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Para jovens leitores
Há cerca de 170 anos, uma empresa comercial britânica chamada Companhia das Índias Orientais governava a maior parte da Índia. Ela tinha seu próprio exército, formado principalmente por soldados indianos chamados sipaios. Muitos indianos achavam que a Companhia estava tirando suas terras, seus reinos e o respeito que recebiam.
Em 1857, os soldados receberam novos cartuchos de fuzil. Espalhou-se o boato de que eles tinham gordura de vaca e de porco. Os soldados precisavam mordê-los para abrir. Isso contrariaria as crenças religiosas dos hindus, para quem a vaca é sagrada, e dos muçulmanos, que não comem carne de porco. Os soldados sentiram que os britânicos não respeitavam sua fé.
Em maio de 1857, soldados da cidade de Meerut se revoltaram. Eles foram a Délhi e pediram ao idoso imperador mogol Bahadur Shah Zafar que fosse seu líder. Logo, soldados, reis, rainhas e agricultores de várias partes do norte da Índia entraram na revolta.
A luta foi muito cruel dos dois lados. Em alguns lugares, rebeldes mataram homens, mulheres e crianças britânicos. Soldados britânicos se vingaram, incendiaram aldeias e mataram milhares de indianos, muitas vezes sem julgamento.
Em 1858, os britânicos tinham vencido. Eles acabaram com o governo da Companhia das Índias Orientais, e o governo da rainha Vitória passou a governar a Índia diretamente. Muitos anos depois, indianos que lutavam pela independência lembraram 1857 como uma grande luta pela liberdade.
Em resumo
- Datas
- 10 de maio de 1857 (levante de Meerut; houve incidentes anteriores em fevereiro e março) a 1858 (principais combates); a paz foi declarada oficialmente em 8 de julho de 1859
- Local
- Principalmente a planície do alto Ganges e o centro da Índia: Délhi, Meerut, Awadh (Oudh) e Lucknow, Kanpur (Cawnpore), Jhansi, Gwalior e partes de Bihar; houve poucos combates no Punjab, em Bengala e na maior parte do sul da Índia
- Partes em conflito
- Regimentos amotinados do Exército de Bengala, muitos príncipes e proprietários de terras, e populações rurais e urbanas contra a Companhia das Índias Orientais, regimentos do Exército britânico, tropas indianas leais (especialmente unidades siques, punjabis e gurcas) e estados principescos aliados
- Personagens principais
- Rebeldes: Bahadur Shah Zafar, Nana Sahib, Rani Lakshmibai de Jhansi, Tantia (Tatya) Tope, Begum Hazrat Mahal, Kunwar Singh, Maulvi Ahmadullah Shah. Britânicos: lorde Canning, Colin Campbell, Henry Havelock, Hugh Rose
- Resultado
- Vitória britânica; Companhia das Índias Orientais extinta e Índia submetida à Coroa (Lei do Governo da Índia de 1858); fim da dinastia mogol
- Mortes
- Cerca de 6 mil britânicos, incluindo civis. O número de indianos mortos foi muito maior e é incerto: estimativas frequentemente citadas de 800 mil ou mais incluem mortes por fome e doenças; números mais altos são contestados
- Nomes
- O próprio nome do episódio é controverso: “Motim” (uso britânico mais antigo), “Rebelião” ou “Revolta” (uso acadêmico comum), “Primeira Guerra de Independência” (comum na Índia)
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O que foi a Revolta de 1857?
Em 1857 e 1858, um grande levante abalou o domínio britânico na Índia. Começou como um motim de soldados indianos (sipaios) no exército da Companhia das Índias Orientais, uma empresa comercial britânica que havia se tornado governante da maior parte do sul da Ásia. Rapidamente, transformou-se em uma revolta mais ampla, na qual príncipes, proprietários de terras, líderes religiosos, camponeses e moradores das cidades pegaram em armas em grande parte do norte e do centro da Índia.
Por algum tempo, os rebeldes controlaram Délhi, a antiga capital mogol, e grandes áreas da planície do Ganges. Os britânicos e seus aliados indianos reagiram com reforços vindos da Grã-Bretanha e tropas leais. Retomaram Délhi em setembro de 1857, Lucknow em março de 1858 e os redutos rebeldes do centro da Índia em meados de 1858.
O levante pôs fim ao governo da Companhia das Índias Orientais. Em 1858, o Parlamento britânico transferiu o governo da Índia para a Coroa, iniciando o período conhecido como Raj Britânico, que durou até 1947. O último imperador mogol foi exilado, encerrando uma dinastia que governava na Índia desde 1526.
O nome do episódio ainda é debatido. Durante muito tempo, autores britânicos o chamaram de “Motim Indiano”, enfatizando a desobediência dos soldados. Muitos indianos o chamam de Primeira Guerra de Independência, destacando a resistência ao domínio estrangeiro. Muitos historiadores usam “rebelião” ou “revolta” para abranger tanto a participação militar quanto a civil, sem presumir que tenha sido um movimento nacional unificado.
Fácil
Por que aconteceu? Contexto e causas
A Companhia das Índias Orientais começou como uma empresa comercial, mas, após a Batalha de Plassey, em 1757, tornou-se uma potência territorial, primeiro em Bengala e depois em todo o subcontinente. Na década de 1850, governava quase todo o sul da Ásia, diretamente ou por meio de príncipes subordinados, arrecadava impostos sobre a terra e mantinha grandes exércitos formados principalmente por soldados indianos.
As anexações irritaram muitos governantes. Durante o governo do governador-geral lorde Dalhousie (1848–1856), a Companhia usou a “doutrina da caducidade” para tomar estados cujos governantes morriam sem herdeiro biológico do sexo masculino, recusando-se a reconhecer filhos adotivos, como ocorreu com Jhansi em 1853 e Nagpur em 1854. Em fevereiro de 1856, anexou o grande reino de Awadh (Oudh), alegando má administração. Nana Sahib, filho adotivo do último peshwa marata, teve negada a pensão de seu pai. Essas decisões ameaçaram a posição das famílias principescas e de seus seguidores.
A sociedade rural também enfrentava dificuldades. Novas regras de arrecadação sobre as terras, sobretudo em Awadh depois de 1856, retiraram muitos grandes proprietários (taluqdars) de suas propriedades, e a cobrança elevada levou alguns camponeses ao endividamento. Muitos sipaios do Exército de Bengala vinham de famílias de castas altas de Awadh e Bihar; por isso, as queixas das aldeias chegavam diretamente ao exército.
Os soldados tinham suas próprias queixas: poucas oportunidades de promoção, redução de gratificações e a Lei de Alistamento para Serviço Geral de 1856, que exigia dos novos recrutas serviço no exterior, algo que muitos hindus de castas altas acreditavam violar as regras de casta. A atividade missionária, reformas como a legalização do novo casamento de viúvas (1856) e novas instituições de estilo ocidental alimentavam o medo de que os britânicos pretendessem enfraquecer as religiões indianas e converter a população ao cristianismo. O boato sobre os cartuchos engraxados intensificou esses temores.
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O início: cartuchos, Meerut e Délhi
O novo fuzil Enfield Pattern 1853 usava cartuchos de papel que precisavam ser abertos, tradicionalmente com os dentes, antes do carregamento. No início de 1857, espalhou-se pelo Exército de Bengala o boato de que a graxa dos cartuchos continha gordura de vaca ou de porco. Para os hindus, a vaca é sagrada; para os muçulmanos, a carne de porco é proibida. Assim, morder o cartucho parecia ameaçar ambas as religiões. As autoridades mudaram o procedimento de carregamento e permitiram que os soldados engraxassem os cartuchos por conta própria, mas a confiança já havia se rompido. Ao mesmo tempo, misteriosos chapatis (pães achatados) passavam de aldeia em aldeia no norte da Índia, fenômeno que alarmou as autoridades britânicas e cujo significado permanece incerto.
Em março de 1857, em Barrackpore, perto de Calcutá, o sipaio Mangal Pandey atacou seus oficiais e foi enforcado. Em Meerut, perto de Délhi, 85 soldados do 3º Regimento de Cavalaria Ligeira de Bengala que recusaram os cartuchos foram condenados a longas penas de prisão e acorrentados publicamente em 9 de maio. Na noite seguinte, 10 de maio, seus companheiros se revoltaram, libertaram-nos, mataram oficiais britânicos e alguns civis e cavalgaram durante a noite até Délhi.
Em 11 de maio, os rebeldes entraram em Délhi, onde regimentos estacionados na cidade se juntaram a eles. Muitos europeus e cristãos indianos da cidade foram mortos. Os sipaios foram ao Forte Vermelho e pediram ao imperador mogol Bahadur Shah Zafar, então com 82 anos, que os liderasse. Ele era poeta e seu poder real mal se estendia além do palácio. Concordou com relutância. Ao proclamar o imperador mogol como líder, os rebeldes deram à sua causa uma legitimidade reconhecida por muitos indianos, hindus e muçulmanos.
Nas semanas seguintes, regimentos do Exército de Bengala se amotinaram, um após o outro, pela planície do Ganges e pelo centro da Índia. Dos 74 regimentos regulares de infantaria de Bengala, a maioria se amotinou ou foi desarmada. Em muitos lugares, seguiu-se uma rebelião civil: governantes locais retomaram o poder, moradores de aldeias atacaram agiotas e tribunais, e registros do governo foram destruídos.
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O desenrolar da guerra: Délhi, Kanpur, Lucknow e o centro da Índia
Délhi (maio–setembro de 1857). A partir de junho, uma força britânica acampou na elevação ao norte de Délhi, inicialmente fraca demais para atacar. Dentro da cidade, a administração rebelde, apoiada pela corte do imperador e por um conselho de soldados, enfrentava falta de dinheiro e alimentos, além de tensões entre sipaios, cortesãos e moradores. Reforçados por tropas do Punjab, incluindo unidades siques e punjabis, os britânicos atacaram Délhi em 14 de setembro e a tomaram após uma semana de combates nas ruas. A cidade foi saqueada, muitos habitantes foram mortos ou expulsos, e o oficial britânico William Hodson fuzilou três príncipes mogóis depois que eles se renderam.
Kanpur (junho–julho de 1857). Em Kanpur (Cawnpore), uma guarnição britânica e muitos civis sob o comando do general Hugh Wheeler ficaram sitiados a partir de 5 de junho. Em 25 de junho, aceitaram a oferta de Nana Sahib de passagem segura pelo rio até Allahabad. Porém, em 27 de junho, em Satichaura Ghat, houve disparos enquanto embarcavam, e a maioria dos homens foi morta. Cerca de 200 mulheres e crianças sobreviventes foram mantidas em uma casa chamada Bibighar e mortas em 15 de julho, quando uma força britânica de socorro se aproximava. Ainda se debate se Nana Sahib ordenou essas mortes. O massacre de Bibighar causou indignação na Grã-Bretanha, e tropas britânicas sob o comando do brigadeiro James Neill e de outros realizaram represálias brutais, enforcando suspeitos sem julgamento.
Lucknow (junho de 1857–março de 1858). Em Lucknow, capital de Awadh, britânicos e tropas indianas leais, acompanhados de muitos civis, resistiram no complexo fortificado da Residência a partir do fim de junho. Seu comandante, sir Henry Lawrence, morreu no início do cerco. Uma força de socorro comandada por Henry Havelock e James Outram entrou no complexo em 25 de setembro, mas também ficou sitiada; sir Colin Campbell socorreu a guarnição em novembro e a retirou. Awadh tornou-se o centro da revolta popular mais ampla, liderada por Begum Hazrat Mahal em nome de seu filho pequeno, por taluqdars e pelo líder religioso Maulvi Ahmadullah Shah. Campbell retomou Lucknow em março de 1858, mas a resistência de guerrilha continuou no campo.
Centro da Índia e fim da guerra (1858–1859). A força de campanha do centro da Índia, comandada por sir Hugh Rose, tomou Jhansi de assalto em abril de 1858. Rani Lakshmibai escapou, juntou-se a Tantia Tope e, com ele, tomou Gwalior; ela morreu em combate perto da cidade em junho de 1858. Em Bihar, o idoso proprietário de terras Kunwar Singh lutou até morrer, em abril de 1858. Tantia Tope conduziu uma longa campanha de guerrilha até ser traído, capturado e enforcado em abril de 1859. Nana Sahib desapareceu, provavelmente no Nepal. Em 1º de novembro de 1858, uma proclamação da rainha Vitória ofereceu anistia à maioria dos rebeldes, e a paz foi declarada oficialmente em 8 de julho de 1859.
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Quem lutou de cada lado?
Os rebeldes eram diversos. Seu núcleo era formado pelos regimentos amotinados do Exército de Bengala, soldados treinados, armados e organizados. Ao lado deles lutaram príncipes e seus seguidores, como a rani de Jhansi e Nana Sahib; taluqdars e proprietários de terras de Awadh; líderes religiosos que convocavam uma guerra santa; e moradores de aldeias e cidades com suas próprias queixas locais. Hindus e muçulmanos participaram, e as proclamações rebeldes frequentemente se dirigiam às duas comunidades.
Os rebeldes nunca formaram um comando único. Centros diferentes — Délhi, Lucknow, Kanpur e Jhansi — buscavam seus próprios objetivos, e muitos líderes queriam, acima de tudo, recuperar as posições que haviam perdido. Alguns historiadores veem nisso uma fraqueza; outros argumentam que isso reflete as raízes locais da revolta e alertam contra julgá-la pelos padrões de um movimento nacionalista moderno.
O lado britânico também era formado em grande parte por indianos. Os exércitos das presidências de Madras e Bombaim permaneceram, em sua maioria, leais. Soldados siques, punjabis e patanes recém-recrutados no Punjab, conquistado pouco antes, tiveram papel decisivo em Délhi. Muitos deles não simpatizavam com a restauração do Império Mogol nem com os sipaios de Bengala, que haviam ajudado a conquistá-los. Regimentos gurcas e tropas enviadas por Jung Bahadur Rana, do Nepal, lutaram em Awadh. Grandes estados principescos, como Hyderabad e Caxemira, permaneceram leais, e o governante de Gwalior ficou do lado britânico, embora seu exército tenha se juntado aos rebeldes.
Reforços britânicos chegaram da Grã-Bretanha, da Crimeia e de tropas originalmente destinadas à China. O controle do telégrafo, dos rios, das estradas e da arrecadação nas províncias que permaneceram tranquilas deu aos britânicos uma vantagem decisiva sobre uma rebelião concentrada em uma região.
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Violência, civis e perdas humanas
A guerra foi marcada por atrocidades de ambos os lados. Em lugares como Meerut, Délhi, Jhansi e Kanpur, rebeldes mataram oficiais britânicos, seus familiares, cristãos indianos e outras pessoas ligadas à Companhia. Essas mortes, especialmente as de mulheres e crianças em Kanpur, tornaram-se centrais na visão do conflito difundida entre o público britânico. Relatos de estupros em massa de mulheres britânicas circularam amplamente na Grã-Bretanha; investigações posteriores encontraram poucas provas que os sustentassem, mas eles alimentaram os pedidos de vingança.
A retaliação britânica ocorreu em escala muito maior. Colunas que avançavam ao longo do Ganges enforcaram moradores de aldeias suspeitos de simpatizar com os rebeldes, incendiaram povoados e executaram sipaios capturados por enforcamento ou amarrando-os à boca de canhões. A população de Délhi foi expulsa e muitos edifícios foram destruídos; os muçulmanos, em particular, foram tratados como coletivamente culpados. O governador-geral, lorde Canning, que tentou conter as punições indiscriminadas, foi ridicularizado na Grã-Bretanha com o apelido de “Canning, o Clemente”.
Cerca de 6 mil britânicos, entre soldados e civis, morreram. O número de indianos mortos foi muito maior, mas nunca foi contabilizado. Uma estimativa frequentemente citada o situa em cerca de 800 mil ou mais, incluindo mortes causadas pela fome e por epidemias decorrentes da guerra; alguns autores propuseram números muito mais altos, que outros historiadores consideram sem fundamento. Seja qual for o número exato, a maioria das vítimas era de soldados e civis indianos.
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Consequências: o fim da Companhia e o início do Raj
A Lei do Governo da Índia, de agosto de 1858, pôs fim ao governo da Companhia das Índias Orientais e transferiu seus poderes para a Coroa. Um secretário de Estado para a Índia, em Londres, assessorado por um Conselho da Índia, assumiu a administração, e o governador-geral também passou a ser vice-rei. A proclamação da rainha Vitória de 1º de novembro de 1858 prometeu tolerância religiosa, igualdade de tratamento perante a lei, respeito aos direitos e à dignidade dos príncipes e o fim das anexações de seus territórios; na prática, a doutrina da caducidade foi abandonada.
Bahadur Shah Zafar foi julgado por uma comissão militar britânica em 1858, condenado e exilado em Rangum, na Birmânia, onde morreu em 1862. Com ele, terminou a dinastia mogol. Seus poemas sobre a perda passaram a integrar a memória da queda de Délhi.
O exército foi reorganizado. A proporção de soldados britânicos em relação aos indianos aumentou, a artilharia ficou majoritariamente em mãos britânicas e o recrutamento passou a privilegiar grupos que os britânicos agora chamavam de “raças marciais”, especialmente siques, muçulmanos punjabis, patanes e gurcas, em vez dos soldados de castas altas do antigo Exército de Bengala. Os britânicos também mudaram sua política em relação à sociedade indiana: buscaram alianças com príncipes e grandes proprietários de terras, como os taluqdars de Awadh, e passaram a agir com mais cautela nas reformas sociais.
A longo prazo, as relações entre governantes e governados tornaram-se mais distantes e mais abertamente marcadas pelo racismo, à medida que os britânicos passaram a viver mais separados e muitos passaram a ver os indianos com desconfiança. Entre os indianos, o reformador Sayyid Ahmad Khan escreveu The Causes of the Indian Revolt (1859), argumentando que os britânicos não haviam compreendido a população sob seu domínio; mais tarde, fundou a faculdade de Aligarh. A memória de 1857 tornou-se uma importante referência para os movimentos nacionalistas posteriores.
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Memória e narrativas: Grã-Bretanha, Índia e outros lugares
Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha vitoriana recordava o “Motim Indiano” como uma história de traição e resistência heroica: a defesa de Lucknow, as colunas de socorro e as vítimas de Kanpur. Monumentos, pinturas, poemas e muitos romances difundiram essa narrativa. Em Kanpur, uma estátua de um anjo em mármore, feita por Carlo Marochetti, foi colocada sobre o poço de Bibighar; depois da independência da Índia, foi transferida para o jardim de uma igreja próxima. A bandeira britânica na Residência de Lucknow foi mantida hasteada continuamente em homenagem aos mortos até 1947. Essa narrativa em grande parte omitia as atrocidades britânicas e as motivações indianas.
Nacionalismo indiano. Em 1909, V. D. Savarkar publicou The Indian War of Independence of 1857, apresentando a revolta como uma guerra nacional pela liberdade planejada de antemão; os britânicos proibiram o livro. Marx e Engels haviam escrito antes artigos sobre a revolta para o jornal New-York Daily Tribune, reunidos posteriormente na União Soviética sob o título The First Indian War of Independence. Rani Lakshmibai tornou-se símbolo de coragem e patriotismo, celebrada no popular poema em hindi “Jhansi ki Rani”, de Subhadra Kumari Chauhan. Em 1943, o Exército Nacional Indiano de Subhas Chandra Bose deu seu nome a um regimento feminino.
Índia independente. Para o centenário, em 1957, o governo da Índia encomendou uma história oficial a S. N. Sen, que tratou 1857 como mais do que um motim, mas recomendou cautela ao considerá-lo uma guerra plenamente nacional. No mesmo ano, o historiador R. C. Majumdar argumentou que não havia sido nem uma primeira guerra de independência nem apenas um motim. O 150º aniversário, em 2007, foi celebrado como um acontecimento nacional na Índia. No Paquistão, 1857 também é lembrado como uma guerra de independência, com ênfase na participação e no sofrimento dos muçulmanos; a tendência britânica de culpá-los pela revolta influenciou a política muçulmana posterior no sul da Ásia.
Termos controversos. Cada nome dado ao episódio expressa um ponto de vista: “Motim” enfatiza a desobediência militar e sugere a legitimidade do governo britânico; “Primeira Guerra de Independência” aplica a 1857 o nacionalismo de uma época posterior; “Rebelião”, “Revolta” ou “Levante” procuram descrever sua amplitude sem adotar uma interpretação única. O debate sobre o nome faz parte da história de como 1857 é lembrado.
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Fontes primárias e historiografia
Fontes britânicas. Há abundância de correspondência oficial, comunicados militares, documentos parlamentares e depoimentos colhidos em investigações. Também há cartas, diários e memórias de oficiais, soldados e civis, especialmente de sobreviventes de Lucknow. Essas fontes são ricas, mas apresentam uma visão unilateral, e muitas foram escritas em meio ao medo e à indignação. As histórias em vários volumes de John Kaye e G. B. Malleson (1864–1880) moldaram por gerações a compreensão vitoriana do episódio.
Fontes indianas. É mais difícil recuperar as vozes indianas porque os documentos dos rebeldes muitas vezes foram destruídos e os sobreviventes tinham motivos para permanecer em silêncio. Entre as exceções importantes estão os “Documentos do Motim”, milhares de registros da administração rebelde em Délhi preservados nos Arquivos Nacionais da Índia, que William Dalrymple utilizou amplamente em The Last Mughal (2006); as proclamações rebeldes; o registro do julgamento de Bahadur Shah Zafar; o diário em persa do poeta Ghalib sobre o cerco de Délhi, Dastanbuy, escrito com cautela para leitores britânicos; e The Causes of the Indian Revolt, de Sayyid Ahmad Khan.
Historiografia. Os estudiosos do século XX passaram da pergunta sobre se 1857 foi um motim ou uma guerra nacional para investigar quem se rebelou e por quê. Eric Stokes, em The Peasant Armed (publicado após sua morte, em 1986), estudou as diferenças regionais na participação rural. Awadh in Revolt (1984), de Rudrangshu Mukherjee, mostrou como taluqdars e camponeses de Awadh se uniram contra a Companhia. Estudiosos da corrente dos Estudos Subalternos, a começar por Ranajit Guha, destacaram a atuação política autônoma dos camponeses. Trabalhos mais recentes, como The Great Fear of 1857 (2010), de Kim Wagner, examinam boatos e pânico, enquanto outros estudos investigam regiões além dos principais centros de combate.
Questões em aberto. Os historiadores ainda debatem até que ponto a revolta foi planejada, o papel da religião em comparação com as queixas materiais, até que ponto ela pode ser chamada de nacional, quem foi responsável pelos massacres de Kanpur e quantos indianos morreram. Como tanto as narrativas britânicas quanto as nacionalistas exerceram grande influência, boa parte da pesquisa recente procura recuperar as experiências de soldados comuns, moradores de aldeias e mulheres de todos os lados.
Batalhas (13)
Ideias principais
- Domínio da Companhia
- Governo de grande parte da Índia pela Companhia das Índias Orientais, uma empresa comercial britânica que se tornara uma potência territorial com exército próprio.
- Do motim à rebelião
- O que começou como um motim de soldados tornou-se uma ampla rebelião, da qual participaram príncipes, proprietários de terras e moradores de aldeias com suas próprias queixas.
- Legitimidade e o imperador mogol
- Ao proclamar Bahadur Shah Zafar como líder, os rebeldes recorreram ao prestígio da dinastia mogol, reconhecido por hindus e muçulmanos.
- Anexação e doutrina da caducidade
- Políticas da Companhia que tomaram estados indianos, incluindo Jhansi e Awadh, criaram inimigos poderosos entre príncipes e proprietários de terras.
- Retaliação
- A repressão britânica incluiu execuções em massa e destruição, matando muito mais indianos do que britânicos foram mortos pelos rebeldes.
- Domínio da Coroa (o Raj)
- Depois de 1858, a Índia passou a ser governada diretamente pela Coroa britânica, com um exército reorganizado e novas alianças com príncipes e proprietários de terras.
- Memória controversa
- O episódio é lembrado como um motim, uma rebelião ou uma primeira guerra de independência, e cada nome expressa um ponto de vista.
Registros
- 1757 — Batalha de Plassey: a Companhia das Índias Orientais torna-se uma potência territorial em Bengala.
- 1853 — Jhansi é anexada segundo a doutrina da caducidade após a morte de seu rajá.
- 1856 — Fevereiro: a Companhia anexa Awadh; julho: Lei de Alistamento para Serviço Geral.
- 1857 — 29 de março: ataque de Mangal Pandey em Barrackpore. 10 de maio: levante em Meerut. 11 de maio: rebeldes entram em Délhi e proclamam Bahadur Shah Zafar como líder.
- 1857 — Junho: começam os cercos de Kanpur e Lucknow. 27 de junho: mortes em Satichaura Ghat. 15 de julho: massacre de Bibighar, em Kanpur.
- 1857 — 14 a 20 de setembro: britânicos atacam e retomam Délhi. 25 de setembro: primeira missão de socorro a Lucknow. Novembro: Campbell retira os ocupantes da Residência de Lucknow.
- 1858 — Março: Lucknow é retomada. Abril: Jhansi é tomada de assalto. Junho: Rani Lakshmibai morre perto de Gwalior.
- 1858 — Agosto: Lei do Governo da Índia. 1º de novembro: proclamação da rainha Vitória. Bahadur Shah Zafar é exilado em Rangum.
- 1859 — Abril: Tantia Tope é enforcado. 8 de julho: a paz é declarada oficialmente.
- 1862 — Bahadur Shah Zafar morre no exílio em Rangum.
- 1909 — V. D. Savarkar publica The Indian War of Independence of 1857.
- 1957 — Centenário: história oficial escrita por S. N. Sen e debates sobre se 1857 foi uma guerra nacional.
Glossário
- Sipaio
- Soldado indiano dos exércitos da Companhia das Índias Orientais; a palavra vem do persa sipahi, “soldado”.
- Companhia das Índias Orientais
- Empresa comercial inglesa, posteriormente britânica, fundada em 1600, que passou a governar grande parte do sul da Ásia.
- Exército de Bengala
- O maior dos três exércitos das presidências da Companhia, no qual o motim começou.
- Doutrina da caducidade
- Política da Companhia de anexar estados indianos cujos governantes morriam sem herdeiro biológico do sexo masculino.
- Awadh (Oudh)
- Reino na planície do Ganges anexado em 1856; sua capital, Lucknow, tornou-se um importante centro da revolta.
- Taluqdar
- Grande proprietário de terras em Awadh que arrecadava tributos de muitas aldeias.
- Raj
- “Domínio”; termo usado para o período de governo direto da Coroa britânica na Índia, de 1858 a 1947.
- Vice-rei
- Título dado ao governador-geral da Índia após 1858, como representante da Coroa.
- Império Mogol
- Dinastia que governou grande parte do sul da Ásia a partir de 1526; em 1857, seu imperador tinha apenas poder simbólico em Délhi.
- Raças marciais
- Ideia colonial britânica, usada após 1857, segundo a qual certos grupos seriam naturalmente aptos para ser soldados; ela influenciou o recrutamento por décadas.
Perguntas e respostas
O que eram os cartuchos engraxados?
Eram novos cartuchos de fuzil que os soldados precisavam abrir, geralmente com os dentes. Um boato dizia que estavam engraxados com gordura de vaca e de porco, o que ofenderia hindus e muçulmanos. Foram o estopim da revolta, mas não sua única causa.
Foi um motim ou uma guerra de independência?
Começou como um motim, mas tornou-se uma rebelião mais ampla, com a participação de muitos civis. Discute-se se foi uma guerra de independência “nacional”: muitos rebeldes lutavam para restaurar governantes locais ou recuperar seus próprios direitos, e não havia uma liderança única.
Quem foi Rani Lakshmibai?
Foi a rainha de Jhansi, estado anexado após a morte de seu marido. Ela se juntou à revolta, lutou contra os britânicos e morreu em combate perto de Gwalior em 1858. Tornou-se uma das heroínas mais conhecidas da Índia.
O que aconteceu em Kanpur?
Uma guarnição britânica sitiada se rendeu em junho de 1857 em troca de passagem segura, mas foi atacada junto ao rio. Mais tarde, cerca de 200 mulheres e crianças britânicas mantidas em cativeiro foram mortas. As forças britânicas então se vingaram brutalmente da população local.
Quantas pessoas morreram?
Cerca de 6 mil britânicos. As mortes de indianos nunca foram contabilizadas, mas foram muito mais numerosas; uma estimativa frequentemente citada é de cerca de 800 mil ou mais, incluindo mortes por fome e doenças. Números mais altos foram propostos, mas são contestados.
Por que a maior parte do sul da Índia e o Punjab não aderiram?
As queixas eram mais fortes no Exército de Bengala e em regiões do norte anexadas pouco antes, como Awadh. Os exércitos de Madras e Bombaim tinham outras formas de recrutamento e condições de serviço, e muitos soldados punjabis e siques não simpatizavam com os sipaios de Bengala nem com a restauração do Império Mogol.
O que mudou depois de 1857?
A Companhia das Índias Orientais foi extinta, e a Índia passou a ser governada pela Coroa britânica. O exército foi reorganizado, os britânicos se aliaram a príncipes e proprietários de terras, e a dinastia mogol chegou ao fim.
Quais são as principais fontes indianas?
Os documentos do governo rebelde de Délhi (os “Documentos do Motim”), proclamações, registros de julgamentos, o diário Dastanbuy, de Ghalib, e The Causes of the Indian Revolt, de Sayyid Ahmad Khan, lidos em conjunto com o volume muito maior de registros britânicos.
Fontes e leituras adicionais
- Indian Rebellion of 1857. Wikipedia
- Siege of Delhi. Wikipedia
- Siege of Cawnpore. Wikipedia
- Siege of Lucknow. Wikipedia
- Rani of Jhansi. Wikipedia
- Government of India Act 1858. Wikipedia
- 세포이 항쟁. 위키백과 (Korean Wikipedia)
- Rudrangshu Mukherjee, Awadh in Revolt, 1857–1858: A Study of Popular Resistance. Oxford University Press, 1984
- Eric Stokes (ed. C. A. Bayly), The Peasant Armed: The Indian Revolt of 1857. Clarendon Press, 1986
- William Dalrymple, The Last Mughal: The Fall of a Dynasty, Delhi, 1857. Bloomsbury, 2006
Escrito com auxílio de IA a partir das fontes publicadas acima e revisado conforme surgem novas pesquisas.