Literatura

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis

1839–1908 · Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil e, a partir de 1889, da República

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Em uma frase

Machado de Assis (1839–1908) foi um escritor brasileiro de ascendência africana e portuguesa que cresceu pobre no Rio de Janeiro, formou-se em grande parte como autodidata, tornou-se o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e escreveu romances irônicos e brincalhões, como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, que hoje são lidos no mundo inteiro.

Machado de Assis
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Para jovens leitores

Imagine um livro contado por alguém que já morreu e que narra a própria vida lá do além, fazendo piada o tempo todo. Esse é um dos romances mais famosos do Brasil, e saiu em livro em 1881, escrito por Machado de Assis.

Machado nasceu em 1839 num morro da cidade do Rio de Janeiro. A família era pobre. Os pais do pai dele tinham sido escravizados e depois libertados, e a mãe vinha dos Açores, ilhas portuguesas no meio do oceano Atlântico. Ele quase não frequentou a escola, mas adorava livros e estudou por conta própria.

Ainda adolescente, trabalhou numa tipografia, juntando letrinhas de metal em fileiras para imprimir páginas. Depois escreveu para jornais e trabalhou mais de trinta anos para o governo. Escreveu poemas, peças de teatro, contos, crônicas de jornal e nove romances.

Num dos romances, Dom Casmurro, um marido ciumento conta a história do seu casamento. Ele tem certeza de que a esposa, Capitu, o traiu, mas nunca apresenta uma prova de verdade. Até hoje os leitores discutem: ela traiu ou o narrador está enganando a si mesmo, e a nós também?

Machado viveu numa época em que o Brasil ainda tinha escravidão, que só acabou em 1888. Ele era um homem de pele parda, e muito tempo depois várias fotos e histórias o fizeram parecer branco. Hoje muita gente se esforça para lembrar dele como ele realmente era.

Em resumo

Vida
21 de junho de 1839 – 29 de setembro de 1908, Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil e, a partir de 1889, da República
Origem
Nascido no Morro do Livramento; o pai, pintor de paredes, era filho de ex-escravizados alforriados; a mãe, lavadeira, era açoriana
Identidade
De ascendência africana e portuguesa, descrito como pardo; ainda assim, a certidão de óbito o registrou como “branco”
Ofícios
Aprendiz de tipógrafo, revisor, jornalista e crítico; no serviço público desde 1867 e, a partir de 1873, no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e nas pastas que o sucederam
Obras mais conhecidas
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904); contos “O Alienista”, “Missa do Galo”, “Pai contra Mãe”
Instituição
Presidente fundador da Academia Brasileira de Letras, instalada em 1897, até a morte
Língua
Português (do Brasil)
Marcas
Narradores não confiáveis, ironia, digressões e conversas diretas com o leitor

Fácil

Quem foi Machado de Assis?

Joaquim Maria Machado de Assis foi um escritor carioca considerado por muitos o maior nome da literatura brasileira. Praticou quase todas as formas que um autor do século XIX tinha à mão: poesia, teatro, crítica teatral e literária, tradução, centenas de contos, centenas de crônicas de jornal e nove romances.

Sua trajetória é fora do comum. Nascido numa família pobre, de ascendência africana e portuguesa, quando a escravidão ainda era legal, estudou muito pouco e começou a trabalhar menino, no ofício tipográfico. No fim da vida era alto funcionário público e presidente fundador da Academia Brasileira de Letras.

Ficou famoso sobretudo pelos romances escritos a partir de 1880, cujos narradores conversam com o leitor, fazem graça, se interrompem e nem sempre merecem confiança. Por trás do humor há um retrato afiado das famílias ricas do Rio de Janeiro, acomodadas numa sociedade sustentada pela escravidão e pelo favor.

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Fácil

Um menino do Morro do Livramento

Machado nasceu em 21 de junho de 1839 no Morro do Livramento, perto do porto do Rio de Janeiro, na chácara de uma viúva rica, Maria José de Mendonça Barroso Pereira, que se tornou sua madrinha. Passou ali os primeiros anos da infância.

O pai, Francisco José de Assis, era pintor e dourador, filho de pais que haviam sido escravizados e depois alforriados. A mãe, Maria Leopoldina Machado da Câmara, era uma lavadeira vinda dos Açores. Ainda criança, Machado perdeu a irmã mais nova e depois a mãe; o pai voltou a se casar mais tarde.

Teve pouca instrução formal. Os biógrafos o descrevem como um leitor obstinado e em grande parte autodidata, e contam que teve aulas informais de latim e francês, embora os detalhes dessas histórias sejam incertos. Aos quinze anos publicou os primeiros poemas. Em 1856, com cerca de dezessete, entrou como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e passou a frequentar a livraria e tipografia de Francisco de Paula Brito, ponto de encontro de escritores.

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Fácil

Histórias que brincam com o leitor

O romance mais famoso de Machado, Memórias Póstumas de Brás Cubas, começa com uma piada: o narrador avisa que não é propriamente um autor defunto, mas um defunto autor. Como já não precisa agradar a ninguém, garante que vai contar toda a verdade sobre sua vida egoísta e confortável.

Dom Casmurro é narrado por Bento Santiago, um homem maduro que relembra o amor de infância por Capitu, a menina da casa vizinha, e o casamento dos dois. À medida que conta, ele vai se convencendo de que o filho é a cara do seu melhor amigo, Escobar. Mas tudo o que temos é a palavra de Bento. O livro ficou famoso justamente porque deixa ao leitor decidir se Capitu o traiu ou se o ciúme dele inventou a traição.

Os contos não ficam atrás: podem ser lidos uma vez por diversão e relidos pelas perguntas que fazem sobre poder, dinheiro e verdade.

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Intermediário

Tipógrafo, jornalista, funcionário público

Da tipografia, Machado passou ao jornalismo. Em 1858 trabalhava como revisor no Correio Mercantil e, em 1860, entrou para a redação do Diário do Rio de Janeiro, onde escreveu reportagens, crítica teatral e crônicas. Nos anos 1860 publicou também poesia (Crisálidas, 1864) e peças de teatro, e traduziu Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo (1866).

A literatura não dava para viver, e, como tantos escritores brasileiros da época, ele encontrou estabilidade no serviço público. Depois de um primeiro cargo em 1867, como auxiliar do diretor do Diário Oficial, foi nomeado em 1873 para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Permaneceu em cargos ministeriais, no Império e depois na República, por mais de trinta anos, chegando a postos de direção.

Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa, irmã do amigo e poeta Faustino Xavier de Novais. O casal não teve filhos, e o casamento durou trinta e cinco anos; os contemporâneos descreviam o casal como muito unido. Carolina morreu em 20 de outubro de 1904; abalado, Machado viveu mais quatro anos.

Biógrafos e estudiosos da área médica concordam que Machado tinha epilepsia, que se agravou na velhice; há também relatos de que era gago e tímido. Uma doença séria no fim da década de 1870 o obrigou a um longo repouso, e muitos críticos associam a essa crise a virada que veio em seguida na sua obra, embora essa ligação continue sendo uma interpretação.

Em 1896–97, um grupo de escritores liderado por Lúcio de Mendonça fundou a Academia Brasileira de Letras. Machado foi escolhido presidente em janeiro de 1897 e presidiu a sessão solene de instalação em 20 de julho de 1897. Comandou a casa até morrer, comparecendo a quase todas as sessões e usando de tato para manter juntos monarquistas e republicanos, românticos e naturalistas.

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Intermediário

Dos romances românticos ao Machado “maduro”

A crítica costuma dividir os romances de Machado em dois grupos. Os quatro primeiros, Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), são em geral chamados de fase romântica: tramas amorosas, heranças e moças negociando o casamento, mas já com um olhar agudo para a ambição social e a dependência dos protetores.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em folhetim na Revista Brasileira em 1880 e em livro em 1881, marca uma ruptura nítida. Seus 160 capítulos curtos saltam de assunto em assunto; um deles é um “diálogo” entre dois amantes feito só de reticências e sinais de pontuação; o narrador zomba do leitor e de si mesmo. O livro termina com um balanço amargo que ficou famoso: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Quincas Borba, publicado em folhetim na revista A Estação a partir de 1886 e em livro em 1891, acompanha Rubião, professor do interior que herda a fortuna do excêntrico filósofo Quincas Borba e acaba arruinado pela sociedade carioca. A filosofia de araque de Quincas Borba, o Humanitismo, resume sua lógica cruel no lema “Ao vencedor, as batatas!”, paródia do darwinismo social e do positivismo em voga.

Dom Casmurro (1899) está entre os romances brasileiros mais lidos e é a origem do debate sem fim sobre Capitu. Esaú e Jacó (1904) conta a história de dois gêmeos, um monarquista e outro republicano, que brigam durante toda a queda da monarquia; o relato chega até nós pelos cadernos do diplomata aposentado Conselheiro Aires, que volta como autor do diário no último romance de Machado, Memorial de Aires (1908).

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Intermediário

Contos e crônicas

Machado escreveu mais de duzentos contos, a maioria publicada primeiro em jornais e revistas e reunida depois em livros como Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899) e Relíquias de Casa Velha (1906). A crítica costuma dizer que, com ele, o conto brasileiro ganhou possibilidades novas.

“O Alienista” (em folhetim, 1881–82) é uma sátira da autoridade científica: a Casa Verde, o hospício do Dr. Simão Bacamarte, vai engolindo quase toda a vila de Itaguaí, até que ele conclui que o único verdadeiramente anormal é ele próprio. “Missa do Galo” (1894) quase não tem enredo: um homem recorda a conversa que teve, aos dezessete anos, com uma senhora de trinta numa noite de Natal, e até hoje não sabe dizer o que ela significou.

“Pai contra Mãe”, de Relíquias de Casa Velha (1906), é um dos textos em que ele trata a escravidão de forma mais direta. Começa lembrando que a escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como a máscara de folha de flandres imposta a alguns escravizados, e segue Cândido Neves, um pobre caçador de escravos fugidos que, a caminho de deixar o filho recém-nascido na Roda dos Enjeitados, captura pela recompensa uma fugitiva grávida, Arminda. Ela aborta; ele fica com o filho. O conto termina com uma frase de ironia gelada: “Nem todas as crianças vingam.”

Machado foi também um mestre da crônica, o texto curto de jornal que mistura comentário, anedota e ficção. As séries “Bons Dias!” (1888–89) e “A Semana” (1892–97, coluna dominical), ambas na Gazeta de Notícias, comentaram a Abolição, a República, a especulação financeira e a vida da cidade. Na crônica de 19 de maio de 1888, seis dias depois da Abolição, um narrador se gaba de ter libertado o escravo Pancrácio antes da lei, para em seguida contratá-lo por um ordenado miserável e continuar a agredi-lo: uma sátira da autocomplacência dos antigos senhores.

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Intermediário

Narradores não confiáveis, ironia e o leitor

Os narradores de Machado são exemplos célebres de narração não confiável. Brás Cubas e Bento Santiago contam a própria história em primeira pessoa, e o que revelam de si muitas vezes não é o que pretendiam. O leitor é convidado a perceber lacunas, contradições e desculpas em causa própria, e a leitura vira uma espécie de trabalho de detetive.

Um recurso central é a conversa direta. Os narradores falam o tempo todo com o “leitor”: lisonjeiam ou provocam, antecipam objeções, mandam pular capítulos ou voltar atrás. O prólogo “Ao leitor” de Brás Cubas termina prometendo que, se o livro não agradar, o leitor será pago “com um piparote, e adeus”. A brincadeira esconde algo sério: mostra com que facilidade aceitamos uma voz sedutora.

Machado declarou abertamente seus modelos. Na primeira edição de Brás Cubas, o narrador diz ter adotado “a forma livre de um Sterne, de um Lamb, ou de um de Maistre”, referência ao Tristram Shandy de Laurence Sterne, a Charles Lamb e à Viagem à Roda do Meu Quarto de Xavier de Maistre; as edições seguintes mantêm só Sterne e de Maistre. Um prólogo posterior acrescenta o português Almeida Garrett: “Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros.” Estudiosos como Sergio Paulo Rouanet acompanham essa forma “shandiana”, com digressões, tempo fragmentado e mistura de riso e melancolia, ao longo da obra machadiana.

Brás Cubas diz ter escrito o livro “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Esse tom duplo, de aparência leve mas atravessado por uma melancolia funda, é a melhor definição curta do estilo do Machado maduro.

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Intermediário

Escravidão, raça e “embranquecimento”

Machado passou a maior parte da vida numa sociedade escravista: a escravidão no Brasil só acabou em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea, quando ele estava perto dos quarenta e nove anos. Como funcionário público, nas décadas de 1870 e 1880, chefiou uma seção do Ministério da Agricultura encarregada de aplicar a Lei do Ventre Livre, de 1871, que declarava livres os filhos de mulheres escravizadas. O historiador Sidney Chalhoub mostrou, com base em documentos de arquivo, que Machado procurava nesse cargo interpretações jurídicas favoráveis aos escravizados que buscavam a liberdade.

Na ficção, a escravidão aparece menos em discursos do que no pano de fundo do cotidiano e em momentos de uma naturalidade chocante. Em Brás Cubas, o narrador lembra que, menino, montava o moleque Prudêncio como se fosse um cavalo; anos depois, vê Prudêncio, alforriado pelo pai de Brás, chicoteando um escravo que ele próprio comprou e gritando as mesmas palavras que Brás um dia gritara para ele. Brás comenta, com uma frieza arrepiante, que aquele era o modo de Prudêncio se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro.

Machado quase nunca escreveu publicamente sobre a própria cor, e a forma de descrevê-lo mudava conforme quem descrevia. O amigo e crítico José Veríssimo o chamou de “mulato” num artigo necrológico; o diplomata Joaquim Nabuco escreveu a Veríssimo que não o teria chamado assim, disse que a palavra era pejorativa e pediu que fosse retirada. A certidão de óbito o registrou como branco, e muitas das fotografias mais conhecidas mostram um rosto que, segundo críticos posteriores, foi clareado pela iluminação e pela reprodução.

Essa história de “embranquecimento” virou assunto público no século XXI. Em setembro de 2011, a Caixa Econômica Federal tirou do ar um comercial dos seus 150 anos em que um ator branco interpretava Machado, depois de reclamações da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do público; o banco pediu desculpas por não ter caracterizado o escritor como afrodescendente. Em 2019, a Faculdade Zumbi dos Palmares, instituição paulistana voltada a estudantes negros, lançou a campanha “Machado de Assis Real”, que coloriu uma fotografia de 1893 para mostrar os traços africanos do escritor e pediu às editoras que passassem a usá-la.

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Intermediário

Enquanto isso no mundo

As últimas grandes abolições. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. O Império Russo libertara os servos de propriedade privada por decreto imperial em 1861, e os Estados Unidos, depois da Proclamação de Emancipação de 1863, aboliram a escravidão com a Décima Terceira Emenda, em 1865. O Brasil avançou mais devagar, por medidas graduais como a Lei do Ventre Livre de 1871, até que a Lei Áurea, com apenas dois artigos, libertou em 1888 cerca de 700 mil pessoas, sem nenhuma medida que lhes garantisse terra, trabalho ou lugar na sociedade. As crônicas de maio de 1888 são uma reação de Machado ao momento, e a sátira ao senhor “generoso” de Pancrácio aponta para o problema que muitos historiadores destacam: liberdade no papel, sem terra, sem trabalho e sem proteção efetiva.

Do Império à República. Dezoito meses depois, em 15 de novembro de 1889, tropas comandadas pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubaram a monarquia no Rio de Janeiro, e o imperador Pedro II partiu para o exílio na Europa dois dias mais tarde. Machado, funcionário condecorado pelo imperador, manteve o cargo no novo regime. Tratou a mudança com ironia, não com manifestos: Esaú e Jacó, ambientado na queda da monarquia, é frequentemente lido como uma sugestão de que a barulhenta oposição política dos gêmeos esconde semelhanças mais profundas.

O realismo dos dois lados do Atlântico. Em 16 de abril de 1878, sob o pseudônimo “Eleazar”, Machado publicou no jornal carioca O Cruzeiro uma crítica severa intitulada “Literatura realista”, sobre O Primo Basílio, romance do português Eça de Queirós; um segundo artigo saiu no fim do mesmo mês. Atacou o enredo pouco convincente e a ênfase na sensualidade, julgou a heroína, Luísa, inferior à Emma Bovary de Flaubert e advertiu que livros assim podiam estrangular “no berço” o realismo em língua portuguesa. É uma ligação real e documentada: Machado se mediu com o realismo e o naturalismo vindos da França e de Portugal, e seu texto acendeu uma polêmica animada na imprensa. Três anos depois, Brás Cubas apresentou a sua alternativa, um romance construído sobre a mente de um narrador, e não sobre inventários minuciosos do mundo.

Dois mundos literários latino-americanos. Em 1888, o ano da Abolição no Brasil, o poeta nicaraguense Rubén Darío publicou Azul... em Valparaíso, no Chile, ajudando a inaugurar o modernismo hispano-americano. As duas literaturas cresceram em grande parte separadas: em 1990, Susan Sontag observou que Machado era pouco lido na América Latina de língua espanhola e que Borges parece nunca tê-lo lido, embora leitores posteriores comparem com frequência o jeito dos dois de brincar com a ficção.

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Avançado

Perspectivas diferentes

Capitu traiu Bentinho? Por cerca de sessenta anos depois de 1899, a crítica brasileira e estrangeira aceitou em geral a versão de Bento Santiago: Capitu era culpada. Em 1960, a estudiosa e tradutora norte-americana Helen Caldwell, que em 1953 publicara a primeira tradução de Dom Casmurro para o inglês, defendeu em The Brazilian Othello of Machado de Assis que Bento é um narrador não confiável, cujo ciúme espelha o de Otelo, que suas provas são frágeis e que Capitu é inocente. Cartas estudadas por Hélio de Seixas Guimarães mostram que Caldwell e seu editor, Cecil Hemley, já discutiam essa leitura em 1952. Nem todos os críticos posteriores aceitaram esse veredito de inocência; alguns continuaram defendendo a culpa, e muitos passaram a enfatizar a indecidibilidade: o romance é construído de modo que a questão não pode ser resolvida pelo depoimento de Bento, e muitos leitores hoje veem na própria pergunta o centro do livro.

Ausente ou cifrado? Pouco depois da morte de Machado, Hemetério José dos Santos o acusou na Gazeta de Notícias (novembro de 1908) de ter renegado suas origens e de ter se mantido alheio ao problema da escravidão, e a imagem de um escritor “ausente” das grandes questões nacionais durou muito tempo. Críticos como Mário Casassanta, nos anos 1930, e R. Magalhães Júnior, nos anos 1950, rebateram esse retrato com base em escritos esquecidos. Mais recentemente, Sidney Chalhoub (Machado de Assis, historiador, 2003) leu a ficção ao lado da atuação do funcionário público, e Eduardo de Assis Duarte, na antologia Machado de Assis afrodescendente (2007), reuniu contos, poemas e crônicas para defender uma deliberada “poética da dissimulação”: uma crítica irônica e oblíqua à sociedade branca e escravocrata. Duarte chega a ler politicamente a morte de Brás Cubas: “Machado mata o senhor de escravos oito anos antes da abolição”. Outros críticos preferem cautela, lembrando que Machado raramente falou da própria negritude e que rótulos como “escritor negro” ou “escritor mulato” refletem tanto as categorias de hoje quanto a maneira como ele mesmo se via.

Qual é o lugar dele no cânone? Na revista The New Yorker, em 1990, Susan Sontag chamou Machado de “o maior autor já produzido na América Latina”, com Borges em segundo lugar. Harold Bloom, em Gênio (2002), o chamou de “o supremo artista literário negro até hoje”. Esses elogios trouxeram novos leitores, mas também foram criticados: o crítico Ilan Stavans chamou o ranking de Sontag de “bombástico”, lembrando que literatura não é competição, e disse que Bloom deturpou Machado, cuja obra mal reconhecia a própria negritude. No Brasil, uma interpretação moderna especialmente influente é a de Roberto Schwarz: em Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990; edição em inglês de 2001), ele argumenta que a “volubilidade” caprichosa do narrador reproduz, como forma literária, o comportamento de uma classe dominante brasileira que combinava ideias liberais europeias com escravidão e favor. Nessa visão, Machado não é um escritor de feitio europeu que por acaso vivia no Brasil, mas um escritor cuja forma nasce da sociedade brasileira.

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Avançado

Recepção, tradução e evidências

No Brasil, Machado foi célebre em vida e nunca saiu do centro do cânone. No exterior, por muito tempo foi um escritor para escritores. A tradução de Brás Cubas feita por William L. Grossman saiu em 1952 com o título Epitaph of a Small Winner, e Helen Caldwell traduziu Dom Casmurro em 1953 e, mais tarde, outros romances. Em 2018, Margaret Jull Costa e Robin Patterson verteram para o inglês as sete coletâneas de contos publicadas em vida, em The Collected Stories of Machado de Assis.

Em 2020 saíram duas novas traduções de Brás Cubas para o inglês. A edição da Penguin Classics, traduzida e anotada por Flora Thomson-DeVeaux, com prefácio de Dave Eggers, foi lançada nos Estados Unidos em 2 de junho de 2020 e esgotou o estoque impresso na Amazon e na Barnes & Noble em cerca de um dia, em meio aos protestos que se seguiram ao assassinato de George Floyd. A imprensa brasileira repercutiu amplamente o episódio; a própria Thomson-DeVeaux sugeriu que o prefácio de Eggers e o interesse por autores não brancos podem ter ajudado, mas frisou que as razões eram incertas.

O que de fato sabemos sobre a vida de Machado? As evidências vêm sobretudo dos textos que publicou, dos jornais, dos arquivos do serviço público e de um conjunto limitado de cartas; ele escreveu muito pouco sobre a vida íntima, a doença ou as origens. Algumas biografias antigas minimizaram a ascendência africana, e os próprios registros divergem: uma certidão de óbito que diz “branco”, o necrológio de um amigo que diz “mulato”, fotografias cuja aparência depende da luz e da impressão. Um relato cuidadoso põe essas fontes lado a lado, em vez de eleger uma delas como a verdade simples.

As datas também variam um pouco de fonte para fonte: Dom Casmurro traz 1899 na folha de rosto, embora os exemplares tenham chegado aos leitores no início de 1900; Brás Cubas e Quincas Borba saíram antes em folhetim; e “Missa do Galo” às vezes aparece datado de 1893, e não de 1894, ano da primeira publicação em periódico (o conto entrou em livro em 1899). Salvo indicação em contrário, os anos dos romances referem-se à primeira edição em livro, e os dos contos, à primeira publicação.

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Ideias principais

Narrador não confiável
Narrador em cujo relato o leitor não pode confiar por completo. Os narradores em primeira pessoa de Machado, sobretudo Brás Cubas e Bento Santiago, revelam mais do que pretendem, e é preciso ler a contrapelo.
Ironia e a “pena da galhofa”
Machado mistura humor e melancolia. Suas piadas expõem a vaidade, o interesse e a crueldade, especialmente da elite acomodada do Rio, sem pregação.
Conversa com o leitor
Os narradores falam com o leitor, o provocam e antecipam suas reações, transformando a leitura num jogo e mostrando como funciona a persuasão.
A “forma livre”
Capítulos curtos, digressões e cronologia quebrada, herdados de Sterne, Xavier de Maistre e Garrett e adaptados por Machado ao cenário brasileiro.
Humanitismo
A filosofia de araque de Quincas Borba, que justifica a vitória do forte sobre o fraco; paródia do darwinismo social e do positivismo.
A escravidão no pano de fundo
A escravidão aparece menos em discursos do que em cenas do cotidiano e na violência banalizada, e de modo direto em textos como “Pai contra Mãe” e nas crônicas de 1888.
Ambiguidade
Questões centrais, como a culpa de Capitu ou o sentido daquela noite em “Missa do Galo”, ficam em aberto de propósito.

Registros

  1. 1839 — Nasce em 21 de junho, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro.
  2. 1856 — Torna-se aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional.
  3. 1869 — Casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais em 12 de novembro.
  4. 1873 — É nomeado para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas (entrara no serviço público em 1867); ficará em cargos ministeriais por mais de trinta anos.
  5. 1881 — Memórias Póstumas de Brás Cubas sai em livro, depois do folhetim de 1880.
  6. 1888 — A Lei Áurea abole a escravidão em 13 de maio; as crônicas de “Bons Dias!” satirizam as reações.
  7. 1897 — Preside a sessão solene de instalação da Academia Brasileira de Letras em 20 de julho, depois de eleito presidente em janeiro.
  8. 1899 — Saem Dom Casmurro (data da folha de rosto) e Páginas Recolhidas, com “Missa do Galo”.
  9. 1904 — Sai Esaú e Jacó; Carolina morre em 20 de outubro.
  10. 1908 — Sai Memorial de Aires; Machado morre em casa, no Cosme Velho, em 29 de setembro.
  11. 1960 — The Brazilian Othello of Machado de Assis, de Helen Caldwell, reabre a questão da culpa de Capitu.
  12. 2020 — Novas traduções de Brás Cubas para o inglês; a edição da Penguin Classics esgota nos EUA em cerca de um dia.

Glossário

Pardo
Termo brasileiro, usado em censos e registros, para pessoas de ascendência mista; é como Machado costuma ser descrito.
Crônica
Texto curto de jornal, muito característico do Brasil, que mistura comentário, anedota e ficção sobre os acontecimentos do momento.
Folhetim
Romance publicado em partes num jornal ou revista antes de sair em livro.
Lei Áurea
A lei de 13 de maio de 1888 que aboliu a escravidão no Brasil, em dois artigos curtos.
Lei do Ventre Livre
A lei de 28 de setembro de 1871 que declarou livres, com condições, os filhos de mulheres escravizadas nascidos dali em diante.
Academia Brasileira de Letras
Instituição fundada no Rio de Janeiro em 1896–97, nos moldes da Académie française, com quarenta membros.
Narrador não confiável
Narrador cuja versão dos fatos pode ser parcial, equivocada ou deliberadamente enganosa.
Embranquecimento
Processo social e visual pelo qual pessoas de ascendência africana foram apresentadas como brancas ou de pele mais clara em registros, imagens e na memória.
Forma shandiana
Modo digressivo e brincalhão de escrever romances, batizado a partir do Tristram Shandy, de Sterne.

Perguntas e respostas

Por que um livro narrado por um morto é tão famoso?

Porque Brás Cubas usa a morte como desculpa para ser chocantemente sincero, e engraçado, sobre a própria vaidade e a sociedade à sua volta. O truque também permite a Machado brincar com o tempo e com o leitor de um jeito que pareceu muito moderno a escritores posteriores.

Capitu traiu Bentinho?

Ninguém consegue provar nem uma coisa nem outra. Quem conta tudo é Bento, o marido ciumento, e as provas que ele oferece são observações ambíguas, como a semelhança do menino com o amigo Escobar e o modo como Capitu olhou o cadáver de Escobar no velório. Desde o estudo de Helen Caldwell, de 1960, muitos leitores acham que o romance foi construído para que a pergunta não tenha resposta.

Machado de Assis era negro?

Ele tinha ascendência africana e portuguesa: os avós paternos haviam sido escravizados e alforriados, e a mãe era açoriana. Pelos termos brasileiros, era pardo. Registros e imagens o fizeram parecer branco, e hoje ele é amplamente reconhecido como escritor afro-brasileiro, embora os estudiosos usem rótulos diferentes.

Machado era contra a escravidão?

Ele não fez discursos abolicionistas em público, e alguns contemporâneos o criticaram por isso. Mas suas crônicas e contos satirizam os senhores de escravos, e pesquisas em arquivo mostram que, como funcionário público, ele buscava interpretações da lei que ajudassem os escravizados a conquistar a liberdade.

Quem influenciou o estilo dele?

Ele citou Laurence Sterne, Xavier de Maistre e Almeida Garrett (e, na primeira edição de Brás Cubas, Charles Lamb). A crítica também aponta suas leituras amplas de literatura clássica, portuguesa, francesa e inglesa.

Por que ele é menos conhecido no exterior do que romancistas europeus da mesma época?

Escreveu em português, língua que poucos leitores estrangeiros dominam, e as boas traduções chegaram tarde. Susan Sontag defendeu que a condescendência com o Brasil e a América Latina também pesou, uma opinião que outros contestam.

Por qual livro começar?

Muitos leitores começam por Dom Casmurro ou por contos como “Missa do Galo” e “O Alienista”, e depois passam a Brás Cubas.

Fontes e leituras adicionais

  1. Machado de Assis – Biografia. Academia Brasileira de Letras
  2. A liderança de Machado de Assis. Academia Brasileira de Letras
  3. Cronologia da vida de Machado de Assis. Agência Senado, 2008
  4. Joaquim Maria Machado de Assis. Encyclopedia.com (Encyclopedia of World Biography)
  5. Machado de Assis. Wikipedia
  6. Robin Patterson and Margaret Jull Costa, On Joaquim Maria Machado de Assis’s Rise to the Top of Brazilian Literature. Literary Hub, 2020
  7. Machado de Assis. Brasiliana, Brown University Library
  8. Memorias Posthumas de Braz Cubas (Typographia Nacional, 1881). Wikisource
  9. Dom Casmurro. Wikipedia
  10. Esau and Jacob (novel). Wikipedia
  11. Missa do galo (text and publication record). MachadodeAssis.net
  12. Pai contra mãe (text). MachadodeAssis.net
  13. Marta Passos Pinheiro, Machado de Assis cronista: “Bons Dias!” no avesso da República. Revista de Letras (UNESP) 52, no. 2, 2012 (publicado em 2014)
  14. Forma livre (Machado Hiperlivro). PUC-SP
  15. Sergio Paulo Rouanet, Tempo e espaço na forma shandiana: Sterne e Machado de Assis. Estudos Avançados (USP), 2004
  16. Sidney Chalhoub, Machado de Assis, historiador. Companhia das Letras, 2003
  17. Marisa Lajolo, Review of Eduardo de Assis Duarte, Machado de Assis afro-descendente. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, no. 31, 2008
  18. Ivan Maciel de Andrade, O mulato Machado de Assis. Tribuna do Norte, 2011
  19. Machado de Assis e o embranquecimento da história. Fundação Perseu Abramo, 2024
  20. Debate acerca da negritude de Machado de Assis segue em pauta. O Tempo, 2019
  21. Depois de reclamações, Caixa tira do ar propaganda que retrata Machado de Assis como branco. Agência Brasil (EBC), 2011
  22. Machado de Assis Real. Universidade Zumbi dos Palmares
  23. 137 anos depois da Lei Áurea, continua a luta da população negra por direitos no país. Rádio Senado, 2025
  24. 13th Amendment to the U.S. Constitution: Abolition of Slavery (1865). U.S. National Archives
  25. Emancipation reform of 1861. Wikipedia
  26. 15 de novembro de 1889 – A Proclamação da República no Brasil. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
  27. Paulo Franchetti, O Primo Basílio e a batalha do Realismo no Brasil. Convergência Lusíada (Real Gabinete Português de Leitura)
  28. Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, A crítica literária em Machado de Assis. Consultor Jurídico, 2022
  29. Cousin Bazilio. Wikipedia
  30. Azul de Rubén Darío. Memoria Chilena, Biblioteca Nacional de Chile
  31. Carlos Haag, The dilemmas of the Moor of Matacavalos. Revista Pesquisa FAPESP, 2012
  32. Hélio de Seixas Guimarães, Helen Caldwell, Cecil Hemley e os julgamentos de Dom Casmurro. Machado de Assis em Linha, 2019
  33. Helen Caldwell, The Brazilian Othello of Machado de Assis: A Study of Dom Casmurro. University of California Press, 1960
  34. Susan Sontag, Afterlives: The Case of Machado de Assis. The New Yorker, 1990
  35. Morten Høi Jensen, Mirth and Melancholy: The Collected Stories of Machado de Assis. Los Angeles Review of Books
  36. Ilan Stavans, Wrestling with Machado. The Yale Review
  37. Roberto Schwarz, trans. John Gledson, A Master on the Periphery of Capitalism: Machado de Assis. Duke University Press, 2001
  38. Livro de Machado de Assis em inglês esgota em um dia nos EUA. Exame, 2020
  39. Nova tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas tem edição esgotada nos EUA. CNN Brasil, 2020

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Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.

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