Comece pelo início para uma introdução simples. Continue descendo para mais detalhes e pesquisas.
- Fácil
- Intermediário
- Avançado
Para jovens leitores
Há cerca de 700 anos, um pequeno Estado turco na região onde hoje fica a Turquia começou a crescer. Ele recebeu o nome de seu primeiro governante, Osman, e ficou conhecido como Estado Otomano. Seus governantes eram chamados de sultões.
Na década de 1350, soldados otomanos atravessaram uma estreita faixa de mar e chegaram à Europa. Nos duzentos anos seguintes, venceram muitas batalhas e conquistaram terras que hoje fazem parte da Grécia, Bulgária, Sérvia, Bósnia, Albânia e de grande parte da Hungria. Em 1453, tomaram a cidade de Constantinopla, que havia sido a capital do Império Bizantino por mais de mil anos, e passaram a chamá-la de Istambul.
Os otomanos tinham um exército forte e bem organizado, com soldados de infantaria chamados janízaros e grandes canhões. Alguns janízaros eram meninos cristãos levados de suas famílias quando crianças, o que causava muito sofrimento.
Os otomanos tentaram conquistar Viena, uma grande cidade da Áustria, duas vezes: em 1529 e 1683. Não conseguiram em nenhuma delas. Depois da segunda tentativa, exércitos da Áustria, da Polônia e de outros lugares os fizeram recuar, e eles perderam a Hungria.
As guerras foram duras para as pessoas comuns: aldeias foram incendiadas, pessoas foram capturadas e vendidas, e muitas famílias fugiram. O Império Otomano também governou os Bálcãs por séculos, e muçulmanos, cristãos e judeus viveram sob o mesmo sultão. Hoje, pessoas da Turquia, Grécia, Sérvia, Hungria, Áustria e Polônia se lembram dessas guerras de maneiras muito diferentes.
Em resumo
- Período
- Da ocupação otomana de Galípoli (1354) ao Tratado de Karlowitz (1699); os conflitos continuaram nos Bálcãs até o início do século XX
- Local
- Bálcãs, Hungria, Europa Central, Mediterrâneo e região do Mar Negro
- Beligerantes
- Império Otomano (com vassalos como o Canato da Crimeia) contra o Império Bizantino, a Sérvia, a Bulgária, a Hungria, a monarquia dos Habsburgos, Veneza, a Polônia-Lituânia, a Rússia, o Papado e outros
- Batalhas principais
- Kosovo (1389), Nicópolis (1396), Varna (1444), Constantinopla (1453), Mohács (1526), Viena (1529), Lepanto (1571), Viena (1683)
- Figuras principais
- Murade I, Bajazeto I, Maomé II, Solimão, o Magnífico; João Hunyadi, Skanderbeg, Carlos V, João III Sobieski
- Resultado
- Domínio otomano sobre os Bálcãs por quatro a cinco séculos; após 1683, recuo gradual, a começar pela perda da Hungria em 1699
- Fontes principais
- Crônicas e registros fiscais otomanos, histórias bizantinas, relatos venezianos, correspondência diplomática dos Habsburgos e memórias de pessoas capturadas
Fácil
O que foram as guerras otomanas na Europa?
“Guerras otomanas na Europa” é o nome coletivo das muitas guerras travadas pelo Império Otomano contra Estados europeus. Não se tratou de uma única guerra, mas de dezenas de campanhas ao longo de mais de três séculos, com longos períodos de paz entre elas. Em linhas gerais, houve duas fases: a de expansão, da década de 1350 à de 1560, quando os otomanos conquistaram os Bálcãs e a maior parte da Hungria; e a de impasse seguida de recuo, a partir do fim do século XVI, que se acelerou após o fracasso do cerco de Viena em 1683.
O Estado Otomano surgiu por volta de 1300 como um pequeno principado no noroeste da Anatólia, batizado em homenagem a seu fundador, Osman. Era um dos vários principados turcos muçulmanos que surgiram com o enfraquecimento dos Estados seljúcida e bizantino. Em 150 anos, tornou-se um império que se estendia pela Ásia e pela Europa e, no século XVI, era um dos Estados mais poderosos do mundo.
Para os europeus, sobretudo nos Bálcãs e na Europa Central, o avanço otomano foi uma experiência marcante do fim da Idade Média e do início da Idade Moderna. Para os otomanos, as guerras na Europa faziam parte de um projeto imperial mais amplo, que também incluía guerras contra o Irã safávida, os mamelucos do Egito e Estados do Mediterrâneo.
Fácil
Contexto e causas
Em meados do século XIV, os Bálcãs estavam politicamente fragmentados. O Império Bizantino, antes uma grande potência, havia encolhido até restarem alguns territórios em torno de Constantinopla e era abalado por guerras civis. O império sérvio de Estêvão Dušan se desfez após sua morte, em 1355, e a Bulgária estava dividida. Pretendentes rivais ao trono bizantino chegaram a contratar tropas otomanas, dando aos otomanos experiência na Europa. Em 1354, depois que um terremoto danificou suas muralhas, os otomanos ocuparam a fortaleza de Galípoli, na margem europeia dos Dardanelos.
Por que os otomanos continuaram a se expandir? Os historiadores apontam várias razões. Os governantes otomanos obtinham prestígio com o ideal islâmico da ghaza (guerra contra não muçulmanos), mas também construíam seu Estado de modo pragmático e buscavam terras, receitas e soldados leais. As terras conquistadas eram divididas em timars, concessões de receitas que sustentavam cavaleiros; assim, a expansão recompensava a classe militar. Rotas comerciais ricas, minas de prata na Sérvia e na Bósnia e o prestígio da própria Constantinopla eram outros atrativos.
A resistência europeia era enfraquecida pelas rivalidades. Católicos e cristãos ortodoxos desconfiavam uns dos outros, especialmente depois que a Quarta Cruzada saqueou Constantinopla em 1204. Veneza e Gênova competiam pelo comércio e às vezes faziam acordos com os otomanos. Mais tarde, a França se aliou aos otomanos contra os Habsburgos, e a Reforma Protestante aprofundou as divisões na Europa cristã.
Fácil
Quem lutou?
O exército otomano reunia a cavalaria provincial (sipahis sustentados por timars) e um exército permanente remunerado na corte do sultão. A parte mais famosa desse exército permanente era a infantaria dos janízaros, recrutada por meio do devshirme: um recrutamento de meninos cristãos de aldeias balcânicas, que eram convertidos ao islamismo e treinados como soldados ou administradores. Os otomanos também usaram a artilharia de pólvora e as armas de fogo desde cedo e com eficácia. Eram hábeis na logística e construíam estradas, pontes e depósitos de suprimentos. Cavaleiros ligeiros de incursão (akıncıs) e, mais tarde, os tártaros do Canato da Crimeia realizavam ataques em áreas distantes do território inimigo.
Seus adversários mudaram com o tempo. No século XIV, eram o Império Bizantino, a Sérvia, a Bulgária e senhores locais dos Bálcãs. No século XV, o Reino da Hungria, com comandantes como João Hunyadi, tornou-se a principal barreira, ao lado de Veneza no mar e de rebeldes como o líder albanês Skanderbeg. A partir da década de 1520, a dinastia dos Habsburgos, que governava a Áustria, a Boêmia, partes da Hungria e, sob Carlos V, a Espanha, tornou-se a principal rival dos otomanos. A Polônia-Lituânia, a Rússia e várias “Ligas Santas” organizadas com apoio papal também lutaram contra eles.
Muitas pessoas atravessavam a divisão religiosa. Senhores cristãos dos Bálcãs serviam como vassalos otomanos e lutavam em seus exércitos; cavaleiros sérvios combateram pelo sultão Bajazeto I em Ancara, em 1402. Pessoas vindas de várias partes da Europa serviam ao sultão, e nobres húngaros às vezes buscavam proteção otomana contra os Habsburgos.
Fácil
A expansão (1354–1453)
Depois de tomar Galípoli, os otomanos avançaram pela Trácia e fizeram de Edirne (Adrianópolis) sua capital europeia. Em 1371, derrotaram senhores sérvios na Batalha de Maritsa. Em 1389, na Batalha do Kosovo, um exército otomano enfrentou uma coalizão liderada por sérvios sob o comando do príncipe Lázaro. Lázaro e o sultão Murade I morreram; a batalha não teve resultado militar conclusivo, mas a Sérvia se tornou vassala dos otomanos pouco depois. A Bulgária foi anexada na década de 1390.
Alarmada, a Europa Ocidental organizou uma cruzada. Em 1396, um exército de húngaros, franceses e borgonheses comandado pelo rei Sigismundo da Hungria foi esmagado pelo sultão Bajazeto I em Nicópolis, às margens do Danúbio. O avanço otomano foi interrompido não pelos europeus, mas pelo conquistador da Ásia Central Timur (Tamerlão), que derrotou e capturou Bajazeto em Ancara, em 1402. Seguiu-se uma década de guerra civil entre os filhos de Bajazeto, mas o Estado se recuperou.
Em 1444, outra cruzada, liderada pelo rei Ladislau da Polônia e da Hungria e por João Hunyadi, foi derrotada em Varna, na costa do Mar Negro; o jovem rei morreu. Em 29 de maio de 1453, após um cerco de cerca de sete semanas, o sultão Maomé II conquistou Constantinopla. O último imperador bizantino, Constantino XI, morreu nos combates. O exército de Maomé usou enormes canhões de bronze para bombardear as antigas muralhas terrestres e transportou navios por terra até o Corno de Ouro. A cidade, logo chamada de Istambul, tornou-se a capital otomana, e Maomé passou a ser conhecido como Fatih, “o Conquistador”.
Intermediário
Mohács, Viena e o Mediterrâneo (1453–1571)
Maomé II concluiu a conquista da Sérvia (1459), da Bósnia (1463) e da maior parte da Albânia após a morte de Skanderbeg (1468), mas não conseguiu tomar Belgrado, defendida por Hunyadi em 1456. No início do século XVI, o sultão Selim I voltou-se para o leste e conquistou o sultanato mameluco do Egito e da Síria em 1516–1517, dobrando o tamanho e a riqueza do império. Seu filho Solimão I (conhecido na Europa como “o Magnífico” e na Turquia como Kanuni, “o Legislador”) voltou então sua atenção para a Europa: tomou Belgrado em 1521 e a ilha de Rodes dos Cavaleiros de São João em 1522.
Em 29 de agosto de 1526, em Mohács, no sul da Hungria, o exército de Solimão destruiu o exército real húngaro em poucas horas. O rei Luís II morreu afogado durante a fuga. O Reino da Hungria se dividiu entre pretendentes rivais, um apoiado pelos Habsburgos e outro pelos otomanos. Em 1529, Solimão sitiou Viena, capital dos Habsburgos, mas o clima do fim do outono, as longas linhas de abastecimento e a firme defesa o obrigaram a se retirar. Em 1541, os otomanos anexaram a região central da Hungria, em torno de Buda. Por 150 anos, a Hungria ficou dividida em três partes: a “Hungria Real” dos Habsburgos, no oeste e no norte; a Hungria otomana, no centro; e o principado semiautônomo da Transilvânia, sob suserania otomana.
No mar, os otomanos se tornaram uma grande potência naval, com a ajuda de corsários como Hayreddin Barbarossa, e obtiveram uma grande vitória em Preveza, em 1538. Mas não conseguiram conquistar Malta em 1565. Em 1570–1571, conquistaram o Chipre veneziano e, em outubro de 1571, uma frota da Liga Santa formada por Espanha, Veneza e o Papado destruiu a frota otomana em Lepanto. A vitória de Lepanto foi celebrada em toda a Europa católica, mas os otomanos reconstruíram sua frota em um ano e mantiveram o Chipre; por isso, os historiadores debatem até que ponto ela foi decisiva.
Intermediário
Impasse, 1683 e recuo
A partir do fim do século XVI, a fronteira na Hungria tornou-se uma zona de fortalezas e pequenas incursões constantes. A “Longa Guerra Turca”, de 1593 a 1606, terminou com a Paz de Zsitvatorok, na qual o sultão tratou o imperador dos Habsburgos como igual pela primeira vez. No século XVII, os otomanos ainda obtiveram conquistas: tomaram Creta de Veneza após um cerco de Cândia (Heraclião) que durou mais de vinte anos e terminou em 1669, e avançaram pela Ucrânia contra a Polônia.
Em 1683, o grão-vizir Kara Mustafa Paxá conduziu um enorme exército para sitiar Viena pela segunda vez. Após dois meses de cerco, a cidade estava perto de sucumbir, mas, em 12 de setembro, um exército de socorro formado por tropas imperiais, polonesas e alemãs derrotou os otomanos na Batalha de Viena (Kahlenberg). O rei João III Sobieski, da Polônia, liderou a carga de cavalaria decisiva. Kara Mustafa foi executado por ordem do sultão.
Uma nova Liga Santa, formada pelos Habsburgos, pela Polônia, por Veneza e, mais tarde, pela Rússia, passou à ofensiva na Grande Guerra Turca (1683–1699). Os Habsburgos retomaram Buda em 1686 e obtiveram uma grande vitória em Zenta, em 1697, sob o comando do príncipe Eugênio de Saboia. Pelo Tratado de Karlowitz (1699), os otomanos cederam a maior parte da Hungria e a Transilvânia aos Habsburgos, além de outras terras a Veneza e à Polônia. Esse tratado costuma ser considerado o fim das guerras otomanas clássicas na Europa, embora os conflitos com a Áustria e, sobretudo, com a Rússia tenham continuado nos séculos XVIII e XIX, e as nações balcânicas tenham conquistado a independência entre 1804 e 1913.
Intermediário
O custo humano
Não existem números totais confiáveis de mortos. As fontes da época frequentemente exageram o tamanho dos exércitos e o número de mortos em batalha, especialmente os panfletos europeus e as proclamações otomanas de vitória. A maioria dos historiadores evita apresentar um total e destaca os efeitos duradouros da guerra sobre as populações das fronteiras.
Para as pessoas comuns, o maior sofrimento muitas vezes vinha das incursões, e não das grandes batalhas. Cavaleiros otomanos akıncı e invasores tártaros da Crimeia capturaram um número muito grande de pessoas na Hungria, Croácia, Áustria, Polônia-Lituânia e Rússia para vendê-las em mercados de escravos. Forças cristãs, incluindo tropas de fronteira dos Habsburgos, frotas venezianas e os Cavaleiros de Malta, também escravizaram muçulmanos. As estimativas para o tráfico de escravos realizado apenas pelos tártaros chegam a centenas de milhares ou mais ao longo de vários séculos, mas são incertas. O saque de Constantinopla em 1453 durou três dias e incluiu mortes, pilhagens e a escravização de muitos habitantes.
A guerra também provocou grandes migrações. Muitos cristãos balcânicos fugiram para o norte; durante a Grande Guerra Turca, dezenas de milhares de sérvios se mudaram para a Hungria dos Habsburgos na chamada “Grande Migração” de 1690. Por sua vez, muçulmanos deixaram a Hungria depois de 1699 e os Bálcãs nos séculos seguintes. O devshirme retirava meninos de famílias cristãs, uma experiência dolorosa lembrada no folclore balcânico, embora algumas famílias o vissem como um caminho para cargos importantes. Partes da planície húngara perderam população durante um século e meio de guerras de fronteira.
Intermediário
Consequências
O resultado mais duradouro foram os séculos de domínio otomano no sudeste da Europa. A sociedade otomana organizava as pessoas em parte pela religião: cristãos ortodoxos, armênios e judeus tinham seus próprios líderes religiosos e tribunais, em uma organização que historiadores mais tarde chamaram de sistema de millets. Ao longo das gerações, muitos bósnios, albaneses e outros se converteram ao islamismo, formando comunidades muçulmanas na Europa que existem até hoje. Judeus sefarditas expulsos da Espanha em 1492 encontraram refúgio em cidades otomanas como Tessalônica e Istambul.
Na Europa Central, a ameaça otomana ajudou a moldar a monarquia dos Habsburgos. A necessidade de defender a fronteira levou os Habsburgos a criar a Fronteira Militar (Militärgrenze), uma zona fronteiriça fortificada habitada por soldados agricultores, muitos deles sérvios e croatas. A queda de Constantinopla também levou estudiosos e manuscritos gregos à Itália e contribuiu, junto com contatos anteriores, para o estudo da língua grega durante o Renascimento.
As guerras também transformaram a diplomacia. A aliança da França com os otomanos na década de 1530 mostrou que a unidade religiosa já não determinava a política europeia. Os privilégios comerciais e jurídicos, chamados capitulações, concedidos a Estados europeus foram inicialmente um sinal da força otomana, mas, nos séculos seguintes, tornaram-se instrumentos de influência europeia. Depois de 1699, a “Questão Oriental” — o que aconteceria com as terras otomanas à medida que o império enfraquecesse — tornou-se um tema central da política europeia até a Primeira Guerra Mundial.
Intermediário
Como diferentes países se lembram das guerras
Na Turquia, a conquista de Istambul em 1453 é celebrada como um momento glorioso e decisivo; o aniversário, em 29 de maio, é lembrado todos os anos, e Maomé II e Solimão são heróis nacionais. A expansão otomana costuma ser apresentada como uma história de governo justo e tolerante, visão que os historiadores consideram parcialmente verdadeira, mas também idealizada. Nos países balcânicos, por sua vez, histórias nacionais escritas nos séculos XIX e XX, durante as lutas pela independência, frequentemente descreveram o domínio otomano como o “jugo turco”, um longo período de opressão e estagnação.
Na memória sérvia, a Batalha do Kosovo (1389) ocupa um lugar central e foi transformada por canções épicas em uma história de sacrifício heroico. Tornou-se um símbolo político poderoso e, por vezes, perigoso, invocado de forma especialmente notória nas décadas de 1980 e 1990. Na Albânia, Skanderbeg é o herói nacional. Os gregos recordam a queda de Constantinopla e o período da Tourkokratia (“domínio turco”) como uma tragédia nacional. Muçulmanos bósnios e albaneses, muitos dos quais descendem de pessoas que se converteram ao islamismo, guardam lembranças mais variadas.
Na Hungria, Mohács é lembrada como uma catástrofe nacional; o ditado húngaro “perdeu-se mais em Mohács” ainda é usado para consolar alguém diante de um revés. Na Áustria, a defesa de Viena em 1529 e, sobretudo, em 1683 tornou-se um símbolo da salvação da “Europa cristã”. Os poloneses recordam com orgulho a carga de Sobieski como prova do papel da Polônia como “baluarte da cristandade” (antemurale christianitatis). Lendas populares, como a de que o croissant ou os cafés de Viena surgiram durante o cerco de 1683, não são sustentadas por evidências. Nas últimas décadas, essas memórias voltaram a ser usadas em debates políticos sobre o islamismo e a Europa, enquanto os historiadores enfatizam as trocas, a convivência e a complexidade do domínio otomano.
Avançado
Fontes primárias
As fontes otomanas incluem crônicas como as de Aşıkpaşazade (século XV) e histórias oficiais posteriores, diários de campanha, decretos imperiais e, com especial importância, registros fiscais (tahrir defterleri), que relacionam aldeias, domicílios e receitas nas províncias conquistadas. Esses registros permitem aos historiadores estudar em detalhe a população, os assentamentos e as conversões religiosas nos Bálcãs, embora registrem contribuintes, e não todas as pessoas, e exijam uma interpretação cuidadosa. O viajante do século XVII Evliya Çelebi deixou um extenso relato de viagens que inclui os Bálcãs e a fronteira dos Habsburgos.
Historiadores bizantinos do século XV, entre eles Ducas, Jorge Frantzes, Laônico Calcocôndilas e Critóbulo de Imbros (que escreveu para Maomé II), descrevem a queda de Constantinopla sob diferentes perspectivas. Entre as fontes ocidentais estão os relatórios diplomáticos venezianos (relazioni), as cartas enviadas da corte de Solimão pelo embaixador dos Habsburgos Ogier Ghiselin de Busbecq e as memórias de pessoas capturadas, como o relato de Konstantin Mihailović, um sérvio que serviu entre os janízaros. Panfletos impressos na Alemanha sobre a “ameaça turca” (Türkenschriften) moldaram a opinião pública, mas eram propaganda, não relatos neutros.
Cada conjunto de fontes tem seus vieses: as crônicas otomanas celebram a dinastia, textos cristãos frequentemente descrevem os otomanos como um castigo divino e os números são exagerados em toda parte. Historiadores atuais combinam essas fontes com documentos de arquivos de Istambul, Viena e Veneza e com estudos arqueológicos de fortalezas e campos de batalha.
Avançado
Historiografia e debates
Por que os primeiros otomanos se expandiram com tanto sucesso? Em 1938, Paul Wittek propôs a “tese ghazi”: o Estado Otomano teria nascido como uma comunidade de guerreiros religiosos dedicada à guerra contra os cristãos. Historiadores posteriores questionaram essa ideia. Em Between Two Worlds (1995), Cemal Kafadar argumentou que a identidade nas fronteiras era fluida, que a ghaza era compatível com alianças com cristãos e que os primeiros otomanos agiam de forma pragmática; Heath Lowry e outros destacaram a cooperação com as elites bizantinas e balcânicas. Hoje, a maioria dos historiadores entende que a ideologia religiosa, as oportunidades e a construção do Estado atuaram em conjunto.
Um segundo debate diz respeito à “tese do declínio”, a antiga visão de que o Império Otomano começou um longo declínio após a morte de Solimão, em 1566, o que explicaria suas derrotas militares. Muitos historiadores hoje rejeitam essa explicação por considerá-la simplista. Em seu lugar, descrevem uma transformação no século XVII, com mudanças na organização militar, na tributação e na política, e observam que o império ainda podia vencer guerras, como fez em Cândia. A derrota de 1683–1699 é, portanto, explicada por fatores específicos, entre eles reformas militares nos exércitos dos Habsburgos e da Rússia, guerras contra coalizões e a expansão excessiva dos otomanos, e não por uma decadência geral.
Os historiadores também questionam a imagem de um “choque de civilizações” permanente entre o Império Otomano e a Europa. Gábor Ágoston e outros mostram que os otomanos integravam o sistema de Estados europeus, lutavam com tecnologias militares semelhantes, faziam alianças com potências cristãs e disputavam os mesmos recursos. Ao mesmo tempo, historiadores dos Bálcãs insistem que as realidades da conquista, da escravidão, do devshirme e da condição desigual dos não muçulmanos não devem ser minimizadas. Estudos equilibrados procuram levar em conta todos esses aspectos.
Batalhas (14)
- Batalha de Maritsa1371
- Batalha de Pločnik1385
- Battle of Savra1385
- Battle of Bileća1388
- Batalha do Kosovo1389
- Siege of Berat1455
- Battle of Albulena1457
- Siege of Krujë1467
- Siege of Rhodes1480
- Batalha do Campo de Krbava1493
- Batalha de Rodes1522–1523
- Cerco de Eger1552
- Siege of Temesvár1552
- Batalha de Petrovaradin1716
Ideias principais
- Império de fronteira
- O Estado Otomano cresceu a partir de um principado de fronteira, combinando a ideologia da guerra religiosa com alianças pragmáticas e recompensas a seus guerreiros.
- Pólvora e organização
- Um exército permanente, uma artilharia eficaz e uma logística sólida deram vantagem aos otomanos durante dois séculos.
- Devshirme e janízaros
- O recrutamento de meninos cristãos formou um exército de elite e uma administração leais, mas teve um alto custo para as famílias balcânicas.
- Europa dividida
- Rivalidades entre católicos e ortodoxos, entre Estados cristãos e, mais tarde, entre católicos e protestantes enfraqueceram a resistência.
- A vida na fronteira
- Fortalezas, incursões, capturas de pessoas e pagamento de resgates marcaram a vida na Hungria e nos Bálcãs por gerações.
- 1683 como ponto de virada
- O fracasso do segundo cerco de Viena deu início a um longo recuo otomano na Europa Central.
- Memórias nacionais diferentes
- Os mesmos acontecimentos são lembrados como glória na Turquia e como catástrofe ou resistência heroica nos Bálcãs e na Europa Central.
Registros
- 1354 — Os otomanos ocupam Galípoli, sua primeira posição permanente na Europa.
- 1389 — Batalha do Kosovo; morrem o sultão Murade I e o príncipe Lázaro.
- 1396 — Bajazeto I derrota um exército cruzado em Nicópolis.
- 1402 — Timur derrota e captura Bajazeto I em Ancara; começa uma guerra civil otomana.
- 1444 — A cruzada de Varna é derrotada; o rei Ladislau morre.
- 1453 — Maomé II conquista Constantinopla em 29 de maio; chega ao fim o Império Bizantino.
- 1526 — Solimão I destrói o exército húngaro em Mohács.
- 1529 — Fracassa o primeiro cerco otomano de Viena.
- 1541 — Os otomanos anexam a região central da Hungria; o país fica dividido em três partes.
- 1571 — Os otomanos concluem a conquista de Chipre; a Liga Santa vence em Lepanto.
- 1683 — O exército de socorro comandado por João III Sobieski rompe o segundo cerco de Viena (12 de setembro).
- 1699 — Tratado de Karlowitz: os otomanos cedem a maior parte da Hungria.
Glossário
- Sultão
- Título do governante otomano.
- Janízaros
- Soldados de infantaria de elite do exército permanente otomano, inicialmente recrutados por meio do devshirme.
- Devshirme
- Recrutamento periódico de meninos cristãos, convertidos e treinados para servir ao Estado Otomano.
- Timar
- Concessão de receitas fiscais de terras que sustentava um cavaleiro otomano (sipahi).
- Ghaza
- Guerra religiosa contra não muçulmanos; um guerreiro que dela participava era chamado de ghazi.
- Vassalo
- Governante que mantém suas terras, mas deve tributos e serviço militar a um soberano mais poderoso.
- Liga Santa
- Aliança de Estados católicos organizada com apoio papal contra os otomanos.
- Grão-vizir
- Principal ministro do Império Otomano, que muitas vezes comandava o exército.
- Capitulações
- Privilégios comerciais e jurídicos concedidos pelo sultão a mercadores e Estados estrangeiros.
- Fronteira Militar
- Zona de fronteira dos Habsburgos contra os otomanos, habitada por soldados agricultores.
Perguntas e respostas
Quem eram os otomanos?
Uma dinastia turca muçulmana, batizada em homenagem a seu fundador, Osman, que construiu um império existente de cerca de 1300 a 1922 e governou partes da Ásia, da Europa e da África.
Por que a queda de Constantinopla foi tão importante?
Ela pôs fim ao Império Bizantino, que existia desde a época romana, deu aos otomanos uma capital grandiosa entre a Europa e a Ásia e causou espanto na Europa cristã.
Por que os otomanos não conseguiram tomar Viena?
Em 1529, as longas linhas de abastecimento, o mau tempo e a forte defesa os obrigaram a recuar. Em 1683, a cidade resistiu até a chegada de um grande exército de socorro, que derrotou os sitiantes.
Os janízaros eram cristãos?
Muitos nasceram em famílias cristãs e foram levados ainda meninos pelo devshirme, mas se converteram ao islamismo e foram criados como muçulmanos leais ao sultão.
Quantas pessoas morreram nessas guerras?
Não existe um total confiável. As fontes exageram os números, e as mortes causadas por incursões, escravização, fome e doenças nunca foram contadas de maneira sistemática.
O Império Otomano entrou em declínio depois de Solimão?
Historiadores mais antigos diziam que sim, mas muitos hoje descrevem uma transformação, e não um declínio. O império continuou poderoso no século XVII, e suas derrotas após 1683 tiveram causas específicas.
É correto ver essas guerras como uma luta entre o islamismo e o cristianismo?
A religião era importante, mas as alianças frequentemente atravessavam as divisões religiosas. A França se aliou aos otomanos, e vassalos cristãos lutaram pelo sultão. Os historiadores consideram uma combinação de religião, poder e interesses econômicos.
Fontes e leituras adicionais
- Ottoman wars in Europe. Wikipedia
- Battle of Kosovo. Wikipedia
- Fall of Constantinople. Wikipedia
- Battle of Mohács. Wikipedia
- Battle of Vienna. Wikipedia
- Treaty of Karlowitz. Wikipedia
- Devshirme. Wikipedia
- Caroline Finkel, Osman's Dream: The Story of the Ottoman Empire, 1300–1923. John Murray, 2005
- Cemal Kafadar, Between Two Worlds: The Construction of the Ottoman State. University of California Press, 1995
- Gábor Ágoston, The Last Muslim Conquest: The Ottoman Empire and Its Wars in Europe. Princeton University Press, 2021
Conteúdo relacionado
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.