilgamesh Epic (1982), do pesquisador americano Jeffrey Tigay, é uma análise clássica desse processo. Ele é frequentemente usado como exemplo de como textos antigos, inclusive partes da Bíblia hebraica, podem ter se desenvolvido pela revisão e combinação de fontes anteriores.
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Perdida e reencontrada: Nínive, George Smith e novas tabuletas
Após a queda de Nínive, em 612 a.C., e o fim da tradição cuneiforme nos primeiros séculos d.C., a epopeia caiu no esquecimento. Restaram apenas ecos vagos, como o nome de Gilgamesh entre os gigantes do Livro dos Gigantes, em aramaico, encontrado em Qumran, e uma história distorcida sobre um “Gilgamos” no escritor grego Eliano, da época romana.
Entre 1849 e 1851, o arqueólogo britânico Austen Henry Layard escavou o Palácio Sudoeste em Kuyunjik (Nínive) e, em 1853, Hormuzd Rassam encontrou o Palácio Norte. Juntas, essas escavações revelaram dezenas de milhares de tabuletas e fragmentos das bibliotecas do rei assírio Assurbanípal (que reinou de 668 a c. 631 a.C.), enviados ao Museu Britânico.
Em 1872, George Smith, um assiriólogo autodidata que trabalhava no Museu Britânico, identificou um fragmento da tabuleta XI que descrevia um barco parado numa montanha e a soltura de uma ave. Ele anunciou a descoberta à Sociedade de Arqueologia Bíblica em 3 de dezembro de 1872. O jornal Daily Telegraph financiou seu retorno a Nínive em 1873, onde ele encontrou mais fragmentos da história do dilúvio.
A recuperação do texto continua. A edição crítica de Andrew George, publicada em 2003, reuniu os manuscritos conhecidos. Em 2014, George e Farouk al-Rawi publicaram um fragmento recém-identificado da tabuleta V, pertencente ao Museu de Sulaymaniyah, no Iraque. Ele acrescenta versos vívidos sobre a ruidosa Floresta dos Cedros, cheia de aves, cigarras e macacos. Em 2021, a chamada Tabuleta dos Sonhos de Gilgamesh, exportada ilegalmente, foi devolvida pelos Estados Unidos ao Iraque.
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Influência e legado
Na Antiguidade, Gilgamesh era amplamente conhecido no Oriente Próximo. Estudiosos propuseram relações entre a epopeia e os poemas de Homero — especialmente a amizade de Aquiles e Pátroclo e as viagens de Odisseu —, embora se discuta se isso reflete influência direta ou tradições narrativas compartilhadas. Os motivos do dilúvio, da planta da vida perdida e da cobra que troca de pele também reaparecem em tradições posteriores.
Desde sua redescoberta, a epopeia se tornou um clássico mundial. Foi traduzida para dezenas de idiomas, adaptada para óperas, romances, peças, poemas, histórias em quadrinhos e livros infantis, e é ensinada em escolas de todo o mundo. Escritores como Rainer Maria Rilke a elogiaram com entusiasmo no início do século XX.
Para o Iraque atual, Gilgamesh faz parte do patrimônio nacional. A destruição e o saque de museus e sítios arqueológicos iraquianos nas últimas décadas fizeram da preservação, do roubo e da devolução das tabuletas parte da história recente da epopeia. Sua pergunta central — como viver de maneira significativa sabendo que vamos morrer — ainda fala a leitores de todas as culturas.
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Debates acadêmicos e questões em aberto
Datação e autoria: A epopeia paleobabilônica costuma ser datada de cerca de 1800–1700 a.C. com base em seus manuscritos e em sua linguagem, mas não é possível determinar com precisão quando foi composta pela primeira vez. A versão padrão é convencionalmente datada de cerca de 1200–1000 a.C., e sua atribuição a Sîn-lēqi-unninni se baseia em um catálogo de textos e autores do primeiro milênio a.C.; com as evidências atuais, não há como saber quanto ele de fato escreveu ou revisou. A própria ideia mesopotâmica de “autoria” diferia da moderna.
Unidade e tabuleta XII: Discute-se se a tabuleta XII faz parte da epopeia. Alguns estudiosos a tratam como um apêndice acrescentado simplesmente por falar de Gilgamesh; outros defendem que ela tem uma função temática, completando a investigação da morte no poema com uma visão da vida após a morte. Suas contradições com o enredo — Enkidu está vivo novamente — são claras, mas também é claro que ela integra a série de tabuletas de Assurbanípal.
Interpretação: Os leitores já interpretaram o poema como uma história de amadurecimento (de tirano a rei sábio), como crítica ou celebração da civilização, como reflexão sobre o luto e como expressão da ideologia régia. A natureza do vínculo entre Gilgamesh e Enkidu — inclusive a possibilidade de uma dimensão romântica ou erótica — tem sido muito discutida. Em certos trechos, o texto usa linguagem amorosa e imagens de casamento, como nos sonhos em que Gilgamesh ama um meteoro e um machado “como uma esposa”; porém, as categorias antigas de amor e sexualidade não correspondem exatamente às modernas.
Relações com outras literaturas: Ainda se discute até que ponto a epopeia influenciou a Bíblia hebraica (o dilúvio; a passagem de Eclesiastes que convida a aproveitar a vida e lembra o conselho de Siduri) e a epopeia grega. A maioria dos especialistas reconhece um contexto cultural compartilhado no Oriente Próximo, enquanto a força dos argumentos a favor de uma dependência literária direta varia de caso a caso.
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Fontes primárias e estado do texto
Não existe um único manuscrito completo da epopeia. A versão padrão é reconstruída a partir de dezenas de manuscritos, em sua maioria fragmentários, encontrados principalmente em Nínive, mas também em Assur, Nimrud, Sultantepe (Huzirina), Babilônia, Uruk e outros sítios. Eles datam de aproximadamente o século IX ao II a.C. Escribas continuaram a copiá-la no período selêucida e possivelmente no início do período parto. Mesmo assim, partes importantes permanecem danificadas ou ausentes, e novos fragmentos continuam a mudar nossa compreensão do texto.
As evidências das versões paleobabilônica e mesobabilônica são ainda mais dispersas: tabuletas isoladas de diferentes versões provenientes do sul da Mesopotâmia e, na Idade do Bronze Recente, de Hattusa (inclusive adaptações em hitita e hurrita), Emar, Ugarit e Megido. Elas não constituem um texto único, mas mostram que a história circulava em diversas formas.
A edição acadêmica de referência é The Babylonian Gilgamesh Epic (Oxford University Press, 2003), de Andrew George, que apresenta os textos cuneiformes, sua transliteração e tradução, acompanhados de comentários. Os poemas sumérios estão disponíveis em transliteração e tradução no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (ETCSL), da Universidade de Oxford. Há várias traduções confiáveis para o inglês, entre elas a edição de George publicada pela Penguin (1999).
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Notas metodológicas: como ler um texto fragmentado e composto em camadas
As traduções assinalam lacunas com colchetes e reticências e muitas vezes reconstituem versos ausentes a partir de manuscritos paralelos ou outras versões. O leitor deve saber que uma tradução moderna “completa” pode reunir versos separados por séculos. As edições cuidadosas indicam a versão de que vem cada passagem; as adaptações populares muitas vezes não fazem isso.
Os sinais cuneiformes podem ser lidos de várias maneiras: um sinal pode representar uma sílaba, uma palavra ou um classificador. A poesia acádia se apoia no paralelismo e na estrutura dos versos, não na rima. Os tradutores precisam decidir como reproduzir repetições, fórmulas e jogos de palavras; por isso, traduções diferentes podem variar bastante no tom.
Por fim, grande parte dos registros textuais vem de tabuletas saqueadas ou sem procedência conhecida, especialmente nas últimas décadas. Os estudiosos debatem a ética de publicar esses objetos, que podem ampliar o conhecimento, mas também incentivar o comércio ilegal de antiguidades. A devolução da Tabuleta dos Sonhos em 2021 lembra que o estudo de Gilgamesh está ligado a questões de patrimônio cultural e propriedade.
Ideias principais
- Amizade entre iguais
- Gilgamesh e Enkidu começam como rivais e se tornam companheiros inseparáveis; a perda de Enkidu transforma Gilgamesh.
- Mortalidade
- O problema central do poema: os seres humanos precisam morrer, enquanto só os deuses vivem para sempre. A busca de Gilgamesh por escapar da morte fracassa.
- Fama duradoura
- No início do poema, feitos heroicos e um nome que perdure são a resposta de Gilgamesh à morte; mais tarde, os muros da cidade e a própria história assumem esse papel.
- Civilização e natureza selvagem
- A transformação de Enkidu, de homem selvagem em morador da cidade, explora o que os humanos ganham e perdem com a civilização.
- Sabedoria anterior ao Dilúvio
- A versão padrão apresenta Gilgamesh como aquele que “viu as Profundezas” e trouxe de Utnapishtim conhecimentos antigos.
- Composição circular
- O poema começa e termina com os muros de Uruk, que emolduram a história e apontam para o que os seres humanos podem deixar depois de morrer.
- Deuses imprevisíveis
- Seres divinos como Ishtar e Enlil agem movidos pela raiva ou pela vontade do momento, e os humanos precisam viver dentro de limites que não controlam.
Registros
- c. 2700 a.C. — Um rei de Uruk chamado Gilgamesh pode ter governado por volta dessa época (sem confirmação em inscrições contemporâneas).
- c. 2100 a.C. — Os reis da Terceira Dinastia de Ur homenageiam Gilgamesh; poemas sumérios sobre ele são compostos ou registrados por escrito.
- c. 1800 a.C. — Período paleobabilônico: um poeta que escreve em acádio reúne as histórias numa única epopeia (“Superior a todos os outros reis”).
- c. 1400 a.C. — Idade do Bronze Recente: a história de Gilgamesh é copiada ou traduzida em Hattusa, Emar, Ugarit e Megido.
- c. 1200 a.C. — A versão babilônica padrão (“Aquele que viu as Profundezas”) toma forma; a tradição a atribui a Sîn-lēqi-unninni.
- 668 a.C. — Assurbanípal torna-se rei da Assíria; suas bibliotecas em Nínive preservarão muitas tabuletas de Gilgamesh.
- 612 a.C. — Nínive é destruída; as tabuletas das bibliotecas permanecem soterradas nas ruínas.
- 1849 — Layard começa as escavações em Kuyunjik (Nínive); Rassam encontra o Palácio Norte em 1853.
- 1872 — George Smith anuncia em Londres a descoberta da tabuleta do Dilúvio.
- 2003 — Andrew George publica a edição crítica de referência da epopeia babilônica.
- 2014 — É publicado um fragmento recém-identificado da tabuleta V, pertencente ao Museu de Sulaymaniyah.
- 2021 — A Tabuleta dos Sonhos de Gilgamesh é devolvida pelos Estados Unidos ao Iraque.
Glossário
- Cuneiforme
- Sistema de escrita formado por marcas em forma de cunha, pressionadas na argila, usado no antigo Oriente Próximo de cerca de 3300 a.C. até o século I d.C.
- Acádio
- Língua semítica da antiga Mesopotâmia, com variedades babilônica e assíria; é o idioma da epopeia.
- Sumério
- A língua escrita mais antiga da Mesopotâmia, sem parentesco conhecido com outras línguas; foi usada nos primeiros poemas sobre Gilgamesh.
- Mesopotâmia
- Nome grego que significa “entre os rios”: a região dos rios Tigre e Eufrates, que corresponde principalmente ao atual Iraque e a partes da Síria e da Turquia.
- Período paleobabilônico
- Época de aproximadamente 2000–1600 a.C., que inclui o reinado de Hamurábi e na qual foi composta a primeira epopeia de Gilgamesh.
- Versão babilônica padrão
- Versão posterior da epopeia, em doze tabuletas, copiada no primeiro milênio a.C.
- Tabuleta
- Placa de argila na qual se escrevia em cuneiforme; a epopeia é dividida em “tabuletas”, de modo semelhante aos capítulos de um livro.
- Assiriologia
- Estudo acadêmico da antiga Mesopotâmia, suas línguas, seus textos e suas culturas.
- Colofão
- Nota ao fim de uma tabuleta que informa, por exemplo, seu título, número, escriba ou proprietário.
- Redator
- Editor que revisa e combina textos existentes para produzir uma nova versão.
Perguntas e respostas
Qual é a idade da Epopeia de Gilgamesh?
Os poemas sumérios sobre Gilgamesh datam de cerca de 2100 a.C.; a primeira epopeia unificada em acádio, de aproximadamente 1800–1700 a.C.; e a versão mais conhecida, em doze tabuletas, de cerca de 1200–1000 a.C.
A Epopeia de Gilgamesh é a história mais antiga do mundo?
É uma das obras literárias longas mais antigas que sobreviveram, mas não é o texto escrito mais antigo. Alguns textos literários sumérios, como as Instruções de Shuruppak e os hinos de Enheduana, são anteriores.
Gilgamesh existiu de verdade?
Possivelmente. Ele aparece numa lista de reis de Uruk por volta de 2700 a.C., e muitos historiadores acreditam que a lenda se baseie em um rei real, mas não foi encontrada nenhuma inscrição de sua época que o mencione.
O dilúvio de Gilgamesh é o mesmo de Noé?
As histórias compartilham muitos detalhes. A maioria dos estudiosos acredita que ambas se baseiem numa tradição mesopotâmica mais antiga sobre o dilúvio, que também aparece na Epopeia de Atrahasis e numa narrativa suméria.
Por que a cobra comeu a planta?
Na história, a cobra sente o cheiro da planta e a leva enquanto Gilgamesh toma banho. Depois, troca de pele — uma explicação antiga para a aparência de renovação das cobras, que os humanos não conseguem imitar.
O que Gilgamesh aprende no final?
O poema não diz isso diretamente. Ele termina com Gilgamesh mostrando os muros de Uruk, o que muitos leitores entendem como a aceitação da mortalidade e a valorização das realizações humanas duradouras.
A epopeia inteira foi preservada?
Não. Ela é reconstruída a partir de muitos fragmentos, e algumas partes ainda estão ausentes. Novos trechos continuam a ser identificados.
Qual tradução devo ler?
A tradução de Andrew George publicada pela Penguin (1999) é amplamente respeitada por sua precisão e indica com clareza a versão de que vem cada passagem.
Fontes e leituras adicionais
- Epic of Gilgamesh. Wikipedia
- Gilgamesh. Wikipedia
- Gilgamesh, Enkidu, and the Netherworld. Wikipedia
- Gilgamesh flood myth. Wikipedia
- Library of Ashurbanipal. Wikipedia
- George Smith (Assyriologist). Wikipedia
- Sîn-lēqi-unninni. Wikipedia
- Andrew R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts. Oxford University Press, 2003
- Andrew George, The Epic of Gilgamesh: A New Translation. Penguin Books, 1999
- Jeffrey H. Tigay, The Evolution of the Gilgamesh Epic. University of Pennsylvania Press, 1982
Conteúdo relacionado
- EnheduanaAlta sacerdotisa do deus da Lua em Ur e filha de Sargão da Acádia, frequentemente chamada de primeira autora conhecida pelo nome.
- Instruções de ShuruppakUma das obras literárias mais antigas que sobreviveram: os conselhos de um pai sumério ao filho, preservados em tabuletas de argila.
- Código de HamurabiColetânea de decisões jurídicas promulgadas sob Hamurabi, rei da Babilônia, no século XVIII a.C.
- HomeroPoeta a quem a tradição atribui a Ilíada e a Odisseia, epopeias fundadoras da literatura grega. Discute-se se uma só pessoa compôs as duas obras.
- RigvedaA mais antiga coletânea de hinos em sânscrito védico, transmitida oralmente por séculos antes de ser registrada por escrito.
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.
