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Para jovens leitores
Há cerca de 160 anos, os Estados Unidos ficaram divididos em dois lados. Nos estados do Sul, cerca de quatro milhões de pessoas negras eram escravizadas. Isso quer dizer que eram tratadas como propriedade: tinham de trabalhar sem receber, podiam ser vendidas e separadas de suas famílias e não tinham direitos. Nos estados do Norte, a escravidão já havia acabado, e muitas pessoas não queriam que ela chegasse a novas terras no Oeste.
Em 1860, Abraham Lincoln foi eleito presidente. Ele era contra a expansão da escravidão. Muitos líderes do Sul temiam que ela acabasse aos poucos. Por isso, onze estados do Sul anunciaram que deixariam os Estados Unidos e formariam outro país, chamado Estados Confederados da América.
O Norte, chamado União, dizia que o país não podia ser dividido. Em abril de 1861, canhões confederados atacaram o Forte Sumter, uma fortaleza da União na Carolina do Sul. Assim começou a guerra, que durou quatro longos anos. Grandes exércitos lutaram em batalhas como as de Antietam, Gettysburg e Vicksburg.
Durante a guerra, pessoas escravizadas fugiram para os exércitos da União em busca de liberdade. Cerca de 200 mil homens negros se tornaram soldados ou marinheiros da União. Em 1863, Lincoln anunciou a Proclamação de Emancipação, que declarou livres as pessoas escravizadas nos estados em rebelião. Em 1865, os confederados se renderam, e uma mudança na Constituição, a 13ª Emenda, acabou com a escravidão em todo o país.
Foi a guerra com mais mortes na história dos Estados Unidos: bem mais de 600 mil soldados morreram, a maioria por doenças. Depois da guerra, as pessoas discutiram por muitos anos como reconstruir o Sul e se aqueles que haviam sido escravizados teriam direitos iguais. Até hoje há debates sobre como lembrar essa guerra.
Em resumo
- Datas
- De 12 de abril de 1861 (Forte Sumter) à primavera de 1865 (Appomattox, 9 de abril de 1865; as últimas forças confederadas se renderam até junho de 1865)
- Local
- Estados Unidos, principalmente os estados do Sul, o vale do Mississippi e a região de fronteira; guerra naval ao longo das costas do Atlântico e do golfo do México
- Lados em conflito
- Estados Unidos (a União, com mais de 20 estados sem escravidão e quatro estados escravistas de fronteira) contra os Estados Confederados da América (11 estados escravistas que se separaram)
- Causa central
- O futuro da escravidão e sua expansão para os territórios do Oeste
- Figuras importantes
- Abraham Lincoln, Ulysses S. Grant, William T. Sherman, Frederick Douglass, Harriet Tubman; Jefferson Davis, Robert E. Lee, Alexander Stephens
- Mortes
- Tradicionalmente, cerca de 620 mil soldados; uma estimativa de 2011 baseada em dados censitários sugere cerca de 750 mil (intervalo aproximado de 650 mil a 850 mil). O número de civis mortos é desconhecido.
- Resultado
- Vitória da União; dissolução da Confederação; abolição da escravidão pela 13ª Emenda (1865)
- Consequências
- Reconstrução (1865–1877): 14ª e 15ª Emendas, seguidas pela expansão da segregação e da privação do direito de voto
Fácil
O que foi a Guerra Civil Americana?
A Guerra Civil Americana foi travada dentro de um mesmo país, os Estados Unidos, entre 1861 e 1865. De um lado estava o governo federal, geralmente chamado de União ou simplesmente de “Norte”. Do outro estavam os Estados Confederados da América, um novo governo formado por onze estados do Sul que haviam declarado independência. A maioria das pessoas chamava a Confederação de “Sul”.
A guerra recebeu vários nomes. No Norte, era frequentemente chamada de Guerra da Rebelião, título usado também nos registros oficiais do Exército publicados após o conflito. Mais tarde, muitos sulistas brancos passaram a preferir “Guerra entre os Estados”, expressão que sugeria dois países em condições de igualdade, em vez de uma rebelião. Em coreano, ela é chamada de 남북 전쟁, “guerra entre o Sul e o Norte”.
Foi uma guerra de grandes proporções. Cerca de dois milhões de homens serviram nas forças da União e talvez entre 750 mil e um milhão nas forças confederadas; os historiadores divergem sobre os números exatos da Confederação porque muitos registros se perderam. As batalhas ocorreram em uma área imensa, da Pensilvânia, ao norte, ao Texas e à Flórida, ao sul, e da costa atlântica ao Novo México.
Fácil
Por que a guerra aconteceu? A escravidão no centro do conflito
Em 1860, cerca de quatro milhões de pessoas, quase uma em cada três que viviam nos estados do Sul, eram escravizadas. A escravidão sustentava a economia sulista: pessoas escravizadas cultivavam algodão, tabaco, cana-de-açúcar e arroz, e o algodão era o principal produto de exportação dos Estados Unidos. Segundo estimativas históricas comuns, o valor atribuído às pessoas escravizadas como “propriedade” era enorme, maior que o valor de todas as ferrovias e fábricas do país somadas. Elas resistiam de muitas formas, desde trabalhar mais devagar até fugir, mas a lei não lhes dava proteção.
Durante décadas, os norte-americanos disputaram politicamente se a escravidão deveria ser permitida nos novos territórios do Oeste. O Compromisso do Missouri, de 1820, e o Compromisso de 1850 tentaram resolver a questão, mas a Lei dos Escravos Fugitivos, de 1850, obrigou moradores do Norte a ajudar a devolver pessoas que haviam fugido da escravidão, o que causou indignação. Em 1854, a Lei Kansas–Nebraska reabriu a questão, e a violência tomou conta do Kansas. Em 1857, na decisão do caso Dred Scott, a Suprema Corte afirmou que os norte-americanos negros não podiam ser cidadãos e que o Congresso não podia proibir a escravidão nos territórios. Em 1859, o abolicionista John Brown atacou o arsenal federal de Harpers Ferry, na esperança de iniciar uma revolta de pessoas escravizadas.
Abraham Lincoln e seu novo Partido Republicano não propunham abolir a escravidão nos estados onde ela já existia, mas estavam decididos a impedir sua expansão. Quando Lincoln venceu a eleição presidencial de novembro de 1860 sem ganhar em nenhum estado do Extremo Sul, a Carolina do Sul declarou, em 20 de dezembro de 1860, que havia deixado a União. Outros seis estados fizeram o mesmo antes de Lincoln tomar posse. Em suas próprias declarações oficiais, esses estados afirmaram claramente que saíam para proteger a escravidão. Em março de 1861, o vice-presidente confederado Alexander Stephens disse, em seu “Discurso da Pedra Angular”, que o novo governo se baseava na ideia de que as pessoas negras não eram iguais às brancas e de que a escravidão era sua condição natural.
Mais tarde, algumas pessoas alegaram que a guerra tratava, na verdade, dos “direitos dos estados” ou de tarifas alfandegárias. Hoje, há amplo consenso entre os historiadores de que a escravidão foi a causa central. As disputas sobre os direitos dos estados eram reais, mas diziam respeito principalmente ao direito de manter e ampliar a escravidão; os líderes sulistas, aliás, haviam apoiado firmemente o poder federal quando se tratava de capturar pessoas que fugiam da escravidão.
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Quem lutou contra quem?
A União incluía os estados do Norte e do Oeste onde não havia escravidão e quatro “estados de fronteira” escravistas: Delaware, Maryland, Kentucky e Missouri. A Virgínia Ocidental separou-se da Virgínia e entrou na União como novo estado em 1863. A União tinha mais que o dobro da população da Confederação, a maioria das fábricas e ferrovias e uma marinha de guerra.
A Confederação era formada por Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia, Louisiana e Texas, que deixaram a União antes da guerra, e Virgínia, Arkansas, Tennessee e Carolina do Norte, que saíram depois do início dos combates no Forte Sumter. Seu presidente era Jefferson Davis, e sua capital foi transferida de Montgomery, no Alabama, para Richmond, na Virgínia. A Confederação esperava resistir por tempo suficiente para que o Norte desistisse e para que a Grã-Bretanha e a França, que precisavam do algodão sulista, a reconhecessem.
Nenhum dos lados era totalmente unido. Muitas pessoas das regiões montanhosas do Sul, como o leste do Tennessee, apoiavam a União. No Norte, alguns democratas, apelidados de “Copperheads”, queriam a paz com o Sul. As nações indígenas do Território Indígena, hoje Oklahoma, estavam divididas, e algumas lutaram em cada lado. Acima de tudo, os quatro milhões de pessoas escravizadas tinham seu próprio objetivo: a liberdade.
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Como a guerra se desenrolou (1861–1865)
Os dois lados esperavam uma guerra curta. Na Primeira Batalha de Bull Run, em julho de 1861, perto de Washington, os confederados venceram, e ficou claro que a guerra seria longa. A União adotou uma estratégia de bloquear os portos do Sul e controlar o rio Mississippi para dividir a Confederação, às vezes chamada de “Plano Anaconda”. No Oeste, Ulysses S. Grant tomou os fortes Henry e Donelson no início de 1862 e resistiu à sangrenta Batalha de Shiloh em abril. Navios da União conquistaram Nova Orleans naquele mesmo mês.
No Leste, Robert E. Lee assumiu o comando do Exército Confederado da Virgínia do Norte em 1862 e obteve uma série de vitórias. Sua invasão de Maryland terminou na Batalha de Antietam, em 17 de setembro de 1862, o dia com mais mortes em combate da história dos Estados Unidos. Lincoln aproveitou esse êxito parcial para anunciar a Proclamação de Emancipação preliminar. Lee voltou a vencer em Fredericksburg, em dezembro de 1862, e em Chancellorsville, em maio de 1863, antes de invadir a Pensilvânia.
Julho de 1863 foi um momento decisivo. Em Gettysburg (1º a 3 de julho), o exército de Lee foi derrotado e recuou. Em 4 de julho, Vicksburg, fortaleza confederada às margens do Mississippi, rendeu-se a Grant após um longo cerco, dando à União o controle do rio. Em novembro, Lincoln proferiu seu breve Discurso de Gettysburg, no qual apresentou a guerra como uma prova de que uma nação “dedicada à ideia de que todos os homens são criados iguais” poderia sobreviver.
Em 1864, Grant, agora comandante geral das forças da União, pressionou Lee na Virgínia em uma série de batalhas custosas — Wilderness, Spotsylvania e Cold Harbor — e depois cercou Petersburg. William T. Sherman tomou Atlanta em setembro de 1864, o que ajudou Lincoln a vencer a reeleição em novembro. Em seguida, Sherman atravessou a Geórgia até o mar, destruindo ferrovias, plantações e propriedades para enfraquecer a capacidade e a disposição do Sul de continuar lutando. Em abril de 1865, Lee abandonou Richmond e se rendeu em Appomattox Court House, no dia 9. Cinco dias depois, Lincoln foi baleado por John Wilkes Booth e morreu na manhã seguinte. Os demais exércitos confederados se renderam nas semanas seguintes.
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De uma guerra pela União a uma guerra pela liberdade
No início, Lincoln dizia que seu objetivo era preservar a União, não acabar com a escravidão, em parte para manter a lealdade dos estados de fronteira. Mas as pessoas escravizadas fizeram com que a questão se impusesse. Desde os primeiros meses da guerra, elas fugiam para as linhas da União. Em maio de 1861, no Forte Monroe, na Virgínia, o general da União Benjamin Butler se recusou a devolver três homens que haviam fugido, chamando-os de “contrabando de guerra”. O Congresso então aprovou leis de confisco, e logo milhares de pessoas passaram a conquistar a própria liberdade ao chegar aos exércitos da União.
Lincoln promulgou a Proclamação de Emancipação em 1º de janeiro de 1863, usando sua autoridade de comandante em chefe. Ela declarou livres as pessoas escravizadas nas áreas que ainda estavam em rebelião, abrangendo a maior parte dos cerca de quatro milhões de pessoas escravizadas no país. Não se aplicava aos estados de fronteira leais à União nem a algumas áreas já controladas por ela, e só podia ser cumprida onde seus exércitos chegassem. Ainda assim, mudou o significado da guerra: cada avanço da União passou a ser também um avanço da liberdade, e ficou muito mais difícil para a Grã-Bretanha ou a França apoiar a Confederação.
A Proclamação também autorizou o alistamento de soldados negros. Cerca de 180 mil homens negros serviram no Exército da União, nos regimentos das Tropas Negras dos Estados Unidos, e outros 19 mil, aproximadamente, serviram na Marinha; a maioria havia sido escravizada. Eles receberam menos que os soldados brancos até 1864 e, quando capturados, corriam o risco de ser massacrados ou escravizados, como ocorreu no Forte Pillow em 1864. Frederick Douglass e outros argumentavam que esse serviço fortalecia a reivindicação de cidadania dos norte-americanos negros.
Como a Proclamação era uma medida de guerra, os abolicionistas queriam uma mudança constitucional permanente. O Congresso aprovou a 13ª Emenda em janeiro de 1865, e ela foi ratificada em dezembro daquele ano, pondo fim à escravidão em todos os Estados Unidos, exceto como punição por crime — exceção que mais tarde seria usada para obrigar prisioneiros negros a trabalhar. Em 19 de junho de 1865, tropas da União anunciaram a emancipação em Galveston, no Texas; a data é lembrada como Juneteenth e tornou-se feriado federal em 2021.
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O custo humano
Por mais de um século, a estimativa habitual de soldados mortos foi de cerca de 620 mil, com base em contagens feitas no fim do século XIX. Em 2011, o demógrafo histórico J. David Hacker usou dados censitários para estimar cerca de 750 mil mortes de soldados, com um intervalo plausível de aproximadamente 650 mil a 850 mil. Muitos historiadores hoje citam sua estimativa mais alta, mas todos os números continuam aproximados, sobretudo os da Confederação, cujos registros são incompletos.
Cerca de dois em cada três soldados mortos morreram de doenças, como disenteria, febre tifoide, pneumonia e sarampo, e não de ferimentos a bala. Os campos de prisioneiros de guerra eram mortíferos: em Andersonville, na Geórgia, morreram cerca de 13 mil prisioneiros da União. Muitos outros soldados voltaram para casa com membros amputados ou traumas psicológicos duradouros.
As mortes de civis nunca foram contabilizadas. A guerra de guerrilhas no Missouri e no Kansas, a destruição de fazendas, a fome na Confederação e as doenças em acampamentos superlotados também causaram mortes. Pessoas que haviam sido escravizadas e fugiam para as linhas da União frequentemente viviam em “campos de contrabando” lotados, onde as doenças se espalhavam. Alguns historiadores, como Jim Downs, argumentam que essas mortes foram numerosas e por muito tempo ignoradas, embora não seja possível saber o número exato. A guerra também deixou centenas de milhares de viúvas e órfãos, e a economia do Sul ficou arruinada.
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A Reconstrução e sua promessa não cumprida (1865–1877)
Depois da guerra, o país precisou decidir como os estados do Sul voltariam à União e quais direitos teriam as pessoas libertas. O presidente Andrew Johnson, que assumiu após a morte de Lincoln, permitiu que os estados sulistas retornassem rapidamente sob a liderança de brancos. Esses estados aprovaram os “Códigos Negros”, que tentavam obrigar as pessoas libertas a voltar a trabalhar em condições severas. Em resposta, o Congresso assumiu o controle da Reconstrução em 1867 e exigiu novas constituições estaduais que garantissem o voto aos homens negros.
Outras duas emendas transformaram a Constituição: a 14ª (1868) tornou cidadão todo aquele nascido nos Estados Unidos e prometeu “igual proteção das leis”; a 15ª (1870) proibiu negar o direito de voto por motivo de raça. O Departamento dos Libertos, criado em 1865, ajudou pessoas antes escravizadas com alimentos, escolas e contratos de trabalho. As pessoas libertas fundaram igrejas e escolas, reuniram famílias separadas pela venda de seus membros, e cerca de dois mil homens negros ocuparam cargos públicos, entre eles Hiram Revels e Blanche K. Bruce no Senado dos Estados Unidos.
A resistência dos sulistas brancos foi violenta. A Ku Klux Klan e outros grupos assassinaram líderes e eleitores negros. O apoio do Norte à intervenção diminuiu e, após a eleição contestada de 1876, o “Compromisso de 1877” pôs fim ao uso de tropas federais para proteger os governos da Reconstrução. Nas décadas seguintes, os estados do Sul impuseram a segregação racial, por meio das leis chamadas “Jim Crow”, e retiraram o direito de voto da maioria dos cidadãos negros. O historiador Eric Foner chamou a Reconstrução de “revolução inacabada dos Estados Unidos”: suas promessas de igualdade só voltaram a ganhar força com o movimento pelos direitos civis das décadas de 1950 e 1960.
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A guerra e o restante do mundo
A guerra teve importância muito além dos Estados Unidos. A Grã-Bretanha e a França nunca reconheceram a Confederação, mas a possibilidade foi debatida, e navios construídos pelos britânicos para atacar o comércio, como o CSS Alabama, prejudicaram o transporte marítimo da União. Após a guerra, um tribunal internacional em Genebra (1872) determinou que a Grã-Bretanha pagasse indenização por essas “reclamações do Alabama”, um exemplo inicial de solução de disputas por arbitragem. O bloqueio provocou uma “fome do algodão” nas regiões têxteis de Lancashire, na Inglaterra; até que ponto os trabalhadores britânicos apoiaram a União apesar das dificuldades ainda é assunto de debate entre historiadores.
Muitas pessoas no exterior viam a guerra como uma luta pelo trabalho livre e pela democracia. A Associação Internacional dos Trabalhadores, em uma mensagem redigida por Karl Marx, felicitou Lincoln por sua reeleição em 1864. A vitória da União e o fim da escravidão nos Estados Unidos aumentaram a pressão sobre as sociedades escravistas que restavam nas Américas, Brasil e Cuba, onde a escravidão foi abolida em 1888 e 1886, respectivamente. Alguns confederados derrotados emigraram para o Brasil, onde seus descendentes ainda são chamados de “Confederados”.
A guerra também afetou os países vizinhos. Enquanto os Estados Unidos estavam divididos, a França instalou Maximiliano de Habsburgo como imperador do México. Depois de 1865, os Estados Unidos pressionaram a França a sair, e os franceses se retiraram em 1866–67. Grandes quantidades de armas excedentes da guerra foram vendidas ao exterior, inclusive ao Japão durante as transformações da década de 1860.
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Como a guerra foi lembrada
No Norte, a guerra foi lembrada como uma vitória que preservou a União e, para muitos, como uma luta que acabou com a escravidão. Veteranos da União formaram o Grande Exército da República, e o costume de enfeitar os túmulos dos soldados deu origem ao Dia da Memória. Para os afro-americanos, a guerra era, acima de tudo, a história da emancipação: eles celebravam o Dia da Emancipação e o Juneteenth, e escritores como Frederick Douglass alertavam para o perigo de esquecer por que a guerra havia sido travada.
No Sul branco, desenvolveu-se uma narrativa influente chamada “Causa Perdida”. A expressão veio do título de um livro publicado em 1866 pelo jornalista de Richmond Edward A. Pollard. A Causa Perdida afirmava que o Sul havia lutado honrosamente pelos direitos dos estados, e não pela escravidão; que a escravidão havia sido benevolente e que as pessoas escravizadas eram leais; que generais confederados como Lee eram heróis nobres; e que o Sul perdera apenas porque o Norte tinha mais homens e fábricas. Organizações como as Filhas Unidas da Confederação ergueram centenas de monumentos, muitos deles durante a era das leis Jim Crow e, novamente, durante a era dos direitos civis, e trabalharam para influenciar os livros escolares.
No início do século XX, muitos norte-americanos brancos do Norte e do Sul adotaram uma narrativa de “reconciliação” centrada na coragem dos soldados dos dois lados, que deixava de fora a escravidão e os norte-americanos negros. O filme O Nascimento de uma Nação (1915) glorificou a Ku Klux Klan, e E o Vento Levou (1939) romantizou o Sul das grandes fazendas escravistas. Nas últimas décadas, especialmente após os assassinatos racistas em uma igreja de Charleston, em 2015, e a violência em Charlottesville, em 2017, muitos monumentos e bandeiras confederados foram retirados de espaços públicos. Os debates a respeito deles continuam presentes na política dos Estados Unidos.
Fora dos Estados Unidos, a guerra costuma ser ensinada por meio da figura de Lincoln e da abolição da escravidão. Na Coreia, por exemplo, ela é conhecida principalmente como a guerra que acabou com a escravidão nos Estados Unidos, e o Discurso de Gettysburg, de Lincoln, é amplamente citado como uma declaração em defesa da democracia.
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Fontes primárias
A guerra é um dos conflitos mais bem documentados do século XIX. O governo dos Estados Unidos publicou The War of the Rebellion: Official Records of the Union and Confederate Armies (1880–1901), uma enorme série de relatórios, ordens e cartas dos dois lados. Como parte dos registros confederados se perdeu no incêndio de Richmond e em outros lugares, a coleção é mais completa no caso da União, e muitos relatórios foram escritos por oficiais interessados em justificar suas ações.
Os documentos políticos são fundamentais para entender as causas: as normas de secessão e as “declarações de causas” de estados como Carolina do Sul, Mississippi, Geórgia e Texas; o Discurso da Pedra Angular, de Stephens; os discursos e as cartas de Lincoln; e os debates do Congresso. As vozes de pessoas comuns sobreviveram em milhões de cartas e diários de soldados, em diários de mulheres, como o de Mary Chesnut, na Carolina do Sul, e em jornais dos dois lados. A guerra também foi uma das primeiras a ser amplamente fotografada; imagens dos mortos em Antietam feitas por Alexander Gardner, exibidas na galeria de Mathew Brady em Nova York em 1862, chocaram o público.
As vozes das pessoas escravizadas e libertas exigem atenção especial. Entre as fontes estão os escritos de Frederick Douglass e de outros abolicionistas negros, cartas de soldados negros e registros do Departamento dos Libertos. O Projeto Libertos e Sociedade Sulista, sediado na Universidade de Maryland, publicou muitos desses documentos. As entrevistas com idosos que haviam sido escravizados, reunidas pela Administração de Projetos de Trabalho na década de 1930, são valiosas, mas devem ser lidas com cuidado: os entrevistados já eram muito velhos e frequentemente respondiam a entrevistadores brancos no Sul segregado.
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Historiografia: da Causa Perdida à história da emancipação
As primeiras histórias foram escritas por participantes que defendiam seu lado. The Rise and Fall of the Confederate Government (1881), de Jefferson Davis, e os escritos de Jubal Early e da Sociedade Histórica Sulista ajudaram a transformar a Causa Perdida em uma narrativa coerente. No início do século XX, a “Escola de Dunning”, formada por historiadores orientados por William A. Dunning na Universidade Columbia, retratou a Reconstrução como uma tragédia corrupta imposta ao Sul branco; essa visão influenciou livros escolares e filmes por décadas. Black Reconstruction in America (1935), de W. E. B. Du Bois, contestou essa interpretação ao destacar o papel dos trabalhadores e eleitores negros, mas de início foi amplamente ignorado pelos acadêmicos brancos.
Na década de 1920, Charles e Mary Beard interpretaram a guerra como um choque entre o capitalismo industrial e a sociedade agrária. Nas décadas de 1930 e 1940, os chamados “revisionistas”, como James G. Randall e Avery Craven, argumentaram que a guerra poderia ter sido evitada e que resultara da ação de extremistas e de uma “geração que cometeu erros”. Após a Segunda Guerra Mundial e durante o movimento pelos direitos civis, os historiadores voltaram a tratar a escravidão como questão central. O trabalho de Eric Foner sobre a ideologia do trabalho livre, Battle Cry of Freedom (1988), de James M. McPherson, e muitos estudos sobre a crise da secessão consolidaram o papel central da escravidão como consenso acadêmico.
Desde a década de 1980, os historiadores perguntam quem libertou as pessoas escravizadas. Pesquisadores ligados ao Projeto Libertos e Sociedade Sulista, especialmente Ira Berlin, enfatizaram a “autoemancipação” das pessoas escravizadas que fugiram e colocaram a questão em primeiro plano; outros, entre eles McPherson, destacaram que as decisões de Lincoln e a vitória militar da União foram indispensáveis. Hoje, a maioria considera essas explicações complementares. Reconstruction (1988), de Eric Foner, derrubou a visão da Escola de Dunning, e Race and Reunion (2001), de David W. Blight, mostrou como a reconciliação entre brancos foi alcançada ao deixar a emancipação à margem da memória pública.
As pesquisas atuais exploram a história ambiental e médica da guerra, as experiências de mulheres, indígenas e imigrantes, a violência das guerrilhas, o contexto internacional e a questão demográfica do número de mortos, como na estimativa de Hacker baseada em dados censitários. Os debates sobre monumentos mostram que a historiografia não é apenas um assunto acadêmico: a maneira de explicar a guerra continua a influenciar a política dos Estados Unidos.
Batalhas (40)
- Batalha de Cowpens1781
- Batalha de Fort Sumter1861
- Primeira Batalha de Bull Run1861
- Batalha de Wilson's Creek1861
- Batalha de Antietam1862
- Batalha de Fredericksburg1862
- Segunda Batalha de Bull Run1862
- Batalha de Shiloh1862
- Batalha de Hampton Roads1862
- Campanha de Vicksburg1862–1863
- Batalha de Seven Pines1862
- Battle of Fort Donelson1862
- Campanha da Península1862
- Shenandoah Valley Campaign1862
- Campanha do Norte da Virgínia1862
- Batalha de Stones River1862–1863
- Battle of Fort Henry1862
- Batalha de South Mountain1862
- Battle of Perryville1862
- Discurso de Gettysburg1863
- Batalha de Gettysburg1863
- Batalha de Chancellorsville1863
- Batalha de Chickamauga1863
- Cerco de Vicksburg1863
- Campanha de Chattanooga1863
- Pickett’s Charge1863
- Gettysburg campaign1863
- Batalha de Cold Harbor1864
- Marcha ao Mar1864
- Batalha de Wilderness1864
- Batalha de Spotsylvania Court House1864
- Cerco de Petersburg1864–1865
- Campanha de Atlanta1864
- Batalha de Atlanta1864
- Battle of Nashville1864
- Batalha da Baía de Mobile1864
- Batalha de Franklin1864
- Batalha de Appomattox Court House1865
- Batalha de Five Forks1865
- Campanha de Appomattox1865
Ideias principais
- A escravidão como causa central
- A secessão foi realizada para proteger a escravidão, como declararam os próprios estados separatistas; há amplo consenso entre os historiadores de que essa foi a raiz do conflito.
- União
- Para Lincoln e muitos moradores do Norte, preservar uma única nação democrática era o primeiro objetivo da guerra; a emancipação tornou-se inseparável dele.
- Autoemancipação
- Pessoas escravizadas que fugiram para as linhas da União e serviram como soldados ajudaram a transformar o conflito em uma guerra de libertação.
- Guerra total
- Campanhas posteriores atacaram a economia e os recursos do Sul, tornando menos nítida a distinção entre os exércitos e a sociedade.
- Reconstrução
- A tentativa, após 1865, de reconstruir o Sul e estabelecer a igualdade de direitos dos cidadãos, revertida pela violência e por acordos políticos.
- A Causa Perdida
- Mito que apresentou a Confederação como uma luta nobre pelos direitos dos estados e ocultou o papel da escravidão; influenciou monumentos, livros escolares e filmes.
- Memória disputada
- Comunidades do Norte, do Sul branco e afro-americanas lembraram a guerra de maneiras muito diferentes, e essas memórias ainda entram em conflito.
Registros
- 1850 — Compromisso de 1850 e Lei dos Escravos Fugitivos.
- 1854 — A Lei Kansas–Nebraska reabre a questão da escravidão nos territórios; forma-se o Partido Republicano.
- 1857 — A decisão do caso Dred Scott nega a cidadania às pessoas negras.
- 1860 — Lincoln é eleito presidente (novembro); a Carolina do Sul se separa da União (20 de dezembro).
- 1861 — Forma-se a Confederação; o Forte Sumter é bombardeado em 12 de abril; ocorre a Primeira Batalha de Bull Run em julho.
- 1862 — Batalha de Shiloh e queda de Nova Orleans; Antietam (17 de setembro); Proclamação de Emancipação preliminar.
- 1863 — Proclamação de Emancipação (1º de janeiro); Gettysburg e queda de Vicksburg (julho); Discurso de Gettysburg (novembro).
- 1864 — Campanha Terrestre de Grant; tomada de Atlanta; reeleição de Lincoln; Marcha de Sherman para o Mar.
- 1865 — Lee se rende em Appomattox (9 de abril); Lincoln é assassinado; Juneteenth; ratificação da 13ª Emenda (dezembro).
- 1868 — Ratificação da 14ª Emenda.
- 1870 — Ratificação da 15ª Emenda.
- 1877 — O Compromisso de 1877 encerra a Reconstrução.
Glossário
- Secessão
- A saída formal de um estado de um país ou de uma união.
- Confederação
- Os Estados Confederados da América, governo formado por onze estados do Sul que se separaram da União (1861–1865).
- União
- O governo dos Estados Unidos e os estados que permaneceram leais a ele.
- Estados de fronteira
- Delaware, Maryland, Kentucky e Missouri: estados escravistas que permaneceram na União.
- Abolicionista
- Pessoa que defendia o fim completo e imediato da escravidão.
- Contrabando
- Termo usado durante a guerra para pessoas escravizadas que fugiam para as linhas da União e não eram devolvidas.
- Tropas Negras dos Estados Unidos
- Regimentos do Exército da União formados por soldados negros, geralmente comandados por oficiais brancos.
- Reconstrução
- Período (1865–1877) de reconstrução dos estados do Sul e redefinição da cidadania.
- Códigos Negros
- Leis aprovadas por estados do Sul em 1865–66 para restringir os direitos e o trabalho das pessoas libertas.
- Jim Crow
- Sistema de segregação racial legal e privação do direito de voto no Sul, do fim do século XIX até a década de 1960.
Perguntas e respostas
A guerra foi mesmo causada pela escravidão?
Sim. Os estados que se separaram afirmaram isso em suas próprias declarações, e há amplo consenso entre os historiadores de que a disputa sobre a escravidão e sua expansão causou a secessão e a guerra. Outras questões, como os direitos dos estados, estavam ligadas à escravidão.
A Proclamação de Emancipação libertou todas as pessoas escravizadas?
Não imediatamente. Ela se aplicava às áreas em rebelião e dependia do avanço dos exércitos da União. A escravidão acabou em todo o país com a 13ª Emenda, em dezembro de 1865.
Por que tantos soldados morreram de doenças?
Os exércitos reuniam em acampamentos lotados jovens vindos de áreas rurais. A água era suja, e pouco se sabia sobre os micróbios; por isso, doenças como disenteria e febre tifoide se espalhavam rapidamente.
Por que o Norte venceu?
Os historiadores apontam a população e a indústria maiores da União, sua marinha e suas ferrovias, a liderança de Lincoln e Grant, a contribuição dos soldados negros e vitórias decisivas em 1863–64. Alguns também destacam as divisões internas da Confederação. Poucos hoje consideram que o resultado era simplesmente inevitável.
O que é a “Causa Perdida”?
É uma narrativa criada por sulistas brancos depois da guerra segundo a qual a Confederação lutou nobremente pelos direitos dos estados, e não pela escravidão. Os historiadores a consideram um mito que distorceu as causas da guerra e justificou a segregação.
Os números de mortos são confiáveis?
São estimativas. O número de cerca de 620 mil, citado por muito tempo, vem de contagens do século XIX; um estudo de 2011 baseado em dados censitários sugere cerca de 750 mil, com uma ampla margem de incerteza. Os registros confederados são incompletos, e as mortes de civis nunca foram contabilizadas.
Fontes e leituras adicionais
- American Civil War. Wikipedia
- 남북 전쟁. 위키백과
- Emancipation Proclamation. Wikipedia
- Reconstruction era. Wikipedia
- Lost Cause of the Confederacy. Wikipedia
- James M. McPherson, Battle Cry of Freedom: The Civil War Era. Oxford University Press, 1988
- Eric Foner, Reconstruction: America’s Unfinished Revolution, 1863–1877. Harper & Row, 1988
- David W. Blight, Race and Reunion: The Civil War in American Memory. Belknap Press of Harvard University Press, 2001
- J. David Hacker, A Census-Based Count of the Civil War Dead. Civil War History 57, no. 4, 2011
- Jim Downs, Sick from Freedom: African-American Illness and Suffering during the Civil War and Reconstruction. Oxford University Press, 2012
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.